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22 de agosto de 2014

O simulacro


"O homem está ligado indissoluvelmente ao seu destino e á carga de sua própria vida, quando procura libertar-se desse peso, regressa novamente a ele com uma pressão maior e ainda mais terrível". 


O médico e o monstro, Robert L. Stevenson.


Hoje não haverá janta. Através do silêncio do quarto ouve o som de alforria da mãe na cozinha, que lava a louça antes das 19h, deixando a mensagem silenciosa "se vira"  ecoando pelos azulejos. Provavelmente mais tarde a fome aperte e ela se arrependa como sempre, e acabe comprando (gastando) alguma coisa para "eles" comerem. Eles não inclue "ele", e ele sabe disso afinal "já é homem feito", "tem dinheiro pra se virar", verdade e verdade. Viver com os pais depois dos 30 o obriga constantemente a encarar as verdades que finge ignorar a fim de permanecer como vítima para si mesmo, e ter alguma razão para reclamar consigo e em seguida se consolar. Sozinho. Acende um cigarro, todos os seus amigos estão parando, menos ele, talvez a dificuldade que encontra em manter objetivos positivos, como academia, dieta, gastar menos, não se compara a facilidade de se manter firme em seus objetivos altamente nocivos. Fuma com prazer, para valer também o dinheiro que gastou com o maço. Decide que não vai jantar, nunca mais. Vai emagrecer, o chá verde coado na pia desde as 14h (provavelmente já sem nenhum antioxidante) vai resolver. Todos os telefones de delivery da cidade passam automaticamente em sua mente. Sente fome. Pensa no ex, o ex passou como um dos telefones do delivery mas foi notado. Que bom, quer dizer que o dito cujo já está sendo quase digerido por seu hipotálamo. Sabe que em breve não haverá mais nenhuma referência ou nome para o ex se meter e passar ousadamente por trás de seus olhos. Breve não será mais nada, seu nome nem aparecerá mais como primeira opção de pesquisa nas redes sociais, igual aos outros. Que outros? Sorri. Sente fome novamente. Se detesta por um micro segundo por estar acima do peso e não poder desfrutar sem culpa do único prazer que lhe resta e pelo qual pode pagar. Acende outro cigarro. Conversa com alguns amigos distantes apenas fisicamente, alguns deles com o peso do "não era pra ser só amizade", ao menos pra ele. Mas a distância tem a alquimia de transformar o futuro ex amor num colega de trabalho, desses de bom dia e bom final de semana, sem que nenhum dos dois tenham queixas a respeito disso. Na televisão o policial encontra uma simulação de armamento, o "simulacro".


9 de fevereiro de 2013

Adeus à carne.





"Não há último adeus, senão aquele que se não diz."
Alexandre Dumas



Adeus à carne, em especial a sua, que durante breves e estigmatizados momentos esteve entre meus dedos, lábios e que depois disso, talvez (ainda) esteja em minha memória cognitiva, o tato, o sabor, o não-vem-ao-caso, etc.
Adeus à nossa não-história, cujo final imponho a mim mesmo agora, cujo meio ainda não decifrei e o começo, rebento como todo começo é, não resistiu aos nossos tão raros (des)cuidados. 
Adeus a mim também, o ser que fui, algo construído de fantasias futuras e de um 'eu idealizado' e adiantado para você. 
Adeus às respostas que calaram e as perguntas que finalmente cessaram, dando lugar a uma conformidade pesada, abafada como a atmosfera que precede a tormenta, adeus ao meu tormento que deságua agora.  Adeus à seca, ao silêncio, a ausência proposital, a ausência esperançosa cheia de um 'querer fazer-se presente' por detrás de cada falso não falar contigo, cada vírgula e contexto, cada grito nas entrelinhas, cada silêncio escandaloso demais para ser verdadeiro. 
Adeus à minha infantilidade e ao meu eu-lírico, que ainda acreditava nisso, em nós, em você e principalmente em mim, acreditava que eu conseguiria lidar e organizar diariamente este caos do sabe-se-lá-deus-quando.
Atesto aqui a minha total incapacidade, inaptidão e incompetência em lidar com você.
Eu o desejei por tanto tempo, em desenhos rabiscados, em letras de músicas cantadas a longos tragos, e plenas de sentido naquela ocasião, e agora digo adeus à todas elas, aos sentidos, aos filmes, ao apelido, a metáfora que fomos um para o outro.
Uma parte de mim que cisma em remanescer, ainda se pergunta o quão intenso realmente foi nosso contato, que por mais breve que tenha sido nos encheu em uma única lufada de tanta esperança...
Permanece ainda aquele gostinho de missão não cumprida, mas eu sei que ele também no devido tempo desaparecerá, como nós dois, que o antecedemos na distância da jaculação amorosa. 
Adeus ao não-era-para-ter-sido, adeus ao não-foi-como-eu-esperava.
Adeus ao nosso não saber continuar.
Adeus a nossa parada brusca.
Adeus ao sonho, ao contato, ao tanger em algo aparentemente sólido, coisa tão rara num mundo fluídico de onde fugimos (um para dentro do outro) e para onde retornamos agora, o mundo etéreo que nos recebe de volta, acolhedor em toda sua inconstância.
Adeus ao que somos agora, incompletos, órfãos, errantes, rebentos, mas principalmente, adeus ao que nunca chegamos a ser.
Adeus a lição que nos ensinamos.
Adeus.






23 de dezembro de 2012

“O queijo e os vermes” ou “Ode ao meu egocentrismo, ao que não cabe na dispensa, a penteadeira, a este ano de merda, aos Guaranis Kaiowá, a este fim de mundo interno e ao caralho”.




Sonhos maus não me acordem, forças malignas não me abordem.
Hino para a noite.



Quatro noites atrás fui visitado pelo mais aterrador e realista pesadelo que já vivenciei. Nas brumas do sonho, Morfeu me revelou uma versão de mim mesmo, em terceira pessoa, esta versão que via estava viva e debatendo-se angustiada contra milhares de vermes que lhe cobriam o corpo nu, num esforço inútil de limpar-se daquilo que a consumia.
Acordei atordoado, tomei dois banhos demorados, seguidos por longas contemplações no espelho, vasculhando meu corpo, procurando qualquer sinal aterrador de que havia uma verdade oculta naquele sonho, meu corpo pelo contrário, não demonstrava o menor sinal de ter sido coberto por vermes no meio da noite e a racionalidade aos poucos me acalmou, sonhos são distúrbios químicos irrelevantes, afinal não há vermes, não há sujeira, nada esta me cobrindo e me enterrando vivo da maneira menos cristã possível. 
Mas a quietude que se seguiu do sonho foi apenas o prelúdio da tempestade, não a calmaria da bonança.
Os momentos de solidão que tenho me permitido tem se apresentado ambíguos, entre os benefícios e os malefícios que me trazem.  Analisando-me involuntariamente na terceira pessoa, como a perspectiva do sonho, me vejo cercado de uma realidade quase artificial.
Vejo um homem poluído, emparedado, sufocado por vermes metafóricos e invisíveis.
No ano que se passou, incontáveis mudanças se apresentaram a minha frente, se estabelecendo diante da minha vontade pré estabelecida. Nada demais realmente, isso acontece todos os anos na vida de todos os homens.  
Fui vitima de febres amorosas, infecciosas, que num dia chuvoso peguei sem querer, mas ao contrário dos outros tipos de febres essas febres com nome e sobrenome, se curaram de mim primeiro do que eu delas e partiram, prontas para infeccionar e elevar as temperaturas de outros corpos sem nome. Já eu fiquei com resquícios, efeitos colaterais, tentando me curar delas, uma depois das outras, e não estou ainda gozando da plena saúde física e mental depois delas.
O fato de ter sido atravessado por homens no decorrer deste ano como se fosse feito d’água me mostra apenas a minha fluvialidade, mostra que não estou solido o suficiente para impedir ou mesmo interromper um impacto. Eles sim estão sólidos e rijos em suas definições e crenças de como “não amar”, eles poderiam deter qualquer impacto ou tentativa de contato de um ser tão liquido quanto eu. O que me força a absorvê-los, para depois expeli-los tão intactos quanto antes, já eu, num milésimo de segundo do contato, jamais volto a ser o mesmo. Nunca mais.
Tornei-me com o passar dos anos, uma espécie de cão de guarda de mim mesmo, antecipo todas as ações e os perigos que possam vir a ocorrer e me protejo (de mim mesmo muitas vezes) de formas até violentas algumas vezes.  Se minha vida fosse um conto de fadas, eu seria a ponte, a floresta de espinhos, o dragão e a torre, o resto seria acaso e escolha do narrador. 
Afasto os perigos, mesmo os ilusórios, os que entram no meu reino atravessaram mais de cem esfinges que os questionaram o tempo todo... E quando eles decidem sair, algumas vezes escorraçados, as esfinges destronadas e decifradas erguem novamente suas cabeças como se jamais tivessem desejado em suas vidas questionar qualquer um deles, e o seu orgulho leonino os engana, e todos eles acreditam e sentem pena delas, já elas com suas cabeças erguidas miram o horizonte esperando em seu interior o próximo viajante para destroná-las/decifrá-las.
O amor acontece no meio dessa minha incerteza do que sou, nessa liquidez que me define onde todos enxergam uma solidez tão grande que me assusta. Dizem que tenho opiniões formadas, que busco algo mais sério e mais adulto do que pode qualquer ser humano me oferecer, dizem que não podem me iludir e  então atravessam-me... 
O mundo esta louco, minhas histórias de amor se resumem a uma pedra que vira para a água e diz que não pode lidar com sua solidez, e a atravessa, e a água começa a se sentir mais sólida do que a pedra, e pensa que jamais será atravessada de novo, nisso a água continua sendo atravessada constantemente julgando-se solida e a pedra continua atravessando tudo julgando-se liquida.  
A sempre um presságio de perigo e infortúnio no caminho, mesmo quando a felicidade se abate sobre mim tão forte quanto a desilusão, é sempre uma felicidade pouco creditada, como se fosse um engano do destino, como se fosse apenas um defeito.
Estou cada dia mais sendo obrigado a lidar comigo mesmo neste mergulho obrigatório na minha zona abissal, percebo-me agora no final do ano um ser descontrolado.
Me limpo excessivamente e me sinto sujo, fumo até a garganta pigarrear, então me banho, faço inalação e volto a fumar, os números da balança aumentam numa contagem progressiva que adiantam meu fim, “são as festividades!” digo pra mim mesmo, a saúde se esconde, sinto-me prestes a defrontar uma grande enfermidade que não sei qual é e esta palavra me leva novamente as febres e aos vermes.
Duas noites atrás fui visitado novamente por Morfeu, em outro sonho aterrador, estes vem se tornando cada vez mais freqüentes, ele me apresentava em terceira pessoa, no escuro completo, mas era apenas a casca que tinha a minha forma, o ser que me habitava era outro, estranho, maligno, demoníaco, espreitando nas sombras, rastejando como um animal, e eu assistia isso de fora e ao mesmo tempo de dentro pelas janelas dos olhos, preso em mim e possuído por uma força que não sabia e ainda não sei identificar.
Um dia antes do fim do décimo terceiro Baktun do Calendário Maia, consultei um oráculo para saber o que o final desta era me reservava e das setenta e oito cartas, “O Juizo Final” surgiu, informando o período difícil de grandes decisões que se aproximava nestas férias nada relaxantes, afinal, não se pode tirar férias de si.
Os sonhos, os espíritos, todos conspiram para uma grande mudança na minha vida e já nem sei se estou tão interessado nela, na mudança.
Os vermes, a força que me possuía, a carta do Juízo Final, as férias, as festividades, os homens que passaram, as esfinges dentro da minha cabeça consultando seus vernáculos, as esfinges dentro do meu coração colocando galhos de freixo sob o travesseiro na tentativa de trazer-me um sonho de amor no meio de tantos pesadelos. O armário abarrotado de presentes endereçados a pessoas estranhas, a casca agindo socialmente preocupando-se com a vida de outras pessoas numa tentativa falha de fugir da realidade interior, o mundo exterior que me desconhece completamente, o corpo inchando-se, negando-se... Uma guerra interior e pessoal com aquilo que me persegue trezentos e sessenta e cinco dias por ano e promete continuar me perseguindo neste novo ciclo que começa dia primeiro: eu, dizendo a mim mesmo "decifra-me ou devoro-te".





Realidade: talvez eu esteja constantemente me sentindo rejeitado e me protegendo de uma rejeição futura apenas para lembrar a mim mesmo da minha humana insignificância, tenho uma grande missão nesta vida: me diminuir em todos os sentidos.

Epílogo: Minha mãe com seus sentidos de feiticeira previu a tempestade que se formava dentro de mim e abriu um vinho, talvez demônios e vermes morram afogados, quem sabe, talvez eu esteja tentando me limpar de resquícios invisíveis com o líquido errado...


P.s. Os pontos em itálico são apenas verborragias, cacofonias e distorções, mas foi impossível calar a gritaria com que castiguei o papel.





14 de dezembro de 2012

Tous les garçons.




E senti na garganta o nó górdio de todos os amores 
que puderam ter sido e que não foram.

Gabriel García Marquez


O que existe de tão fascinante no amor representado pelo simulacro? Sim, porque o amor, amor mesmo, dos amados, nos é ainda muito estranho. Não chegamos a arranhar sua etérea superfície com o ensaiar de um toque. O amor nos é cantado mas não esta la também, pois nas musicas existem sempre dois personagens pré definidos, o que ama e o que não, a vítima e o carrasco, o que fica e o que vai.
Compramos tal ideia sem correlacioná-la com a realidade que nos é apresentada todo dia.
O que ama apenas ama o amor e não o outro, o que fica o faz por falta de opção e não por escolha, até o inferno chega a ser convidativo para aquele que nada tem.
Já o que não ama nunca amou, o que se foi nunca esteve, portanto na realidade não existe um desamor, não existe partida, ele próprio jamais existirá, até que ame, até que fique e um outro se parta.
Não se pode explicar e também não se pode não entender. Eis o que nos resta.
Não somos o que somos, somos apenas o que nos restou.
O que decidiu não nos “não amar”, o que não partiu. 







25 de novembro de 2012

A última vela.





“Somente um amor incompleto pode ser romântico...”
Woody Allen


Contaram-me uma vez, que em certo lugar do mundo numa época talvez distante, talvez ontem, não me recordo, vivia sozinho um infante dentro de um castelo.
O castelo em questão não tinha portas nem janelas, o rapaz era tudo que nele remanescia, era a sobra de uma longa linhagem real que fora interrompida em si mesmo. 
Não sei do que se trata essa história, se foi algum tipo de malefício que o deixou naquela condição, ou se foi apenas culpa, mas ele estava emparedado naquele casarão a muitos anos... Bem, sei que era filho único e ao descobrir-se apaixonado por um outro jovem, decidiu não consumar seu casamento com a princesa sua noiva, esta era de outro reino, de sua mesma e indefinida época, e o real compromisso havia sido firmado antes mesmo dele nascer pelos monarcas seus pais. 
Foram dias negros para o reino e sua corte, esta desfez-se quase que imediatamente, logo não havia general, não haviam pajens, cavaleiros ou mesmo súditos naquela região.  O tal rapagão que roubara a afeição do príncipe foi enforcado, antes mesmo que pudesse esclarecer que não nutria o mesmo sentimento, sequer havia trocado duas palavras com vossa alteza e já era enamorado de uma donzela que vivia na floresta. Nem mesmo o príncipe o pode salvar, explicando que como em quase todos os casos de amor, havia se apaixonado sozinho e que o pobre condenado em nada havia contribuído com isso, exceto pelo fato de ter nascido. Acontecera. 
E então aquelas terras foram amaldiçoadas, ao menos é o que diziam os mascastes e viajantes, todos persignavam-se caso precisassem cruzar um único passo para dentro de sua fronteira maligna. Logo, só restara o rei, a rainha, o príncipe e a maldição ou culpa que aos poucos se apossava do lugar, preenchendo os cômodos vazios do palácio...
O rei e a rainha tentaram desesperadamente ter outro filho, até mesmo uma filha com um coração mais sensato seria bem vinda naquele momento para abrandar o mal olhado que o primogênito lançara na família inteira. 
Em uma de suas tortuosas tentativas, a rainha que já não era mais tão jovem, obteve sucesso, porém toda a luz da esperança extinguisse rapidamente, quando o filho ainda não nascido e a rainha pereceram na ultima noite do inverno mais rigoroso que eles viveram juntos, ainda como família.
E depois disso o rei desapareceu... Óbvio demais, eu sei, mas o que mais me intriga nessa história é que as portas, janelas, mobília, tudo decidiu acompanhá-lo. As paredes rapidamente fecharam as máculas deixadas pelas fendas das janelas e batentes que agora estavam ausentes, preenchendo-se de mais paredes, apenas o necessário para manter o teto sob suas cabeças. O castelo tornou-se praticamente maciço por fora e vazio por dentro, havia paredes, paredes, teto, príncipe e apenas uma vela. 
A vela foi tudo o que ficou, talvez em sua mente de vela, tenha decidido ficar pelo mesmo motivo que as portas e janelas decidiram partir, talvez não tivesse tido tempo de sair junto com as outras velas antes que as paredes tivessem se fechado para manter o castelo estruturado e em pé, de qualquer forma, em sua simplicidade de objeto despretensioso, já que ali ficara, decidiu então iluminar. Iluminar o vazio escuro do castelo, e sendo ela a única vela, decidiu sozinha jamais se extinguir. 
Assim ela iluminou o príncipe por muitos anos, tantos quantos se podem contar dentro de quatro paredes, ou talvez apenas por alguns breves minutos, não se sabe ao certo, o passar do tempo, o arrastar das horas ainda é um mistério dentro de uma casa sem janelas onde vive um único morador sem futuro...



(Continua)





16 de outubro de 2012

Sobre os fins, os meios e os começos.




"Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém."

Sete Sonetos e um Quarto – Manuel Alegre, 2005.



O mais estranho de escrever sobre o fim é começar a escrever sobre o fim, ainda mais depois de um certo tempo desde que o fim se estabeleceu. Escrever sobre o fim se torna quase um ato de recomeço, também não deixa de ser um novo começo, ou mesmo uma continuação do que ficou em branco, em silêncio, tudo depois do (inevitável?) fim.
Se os fins justificam os meios, os meios justificam o começo. Antes do meu fim o meio estava até que agradável, vindo de um começo brilhante, com doses cavalares de destino, maturidade, sinceridade, leões imaginários sendo mortos um de cada vez. Então o fim. Abrupto, até mesmo a frase que começou o meu fim é finita “Não existe maneira fácil de fazer isso.”, por mais brincadeiras e trejeitos que o finalizador evocou no momento, o fim é um fim e não mais um meio, muito menos um começo.
A expressão facial (literalmente) que mais se encaixa no meu fim seria o "Ecce Homo" do Elías García Martínez (que fica no santuário espanhol de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja, Zaragoza, Espanha) e que recentemente foi magistralmente ~n~ restaurado pela querida senhorinha Cecilia Giméne. 
O fim agora visto como um recomeço pode também ser encarado como uma restauração, ainda que mal feita e precária, muda a imagem original que no caso era a serenidade do meio, deixando em seu lugar o rosto pasmo e disforme da perplexidade de um fim .
O som do fim não é uma explosão por mais surpresa que ele cause, o fim é o silêncio, a ausência, o abismo.
Seres humanos que somos temos quase que uma vocação biológica para preencher o vazio todo o tempo, e como lidar com o final que nos impõe o vazio, se não o preenchendo?
E nós o preenchemos com o que temos a mão: dúvida, raiva, vingança, compreensão, perdão... Mas acima de tudo nos preenchemos com a análise. Sim, porque basta um fim para que todos os fins voltem a pauta e nos façam questionar onde foi que os meios tornaram-se fins. Vasculhamos com os olhos duvidosos da memória todos os fins, procuramos sintomas, presságios, sinais em plantações, posições estelares, qualquer Nostradamus que pudesse ter nos avisado antes e assim nos preparado. Mas nenhum meio consegue nos preparar para o fim, por mais evidente que este possa ser.
Depois da análise vem a anarquia. Não lidamos muito bem com o imutável que nos mudou completamente, deixamos de ser algo que jamais seremos novamente e passamos a ser outra coisa, ainda nova, indefinida e desconhecida. A fase da anarquia é quase toda preenchida de inconformidade. Odiamos, destruímos, jogamos fora fotos, presentes, futuros não existentes, não suportamos muito, quebramos os templos, destronamos os reis e queimamos os ídolos que antes eram adorados em nossa, agora antiga, realidade.
Culpamos o finalizador, culpamos os deuses, o destino, a nós mesmos. 
Nos enchemos de raiva, de músicas, de poemas, de traduções de uma dor tão intima que como a ferroada de uma abelha, persiste, pulsa. Tudo o que o finalizador fizer, qualquer movimento numa tentativa de se aproximar ou de se afastar, ou mesmo de se recomeçar sozinho em sua nova realidade, machucará, muito. Visto que não sabemos o que nos tornamos depois do fim, como imaginar ou lidar com o que quem nos finalizou é agora? Remédio? Distância: deixa o silêncio do fim ecoar livremente, sem tanta dor, sem reverberação.
Depois de nos preenchermos com tudo ao nosso alcance, escaparmos do ferrão do contato com o finalizador, deixarmos a distância ecoar o silêncio do fim, enfim, nos enchemos.
E começa então o processo inverso, o esvaziamento.
Nos esvaziamos da culpa, própria e alheia, nos esvaziamos dos poemas, das sensações, das montanhas russas, da indefinição, esse esvaziamento é o expirar da dor, toda a dor da inspiração da nova realidade é agora expurgada numa lufada só.
Então voltamos ao vazio, ao silêncio, mas é o vazio aveludado, o silêncio harmonioso, nada mais soa como um fim, tudo é um recomeço, tudo pede para ser reordenado, somos uma prateleira vazia pedindo por novos livros com novas histórias, novos enfeites adquiridos em novas viagens, novos porta retratos, recheados de novos contatos, tudo em nós pede o novo, e é isso que permite que recomecemos, que possamos falar sobre o fim como estou fazendo agora sem se deixar esbarrar em nenhum final, como um rio mágico que só desemboca em novos começos, um rio que contorna pedras e se levanta de quedas... E quanto ao finalizador, este é esvaziado também, já não é sequer o finalizador, foi esvaziado de todos os adjetivos, os bons e os maus, não o odiamos, nem tão pouco o amamos, não o agradecemos, não o perdoamos, não o culpamos e já não clamamos por uma vingança sobre este ser também agora, recomeçado. Não existe mais perdão, não existe mais vingança, o esquecimento é nosso único perdão, o esquecimento é a nossa única vingança. 


"E por fim se esqueceram sem dor…"
O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel Garcia Marquez.






Epílogo:
O coração volta a bater noventa vezes por segundo, 
a princípio por si, por outro só mais pra frente, quem sabe? 
Então o tempo torna-se nosso  sol, nosso marte e nos guia, 
e num belo dia transforma isso tudo em nada. 
O nada tudo esvazia.




23 de setembro de 2012

Balada Triste de Trompeta...♪

Raphael - Balada de la Trompeta


Minha cena (e música) favorita do filme espanhol "Sin un Adiós" de 1971.
Onde o cantor Raphael interpreta um palhaço triste e apaixonado.


Raphael





22 de setembro de 2012

Venti Cordia ou “Post It” do coração.




"Há cordas no coração que melhor seria não fazê-las vibrar."
Charles Dickens


Minha função mais intrínseca, primordial, quiçá fisiológica é fazê-lo viver, a ti e ao teu corpo, por isso venho pronunciar-me quanto a tua vida. O meu apelo é o mais despretensioso possível, não tenho tempo de discursar sobre minhas idéias e opiniões a respeito da vida que conheço e da que desconheço, dentro e fora de sua caixa torácica o mundo segue um grande mistério para mim, mas mesmo em minha cega e desconhecida ignorância gostaria de dizer uma ou duas palavras sobre os últimos acontecimentos.
Percebi-me acelerando naquela noite, não enxergo mas soube quase que instantaneamente que seus olhos percorriam as palavras dele novamente. As mesmas palavras de novo, ainda não faziam sentido em seu córtex central, mas assustavam ao serem vistas como um todo, um tipo de gestalt que ainda não conheço, acelerei, descompassei, me preocupei com você, com o que lia, com o término anunciado de algo que ainda não tinha certeza se de fato começara, ao menos havia começado para você aqui dentro e todos nós (eu e alguns poucos órgãos) estávamos cientes disso.
O que gerou o meu descompasso não foi de fato o que você sentiu ou pensou sentir naquela noite, foi a repetição, ninguém entende melhor de repetição do que eu, que desde antes de fazê-lo ser, sou.
A repetição me assustou, visto a importância que dava para isso há um ano e a que voltou a dar algumas noites atrás, a repetição da infinita equação amar e não amar, ter e não ter, estar e não estar mais. Essa corda bamba, essa prancha de navio pirata que sempre lhe atira ao vazio e que você chamava de pseudo-namorado, antes e agora. Não era e nem nunca foi, não possuo faculdades desconhecidas como o cérebro, não prevejo o futuro mas sei que nunca viria a ser.
E então veio a anunciada e inevitável separação, não apenas física, mas emocional, separar os seus sentimentos dos dele, os seus erros e precipitações dos dele, somar, subtrair e então dividir.
E lá estávamos nós dois, você dividido, eu quase enfartando, o cérebro sobrecarregado, o corpo sem ar, os pulmões sorvendo nicotina descontroladamente, tornando ainda mais difícil meu trabalho que já não é nem um pouco fácil.
Então, devido a gravidade exacerbada da situação, fizemos um motim, sua consciência talvez esteja estranhando algumas atitudes recentes suas, mas tudo foi meticulosamente planejado por nós, seus vitais. Tudo entrou no automático, no natural, pra facilitar sua vida (e a nossa), para abrandar a sua dor.
Os hormônios mais violentos, alguns deles até grandes culpados desta sua (des) ilusão, foram silenciados, quase todos por mim mesmo. O cérebro parece que já entrou em acordo com todos os nervos que a incompetência vem da parte dele, digo, do cérebro do outro e não do seu, e uma vez tendo encarado esta realidade já desconectou ou ao menos começou a desconectar pelo que soube, qualquer lembrança dele de você, em breve você não o chamara de mais nada, não teremos mais nomes para ele. Nem um unico sentimento que se encaixe nele. Seus músculos faciais concordam que a partir de agora não haverá mais sorrisos para ele. As lágrimas serão contidas antes do orbe ocular, não se incomodarão em subir até os canais, muito menos em descer por eles, o choro será reprimido pela garganta, e as cordas vocais decidiram entrar em greve em tudo que se relacionar a ele, a única coisa que ele ouvirá de você será o som do seu abismo, o som da sua imcapacidade de continuar.
Enfim, acredito realmente que tudo isso dará certo de alguma forma no final, o meu passo não marca o tempo, não o transmuta ou controla, mas podemos mudar (e mudaremos a partir de agora) a forma como você passa por ele, e o tempo que se vire, como nós aqui dentro estamos nos virando também.
Escolhi este momento de repouso em que sua consciência esta silenciada pelo sono, pela brisa noturna, para expor a você o que estamos fazendo e o por que de estarmos fazendo, precisamos de você bem vivo, lúcido, existem células nascendo aqui que querem sua chance de ver o mundo, mesmo que seja apenas esse seu mundo (tao vasto e pleno para nós)  interno.
Quanto a ele, não o conheço, sei que não deve ser de todo mal, sei que você sabe disso também, não o estamos tratando como uma chaga ou uma enfermidade que precisa ser curada, seu sistema imunológico nem entrou nessa jogada, mas acredito que dentro dele tudo tenha sido alinhado premeditadamente para o "até nunca mais", e como nós, desligados que somos, esquecemos de fazer isso por você antes o fazemos agora.
Em breve seu sono acabará e eu preciso voltar ao meu trabalho antes que você enfarte, mas não tenha medo de sonhar de novo, é bom para você e para todos nós quando o faz, apenas lembre-se, ja diria o poeta que você sonha quando olha para fora, mas só acorda quando olha para dentro, ou no meu (e no seu) caso, quando o lado de dentro acorda para o de fora.


Atenciosamente.

Seu coração (lat. cor, grc. Καρδία)





17 de setembro de 2012

Alucin(ações)





Antes deviam ter te dito que era um labirinto
e eu um minotauro louco e faminto.
Antes.

...

Talvez se eu fosse um pouco menos isso ou aquilo.
Talvez um pouco menos "bom partido", menos experiente.
Talvez.

...






29 de agosto de 2012

Com-partilhar...



Embora ninguém tenha me machucado, ainda assim, estou machucado.
Embora eu não pertença a ninguém, não posso dizer que eu me sinta livre hoje.
Embora ninguém tenha abusado de mim, eu sinto que fui tão abusado.
Embora ninguém tenha me usado, me sinto usado, eu gastei a mim mesmo.
Eu estou cansado de buscar alternativas, estou cansado de puxar mãos,
Estou doente por ter sangrado escondido enquanto esperava por um grande amor...
E embora ninguém tenha expectativas, todos pecam em sua busca pelo momento ideal.
É como se de alguma forma eu tivesse traído a mim mesmo por dentro.
Existe uma parte em nós que sempre espera o melhor,
é melhor que esta parte fique sempre sozinha...


Já faz muito tempo que eu não me permito
escrever um texto com tamanha auto-piedade,
auto-crítica e auto-obsessão.

Acho que eu precisava...




1 de agosto de 2012

A aventura de ficar.





A casa esta em ordem.
Cômodos limpos, organizados.
Louça lavada e guardada.
O quarto do anfitrião voltou
novamente a ser dele...
Os hospedes se foram.
A paz deveria se instalar neste lar.
Mas as paredes concordam
silenciosamente entre si,
de que nada ficou diferente...
Dono e casa permanecem os mesmos.
Vazios.









11 de abril de 2012

O cumprimento da solidão.

Solidão - Marina Harris



"No deserto estão secas as pedras que no mar se molhavam.
A semelhança confunde o eremita, que solitário demais passou 
o tempo entregando-se á solitária memória.
Aqui, a pedra seca, para o eremita não perdeu a qualidade úmida 
de poder ter estado aos pés do mar..."


Poética do Eremita, Fiama Hasse Pais-Brandão



Uma noite no verão deste milênio, lembro-me perfeitamente de ter me sentado na varanda da casa de alguma amiga e em sua companhia tentei, ao menos da melhor forma que podia devido à leve alteração dos sentidos causada pelo álcool consumido anteriormente, procurar em minha mente algum tipo, qualquer tipo de homem ou criatura que me interessasse e que por um feliz acaso do destino estivesse já de alguma forma inserida em minha realidade, seja fisicamente, profissionalmente, qualquer um dos cento e trinta mil habitantes de minha localidade.
E então a resposta veio assustadoramente clara, uma resposta tão real, tão tangível, bem ali ao meu alcance, aquele tipo de certeza tão óbvia que quando a procuramos simplesmente a encontramos, mesmo que esta não seja a maneira mais divertida de encontrar aquilo que queremos, gostamos da busca, da dúvida, da caçada animal, algo que sempre esta ali a distancia de um toque não nos agrada, e a resposta para a minha pergunta esteve sempre ali, talvez por isso tenha demorado tanto para que finalmente pudesse enxergá-la: não havia ninguém, não há ninguém.
Não há ninguém aqui por perto que eu queira de fato conhecer, sem que de alguma forma já não tenha conhecido. Minhas preocupações quanto a este alguém ultrapassaram as esferas epidérmicas do ‘encaixá-lo na minha vida social’, ‘ter bom gosto musical’, ‘não ligar para o fato de eu estar acima do peso’, ‘não se importar por eu ser fumante’, entre tantas outras preocupações nebulosas que a primeira vista parecem tão aterrorizantes, mas depois de uma pequena reflexão tornam-se fúteis demais...
Tudo ficou para trás de repente, todas as perguntas não respondidas, todas as suposições, simplesmente pelo fato deste alguém não existir, ao menos não aqui, que eu saiba.
Nada disso tem haver com as expectativas quanto ao parceiro perfeito, à relação perfeita etc, como disse, todas as esferas fúteis já foram transpostas há muito tempo.
Bem, a verdade é que ser homossexual já dificulta muito conhecer alguém através das maneiras convencionais, afinal nós vivemos em um microcosmo mais fechado, onde geralmente todos se conhecem de alguma forma, então é muito raro, salvo raras exceções, conhecer alguém completamente novo, alguém cuja existência você desconhecia completamente até aquele momento em que trocaram olhares, e esta é infelizmente uma das coisas que mais valorizo. 
A internet neste ponto é uma tabua de salvação, só que não. Ao mesmo tempo em que ela possibilita encontros determinantes em nossas vidas, com almas profundíssimas, com indivíduos que gostaríamos de reproduzir em larga escala, ela nos limita ao contato virtual. 
Sim, todos praticamente já tiveram em algum ponto uma paixão/relação virtual, alguns de nós, como eu, já enfrentaram pelo tempo que puderam os limites que essa virtualidade impõe sobre um casal. E como sempre, cedo ou tarde o laço se desfaz, desistimos, afinal é um trabalho de Hércules organizar em nosso dia-a-dia a equação ter/não ter alguém/ninguém. 
 A sensação de estar isolado em uma área cujo cumprimento é incalculável, onde o único ser vivo da sua espécie é você é terrível. Creio que esta sensação apenas eu e o Mico-Leão-Dourado conhecemos de perto. Não que eu seja um ser em extinção, pelo contrário, como eu existem tantos e tantas, todos do mesmo planeta, o planeta ausência-de-qualquer-coisa-que-não-seja-nós-mesmos, vinte e quatro horas por dia. 
Uma vez me disseram que ter um relacionamento é adquirir uma testemunha voluntária para sua existência, e enquanto não se adquire tal testemunha, vivemos sós, para nós. Já diria o Mefisto de Goethe que até mesmo o paraíso se transformaria no inferno se estivéssemos nele sozinhos, obviamente não penso que os solteiros do mundo inteiro vivem num inferno, afinal ser solteiro não é sinônimo de ser sozinho, e ser sozinho também não é sinônimo de solidão.
Eu mesmo não sou um ser sozinho, tenho inúmeras almas irmãs da minha que me cercam, me cuidam, me enxergam, mas o que de fato me preocupa é o diâmetro desta solidão em que me encontro, a solidão da perspectiva de encontrar alguém, para resolver esta equação só me resta uma coisa, o raio.
O raio eu irei obter apenas quando o ponto ‘B’ se apresentar na minha vida. Sim, porque se sou o ponto ‘A’, ao me ligar finalmente ao ponto ‘B’ estabelecerei a distancia do raio e poderei calcular finalmente o cumprimento deste meu mundo onde só eu habito, onde só eu estou dentro do espelho todas as manhãs. 
Não encarem este texto como uma reclamação, é apenas a constatação de que por mais independente que seja uma alma, por mais livre que tenhamos nascido e que nos tenhamos mantido durante toda a vida, até mesmo o diâmetro de nossa existência só poderá ser identificado através do raio, o raio que liga você até a outra pessoa que por enquanto está do lado de fora, mas que um dia estará dentro de você, e então ambos fecharão as portas.





A + B = R
C = 2 x π x R




2 de março de 2012

Roberto C. Rodríguez, tem um pássaro no seu cabelo...

Sleeping Prince - Dianne L. Gardner



Jaú, 29 de Fevereiro de 2012

“Relacionamentos íntimos não podem substituir o seu plano de vida, mas para ter significado e validade, um plano de vida deve incluir relacionamentos íntimos.” 


Sabem quem disse isso? Não, não foi Jesus, foi Harriet Lerner, psicóloga, socióloga, palestrante e autora do Best-Seller “Franny B. Kranny, tem um pássaro no seu cabelo”. Não sei se devo culpar (ou agradecer?) os movimentos elípticos lunares, as constantes e ininterruptas mudanças drásticas da minha vida, a uma força maior e racional que controla o universo, mas, a verdade é que ultimamente eu não tenho pensado em relacionamentos amorosos. De verdade, não tenho pensado mesmo, em nada. Em beijos, em sexo, em amor, em casamento, em nada disso, e já faz um bom tempo desde que este tipo de pensamento, antes constante na minha realidade, me deixou completamente.  
Estou solteiro há três anos, e tenho encontrado grande dificuldade em me aproximar ou mesmo me relacionar com as pessoas, até mesmo com amigos e familiares, não sei se estou passando por um período de alomorfia ou algo assim, só sei que este tipo de ambição amorosa me deixou e buscando nos meus recôncavos mais convexos, encontrei o último “texto” em que me vi pensando neste tipo de coisa, faz um certo tempo desde que postei um texto mais pessoal aqui no blog, ultimamente tenho postado mais crônicas, contos e poemas aleatórios, mas sinto que será no mínimo divertido dividir com vocês agora, sem frescuras, em caráter pessoal, o meu último devaneio sobre um futuro pretendente. Quando fazia faculdade de História da Arte em São Paulo, não tinha acesso a internet o tempo inteiro como hoje, então era um costume usar um gravador portátil para registrar longas conversas comigo mesmo e possíveis postagens futuras do blog nele, então vou transcrever (palavra por palavra) o último registro que consegui obter de mim mesmo, quando eu ainda sonhava em dobrar, em ter um namorado  e como eu esperava (gostaria) que este fosse. 

p.s. os pontos de interrogação, demonstram a minha indignação ou minha falta de compreensão com o que eu disse naquela época, afinal nem eu consigo me entender.


Apreciem.


17/05/2010

“(...)Acho que ultimamente me tornei um homem bem mais razoável, quer dizer, busco apenas um cara que seja gay (?), preferencialmente os que estão do lado de fora do armário, lógico, e que não tenham carro (?) , porque não há nesse mundo coisa mais romântica do que dar as mãos as escondidas em um ônibus, beijar sorrateiramente no metrô, fugir dos skin-heads na Augusta como se não houvesse amanhã(?), porque provavelmente não haverá amanhã mesmo para você se eles te pegarem, e finalmente ficar na sala de espera da UTI esperando seu namorado (que não corre tanto quanto os skin-heads) sair do coma depois da surra que levou (?). 
Sabe, ter um companheiro pra discutir questões relevantes como, “quem veio primeiro, o ovo ou a Madonna?” (?), ou qual é o KY mais legal, aquele que esfria (e da a sensação de que você esta fornicando com o cabo do remo de um caçador de baleias esquimó no Alaska)(?), ou aquele que esquenta (e da a sensação radical de que colocaram dentro de você o cabo quente da metralhadora de um guerrilheiro xiita depois dele ter assassinado vinte infiéis)(?), não que eu já tenha experimentado ambos, lógico. 
Encontrar um rapaz que não se importe também, caso eu não tenha o corpo do David de Michelangelo com o pênis do deus pagão Príapo, afinal, desde Adão e Eva, nós, gordinhos tensos, temos sido perseguidos! (?) Essa é a mais pura verdade, aposto que quando Eva ia devorar uma “bistecona” bem gordurosa e suculenta, e se acabar no churrasco feito de gado alimentado com produtos orgânicos e naturais que Adão estava preparando, surgiu a maldita serpente vigilante do peso revendedora da Herbalife(?), e a aconselhou a comer uma coisa mais leve para não engordar, como uma frutinha por exemplo, rica em fibra e o caralho a quatro, bem, o resto da história vocês já conhecem. 
Ainda assim, acho que Eva foi mais feliz que qualquer ser humano que vive no século XXI, afinal Adão não tinha uma ex (Descobri que segundo a cultura hebraica ele tinha sim, e ela não só ouviu o conselho da serpente, como também decidiu abandoná-lo pra ficar com a serpente, mas essa é uma outra história), as expressões “acima do peso ideal”, “padrão de beleza atual”, “celulite”, “estria”, ainda não tinham sido inventadas, e se Eva por acaso se sentisse insegura quanto a fidelidade do seu parceiro, bastava ela contar suas costelas para verificar se tinha alguma vagabunda nova na área(?).
Acho que vou morrer sozinho.”


Eu hein!? Sem comentários...
Beijos sinceros.  




20 de novembro de 2011

Ambrosia.

"Zona Abissal", foto de Ligia Goi.

Escrevo para ser lido
muito além do contexto
dizer aquilo que não digo
usando a pena como pretexto

Te mostrar o que não vejo
em mim mesmo, na realidade
esconder o verdadeiro desejo
de queimar a insanidade.

Destruindo as quimeras
tomando a ambrosia
perdurando por eras
agonizante letargia.

Pelo tempo somos lidos
quando deixamos o útero materno, 
escrevemos para não sermos esquecidos, 
eu escrevo para ser eterno.




26 de julho de 2011

A árvore.

A Árvore Vermelha - Piet Mondrian

“Um lugar bravio, santo e encantado,
Como nenhum sob a pálida lua visitado
Por mulher em prantos ou pelo demônio amado.”

Rudyard Kipling


Fortuna saiu de casa cedo, suas malas já estavam prontas, o carro previamente abastecido e revisado, a antecedência lhe acompanhava. Não conhecia o caminho, mas soube que grande parte da estrada ficava emparelhada a uma velha ferrovia que não era mais usada, podendo assim se situar, o dia estava nublado com a temperatura amena, sentia que seria uma viagem tranquila, sem imprevistos.

Tinha certa noção de onde queria chegar, por isso não se preocupou com os meandros do caminho, estava indo em direção a um cliente, em uma cidade do interior, este promovia anualmente uma festa folclórica na cidadezinha e ela era a organizadora do evento, passaria dois dias hospedada em um hotel, acompanhando os festejos.

Tudo foi antecipadamente marcado, sua antecedência era uma qualidade adquirida com o tempo, o seu maior diferencial no mundo dos eventos, cheios de imprevistos, era que, com ela, isso jamais acontecia.

Manteve a velocidade limite facilmente, sem músicas para lhe distrair os sentidos da bela paisagem que, aos poucos, o horizonte lhe permitia ver, relaxada como estava, pensou em coisas do passado, no amor, na faculdade, quando ainda virgem se apaixonou por um moço em especial, um que lhe interessava, bonito, com um aspecto serio, sem sorrisos, seguro de si.

Entregou-lhe sua virgindade, e, como imaginava, ele cuidou bem dela. Despiu-lhe cuidadosamente, a fez tremer de prazer, mas não muito, e então foi embora, como ela já esperava. Sempre imaginava com antecedência quando uma relação começaria ou terminaria e nem sequer se dava ao trabalho de terminá-la, sabia quando o companheiro tomaria a atitude final.

E há dois anos ou mais, não havia companheiro, apenas o final, que desta vez, se prolongou mais do que ela esperava. Estava sozinha, ela e a sua antecedência, prevendo-lhe os próximos passos.

O dia começava a ficar mais abafado pela chuva que se formava, abriu as janelas do carro, deixou um braço apoiado na porta sentindo o vento empurrando sua manga, colocou os óculos escuros e dirigiu mais alguns metros, até que num cruzamento da antiga ferrovia, que vez ou outra aparecia serpenteando paralelamente a estrada, estava um estacionamento de concreto no meio do nada, com uma cerca de segurança para evitar que as pessoas despencassem no pequeno barranco adiante, ali havia o carro de uma família, decidiu parar para fumar um cigarro.

Desceu do carro, e educadamente cumprimentou o casal que tinha uma filha de aparentemente nove anos, sentia-se desconfortável fumando na presença de crianças, por isso depois de um rápido aceno com a cabeça, se afastou para sentar-se na pequena cerca. A mulher da família, uma moça jovem e animada veio falar com ela, lhe disse animadamente que entrando um pouco na mata que ficava alem da cerca, descendo o barranco, depois de cinquenta metros ficava uma árvore linda, que valia a paisagem inteira, inclusive a parada ali, disse que antigamente, aquela ferrovia era muito utilizada no interior do estado e as moças e rapazes das cidades da redondeza, amarravam fitas com o nome dos viajantes nos galhos da árvore, para que estes se apaixonassem e sempre retornassem.

Fortuna achou uma história bonita, mas com o passar dos anos, havia perdido grande parte de sua sensibilidade romântica, a história a tocava, mas apenas superficialmente.

 Muito tempo depois que o cigarro havia acabado e o casal havia partido, Fortuna ainda estava sentada lá, pensando coisas sobre seus dois dias na cidade desconhecida, e sobre o seu cliente, um homem que conhecia apenas pela voz, nos inúmeros telefonemas noturnos que lhe fazia, uma voz masculina qualquer, mas com um tom educado e polido, um vocabulário tão bem elaborado, que por vezes, se via imaginando como deveria ser o dono daquela laringe masculina que vibrava com tamanha destreza.

O lugar onde estava agora ficava a menos de meia hora da cidade em que ocorreria a festa e Fortuna estava antecipada, pensou que seria interessante ver a tal árvore e fotografar com seu celular para enviar as suas amigas, que ainda não haviam perdido completamente aquela delicada veia romântica.

 Ultrapassou o limite de segurança, e desceu o barranco que tinha menos de dois metros e uma inclinação agradável de grama verde, mesmo de salto não teve dificuldade em chegar ao vale que ficava abaixo, e, depois de alguns passos, pode ver a árvore.

Parecia um salgueiro muito antigo, o tronco grosso e alto, a copa completamente seca com galhos negros retorcidos, porém, mesmo com o tempo nublado, a árvore ainda parecia simpática, e de fato, era uma visão fenomenal, quase todos os seus galhos estavam atados com fitas coloridas.

O vento as balançavam e a árvore parecia viva, brilhante, como se estivesse no auge da florescência. Fortuna percebeu que algumas fitas eram visivelmente antigas, desbotadas completamente pelo sol, pela chuva, pelo tempo, nas fitas estava escrito de maneira vertical o nome de inúmeros desconhecidos, lembrou-se que eram os nomes dos viajantes que deixaram alguém apaixonado para trás, e esta paixão, era concentrada naquelas fitas que depois de atadas aos galhos do Salgueiro, funcionavam como um farol, mostrando sempre a direção em que o viajante deveria regressar, a direção em que o amor o esperava.

Não tirou fotos, apenas admirou a beleza daquela árvore atada com fitas coloridas no meio do nada, sentia-se feliz por estar ali, e por estar como sempre, adiantada.

Uma das fitas era visivelmente mais nova, de seda vermelha, brilhante, como se tivesse sido colocada lá recentemente, Fortuna pensou no tipo de pessoa que mesmo hoje em dia, se permitia um costume tão antigo e belo.

Aproximou-se, tocou as fitas lendo os nomes nelas, todos escritos de forma vertical e repetidos três vezes, nomes completos, deixou-se imaginar como seriam aqueles desconhecidos, como conseguiram cativar alguém, a ponto de merecerem ter seus nomes ali, imortalizados. Segurou nas mãos a fita vermelha, a mais nova, e leu o nome que estava escrito nela com uma letra firme e masculina, verticalmente, em preto e com a mesma repetição: Fortuna Alonso de Medeiros

O seu próprio.

A antecedência, a certeza do que viria a seguir, que esteve sempre presente, naquele momento, lhe abandonou.



Eu, sozinho.


"Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha."


Cecília Meireles


Todos sentem a solidão, a ausência de algo diferente de si ao redor, a minha é apenas um pouco mais acentuada, uma solidão preenchida, um excesso de mim mesmo.
Sobrevivi a minha companhia e me tolero com grande habilidade, em dias bons, pontuados de delírios de satisfação, chego a amar-me, é um amor arranhão, bem de leve, para então novamente, o constante desconforto. Olho-me, sorrio sem jeito, como se eu mesmo pedisse "com licença" e sentasse eu meu próprio lado no ônibus, para logo em seguida, me ignorar.
O que me deixa mais sozinho, é a estranha sensação de estar o tempo todo na companhia da única pessoa capaz de mudar a sorte da minha felicidade ou infelicidade, eu.
Gosto de me ocupar na minha solidão, como quem arruma uma prateleira, nestas ocasiões raras onde o impulso inicial é ordenar as coisas, nossa atenção acaba sempre se desviando para lembranças, livros, objetos ali esquecidos há tanto tempo... Já eu, costumo me desviar para uma vida que não seja a minha, e me ocupo dela, gosto disso, de colocá-la em ordem ou de desorganizá-la de vez, e então volto sozinho, sempre.
 
Se não acho caminhos, me perco sozinho,  se refaço o caminho, caminho sozinho.


20 de junho de 2011

Alomorfia




Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.

Ó alma da charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize para onde eu vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!

Visões de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!

Dize que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra…
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!

Florbela Espanca - A mensageira das violetas



Para ele a parte mais difícil sempre estava por vir, ou já tinha ficado para trás. Estava sempre tão distante que não podia tocar a vida, sequer podia enxergá-la. Preso entre algum medo superado do passado e um medo vindouro do futuro, duas cadeias, uma em cada punho. Aprendeu a não ter certezas quanto a sua existência, no seu caso em particular certeza era uma palavra quase estranha ao seu vocabulário, raramente a empregava.
Sua realidade estava situada sobre uma base feita de quimeras fantásticas, fantásticas porém míticas e nada mais. Sobre o mar onde se encontrava, podia ver claramente o horizonte que o oprimia por todos os lados, podia ver os astros e orbes acima de si, mas tal era a profundidade do mar, que não podia sonhar com a visão de um chão.
Flutuava.
Não tinha grande densidade, era poroso, vazio, escorria-lhe o ser por todos os buracos. Seu todo sonhava em ser completo, já sua casca sonhava apenas em ser um casulo, e sozinha ao redor dele aguardava todas estações girarem ansiando pela alomorfia de seu conteúdo, de seu interior, mas esta nunca chegou. Nunca se transformou, a casca era na verdade o ultimo resquício abandonado daquele outro homem que fora um dia e partiu sabe-se lá pra onde, sabe-se lá quando.
Era uma chaga de si mesmo, vivia uma penitência por um pecado que ainda cometeria, encontrava-se sempre dentro do desconhecido, tão banal era a sua vida, que não tinha sequer idéia do que lhe aconteceria, e  mesmo assim, ainda esperava que acontecesse...


p.s. este é meu único ser possível, por hora...



30 de abril de 2011

Chá das 17h00



"Tomou seu lugar na melancólica procissão que devia passar por uma série de emoções improfícuas. Os religiosos, naturalmente, recomendavam esperança e profetizavam notícias de uma mudança em sua sorte para breve. Vários amigos também contavam a ele histórias verdadeiras mas sempre de outras pessoas a quem, depois de meses e meses de silêncio, haviam sido restituídas do maior sentido - sem o menor sentido ou motivo aparente - e receberam o derradeiro chamado da inspiração. Outros aconselhavam-no a entrar em contato com infalíveis benevolentes que podiam auxiliá-lo de maneira fidedigna em sua ascensão na vida. Roberto ia fazendo, redigindo, assinando tudo que lhe era sugerido, ou posto diante dele...
No devido tempo, quando todas as forças do destino, do fado e, inclusive, suas próprias forças de homem já tinham lamentado profundamente ou sinceramente a incapacidade de haver concluído tantas e tantas tarefas inacabadas etc. etc., alguma coisa cedeu dentro dele, e todos os sentimentos - exceto o alívio - se dissolveram em bem-aventurada passividade. O mundo de Roberto parou e ele sentiu em cheio o sacolejo dessa parada. Agora ele estava parado e o mundo girava mas ele nada tinha a ver com ele - o movimento do mundo não o afetava em nenhum sentido. Ele tinha consciência disso pela naturalidade com que não esperava mais e com que inclinava a cabeça no ângulo certo ao ouvir qualquer murmúrio de simpatia.
Com a satisfação desse alívio ele nem sentiu o tanger do tempo. No fim de mais um ano ele já havia superado a aversão física pelos bem sucedidos e felizardos, e pôde mais de uma vez, tomá-los pelas mãos e desejar-lhes uma plêiade de graças quase que sinceramente. O resultado de triunfos ou derrotas alheios, não o interessava em nada. Mantendo-se a imensa distância, ele defendia opiniões próprias - ouvia-se expondo-as, como agora, para o nada que sempre lhe escutou..."    


p.s. apenas um pensamento transcrito com o gosto amargo do chá-verde sem açúcar ainda na boca. 




8 de abril de 2011

O Diário de Roberto Rodríguez


Bridget Jones's Diary


"E foi assim, bem alí, aquele foi o momento. 
De repente,  percebi que se nada acontecesse logo 
eu viveria uma vida onde meu principal relacionamento 
seria com uma garrafa de bebida. 
E por fim, eu morreria gorda e sozinha, 
e seria encontrada três semanas depois parcialmente devorada por cães, 
ou me transformaria na Glenn Close do filme Atração Fatal."
O Diário de Bridget Jones





Roberto Rodríguez  8/4/11 
Estado civil: há espera de um milagre
Peso 95kg
cigarros 22
unidades alcóolicas 0 (m.b.)
kcal 2.432 (m.b.)
pensamentos de que serei um escritor rico e famoso, casado e feliz 0
pensamentos de que serei um frustrado, desempregado e gordo 1.345




Bem, faz muito tempo que não escrevo um post de maneira mais coloquial e pessoal, sem fru-frus ou linguagem poética, por isso peço agora aos meus caros leitores que me dêem uma colher de chá. 
Decidi escrever este post para contar a vocês (e principalmente a mim mesmo) toda a verdade sobre Roberto Rodríguez
Primeiro vou contar a vocês uma das maiores verdades que descobri nos últimos tempos, beber não engorda, ou pelos menos "não beber" também não emagrece, porque tenho estado limpo há quase duas semanas e não emagreci nadinha de nada, mas voltando ao assunto Roberto Rodríguez, inspirado pela musa de todos os solteiros/gordinhos/esquisitos/fora dos padrões/atrapalhados, a nossa querida, idolatrada, salve salve Bridget Jones, decidi tentar transcrever a minha atual realidade com o intuito de analisá-la e mudá-la. Primeiramente tenho 23 anos, e me sinto como a cigarra que cantou o verão inteiro, e agora que chegou no inverno de sua vida não tem porra nenhuma pra comer, e depende humilhantemente das migalhas das formigas. Não, eu não tenho vida amorosa, acadêmica, profissional, nada, N-A-D-A. Desde os meus 17 anos, quando me atirei ao mundo, tenho cometido uma série de pequenos erros, que me fazem pagar até hoje por suas consequências, nada assim de muito grave, mas é complicado. Sou um homem complicado por natureza, gay, gordinho, tatuado, etc e etc. Sou preguiçoso por natureza e extremamente acomodado, poderia hoje estar gozando de uma vida maravilhosa, mas infelizmente cometi o grave e imperdoável erro de colocar a minha vida nas mãos de outras pessoas, sempre. Sinto como se a minha felicidade nunca de fato, tivesse dependido de mim, e sim de outrem. Tipo, o que fulano vai pensar? Será que siclano vai me ajudar? E se beltrano disser não? E se fulano não gostar? E por aí vai. Mas e o que EU penso? Poxa, eu cobro tanto que o mundo me enxergue de uma vez, ou pelo menos que alguém me enxergue nesse emaranhado de pessoas, mas eu me olho todos os dias no espelho e ainda não tenho certeza do que vejo lá dentro. Não me refiro a termos meramente físicos, reclamo que na minha vida profissional ninguém nunca explorou meus inúmeros talentos, mas eu mesmo nunca me explorei nesse sentido, comecei a tentar coisas novas faz apenas um mês, e fazem exatos oitenta e quatro meses que estou no mercado de trabalho. Reclamo que os caras com quem saí nunca perceberam a pessoa original que eu era e nunca me trataram como eu achava que merecia, mas como tenho me tratado nesses anos todos? Me recriminando, me censurando, me punindo, me privando, me julgando sempre insuficiente? Fazem exatos 84 meses também, desde que dei meu primeiro beijo, e nunca tomei nenhuma atitude a respeito. Preocupante. Quanto a minha família e as minhas amizades também, perdi inúmeros amigos por ser cabeça dura demais, por levar a risca a regra do oito ou oitenta de uma maneira imatura, por descontar neles a insatisfação que tenho com a pessoa que eu sou, por não me sentir especial quando estou sozinho, e querer que eles estejam lá pra levantar minha moral, o que eu quero deles, um troféu de melhor-amigo do ano? Não Sr.Rodríguez, as coisas não são por aí, não acredito nessa psicologia de fundo de quintal dos livros de auto-ajuda, e nem acredito na auto-estima. Não que eu não me ame as vezes, mas a auto-estima se tornou uma espécie de Santo Graal do século vinte e um. Todos dizem "você precisa de mais auto-estima, se valorizar mais!" mas porra, a auto-estima não é um estado de elevação espiritual ou mental que você atinge como o Nirvana, é o resultado de uma equação momentânea, por exemplo: você acorda numa sexta-feira, descobre que milagrosamente a fada-do-abdomen levou sua barriga embora da noite pro dia, sua calça que não servia a dois anos volta a servir, seu rosto amanhece sem espinhas, você faz a barba e sua pele não fica irritada, seu café sai milagrosamente maravilhoso, você vai pra rua e pega seu ônibus na hora, seu trabalho é tranquilo, você volta pra casa toma um banho delicioso, sai pra noite se sentindo um Deus transbordando auto-estima, claro que não é todos os dias que isso acontece, portanto, menos papinho de auto-estima pro meu lado. Além do que, a auto-estima só ajudou até hoje quem não presta, o que vejo de gente por aí que não é porra nenhuma se sentindo um presente de Deus para o mundo só porque tem a auto-estima elevada, e o que vejo também de pessoas maravilhosas, incríveis, sofrendo sozinhas porque querem atingir um grau de perfeição máximo e então encontrar a tão sonhada auto-estima, por favor né? Não aceito mais isso de problemas com a auto-imagem, auto-estima, auto-ajuda etc, a única palavra com "auto" que define meu humor é automóvel, que por acaso eu não tenho, então já viu.
Não quero mais esperar coisas da vida, coisas que não vão aparecer do nada, nem esperar que um dia eu encontre embaixo da cama a minha auto-estima quando estiver procurando a bolinha do meu piercing, nada disso. Prometo sim, não depositar mais minhas frustrações sobre ombros que não sejam os meus, a não ser quando estiver extremamente ébrio, prometo não cobrar dos outros uma atitude que eu mesmo não tomo, prometo também perder meu medo de começar coisas novas, de me livrar de coisas antigas, prometo não achar que qualquer um que aparecer na minha frente vai ser o homem da minha vida, e prometo dar a qualquer um a chance de provar que não é um qualquer também, e prometo me dar a mesma chance.
Tenho a partir de hoje (se o mundo não acabar em 2012) 84 meses para reescrever toda essa história. E quem sabe até, um final feliz, ou um começo... Talvez, seja hora de um novo começo.




Sem mais meus queridos, 
foi só um desabafo de uma sexta-feira.
Beijos sinceros.