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22 de setembro de 2012

Venti Cordia ou “Post It” do coração.




"Há cordas no coração que melhor seria não fazê-las vibrar."
Charles Dickens


Minha função mais intrínseca, primordial, quiçá fisiológica é fazê-lo viver, a ti e ao teu corpo, por isso venho pronunciar-me quanto a tua vida. O meu apelo é o mais despretensioso possível, não tenho tempo de discursar sobre minhas idéias e opiniões a respeito da vida que conheço e da que desconheço, dentro e fora de sua caixa torácica o mundo segue um grande mistério para mim, mas mesmo em minha cega e desconhecida ignorância gostaria de dizer uma ou duas palavras sobre os últimos acontecimentos.
Percebi-me acelerando naquela noite, não enxergo mas soube quase que instantaneamente que seus olhos percorriam as palavras dele novamente. As mesmas palavras de novo, ainda não faziam sentido em seu córtex central, mas assustavam ao serem vistas como um todo, um tipo de gestalt que ainda não conheço, acelerei, descompassei, me preocupei com você, com o que lia, com o término anunciado de algo que ainda não tinha certeza se de fato começara, ao menos havia começado para você aqui dentro e todos nós (eu e alguns poucos órgãos) estávamos cientes disso.
O que gerou o meu descompasso não foi de fato o que você sentiu ou pensou sentir naquela noite, foi a repetição, ninguém entende melhor de repetição do que eu, que desde antes de fazê-lo ser, sou.
A repetição me assustou, visto a importância que dava para isso há um ano e a que voltou a dar algumas noites atrás, a repetição da infinita equação amar e não amar, ter e não ter, estar e não estar mais. Essa corda bamba, essa prancha de navio pirata que sempre lhe atira ao vazio e que você chamava de pseudo-namorado, antes e agora. Não era e nem nunca foi, não possuo faculdades desconhecidas como o cérebro, não prevejo o futuro mas sei que nunca viria a ser.
E então veio a anunciada e inevitável separação, não apenas física, mas emocional, separar os seus sentimentos dos dele, os seus erros e precipitações dos dele, somar, subtrair e então dividir.
E lá estávamos nós dois, você dividido, eu quase enfartando, o cérebro sobrecarregado, o corpo sem ar, os pulmões sorvendo nicotina descontroladamente, tornando ainda mais difícil meu trabalho que já não é nem um pouco fácil.
Então, devido a gravidade exacerbada da situação, fizemos um motim, sua consciência talvez esteja estranhando algumas atitudes recentes suas, mas tudo foi meticulosamente planejado por nós, seus vitais. Tudo entrou no automático, no natural, pra facilitar sua vida (e a nossa), para abrandar a sua dor.
Os hormônios mais violentos, alguns deles até grandes culpados desta sua (des) ilusão, foram silenciados, quase todos por mim mesmo. O cérebro parece que já entrou em acordo com todos os nervos que a incompetência vem da parte dele, digo, do cérebro do outro e não do seu, e uma vez tendo encarado esta realidade já desconectou ou ao menos começou a desconectar pelo que soube, qualquer lembrança dele de você, em breve você não o chamara de mais nada, não teremos mais nomes para ele. Nem um unico sentimento que se encaixe nele. Seus músculos faciais concordam que a partir de agora não haverá mais sorrisos para ele. As lágrimas serão contidas antes do orbe ocular, não se incomodarão em subir até os canais, muito menos em descer por eles, o choro será reprimido pela garganta, e as cordas vocais decidiram entrar em greve em tudo que se relacionar a ele, a única coisa que ele ouvirá de você será o som do seu abismo, o som da sua imcapacidade de continuar.
Enfim, acredito realmente que tudo isso dará certo de alguma forma no final, o meu passo não marca o tempo, não o transmuta ou controla, mas podemos mudar (e mudaremos a partir de agora) a forma como você passa por ele, e o tempo que se vire, como nós aqui dentro estamos nos virando também.
Escolhi este momento de repouso em que sua consciência esta silenciada pelo sono, pela brisa noturna, para expor a você o que estamos fazendo e o por que de estarmos fazendo, precisamos de você bem vivo, lúcido, existem células nascendo aqui que querem sua chance de ver o mundo, mesmo que seja apenas esse seu mundo (tao vasto e pleno para nós)  interno.
Quanto a ele, não o conheço, sei que não deve ser de todo mal, sei que você sabe disso também, não o estamos tratando como uma chaga ou uma enfermidade que precisa ser curada, seu sistema imunológico nem entrou nessa jogada, mas acredito que dentro dele tudo tenha sido alinhado premeditadamente para o "até nunca mais", e como nós, desligados que somos, esquecemos de fazer isso por você antes o fazemos agora.
Em breve seu sono acabará e eu preciso voltar ao meu trabalho antes que você enfarte, mas não tenha medo de sonhar de novo, é bom para você e para todos nós quando o faz, apenas lembre-se, ja diria o poeta que você sonha quando olha para fora, mas só acorda quando olha para dentro, ou no meu (e no seu) caso, quando o lado de dentro acorda para o de fora.


Atenciosamente.

Seu coração (lat. cor, grc. Καρδία)





24 de maio de 2012

Par de luvas azuis.






Filho, lego-te a virtude, a pena que não mente. 
  Outros ensinar-te-ão a felicidade.
Virgílio


Tem sido observado em todas as eras que a mudança quando derradeira, se estabelece. Foi assim com meu filho mais velho. Desde seu nascimento, é uma criatura fadada a ser imposta sobre a existência de outras, foi imposto a mim e a sua mãe no delírio de nossa mocidade, sua presença ainda pequenina, completamente inocente, nos amadureceu quase que instantaneamente.
As esferas giraram, e meu  filho continuou com sua missão de impor-se sobre nossas vidas, era algo tão natural de sua alma esta imposição de si, que mal a percebíamos, até outra mudança se estabelecer. Lembro perfeitamente quando sua mãe me chamou, e me contou, com sua simplicidade de mulher sensível a todo o universo, que nosso menino gostava de outros garotos, inclusive naquele momento sofria por um.  
Me pouparei agora da hipocrisia do mundo e da palavra decepção, até mesmo da palavra surpresa, pois não havia nada disso, sempre soube que ele não era o rapaz convencional, mas sentia algo especial nele, algo que o levaria adiante do ponto em que todos nós chegamos.
Mas não conseguia lidar com a situação do meu filho apaixonado pelo filho de alguém, afinal devotei minha vida as mulheres, em especial a sua mãe. Não saberia como julgá-lo, não saberia como me portar com o outro. Sofri por um tempo do “complexo de José”, criando um filho singular que não poderia ser meu, não se parecia comigo, e enquanto me fazia José, sua mãe fazia-se Maria, intercedendo por ele em nossas conversas na cama, mas como progenitores, desde os primórdios da evolução lutamos para manter as coisas que são nossas, e como um neandertal lutei, não muito confesso, mas mantive-me pai.
Depois de passar uma temporada na capital fazendo faculdade, ele voltou a morar conosco, sentíamos ele um tanto distante da realidade, perdido, foi quando se envolveu com um outro rapaz, chegamos até a ficar aliviados naquela ocasião, mas pressentimos o desastre quando o até então perfeito pretendente se negou a acompanhá-lo no cinema para assistir os tais ‘X-Men’, banal demais, eu sei, mas só quem o criou sabe o valor que ele dá pra esses mutantes com quem tanto se identifica.  “O dia dos namorados esta chegando, vamos ver se eles sobrevivem!”, sua mãe quase como uma sacerdotisa pitonisa profetizou.  Meu filho estava passando por algumas dificuldades financeiras e pediu que ela comprasse o presente de “dia dos namorados”que ele entregaria ao rapaz, ela por sua vez me delegou essa missão, afinal era homem e saberia o que comprar. Decidi comprar para o rapaz que ainda não conhecia um isqueiro Zippo, um presente agradável de se receber. Ela me aconselhou a comprar um preto afinal o tal rapaz era ‘roqueiro’, mas talvez por uma intuição paterna, se é que isso existe, comprei um azul claro, que era a cor favorita do meu filho.
E então o dia dos namorados passou, meu filho não saiu de casa, segundo sua mãe, parece que o tal do rapaz havia “desaparecido”, mas naquela noite (dois dias depois), ele passaria em casa para que ambos conversassem e se acertassem em relação ao desencontro do dia dos namorados.
Da janela da sala observei meu filho no portão esperando pelo rapaz, ele acendeu um cigarro com o isqueiro Zippo azul claro. Obviamente sua decisão estava tomada.
Hoje ele está solteiro faz um bom tempo, acredito que a maturidade tenha diminuído extremamente sua vontade em tolerar as pessoas, não o culpo. Esses dias me pediu que comprasse um par de luvas azuis, mas um modelo sem dedos para que pudesse escrever. Estou ciente que o dia dos namorados se aproxima e que sua situação financeira também não anda muito boa, mas sua mãe me disse que ele ainda não esta devidamente envolvido com ninguém, ela apenas riu enquanto fazia seu café diário, desdobrando o aroma dos grãos por toda a casa, “você precisa estar ciente que como pai, você ainda é o único homem de quem ele sempre terá a certeza do amor absoluto, sincero e abnegado, com todas as convenções sociais de pai e filho, etc...” 
Não que isso não seja verdade, afinal amo-o, mas sempre esperei e creio que ele também esperava, um pouco mais de felicidade em sua existência do que ganhar do pai um par de luvas azuis do pai. Mas já diria o poeta, muito melhor viver sem felicidade do que sem amor.





Crônica inspirada em minhas inusitadas aventuras com meu pai.
Afinal, a coisa mais importante que um pai pode fazer pelo filho, 
é amar a mãe dele, basta isso, e todas as lições são aprendidas.




21 de setembro de 2011

O moço de dentro do quadro.

Gustave Courbet 'Self-Portrait, The Despairing Man' 1843-1845



Existe na Lua branca algo de encantado
Aos jovens que lêem essa história, cuidado: 
O ouro e os diamantes apenas têm seu valor,
Para os assuntos que não se tratam de amor.

Aconteceu com um jovem senhor abastado, 
 Ornado de puro bronze, prata e ouro,
E possuindo o rapaz tamanho tesouro, 
Podia desposar qualquer jovem do povoado.

Foi ter imediatamente com a que era mais bela
Mas temeu quando percebeu que a donzela, 
Além de bela também era astuta e inteligente, 
Uma linda fada com o coração de serpente.

Decidiu procurar o pai de uma que fosse bondosa, 
Uma donzela ainda jovem, casta, tímida e formosa
Com um coração leve, sem nenhuma ambição
Candidata perfeita para realizar tal transação.

Acertou com o velho que ela seria a prometida, 
E sendo ele pobre e sem posses não teve saída,
A não ser dar embora a sua única filha amada, 
Nos braços do estranho que cruzou a sua entrada.

Receberá muito ouro por isso meu caro senhor
Que destino melhor há para a filha de um pastor?
Disse-lhe o belo jovem que já estava saindo,
A pensar em seu bom casamento sorrindo...

A bela donzela, porém, já estava apaixonada
E é a partir de agora que a trama fica emaranhada, 
Pois o jovem que lhe despertara tanto sentimento
Era só um moço pintado num quadro do convento.

O artista que o pintou nunca foi revelado
Há muito sua assinatura havia se apagado,
E o modelo da obra havia morrido há tanto tempo
Que lhe restava apenas uma imagem no convento.

E mesmo assim, sem saber por que, ela o amava,
Dia e noite, perdida em si, o quadro admirava, 
E quanto mais os homens diziam-lhe que era bela, 
Mais queria transformar suas cores em aquarela,

E para dentro do quadro ser transportada, 
Ao menos para tocá-lo por um só momento
E assim junto a ele congelar seu amor no tempo,
E no convento ser para sempre emparedada.

Quando soube da boa nova contada pelo pastor, 
A pobre jovem se desesperou em dores, 
Pois estava morto o seu sonho impossível de amor,
De viver ao lado do amado transformada em cores.

O desespero a levou até o topo da colina
Onde vivia uma senhorita traiçoeira
De medo regelou-se todo o corpo da menina
Ao deparar-se com a beleza da feiticeira.

Esta era a primeira moça que o senhor visitara, 
E com o coração inflamado de um ciúmes mortal,
Decidiu que enganaria a pobre jovem aflita,
Para que ela sofresse ainda mais até o instante final. 

Porem sua melancolia era tão verdadeira,
Que nem mesmo a mais poderosa feiticeira
Poderia odiar tamanha criatura inocente, 
E comovida, a bruxa ofereceu-lhe um presente:

"Tenho aqui um feitiço forte e adequado, 
Um veneno da lua, que no eclipse foi destilado, 
Vá durante a noite até o convento disfarçada, 
Com o elixir a tela deve ser toda encharcada, 

E do rapaz pintado se dissolverão as cores, 
E com isso desaparecerá todas as suas dores, 
E quando a tela jazer vazia, branca e acabada, 
Por ele não há de sentir mais nada...

E por mais que agora desprezes teu prometido, 
Ficarás com o coração livre para amar teu marido.
E a deusa da felicidade estará então convidada
A cuidar da tua futura vida de casada."

E a jovem apesar de triste, sentiu-se aliviada,
Sabia que seu amor nunca a levaria a nada, 
Seria mais fácil acabar com seu tormento
E aceitar de bom grado seu rico casamento.

Então durante a noite foi disfarçada, 
E no convento entrou na última badalada
Sem fazer um único barulho, como uma ladra, 
Trazendo em suas mãos a morte do amor engarrafada.

Mas nem tudo saiu como havia planejado, 
Assim que se viu diante do olhar do condenado, 
Um moço tão belo, tão alheio, tão desejado.
Apenas beijou os lábios de seu bem amado, 

Soube que o veneno não poderia derramar
Era muito belo para que o vazio o pudesse apagar, 
E estando ela sem nenhuma saída adequada, 
Tomou todo o veneno em uma só tragada.

Caiu no chão, vendo a luz da lua sobre a tela
Era a última visão que queria ter do mundo, 
E a morte lhe parecia cada vez mais bela
Conforme adormecia em um sono profundo...

O moço do quadro, que estava emparedado
Por tamanho amor acabou sendo despertado, 
No último suspiro da moça por quem era amado, 
E amando-a também, viu-se desesperado...

Sem poder mexer-se, apenas pelo luar observado, 
Para a esfera branca no céu começou a soluçar...
E mesmo sem nenhuma palavra conseguir pronunciar, 
O clamor de seu coração pela lua foi escutado:

"Esta jovem morreu por tanto me amar, 
E eu por ela morreria mil vezes sem pensar, 
Não tenho corpo, nem mãos para lhe tocar
Ou mesmo boca para o veneno mortal lhe sugar...

A dor que eu sinto agora, não existe igual, 
Amar tanto e não poder agir como o devido, 
Não fiz nada nesta vida para merecer tanto mal, 
Preferia mais que o veneno tivesse me diluído.

Tanto amor me foi oferecido por esta donzela, 
Pudera eu retribuir como um cavalheiro o amor dela, 
Viver com meu coração de tinta tão pesado eu não agüento, 
Coloque-me logo para fora, ou a ela para dentro."

E Diana que passeava nos céus, estava calada, 
Viu e ouviu tudo o que se passou emocionada, 
E sendo ela uma Deusa resolveu então interceder
E com sua infinita magia, o seu desejo atender.

Na madrugada silenciosa, ninguém ouvia nada, 
Enquanto isso, Diana já trabalhava apressada.
E tendo a donzela atravessado o Aqueronte, 
Nos braços do moço, amanheceu pintada. 

Essa história, triste, pode até parecer,
Mas com ela há algo a se aprender, 
Não há pranto de um coração partido
Que por um deus bondoso não seja ouvido.

E não se dissolvem as cores do amor
Pintadas pelas mãos de um talentoso pintor
Em um coração antes vazio como tela
Que assim foi preenchido por tinta de aquarela

Fim.


Gustave Courbet - Lovers in the Country Side 1847 - 1848



14 de março de 2011

As Bodas de Sonho...




Eu queria um dia me casar.
Casar com terno negro,
não negro cor da ida,
mas negro como o retorno,
sem mais casulos ou metamorfoses
nem a gravata borboleta, 

Quero a gravata social,
como aquela de homem normal,
que me custou a alma para laçar,
para simbolizar no altar
não importa o Deus presente,
que lacei um amor nesta minha vida,
nas ruas por onde amores fogem insanamente.

Eu tiraria meu corpo das mãos da morte
para que um homem o cuide em vida,
e na corte de poetas além da existência,
teria um par de olhos
para testemunhar minha sorte.

Quero a alegria de me fazer presente,
e presente, me fazer notado.
Quero o amor, amor aceso no primeiro trago,
uma vez aceso continuar tragando-o eternamente...

Quero ser sacerdote do Deus sem nome.
E sacrificar minha virgindade sobre o seu altar...
O nome lhe falta pois não o encontrei em vida,
e a virgindade oferecida, seria a de amar.

Queria não me perceber amando,
sentir-me banal e indiferente
e estando com ele viver sonhando.


Queria que para mim fosse como uma surpresa,
que para ele fosse a certeza,
 e que o resto do mundo continuasse duvidando,
que em todas as manhãs no seu leito 
eu me descobrisse acordando...

Queria não me importar com o pensa toda gente
e não me deixar assustar por fantasmas nem correntes
de amigo a ficante,  de ficante a namorado,
que a transformação em casado, limpasse nosso passado,
que jazia sepultado eternamente.
Me agrada pensar nisso adiantado,
preso aqui no meu futuro passado,
estou sempre um passo a sua frente,
gosto de sonhar com ele quando estou acordado
melhor assim, sonhar acordado,
meu sonho exagerado...

Eu sonho que já sou casado,
e durmo com essa certeza no travesseiro ao lado,
pois talvez ele me visite dormindo,
meu sonho por dois compartilhado.
abraçados e entrelaçados no destino...

Nosso leito vazio de um amor presente.
E então ao despertar separados,
novamente em nada
nos transforme nossa mente.




Queria saber seu primeiro nome mesmo não entendendo seu significado,
queria descobri-lo de pouco em pouco,
e então pelas convenções sociais evolutivas do amor,
passear com você de braços dados, como amigo, ficante, 
companheiro, enamorado...
Queria também que me levasse um dia ao sepulcro da poetisa,
para que você se torne não a fonte, mas o provedor
tanto da minha alegria quanto da minha dor sem mais tristeza,
e dos Campos Elísios ela nos escutaria, a sua voz e o meu chamado,
e depois de uma pequena oração e vela acesa;
A ela diria:


"Florbela, teu corpo transformado em rosa,
de amor e tristeza brotando através da terra,
a semente guardada num coração delicado...
Que na montanha solitária se encerra.
Pisamos juntos onde tua agonia encontrou um fim,
caminho a ser trilhado por nós em sua direção,
mas antes que a morte o arranque a  força de mim,
queria lhe apresentar sem mais enredo
quem está diante de ti neste solo sagrado
mãos dadas as minhas em segredo,
é aquele aquele a quem pertenço, meu amado..."





29 de setembro de 2010

Dente de Leão (Dandelion)





Eu desejo você.
Mas não agora, não tão rápido. 
Talvez amanhã quem sabe, ou daqui a alguns anos, 
você chegará maturado, preparado e temperado.
Não, não quero que me conheça já. 
Nem quero já te-lo conhecido também em algum lugar, 
pois gosto de ter a fantasia que você não me deixaria escapar,
que seria o único capaz de lidar com isso, comigo.
Portanto o meu passado é o único lugar onde não irei te procurar.
Quero que venha de longe, que nunca tenha posto os olhos em você ainda, 
venha de outras esferas, respire um outro ar, 
beba uma água mais pura, me conheça até de outras eras, 
adore um Deus que eu desconheça.
Tenha sua própria maldição. Torne-me um amaldiçoado também, 
vamos chamar isso de compromisso.
Me veja, me leia, tenha lábia, me convença a vender minha alma, 
roube o meu corpo só para você, e não devolva-o sequer a morte.
Tenha lábios, e saiba usá-los. 
...
Agora, meu desejo mais lindo não dividirei com ninguém.
só desejo que em algum momento antes disso,
você tenha me desejado assim também...





Dente de Leão, Dandelion, Taraxacum officinale, Esperança, Taráxaco, Amor-de-homem, Amargosa, Alface-de-cão ou Salada-de-toupeira. É a famosa flor que sopravamos quando criança, tem uso medicinal para a artrite e reumatismo, mas é conhecida por seus poderes mágicos, dizem que se você soprá-la desejando um amor, assim que vir novamente uma de suas pétalas perto de você, é sinal de que seu desejo foi atendido.O amor está próximo. 



p.s. vi uma pétala esta manhã... 












1 de agosto de 2010

E no fim do verso a gente rima...



Felino
teu jeito dentro do corpo, 
magro, esguio, comprido
o olhar maduro,
o tom de voz galante
o sorriso elegante,
a tua alma de 
menino.

Planejado,
os teus movimentos,
teu jeito de chegar,
abraçar, falar, beijar
me levar a acreditar
me pegar, do avesso me virar
se passar por
namorado.

Amarrei
o teu nome no meu,
bati tambor, dancei pelado,
o incenso acabou
e a vela acendeu, 
Vendi a alma, fiz despacho,
me travesti, virei macho,
mas sou só mais um
gay.

Errado
foi tudo o que deu,
o feitiço virou
o oposto aconteceu,
de surpresa você me pegou
a ripa da minha estrutura
arrebentou, no final
faltou você, sobrou eu...
um mal amado.

Sina,
é o que a gente tem
esse nosso jeito certo
de se amar errado,
mas eu me viro,
escrevo, crio, te arrasto
de volta com a caneta,
e até me engano e acredito,
que lá no fim do verso, 
enquanto o mundo pensa inverso
a gente ainda se ama e
rima...






Notinha sobre mudanças: 

Passei todo o mês das férias da faculdade na casa dos meus pais, no interior, 
esqueci por um tempo o que era São Paulo, o que era a responsabilidade, 
e me enturmei novamente e me (mal) acostumei com a presença dos queridos, 
com o café da minha mãe e jogar mortal kombat com meu sobrinho. 
Agora as aulas vão voltar, e com elas aquele meu apartamento, a tal vida de 
universitário, espero que o tempo por aqui mais que me matado de mimos, 
tenha me (re)carregado. 
Saudades, ah... isso é meio que inevitável...


















p.s. voltar pra minha própria vida, me deixa mais romântico 
que o de costume, homens solteiros de sampa, cuidado haha

Beijos sinceros...

26 de julho de 2010

2 cálices, 1 Toddynho...




cigarro e uísque nas mãos
olhos distraídos
contrastam com ouvidos atentos
que ouvem o que diz a mente

é estranho se perder
viajar, imaginar
aquele que neste momento
talvez também esteja
tentado imaginar a gente

coloco nele um sorriso torto
uma voz marcante
sei que ainda está pra chegar
ele virá
e também irá partir...

suas pegadas ficarão na terra
e um dia ele vai (me) olhar
la atrás
vai voltar
 quem sabe....

já aprendeu antes de mim
a não chegar muito perto
evitar atalhos
cruzar caminhos

eu aprendi antes dele
a amarrar meus sapatos
a me virar sozinho

  juntos
serão dois cálices de vinho
dois pratos sobre a mesa
 degustamo-nos
amoras
champagne
toddynho
...


                                                                                                              

12 de novembro de 2009

João Antônio, o Príncipe...







João Antônio é príncipe, é  belo do seu jeito, é sério, mas já foi sapo, foi feio, foi puro sexo...
Foi o sapo de outro João, do Renato, do Claudemir, do Diogo, do Nando, da Natália na adolescência. Foi muito feio na puberdade, teve inúmeros apelidos: Narigão, Napa, Choquito branco, Tablito;  e muitos outros, todos evidenciando suas espinhas, seu nariz grande, seu jeito desengonçado.
João Antônio já se apaixonou uma vez perdidamente por um rapaz mais novo e muito mais belo que ele, e assim como um vampiro o tal rapaz sugou seu pau e suas fantasias sobre um dia viver um grande amor, e sugou bem, até a ultima gota, até machucar o corpo e o coração de João Antônio com seus aparelhos dentais.
E então depois disso, João Antônio ficou diferente, ficou um pouquinho mais bonito, mais sozinho, quis tirar um pouco de proveito da vida e quis transar mais, quis sentir o seu corpo, quis se apaixonar de novo, e foi isso que fez.
Transou feito um louco, se apaixonou por todos que conheceu, por seus amigos, por metade da cidade, e por metade de si mesmo. Era descrito como um rapaz alto de aparência mediana, voz grave, e  era bom de cama. E sua vida se desenrolou assim por muito tempo.
Fora isso João Antônio também trabalhou, e trabalhou muito, dentro de sua enorme cidade só conseguia pensar nisso, trabalhar, trabalhar e trabalhar...
Depois de um certo tempo, quando cansou das maratonas de encontros as escuras com garotos virtuais, de sexo fácil, ele comprou seu primeiro carro, e decidiu que estudaria pra valer, que faria uma faculdade.
E foi o que fez. Informática.
Conseguiu entrar na faculdade de seus sonhos, aos 23 anos, quando um único fio de cabelo branco havia crescido sorrateiramente em sua nuca. Percebeu que durante as aulas não conseguia enxergar bem as letras na lousa ou mesmo no computador de seu trabalho, o oftalmologista apenas disse uma palavra: Miopia, e João Antônio teve que começar a usar óculos também. A idade havia chegado.
Estava finalmente bem, estável, estagiando, bem remunerado, ok, não tão bem remunerado assim mas se sentia útil e isso já é um bom começo. Tinha um bom emprego, tinha seu carro do ano que não vem ao caso, estava cursando sua tão sonhada faculdade e sempre tinha um trident de menta-verde-escuro em seu bolso para os momentos de crise.
A princípio ele não percebeu, mas não demorou muito e ele notou. Não ia mais com tanta frequência para baladas e há dois anos não entrava em nenhum dark-room. Já não enxergava os homens como costumava ver e isso não era mérito de sua recente miopia, fora que fazer sexo se tornou algo tão distante e deixado pra ultimo caso, como frequentar um bom cabeleleiro.
João Antônio via seus amigos regularmente, até ajudava em casa com um pouco do salário, o que restava. Toda a sexta tinha a cervejinha com seus amigos nerds da Faculdade, mas fazia meses que João Antonio não abria o ziper da calça com uma intenção menos cristã, há meses sua única companhia era sua fiel mão esquerda, sim, era canhoto.
João Antônio olhava para si mesmo diante do espelho e não se reconhecia, colocava a pasta na escova de dentes enquanto se perguntava "Cadê o João Antônio sapo? E o chokito? E o narigão? E o alto bom de cama?"
Sem que ele percebesse eles haviam se transformado. E agora, com a regata velha que usava pra dormir, sua imagem o olhava refletida no espelho, lá estavam apenas o João Antônio amigo, o maduro, o sério, o príncipe.
Um príncipe alto, bem vestido, com óculos de grau, uma pequena tatuagem discreta no braço, fruto de sua rebeldia passageira, agora com vários fios de cabelo branco, 25 anos, um jovem-moço, um jovem príncipe.
Porem solitário. Afinal, toda a graça dos contos-de-fada é encontrar ou transformar o tal do príncipe encantado. Um príncipe já feito sozinho, não chega a ser tão interessante quanto um sapo, ou mesmo uma fera.
Estava sentado na mesa da biblioteca da faculdade com nove exemplares de livros diferentes, pensando justamente a respeito de como havia mudado, em como havia crescido, porém sem ninguém ao seu lado pra ser testemunha ou mesmo notar mudança.
E foi aí que o outro entrou. Taciturno, silencioso, como um gato (gordo) doméstico.
Entrou,  sentou do outro lado da sala bem no canto, jogou sua pesada mochila no chão, abriu um livro, e desapareceu. Lia tão atenciosamente que parecia ser invisível lá dentro, um ser etéreo, um adorno da biblioteca.
Mas João Antônio o viu.
E o viu claramente, como se aquele moço discreto e silencioso fosse o Sol, uma estrela de fogo tentando inutilmente ocultar seu brilho. 
João Antônio voltava sua atenção para os livros e resumia algumas linhas, mas não podia deixar de observar em silencio o moço do canto, e o observou por muito tempo.
João Antônio escondido atrás de seu livro e o tal "Sol" escondido atrás do livro dele.
João Antônio o analisava completamente, e o pobre moço nunca julgaria em seus sonhos, que despertaria tamanho interesse em um desconhecido. Ele viu o seu tênis, sua calça jeans, sua camiseta branca, estilo polo, podia alguém ser mais discreto que isso? O rapaz era gay, sem dúvida, tinha uma aura sensível demais para ser um homem hétero.
João Antônio viu que o tal rapaz tinha tatuagens bem visíveis, uma bem no pescoço, com algo escrito, ilegível aquela distancia, aquele disfarce.
E quanto mais o olhava, mais interessante o moço no canto da sala ficava.
Não, aquele moço ainda não havia se transformado em um príncipe como João Antônio, mas também nunca havia sido um monstro ou uma aberração.
João Antônio ainda não sabia, mas vou dizer a vocês, o nome do rapaz é Roberto.
Roberto é o moço que escreve a crônica, que é dono do blog, que ainda não é príncipe, mas é mago, de aparência calma e simpática, cabelos e olhos bem escuros, contrastando com sua pele morena tentando ser branca.
Porém Roberto já foi brega, já foi gordo, bem gordo aliás, já foi puro sexo também...
Quem o olhasse naquele momento, perceberia apenas um jovem normal, acima do peso ideal, de aspecto agradável, grande, iluminado. Mas para João Antônio aquele rapaz chegava a ser naquele momento bem mais que isso.
Ele já nem se lembrava o porque havia entrado naquela biblioteca e se alguém o questionasse naquele momento, distraído como estava, responderia que só estava lá para ver o moço no canto da sala de leitura, talvez só tivesse prestado o vestibular e entrado na universidade para ver o moço do canto da sala de leitura.
O moço a quem ele havia carinhosamente apelidado de "Sol" devido a sua incrível força magnética,  sua pele  levemente bronzeada e seu sorriso de canto de boca, que aparecia vez ou outra, conforme seus olhos negros percorriam as páginas do livro que lia com tanta gula.
Mas apenas vê-lo, ali parado, sozinho, era  pouco.
João Antônio queria devorá-lo, mergulhar dentro dele, conhece-lo, queria saber que seu nome era Roberto. Pensava que isso tudo, essa baboseira sentimental era coisa de filme de romance hétero  nunca em sua vida havia conhecido um casal gay que se encontrou por acaso num ônibus,  num metro, num cinema, muito menos em uma biblioteca.
Porém estava decidido, não sairia de la sem ter ao menos o nome do moço, e duas informações relevantes sobre ele. Levantou-se apoiando as mãos na mesa para encorajar-se, segurou um livro qualquer na mão e foi andando em direção ao canto da biblioteca.
O moço nem sequer percebeu a aproximação de João Antônio, e este já conseguiu chegar perto o suficiente para ler o título do livro que o rapaz lia escondido e desaparecido ali no canto: "Para ler como um Escritor".
O sorriso foi inevitável, o título do livro era estranho e não combinava em nada com o rapaz tatuado, o  tal moço deve ter ouvido os lábios de João Antônio se contraindo em um sorriso, pois o enxergou no mesmo instante, o instante do sorriso, mas não um sorriso debochado, um sorriso sem graça com gosto de alívio.
E o moço sorriu também... Não um sorriso sem sem graça, e sim um sorriso que aguardou anos para poder sair, e se espalhar pela biblioteca aquela noite.
A ainda naquela noite, o João Antônio ficou sabendo que o nome do moço era Roberto, e também soube duas informações relevantes sobre a vida dele, mas isso é outra história...


Informações relevantes:
1° Roberto sonha acordado.
2° Roberto escreve e ocasionalmente interage com seus personagens.


E para o João Antônio isso foi um final de um breve conto, 
e o começo de um romance best-seller de 500 páginas.


Fim.







2 de setembro de 2009

Um Namorado para Fortuna...




- Miguel ? 

- Hã?

- Por quê você desvia tanto o olhar?

Um sorriso torto, mostrando seus aparelhos inferiores apareceu subtamente. 
Fortuna percebeu que ele não havia compreendido a grandiozidade que estava oculta naquela simples pergunta, principalmente, o enorme valor que uma mulher de imaginção extremamente ativa e fértil como ela, daria a resposta dele. Pelas palavras que sairiam a seguir da boca dele, ela poderia desvelar que tipo de homem ele era, e principalmente, que tipo de homem ele seria com ela.

- E você hein? Por quê desvia o olhar?

Isso.
Foi apenas isso que ele respondeu, nada mais.
Ele estava sorrindo ainda, como se ela apenas o tivesse questionado sobre esta ou aquela marca de cerveja. Idiota, retardado, pensava. Mas na realidade, Fortuna não sabia o que responder, nunca tinha lhe passado pela cabeça até então, a hipótese de que ela também, as vezes, desviava o olhar.
E porque diabos ela estava fazendo isso? Pelo visto estava desviando o olhar fazia tempo, e com muita frequencia, para que um homem desligado como Miguel, percebesse. Ou talvez ele apenas estivesse brincando, chumbo trocado não dói, mas parando um momento para pensar, se ela realmente estivesse desviando seu olhar do dele, era apenas porque tinha medo de altura.
Tinha medo de cair de uma só vez para dentro dele como já havia feito tantas vezes antes, com outros. Ela percebeu que o fato de Miguel ser professor de cartografia, fazia com que ela encontrasse em seus olhos castanhos, certos dezenhos que lembravam a ela montanhas, cordilheiras vistas do alto, talvez ela estivesse desviando seu olhar para amarrá-lo em alguma pedra sólida no chão, e então assim talvez, escapar de um possível amor, se salvar. 
Mas agora, nesse momento, deitada no capô do carro antigo dele, sentindo o perfume masculino, e um leve cheiro de loção pós barba no ar, ela contemplou toda a simplicidade e força de um momento mágico como aquele, pela primeira vez, ela estava tranquila, calma, não estava esperando nada, apenas o estava aceitando, aos poucos, aceitando o homem que ele era, com um senso de humor tranquilo e até doce algumas vezes, e todo o corpo dele era de certa forma doce, e gostoso de ser acariciado, tocado, sentido e até degustado. 
principalmente seu olhar, não poderia ser mais enigmatico e sincero. um olhar cru, em carne viva.


Ela havia deixado de ser a menina branquela de nome incomum, para se tornar uma mulher, madura, centrada, e principalmente: Incerta.
Havia recebido um homem. Não um garoto, mas um homem, inseguro, inexperiente em alguns pontos, porem ele era a mistura de tudo aquilo que ela havia visto em propagandas da televisão,
ele bebia cerveja, jogava futebol com os amigos aos finais de semana, tinha um emprego de segunda a sexta, fazia faculdade, tinha carro, usava bermuda e havaianas, ou calças jeans e tenis, a barba as vezes por fazer, e as vezes bem feita como naquela noite, o chiclete de menta, os pelos no antebraço, nas cochas, e alguns no peito, ele era um homem. Adulto.
Então naquele momento, lhe faltaram pedras para se segurar. 
Olhou atentamente ao seu redor, e viu uma simples e alaranjada margarida, ele havia arrancado a florsinha do canteiro da mãe dela, quando parou o carro em frente a sua casa e disse, com um sutaque caipira que ele desarticuladamente desfarçava"Tó aqui prô Cê!"
Ela escutava sua voz, e sentia como era grossa, rouca e masculina, sem dúvida ele recebeu uma alta dose de testosterona na puberdade, o que contrastava com seus traços de menino, seu jeito de vestir, e de se portar à mesa.
Tentou parar de devaniar, como sempre fazia, se pegando aos detalhes.
Precisava se focar no que de fato estava acontecendo naquele momento, sobre o capô daquele carro.
se agarrou à margarida, e tentou não pensar nas paisagens que estavam dentro daqueles olhos castanhos curiosos, que não paravam por um minuto sequer de fitá-la:

- Ah, bem, porque sou meio tímida.

Ele riu alto, afinal Fortuna era a rainha das respostas feitas e complicadas. 
Pela primeira vez, uma frase curta, simples e direta havia saído de sua boca, 
e isso deixou até mesmo ela preplexa, mesmo que esta frase seja apenas um disfarce para toda a confusão que acontecia dentro dela.

- Meu bebê! disse ele, colocando seu braço por debaixo da cabeça dela, e trazendo ela para mais perto.

Ela pousou a cabeça em seu peito.
Tarde demais. Estava Apaixonada.













p.s. Este é apenas um trecho de um romance que estou 
escrevendo de uma forma bem lenta e amadora.
p.p.s. inspirado em lições de vida e em todas as Fortunas que conheço por aí.
p.p.p.s. se um dia ele passar pela minha crítica pessoal, tentarei publicá-lo.

beijos sinceros.







23 de maio de 2009

óculos.



Eu amo o homem de óculos.
Eu amei todos os homens de óculos.
Pra mim,
a parte essencial,
a parte inevitável do homem,
é plural:
são os óculos.
Porque os óculos sempre participam
do meu amor,
barroco amor em crise;
os óculos são um fetiche:
há sempre o momento
dos óculos fazerem strip-tease
e daí o homem fica vesgo de amor
e os olhos do homem
ficam trasprafrente,
transparentes.
Eu amo a mais
os homens vesgos e estrábicos
e estigmáticos.
A tortura dos olhos do homem
me tortura,
me estigmatiza.
(Ah, toda a doçura,
toda a pieguice,
toda a gostosura
que há na vesguice...)
Porque é sério,
é muito sério mesmo, meu poeta,
o homem atrás dos óculos;
mas quando ele os retira,
se transforma, há um pretexto
pra ficar o outro homem
e a gente ama
como se cometesse um incesto.
Eu amo os homens de óculos
porque foram capazes de se cegarem
diante de mim e de me amar (amarem?)
de me amar sem nenhuma visão,
que a do seu próprio e mais cego
coração
(a grandiosa visão de um só momento).
Eu amo os homens
que foram capazes
de me enxergar
por dentro.


ÓculosYêda Schmaltz
Do livro: "Baco e Anas brasileiras", Achiamé, 1985, RJ 



p.s. Lê² ♥


15 de maio de 2009

maridão...



Mesmo que com o tempo te acostumes comigo,
ainda assim, prometo: serei surpreendente,
e em uma dessas longas noites frias,
minha língua deslizaria úmida pelo teu umbigo,
enquanto minhas mãos te segurariam gentilmente...

Cobriria teu corpo com toda a sorte de especiaria
colhida em noites de lua nas pradarias do oriente
e neste instante veria em teu corpo com inocente alegria,
a sereia dos meus sonhos de pequeno menino,
ou a bela deusa da morte a quem este homem oferecido,
entregou-se em sacrifício voluntariamente.

E para o Inferno! Deixe as panelas queimando no fogão,
e que as louças não lavadas dissolvam-se sobre a pia.
Deixa-me só esta noite, afogar nos mares de teu peito,
os desejos em chama deste meu pulsante coração,
presenteie hoje teu homem, como ele sempre sonhou que o faria.

E com um grande esforço eu respiraria,
pois mergulhado entre tuas pernas como estou agora,
mal tenho tempo de me preocupar com o ar, 
e meu cérebro racional, pobre coitado embevecido,
fica enevoado, esquecido, 
pensando em mil formas diferentes de te devorar. 

Meus cabelos, hoje castanhos, irão aos poucos branqueando,
 a mente fugaz, minha memória e meu SPC vão caducando.
os nossos pequenos se formando, se mudando, se casando,
a farinha e o leite no ármario se acabando...
e o fim das coisas vem cruel se aproximando.

Mas no nosso quarto, na nossa *queen size*, o tempo não deita,
e nem ousa mecher nas cortinas que você escolheu,
ou nas gavetas que perdido andei bagunçando,
aqui como me conheceu, reinamos unicamente você e eu...
e é claro, os líquidos do amor fluindo aos litros de nosso corpos,
e nos lençóis brancos eles vão como sempre se misturando...

E por mais que eu mude de idéia, isso ja deves saber:
um pedaço bem grande deste teu marido,
sempre foi teu, guardado aqui dentro,
esperando anciosamente o momento de te conhecer...




O esposo, Beto.