23 de maio de 2009

óculos.



Eu amo o homem de óculos.
Eu amei todos os homens de óculos.
Pra mim,
a parte essencial,
a parte inevitável do homem,
é plural:
são os óculos.
Porque os óculos sempre participam
do meu amor,
barroco amor em crise;
os óculos são um fetiche:
há sempre o momento
dos óculos fazerem strip-tease
e daí o homem fica vesgo de amor
e os olhos do homem
ficam trasprafrente,
transparentes.
Eu amo a mais
os homens vesgos e estrábicos
e estigmáticos.
A tortura dos olhos do homem
me tortura,
me estigmatiza.
(Ah, toda a doçura,
toda a pieguice,
toda a gostosura
que há na vesguice...)
Porque é sério,
é muito sério mesmo, meu poeta,
o homem atrás dos óculos;
mas quando ele os retira,
se transforma, há um pretexto
pra ficar o outro homem
e a gente ama
como se cometesse um incesto.
Eu amo os homens de óculos
porque foram capazes de se cegarem
diante de mim e de me amar (amarem?)
de me amar sem nenhuma visão,
que a do seu próprio e mais cego
coração
(a grandiosa visão de um só momento).
Eu amo os homens
que foram capazes
de me enxergar
por dentro.


ÓculosYêda Schmaltz
Do livro: "Baco e Anas brasileiras", Achiamé, 1985, RJ 



p.s. Lê² ♥


20 de maio de 2009

Demolição. ♥


Esse rapaz é muito esquizito,
o que será que há com ele?
Dizem todos que ele é bonito,
mas não consigo ir com a cara dele.

É tão distante esse seu olhar,
tão negro, profundo e hipnotizante.
Dizem que ele é um mago capaz de enfeitiçar,
mas para mim, ele sofre de um desamor agonizante.

E quem teria sido esse homem demente,
que recusou o que todos queriam conquistar?
Dizem que era só um moço inconsequente,
mas se fosse, restaria  ainda um brilho em seu olhar.

Não! Quem partiu o coração deste moreno,
só pode ter sido um matador profissional,
dizem que era um moço alto de aspecto sereno,
mas pode um ser tão cruel andar por ai como gente normal?

Pobre rapaz esse atrapalhado que vejo,
andando sempre sozinho, desperdiçando seu doce olhar,
dizem alguns, que é imcomparável seu beijo,
mas se fosse tão especial, como pode alguém o recusar?

Se um dia ficasse cara-a-cara com este moreno perfeito,
perguntaria: como pode, tão belo, se deixar enganar?
Dizem todos que ele não tem nenhum defeito,
mas porque foi deixar um qualquer, seu coração tocar?  

Ele a andar, Roberto Torta



Quando a gente conhece uma pessoa, construímos uma imagem dela. Esta imagem tem a ver com o que ela é de verdade, tem a ver com as nossas expectativas e tem muito a ver com o que ela "vende" de si mesma. É pelo resultado disso tudo que nós nos apaixonamos. Se esta pessoa for bem parecida com a imagem que projetamos dentro nós, desfazer-se deste amor, mais para frente, não será tão doloroso
Restará a saudade, talvez uma pequena magoazinha, mas nada que resista por muito tempo. No final, sobreviverão as boas lembranças. Mas se esta pessoa "inventou" um personagem e você caiu na dela, aí, somado à dor da separação, virá um processo mais lento e sofrido: 
a  demolição daquela pessoa que você achou que era real. 
Milhares de pessoas estão vivendo seus dias aparentemente numa boa, mas por dentro estão demolindo ilusões, tudo porque se apaixonaram por uma fraude, não por alguém autêntico. Ok, é natural que, numa aproximação, a gente "venda" mais nossas qualidades que defeitos. Ninguém vai iniciar um namoro dizendo: 
muito prazer, eu sou arrogante, preguiçoso e lunático. 
Nada disso, essa é a hora de fazer um charminho. Mas isso é no começo. Uma vez o namoro engatado, aí as defesas são postas de lado e a gente mostra quem realmente é: nossas gracinhas e nossas imperfeições. Isso se formos honestos. Os desonestos do amor são aqueles que fabricam idéias e atitudes, até que um dia cansam da brincadeira, deixam cair a máscara e o outro fica ali, atônito, pois descobriu-se namorando um verdadeiro ser bizarro
Quem se apaixonou por um monstro, tem que demolí-lo para se desapaixonar. É um horror. Exige que você reconheça que foi seduzido por uma fantasia, que você é capaz de se deixar confundir, que você é meio idiota ainda, que o seu desejo de amar é mais forte do que sua inteligência. Significa encarar que alguém por quem você dedicou um sentimento nobre e verdadeiro não chegou sequer a existir, tudo não passou de uma representação, e olha: talvez até não tenha sido por mal, pode ser que esta pessoa nem conheça a si mesma ainda, por isso ela se inventa. Mas foda-se, ainda assim, eu diria que é um belo de um cretino, a fôrma que Deus usou para fazer capetas, como diria minha avó. A gente se apaixona por uma aberração, fruto da nossa imaginação, somado à nossa carência excessiva. Criamos como Monet e Renoir, um ser que não existe, e depois de tudo acabado resta a nós destruir a tela em branco que restou, daquilo que parecia ser uma obra prima.
A gente resiste muito a aceitar que alguém que amamos não é, e nem nunca foi, especial
Era apenas um pedaço de merda, expelido pela vagina de uma vaca, que teria sido muito mais feliz, optando por usar o anticonsepcional, ou a camisinha.
Depois, estranhos nos perguntam ainda, o porque que temos tanto medo de amar... parece algo tão absurdo. Mas absurdo ou não, o medo de amar se instala entre as nossas vértebras e a gente sabe muito bem o por quê. Afinal o amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, um dia acaba e rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente, sei lá, vá saber o que interrompe um sentimento? É um mistério indecifrável. Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois corações ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de dor pra cada canto. Ter o amor rejeitado, nem se fala, é uma fratura exposta, definhamos em público, encolhemos a alma, quase desejamos uma violência qualquer vinda da rua para esquecermos dessa violência vinda do tempo gasto e vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com ele, confiança e estabilidade. 
Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde o sentido, músicas idiotas nos fazem chorar e ligar aos prantos para nossos melhores amigos. Mas aí um dia, passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos novamente secos, a boca vazia. Nada de bom está acontecendo, mas também nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo! nós respondemos. 
Mas que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, nós fingimos um pouco de resistência, mas sabemos lá no fundo que para sempre será impossível recusá-lo.

'o amor sim é uma grave doença, 
nos deixa na cama por um tempo, 
depois nos deixa de quatro com a cara no chão, 
vendo que tanto tempo desperdiçado, 
resultou numa bela desilusão.'


15 de maio de 2009

maridão...



Mesmo que com o tempo te acostumes comigo,
ainda assim, prometo: serei surpreendente,
e em uma dessas longas noites frias,
minha língua deslizaria úmida pelo teu umbigo,
enquanto minhas mãos te segurariam gentilmente...

Cobriria teu corpo com toda a sorte de especiaria
colhida em noites de lua nas pradarias do oriente
e neste instante veria em teu corpo com inocente alegria,
a sereia dos meus sonhos de pequeno menino,
ou a bela deusa da morte a quem este homem oferecido,
entregou-se em sacrifício voluntariamente.

E para o Inferno! Deixe as panelas queimando no fogão,
e que as louças não lavadas dissolvam-se sobre a pia.
Deixa-me só esta noite, afogar nos mares de teu peito,
os desejos em chama deste meu pulsante coração,
presenteie hoje teu homem, como ele sempre sonhou que o faria.

E com um grande esforço eu respiraria,
pois mergulhado entre tuas pernas como estou agora,
mal tenho tempo de me preocupar com o ar, 
e meu cérebro racional, pobre coitado embevecido,
fica enevoado, esquecido, 
pensando em mil formas diferentes de te devorar. 

Meus cabelos, hoje castanhos, irão aos poucos branqueando,
 a mente fugaz, minha memória e meu SPC vão caducando.
os nossos pequenos se formando, se mudando, se casando,
a farinha e o leite no ármario se acabando...
e o fim das coisas vem cruel se aproximando.

Mas no nosso quarto, na nossa *queen size*, o tempo não deita,
e nem ousa mecher nas cortinas que você escolheu,
ou nas gavetas que perdido andei bagunçando,
aqui como me conheceu, reinamos unicamente você e eu...
e é claro, os líquidos do amor fluindo aos litros de nosso corpos,
e nos lençóis brancos eles vão como sempre se misturando...

E por mais que eu mude de idéia, isso ja deves saber:
um pedaço bem grande deste teu marido,
sempre foi teu, guardado aqui dentro,
esperando anciosamente o momento de te conhecer...




O esposo, Beto.