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27 de fevereiro de 2014

William Foster




Chora de manso e no íntimo... procura 
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia: 
O mundo é sem piedade e até riria 
Da tua inconsolável amargura. 

Só a dor enobrece e é grande e é pura. 
Aprende a amá-la que a amarás um dia. 
Então ela será tua alegria, 
E será ela só tua ventura... 

A vida é vã como a sombra que passa 
Sofre sereno e de alma sombranceira 
Sem um grito sequer tua desgraça. 

Encerra em ti tua tristeza inteira 
E pede humildemente a Deus que a faça 
Tua doce e constante companheira...

Renúncia, Manuel Bandeira.






12 de fevereiro de 2014

Sheherazade e a navalha de Occam.

A única Sheherazade que jamais irá nos decepcionar!


“Sheherazade calou-se. “Continue!”, Shariar ordenou. 
“Mas o dia está amanhecendo, Majestade! Já ouço o carrasco afiar a espada!“. 
“Ele que espere”, declarou o rei. Shariar deitou-se e dormiu profundamente.”

Trecho de “As Mil e Uma Noites”.



Esta semana todos nós frequentadores (fanáticos e viciados como somos) das redes sociais, estamos assistindo nossa TL ser bombardeada com inúmeras matérias, reportagens, entrevistas, etc, com a senhora Raquel Sheherazade, apesar de não acompanhar o trabalho da moça desde seu abençoado (inclusive por mim) vídeo sobre o carnaval, em sua antiga emissora, e mesmo tendo vibrado de inocente alegria ao saber que ela seria ancora de um jornal no meu estado, desta vez com repercussão nacional, colocando sobre ela o peso platônico de jamais me decepcionar, fui como a maioria (ou minoria?) decepcionado gradativamente.
Admiro o poder que ela possui de escancarar de boca cheia, verdades tão obscuras em nosso cotidiano. Afinal, foi exatamente isso que ela fez em seu vídeo sobre o carnaval, como muitos disseram à época: "esta moça disse absolutamente tudo o que eu sempre quis dizer!", e o fez com grande proficiência. Mudou algo desde então? Mudou, além do Carnaval odiado por Raquel e uma pequena (SIMMM! PE-QUE-NA!) parcela dos brasileiros, teremos uma copa e uma olimpíada onde o dinheiro publico irá correr entre ralos e bolsos, mudando pouco ou quase nada de nossa nada mole vida cotidiana.
A verdade é que essas grandes verdades que 'todo mundo' pensa, não se aplicam a nossa realidade, e por isso não possuem o poder de mudá-la. INFELIZMENTE.  Afinal, já diria o poeta, que coisa mais bela uma 'verdade' pode fazer além de existir?
Sua ultima grande ‘verdade’ foi que cidadãos 'de bem' tem o direito de se defender da criminalidade, e até mesmo lutar contra ela com os próprios punhos, usando de exemplo o caso do jovem acorrentado ao poste no Rio de Janeiro. 
PORRA! Nessa verdade eu queria MUITO acreditar! Muito mesmo, ela praticamente descreveu o Batman, ou a filosofia do filme Kick Ass, seria incrível realmente se existisse algum tipo de homem aranha, ou seja la o que for, mesmo um grupo seleto de pessoas sedentas por justiça, um X-MEN, ou um V de Vingança além das máscaras bocós. 
Já pensou que utopia linda de viver? Um reino da Marvel ou DC chamado Brasil onde eu estivesse de mãos dadas com o meu namorado na rua, e um grupo de NN aparecesse para nos trucidar, e bem quando vamos ser capturados para logo em seguida sermos suicidados, um carro com desconhecidos os impedisse com uma boa dose de surra e de humilhação prendendo todos eles a postes pela cidade!
Eu iria gostar disso? SIM, eu iria adorar, por menos humano que isso pareça, essa ideia de vingança que existe por trás dos justiceiros é muito gostosa, mas como disse, uma verdade tão linda jamais se aplicaria a nossa realidade.
Caso a história fictícia de eu e meu namorado estarmos sendo agredidos por um determinado grupo, e então outro grupo aparecesse, no final de tudo quem estaria num poste? OBVIAMENTE, eu e meu namorado, talvez até suicidados. 
Alguns dirão que isso é vitimismo de minoria oportunista, etc (Meu cú!)
Hoje mesmo, tomei minha boa dose diária de realidade com o simples fato de atravessar uma rua. Lá estava eu voltando do trabalho a pé, costume adotado depois de um súbito animo com exercícios, quando atravessava um sinal vermelho na faixa de pedestres, e para a minha sorte o sinal voltou a ficar verde bem quando estava praticamente no meio do caminho.
Então percebi que se aproximava um desses carros rebaixados, com um funk tocando no ultimo, dentro o motorista de boné e óculos espelhados, era a pura encarnação de todo esse movimento rolezinho que surgiu 'do nada' na mídia nacional.
Imediatamente recuei de volta para a calçada, com o medo e a resignação de quem espera algum ataque, algum tipo de mal, que espera o motorista acelerar bem em cima de você, ou que ao me ver voltar para a calçada, ele passasse por mim e gritasse (como já aconteceu comigo e com tantos outros gays inúmeras vezes) "Bicha!", "Aiiii", "Lindaaa!", ou qualquer outro tipo de 'ofensa' que na teoria o deixaria mais homem e a mim menos homem, mas que na pratica só me faz lamentar o fato de ainda não poder explodir cérebros mentalmente.
Admiro as reações que vejo em outros gays expostos a esse tipo de coisa, eu mesmo já tentei várias delas, jogar algo no carro, gritar "sua mãe não reclamou", ou um simples "chupa meu cu!", mas com o lapidar dos anos e da maturidade vamos recuando e passamos a ignorar instintivamente todos esses tipos de atritos urbanos diários (fones de ouvido ajudam muito).
E lá estava eu na calçada esperando o tal carro 'algoz-de-tudo-o-que-eu-temo-e-por-isso-evito-ou-finjo-que-não-existe'passar por mim, quando percebo que ele parou, bem antes da faixa, e com o braço e a cabeça acenou educadamente para que eu terminasse a travessia, meu corpo respondeu instintivamente aquela gentileza obedecendo-a. No meio da faixa fiz um sinal de ‘jóia’ pra ele, o famoso 'obrigado' dos pedestres, ele me respondeu com uma pequena buzinada e seguiu seu caminho.
Passei o resto do caminho de volta pra casa agradecido por aquele motorista ter demonstrado comigo (pedestre) uma cordialidade TÃO rara no transito, e ao mesmo tempo me culpando por não ter esperado isso dele. Meus caros, isso tem um nome: PRECONCEITO, e preconceito é bem mais do que medo. Como todos nós aprendemos em "O Mágico de OZ", o medo é irmão da sabedoria, se eu tivesse voltado correndo pra calçada por 'medo' de ser atropelado e colocar minha vida em risco, isso seria sábio de minha parte, mas voltar para a calçada por esperar algum tipo de hostilidade do motorista apenas por ser 'o tipo de homem que seria hostil com um homossexual na rua se aproveitando da segurança e velocidade de seu carro', não é nada sábio, é imbecil.
Por que eu espero ser tratado assim por outro ser humano, por que eu aceito que ele possa se permitir me tratar assim, e por que eu me retiro de seu caminho ANTES de tudo acontecer? Perguntas profundamente pessoais e com um 'Q' psicológico para serem abordadas neste texto mais objetivo.
Vivemos na sociedade da navalha de Occam*, onde a solução mais simples é a verdadeira. Se ouvimos um relincho atrás de nós, obviamente será um cavalo, nunca uma zebra, muito menos um unicórnio.
Voltando ao mundo utópico de super heróis urbanos descrito por Raquel, se ele de fato existisse HOJE, em nossa realidade, a famosa pergunta "É um pássaro? Não, é um avião! Não! É o superman!"... Teria terminado lamentavelmente no "É um pássaro (PONTO FINAL)".
Uma das esfinges que precisamos encarar com mais regularidade, para fugir dessas 'grandes verdades' sem ‘aplicação prática na realidade’ que não mudam ABSOLUTAMENTE nada, e nos são vendidas como 'vingança social heroica', é nos despirmos de algumas mentiras, principalmente as muito mais inacreditáveis do que nossas verdades/realidades inadmissíveis.


*A navalha de Occam é uma linha de pensamento que diz que a resposta mais simples costuma ser a certa.



19 de setembro de 2013

Quando.

João Carlos Gallazzini e Lucky ♥


"Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar 
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta.
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta."

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do mar (1947)



Que mundo vivemos onde numa tarde ao ler o nome de uma pessoa querida no local mais impossível onde este nome deveria estar, nossa realidade toda se transforma. O passado por mais inquietante e dolorido que seja se torna nosso único abrigo, onde podemos revisitar lembranças em nossos momentos mais pessoais. Continuarei sempre revisitando meu querido João, o pai do Lucky, um homem lindo em todos os sentidos, revisitarei a vergonha que senti de conhecê-lo sabendo que minha amiga havia fanfarronamente contado para ele (seu pai) que eu o achava uma graça, revisitarei as ligações dele na rádio dedicando a ela (a filha) músicas dos beatles, em especial Penny Lane. Estarei revisitando continuamente este homem que eu tanto invejava, era o pai da moça que eu gostaria de ter como filha, era o marido da melhor doceira de toda a região e tinha um dos melhores gostos musicais do mundo. Que Perséfone te receba com sua doçura, que essa despedida seja alegre e que todos possamos nos reencontrar.








21 de julho de 2013

Frágil




Era a fragilidade do mundo que lhe atraia, a forma como as coisas deixavam de ser o que eram num piscar de olhos. Contemplava a fragilidade como quem espera o romper de uma bolha de sabão no denso ar, ‘ploc’ e fim. Desde pequeno perdia-se nas fragilidades alheias, era o que mais lhe atraía nas pessoas ao seu redor, a maneira como todas eram frágeis de alguma forma, e como todas escondiam isso. Acabou tornando-se perito em rastreá-las, decodificá-las e trazê-las a tona para seu prazer solitário. Apaixonava-se pelo que era frágil. 





9 de abril de 2013

Leak #01

Ilustração: Débora Gallazzini




Neste momento em que me encontro em tão rara e branda racionalidade, com um bom tanto de passividade, decidi tentar (me) entender.
É tombo de moto, Feliciano, ex, hipocrisia, excesso, tanta coisa misturada, minha visão quase sempre passional e exagerada da vida, cheia de extremos, pontos finais, decisões e reminiscências, é tanto um pouco de tudo que me perco facilmente na diária tarefa de existir.
Comecei o ano de 2013 cheio de pontos finais, o que na teoria me possibilitariam um (re)começo brilhante; óbvio que desde que o universo se estabeleceu novos começos existem e não dependem de pontos finais para isso, mas creio que o caos possui um elemento criador e recriador inigualável. Existam tantos aspectos em mim que devem ser trabalhados com mais cuidado, minha hipocrisia em relação a alguns acontecimentos da minha vida, o perdão interno que nunca chega, aquela sensação de dono do próprio nariz que demora a aparecer, o fato de gostar do próprio nariz também tarda, um acumulo de restos, de sobras, excessos, e no meio disso, enquanto me sinto o Cumbre Vieja prestes a entrar em erupção, aquela antiga questão surge, alta como sempre, incerta como o todo: aquilo que esta me sobrando falta em alguém, mas o que me falta será de quem?




9 de março de 2013

Em branco.




"O toque do nada tudo esvazia..."
A História Sem Fim, Michael Ende.



Decifrar as pessoas era apenas uma habilidade vital que adquirira, advinda de sua quase insana vontade de viver um grande amor.
Via a todos como equações matemáticas simples, essas de primeiro grau, onde o positivo se torna negativo depois do sinal, onde as confusões são controladas com apenas uma rápida olhadela, com destreza ele as somava, subtraia e dividia, enquanto isso elas (as pessoas de sua vida) multiplicavam-se sozinhas em sua realidade.
Por essa vontade de ao menos entender algumas delas, precipitava-se na paixão e algumas vezes no amor, ambos breves demais sem muitos sinais a serem conjugados.
O homem grisalho foi breve também, breve demais.
Homem é uma palavra um tanto exagerada, era apenas um menino, um garoto grisalho, partilhavam da mesma idade, da mesma safra, a única diferença entre ambos eram os cabelos grisalhos do outro.
Um tipo de maturidade física prematura talvez, não sabia explicar ao certo mas o outro era completamente grisalho e isso o atraía, lhe dava uma espécie de segurança edípica nada doentia.
Sentia-se desde sempre estranhamente atraído pela humanidade das pessoas, esta humanidade era sempre representada por algum atributo físico que as distanciavam do padrão industrial de beleza, pintas, pelos, cicatrizes, altura demais ou de menos, peso demais ou de menos, covas, até mesmo a precária habilidade de enxergar enaltecida por um óculos de grau lhe despertavam o interesse em qualquer indivíduo, qualquer coisa que o tornasse mais acessível/aceitável a seu padrão de humanidade também.
O homem grisalho conseguia preencher a todas as suas expectativas com os espaços em branco percorrendo todo o seu corpo, pelos, barba, cabelos, o grisalho era um grande hiato onde ele sonhava em se estabelecer, pelo momento em que este hiato perdurasse.
Mas durou pouco como já mencionei, acontece que em apenas alguns dias depois do grisalho ter-se ido, olhando-se no espelho, percebeu um fio de barba branca em seu rosto, próximo a boca.
Não havia notado antes e nem esperava por isso na juventude que degustava ainda aos poucos, seu primeiro fio branco, seu atestado de envelhecimento, de envolvimento.
O grisalho partira e lhe deixara isso, um espaço em branco perto de seus lábios.
Talvez este fio já existisse bem antes do grisalho e pelo negrume dos outros fios acabou sendo confundido com um brilho, apenas um relance na luz.
Retirou-o com os dedos, uma leve beliscada, uma dor tão breve quanto tudo que já havia se encaminhado, "nascerão três no lugar deste" teria lhe dito sua mãe, segundo ela, em breve ele inteiro estaria coberto por estes espaços em branco também, num efeito acumulativo infinito, logo ficaria devendo espaços em branco ao universo que lhe cercava.
"Arrancarei todos" disse a si mesmo deixando o transparente fio cair sobre a enxurrada da pia.
Não mais de uma semana, la estava, não três mas o mesmo, no mesmo lugar, o fio branco perto dos lábios...
Defronte ao espelho naquele momento, decifrou a si mesmo. 
O vazio deixado pelo grisalho, que tão carinhosamente apelidara de espaço em branco, não poderia ser extinto, apenas preenchido.
Eis a questão: com o que?





9 de fevereiro de 2013

Adeus à carne.





"Não há último adeus, senão aquele que se não diz."
Alexandre Dumas



Adeus à carne, em especial a sua, que durante breves e estigmatizados momentos esteve entre meus dedos, lábios e que depois disso, talvez (ainda) esteja em minha memória cognitiva, o tato, o sabor, o não-vem-ao-caso, etc.
Adeus à nossa não-história, cujo final imponho a mim mesmo agora, cujo meio ainda não decifrei e o começo, rebento como todo começo é, não resistiu aos nossos tão raros (des)cuidados. 
Adeus a mim também, o ser que fui, algo construído de fantasias futuras e de um 'eu idealizado' e adiantado para você. 
Adeus às respostas que calaram e as perguntas que finalmente cessaram, dando lugar a uma conformidade pesada, abafada como a atmosfera que precede a tormenta, adeus ao meu tormento que deságua agora.  Adeus à seca, ao silêncio, a ausência proposital, a ausência esperançosa cheia de um 'querer fazer-se presente' por detrás de cada falso não falar contigo, cada vírgula e contexto, cada grito nas entrelinhas, cada silêncio escandaloso demais para ser verdadeiro. 
Adeus à minha infantilidade e ao meu eu-lírico, que ainda acreditava nisso, em nós, em você e principalmente em mim, acreditava que eu conseguiria lidar e organizar diariamente este caos do sabe-se-lá-deus-quando.
Atesto aqui a minha total incapacidade, inaptidão e incompetência em lidar com você.
Eu o desejei por tanto tempo, em desenhos rabiscados, em letras de músicas cantadas a longos tragos, e plenas de sentido naquela ocasião, e agora digo adeus à todas elas, aos sentidos, aos filmes, ao apelido, a metáfora que fomos um para o outro.
Uma parte de mim que cisma em remanescer, ainda se pergunta o quão intenso realmente foi nosso contato, que por mais breve que tenha sido nos encheu em uma única lufada de tanta esperança...
Permanece ainda aquele gostinho de missão não cumprida, mas eu sei que ele também no devido tempo desaparecerá, como nós dois, que o antecedemos na distância da jaculação amorosa. 
Adeus ao não-era-para-ter-sido, adeus ao não-foi-como-eu-esperava.
Adeus ao nosso não saber continuar.
Adeus a nossa parada brusca.
Adeus ao sonho, ao contato, ao tanger em algo aparentemente sólido, coisa tão rara num mundo fluídico de onde fugimos (um para dentro do outro) e para onde retornamos agora, o mundo etéreo que nos recebe de volta, acolhedor em toda sua inconstância.
Adeus ao que somos agora, incompletos, órfãos, errantes, rebentos, mas principalmente, adeus ao que nunca chegamos a ser.
Adeus a lição que nos ensinamos.
Adeus.






6 de janeiro de 2013

O Buraco.




1.
Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio... É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5.
Ando por outra rua.


Texto extraído de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche (Ed. Talento/Palas Athena)



Apenas.




23 de dezembro de 2012

“O queijo e os vermes” ou “Ode ao meu egocentrismo, ao que não cabe na dispensa, a penteadeira, a este ano de merda, aos Guaranis Kaiowá, a este fim de mundo interno e ao caralho”.




Sonhos maus não me acordem, forças malignas não me abordem.
Hino para a noite.



Quatro noites atrás fui visitado pelo mais aterrador e realista pesadelo que já vivenciei. Nas brumas do sonho, Morfeu me revelou uma versão de mim mesmo, em terceira pessoa, esta versão que via estava viva e debatendo-se angustiada contra milhares de vermes que lhe cobriam o corpo nu, num esforço inútil de limpar-se daquilo que a consumia.
Acordei atordoado, tomei dois banhos demorados, seguidos por longas contemplações no espelho, vasculhando meu corpo, procurando qualquer sinal aterrador de que havia uma verdade oculta naquele sonho, meu corpo pelo contrário, não demonstrava o menor sinal de ter sido coberto por vermes no meio da noite e a racionalidade aos poucos me acalmou, sonhos são distúrbios químicos irrelevantes, afinal não há vermes, não há sujeira, nada esta me cobrindo e me enterrando vivo da maneira menos cristã possível. 
Mas a quietude que se seguiu do sonho foi apenas o prelúdio da tempestade, não a calmaria da bonança.
Os momentos de solidão que tenho me permitido tem se apresentado ambíguos, entre os benefícios e os malefícios que me trazem.  Analisando-me involuntariamente na terceira pessoa, como a perspectiva do sonho, me vejo cercado de uma realidade quase artificial.
Vejo um homem poluído, emparedado, sufocado por vermes metafóricos e invisíveis.
No ano que se passou, incontáveis mudanças se apresentaram a minha frente, se estabelecendo diante da minha vontade pré estabelecida. Nada demais realmente, isso acontece todos os anos na vida de todos os homens.  
Fui vitima de febres amorosas, infecciosas, que num dia chuvoso peguei sem querer, mas ao contrário dos outros tipos de febres essas febres com nome e sobrenome, se curaram de mim primeiro do que eu delas e partiram, prontas para infeccionar e elevar as temperaturas de outros corpos sem nome. Já eu fiquei com resquícios, efeitos colaterais, tentando me curar delas, uma depois das outras, e não estou ainda gozando da plena saúde física e mental depois delas.
O fato de ter sido atravessado por homens no decorrer deste ano como se fosse feito d’água me mostra apenas a minha fluvialidade, mostra que não estou solido o suficiente para impedir ou mesmo interromper um impacto. Eles sim estão sólidos e rijos em suas definições e crenças de como “não amar”, eles poderiam deter qualquer impacto ou tentativa de contato de um ser tão liquido quanto eu. O que me força a absorvê-los, para depois expeli-los tão intactos quanto antes, já eu, num milésimo de segundo do contato, jamais volto a ser o mesmo. Nunca mais.
Tornei-me com o passar dos anos, uma espécie de cão de guarda de mim mesmo, antecipo todas as ações e os perigos que possam vir a ocorrer e me protejo (de mim mesmo muitas vezes) de formas até violentas algumas vezes.  Se minha vida fosse um conto de fadas, eu seria a ponte, a floresta de espinhos, o dragão e a torre, o resto seria acaso e escolha do narrador. 
Afasto os perigos, mesmo os ilusórios, os que entram no meu reino atravessaram mais de cem esfinges que os questionaram o tempo todo... E quando eles decidem sair, algumas vezes escorraçados, as esfinges destronadas e decifradas erguem novamente suas cabeças como se jamais tivessem desejado em suas vidas questionar qualquer um deles, e o seu orgulho leonino os engana, e todos eles acreditam e sentem pena delas, já elas com suas cabeças erguidas miram o horizonte esperando em seu interior o próximo viajante para destroná-las/decifrá-las.
O amor acontece no meio dessa minha incerteza do que sou, nessa liquidez que me define onde todos enxergam uma solidez tão grande que me assusta. Dizem que tenho opiniões formadas, que busco algo mais sério e mais adulto do que pode qualquer ser humano me oferecer, dizem que não podem me iludir e  então atravessam-me... 
O mundo esta louco, minhas histórias de amor se resumem a uma pedra que vira para a água e diz que não pode lidar com sua solidez, e a atravessa, e a água começa a se sentir mais sólida do que a pedra, e pensa que jamais será atravessada de novo, nisso a água continua sendo atravessada constantemente julgando-se solida e a pedra continua atravessando tudo julgando-se liquida.  
A sempre um presságio de perigo e infortúnio no caminho, mesmo quando a felicidade se abate sobre mim tão forte quanto a desilusão, é sempre uma felicidade pouco creditada, como se fosse um engano do destino, como se fosse apenas um defeito.
Estou cada dia mais sendo obrigado a lidar comigo mesmo neste mergulho obrigatório na minha zona abissal, percebo-me agora no final do ano um ser descontrolado.
Me limpo excessivamente e me sinto sujo, fumo até a garganta pigarrear, então me banho, faço inalação e volto a fumar, os números da balança aumentam numa contagem progressiva que adiantam meu fim, “são as festividades!” digo pra mim mesmo, a saúde se esconde, sinto-me prestes a defrontar uma grande enfermidade que não sei qual é e esta palavra me leva novamente as febres e aos vermes.
Duas noites atrás fui visitado novamente por Morfeu, em outro sonho aterrador, estes vem se tornando cada vez mais freqüentes, ele me apresentava em terceira pessoa, no escuro completo, mas era apenas a casca que tinha a minha forma, o ser que me habitava era outro, estranho, maligno, demoníaco, espreitando nas sombras, rastejando como um animal, e eu assistia isso de fora e ao mesmo tempo de dentro pelas janelas dos olhos, preso em mim e possuído por uma força que não sabia e ainda não sei identificar.
Um dia antes do fim do décimo terceiro Baktun do Calendário Maia, consultei um oráculo para saber o que o final desta era me reservava e das setenta e oito cartas, “O Juizo Final” surgiu, informando o período difícil de grandes decisões que se aproximava nestas férias nada relaxantes, afinal, não se pode tirar férias de si.
Os sonhos, os espíritos, todos conspiram para uma grande mudança na minha vida e já nem sei se estou tão interessado nela, na mudança.
Os vermes, a força que me possuía, a carta do Juízo Final, as férias, as festividades, os homens que passaram, as esfinges dentro da minha cabeça consultando seus vernáculos, as esfinges dentro do meu coração colocando galhos de freixo sob o travesseiro na tentativa de trazer-me um sonho de amor no meio de tantos pesadelos. O armário abarrotado de presentes endereçados a pessoas estranhas, a casca agindo socialmente preocupando-se com a vida de outras pessoas numa tentativa falha de fugir da realidade interior, o mundo exterior que me desconhece completamente, o corpo inchando-se, negando-se... Uma guerra interior e pessoal com aquilo que me persegue trezentos e sessenta e cinco dias por ano e promete continuar me perseguindo neste novo ciclo que começa dia primeiro: eu, dizendo a mim mesmo "decifra-me ou devoro-te".





Realidade: talvez eu esteja constantemente me sentindo rejeitado e me protegendo de uma rejeição futura apenas para lembrar a mim mesmo da minha humana insignificância, tenho uma grande missão nesta vida: me diminuir em todos os sentidos.

Epílogo: Minha mãe com seus sentidos de feiticeira previu a tempestade que se formava dentro de mim e abriu um vinho, talvez demônios e vermes morram afogados, quem sabe, talvez eu esteja tentando me limpar de resquícios invisíveis com o líquido errado...


P.s. Os pontos em itálico são apenas verborragias, cacofonias e distorções, mas foi impossível calar a gritaria com que castiguei o papel.





14 de dezembro de 2012

Tous les garçons.




E senti na garganta o nó górdio de todos os amores 
que puderam ter sido e que não foram.

Gabriel García Marquez


O que existe de tão fascinante no amor representado pelo simulacro? Sim, porque o amor, amor mesmo, dos amados, nos é ainda muito estranho. Não chegamos a arranhar sua etérea superfície com o ensaiar de um toque. O amor nos é cantado mas não esta la também, pois nas musicas existem sempre dois personagens pré definidos, o que ama e o que não, a vítima e o carrasco, o que fica e o que vai.
Compramos tal ideia sem correlacioná-la com a realidade que nos é apresentada todo dia.
O que ama apenas ama o amor e não o outro, o que fica o faz por falta de opção e não por escolha, até o inferno chega a ser convidativo para aquele que nada tem.
Já o que não ama nunca amou, o que se foi nunca esteve, portanto na realidade não existe um desamor, não existe partida, ele próprio jamais existirá, até que ame, até que fique e um outro se parta.
Não se pode explicar e também não se pode não entender. Eis o que nos resta.
Não somos o que somos, somos apenas o que nos restou.
O que decidiu não nos “não amar”, o que não partiu. 







16 de outubro de 2012

Sobre os fins, os meios e os começos.




"Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém."

Sete Sonetos e um Quarto – Manuel Alegre, 2005.



O mais estranho de escrever sobre o fim é começar a escrever sobre o fim, ainda mais depois de um certo tempo desde que o fim se estabeleceu. Escrever sobre o fim se torna quase um ato de recomeço, também não deixa de ser um novo começo, ou mesmo uma continuação do que ficou em branco, em silêncio, tudo depois do (inevitável?) fim.
Se os fins justificam os meios, os meios justificam o começo. Antes do meu fim o meio estava até que agradável, vindo de um começo brilhante, com doses cavalares de destino, maturidade, sinceridade, leões imaginários sendo mortos um de cada vez. Então o fim. Abrupto, até mesmo a frase que começou o meu fim é finita “Não existe maneira fácil de fazer isso.”, por mais brincadeiras e trejeitos que o finalizador evocou no momento, o fim é um fim e não mais um meio, muito menos um começo.
A expressão facial (literalmente) que mais se encaixa no meu fim seria o "Ecce Homo" do Elías García Martínez (que fica no santuário espanhol de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja, Zaragoza, Espanha) e que recentemente foi magistralmente ~n~ restaurado pela querida senhorinha Cecilia Giméne. 
O fim agora visto como um recomeço pode também ser encarado como uma restauração, ainda que mal feita e precária, muda a imagem original que no caso era a serenidade do meio, deixando em seu lugar o rosto pasmo e disforme da perplexidade de um fim .
O som do fim não é uma explosão por mais surpresa que ele cause, o fim é o silêncio, a ausência, o abismo.
Seres humanos que somos temos quase que uma vocação biológica para preencher o vazio todo o tempo, e como lidar com o final que nos impõe o vazio, se não o preenchendo?
E nós o preenchemos com o que temos a mão: dúvida, raiva, vingança, compreensão, perdão... Mas acima de tudo nos preenchemos com a análise. Sim, porque basta um fim para que todos os fins voltem a pauta e nos façam questionar onde foi que os meios tornaram-se fins. Vasculhamos com os olhos duvidosos da memória todos os fins, procuramos sintomas, presságios, sinais em plantações, posições estelares, qualquer Nostradamus que pudesse ter nos avisado antes e assim nos preparado. Mas nenhum meio consegue nos preparar para o fim, por mais evidente que este possa ser.
Depois da análise vem a anarquia. Não lidamos muito bem com o imutável que nos mudou completamente, deixamos de ser algo que jamais seremos novamente e passamos a ser outra coisa, ainda nova, indefinida e desconhecida. A fase da anarquia é quase toda preenchida de inconformidade. Odiamos, destruímos, jogamos fora fotos, presentes, futuros não existentes, não suportamos muito, quebramos os templos, destronamos os reis e queimamos os ídolos que antes eram adorados em nossa, agora antiga, realidade.
Culpamos o finalizador, culpamos os deuses, o destino, a nós mesmos. 
Nos enchemos de raiva, de músicas, de poemas, de traduções de uma dor tão intima que como a ferroada de uma abelha, persiste, pulsa. Tudo o que o finalizador fizer, qualquer movimento numa tentativa de se aproximar ou de se afastar, ou mesmo de se recomeçar sozinho em sua nova realidade, machucará, muito. Visto que não sabemos o que nos tornamos depois do fim, como imaginar ou lidar com o que quem nos finalizou é agora? Remédio? Distância: deixa o silêncio do fim ecoar livremente, sem tanta dor, sem reverberação.
Depois de nos preenchermos com tudo ao nosso alcance, escaparmos do ferrão do contato com o finalizador, deixarmos a distância ecoar o silêncio do fim, enfim, nos enchemos.
E começa então o processo inverso, o esvaziamento.
Nos esvaziamos da culpa, própria e alheia, nos esvaziamos dos poemas, das sensações, das montanhas russas, da indefinição, esse esvaziamento é o expirar da dor, toda a dor da inspiração da nova realidade é agora expurgada numa lufada só.
Então voltamos ao vazio, ao silêncio, mas é o vazio aveludado, o silêncio harmonioso, nada mais soa como um fim, tudo é um recomeço, tudo pede para ser reordenado, somos uma prateleira vazia pedindo por novos livros com novas histórias, novos enfeites adquiridos em novas viagens, novos porta retratos, recheados de novos contatos, tudo em nós pede o novo, e é isso que permite que recomecemos, que possamos falar sobre o fim como estou fazendo agora sem se deixar esbarrar em nenhum final, como um rio mágico que só desemboca em novos começos, um rio que contorna pedras e se levanta de quedas... E quanto ao finalizador, este é esvaziado também, já não é sequer o finalizador, foi esvaziado de todos os adjetivos, os bons e os maus, não o odiamos, nem tão pouco o amamos, não o agradecemos, não o perdoamos, não o culpamos e já não clamamos por uma vingança sobre este ser também agora, recomeçado. Não existe mais perdão, não existe mais vingança, o esquecimento é nosso único perdão, o esquecimento é a nossa única vingança. 


"E por fim se esqueceram sem dor…"
O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel Garcia Marquez.






Epílogo:
O coração volta a bater noventa vezes por segundo, 
a princípio por si, por outro só mais pra frente, quem sabe? 
Então o tempo torna-se nosso  sol, nosso marte e nos guia, 
e num belo dia transforma isso tudo em nada. 
O nada tudo esvazia.




22 de setembro de 2012

Venti Cordia ou “Post It” do coração.




"Há cordas no coração que melhor seria não fazê-las vibrar."
Charles Dickens


Minha função mais intrínseca, primordial, quiçá fisiológica é fazê-lo viver, a ti e ao teu corpo, por isso venho pronunciar-me quanto a tua vida. O meu apelo é o mais despretensioso possível, não tenho tempo de discursar sobre minhas idéias e opiniões a respeito da vida que conheço e da que desconheço, dentro e fora de sua caixa torácica o mundo segue um grande mistério para mim, mas mesmo em minha cega e desconhecida ignorância gostaria de dizer uma ou duas palavras sobre os últimos acontecimentos.
Percebi-me acelerando naquela noite, não enxergo mas soube quase que instantaneamente que seus olhos percorriam as palavras dele novamente. As mesmas palavras de novo, ainda não faziam sentido em seu córtex central, mas assustavam ao serem vistas como um todo, um tipo de gestalt que ainda não conheço, acelerei, descompassei, me preocupei com você, com o que lia, com o término anunciado de algo que ainda não tinha certeza se de fato começara, ao menos havia começado para você aqui dentro e todos nós (eu e alguns poucos órgãos) estávamos cientes disso.
O que gerou o meu descompasso não foi de fato o que você sentiu ou pensou sentir naquela noite, foi a repetição, ninguém entende melhor de repetição do que eu, que desde antes de fazê-lo ser, sou.
A repetição me assustou, visto a importância que dava para isso há um ano e a que voltou a dar algumas noites atrás, a repetição da infinita equação amar e não amar, ter e não ter, estar e não estar mais. Essa corda bamba, essa prancha de navio pirata que sempre lhe atira ao vazio e que você chamava de pseudo-namorado, antes e agora. Não era e nem nunca foi, não possuo faculdades desconhecidas como o cérebro, não prevejo o futuro mas sei que nunca viria a ser.
E então veio a anunciada e inevitável separação, não apenas física, mas emocional, separar os seus sentimentos dos dele, os seus erros e precipitações dos dele, somar, subtrair e então dividir.
E lá estávamos nós dois, você dividido, eu quase enfartando, o cérebro sobrecarregado, o corpo sem ar, os pulmões sorvendo nicotina descontroladamente, tornando ainda mais difícil meu trabalho que já não é nem um pouco fácil.
Então, devido a gravidade exacerbada da situação, fizemos um motim, sua consciência talvez esteja estranhando algumas atitudes recentes suas, mas tudo foi meticulosamente planejado por nós, seus vitais. Tudo entrou no automático, no natural, pra facilitar sua vida (e a nossa), para abrandar a sua dor.
Os hormônios mais violentos, alguns deles até grandes culpados desta sua (des) ilusão, foram silenciados, quase todos por mim mesmo. O cérebro parece que já entrou em acordo com todos os nervos que a incompetência vem da parte dele, digo, do cérebro do outro e não do seu, e uma vez tendo encarado esta realidade já desconectou ou ao menos começou a desconectar pelo que soube, qualquer lembrança dele de você, em breve você não o chamara de mais nada, não teremos mais nomes para ele. Nem um unico sentimento que se encaixe nele. Seus músculos faciais concordam que a partir de agora não haverá mais sorrisos para ele. As lágrimas serão contidas antes do orbe ocular, não se incomodarão em subir até os canais, muito menos em descer por eles, o choro será reprimido pela garganta, e as cordas vocais decidiram entrar em greve em tudo que se relacionar a ele, a única coisa que ele ouvirá de você será o som do seu abismo, o som da sua imcapacidade de continuar.
Enfim, acredito realmente que tudo isso dará certo de alguma forma no final, o meu passo não marca o tempo, não o transmuta ou controla, mas podemos mudar (e mudaremos a partir de agora) a forma como você passa por ele, e o tempo que se vire, como nós aqui dentro estamos nos virando também.
Escolhi este momento de repouso em que sua consciência esta silenciada pelo sono, pela brisa noturna, para expor a você o que estamos fazendo e o por que de estarmos fazendo, precisamos de você bem vivo, lúcido, existem células nascendo aqui que querem sua chance de ver o mundo, mesmo que seja apenas esse seu mundo (tao vasto e pleno para nós)  interno.
Quanto a ele, não o conheço, sei que não deve ser de todo mal, sei que você sabe disso também, não o estamos tratando como uma chaga ou uma enfermidade que precisa ser curada, seu sistema imunológico nem entrou nessa jogada, mas acredito que dentro dele tudo tenha sido alinhado premeditadamente para o "até nunca mais", e como nós, desligados que somos, esquecemos de fazer isso por você antes o fazemos agora.
Em breve seu sono acabará e eu preciso voltar ao meu trabalho antes que você enfarte, mas não tenha medo de sonhar de novo, é bom para você e para todos nós quando o faz, apenas lembre-se, ja diria o poeta que você sonha quando olha para fora, mas só acorda quando olha para dentro, ou no meu (e no seu) caso, quando o lado de dentro acorda para o de fora.


Atenciosamente.

Seu coração (lat. cor, grc. Καρδία)





20 de setembro de 2012

Pudera.

2012

A confortante conformidade da ausência de esperança é assustadora.
O torpor da falta de opções, o ópio da inexistência de saídas.
Tudo o que se sabe da vida é que a própria não existe (ou acontece) mediante nossa vontade.
...
Um antigo e sábio ditado grego nos ensina que se quisermos matar um Deus de rir,
basta contar nossos planos a ele.







17 de setembro de 2012

Alucin(ações)





Antes deviam ter te dito que era um labirinto
e eu um minotauro louco e faminto.
Antes.

...

Talvez se eu fosse um pouco menos isso ou aquilo.
Talvez um pouco menos "bom partido", menos experiente.
Talvez.

...






29 de agosto de 2012

Com-partilhar...



Embora ninguém tenha me machucado, ainda assim, estou machucado.
Embora eu não pertença a ninguém, não posso dizer que eu me sinta livre hoje.
Embora ninguém tenha abusado de mim, eu sinto que fui tão abusado.
Embora ninguém tenha me usado, me sinto usado, eu gastei a mim mesmo.
Eu estou cansado de buscar alternativas, estou cansado de puxar mãos,
Estou doente por ter sangrado escondido enquanto esperava por um grande amor...
E embora ninguém tenha expectativas, todos pecam em sua busca pelo momento ideal.
É como se de alguma forma eu tivesse traído a mim mesmo por dentro.
Existe uma parte em nós que sempre espera o melhor,
é melhor que esta parte fique sempre sozinha...


Já faz muito tempo que eu não me permito
escrever um texto com tamanha auto-piedade,
auto-crítica e auto-obsessão.

Acho que eu precisava...




1 de agosto de 2012

A aventura de ficar.





A casa esta em ordem.
Cômodos limpos, organizados.
Louça lavada e guardada.
O quarto do anfitrião voltou
novamente a ser dele...
Os hospedes se foram.
A paz deveria se instalar neste lar.
Mas as paredes concordam
silenciosamente entre si,
de que nada ficou diferente...
Dono e casa permanecem os mesmos.
Vazios.









1 de julho de 2012

A crônica do amor malfadado.





“O burro o rei e eu estaremos mortos amanhã.
O burro de fome, o rei de tédio, 
eu de amor.”

Jacques Prévert


Um botão apertado, uma chamada transferida, um ramal acertado, o simples e corriqueiro ato de atender a uma ligação e soube que ele havia morrido ontem. Consegui ainda terminar a conversação necessária com a pessoa do outro lado da linha, que por algum tipo de dever moral, achou que deveria comunicar-me o ocorrido, este era um antigo amigo, de quando eu e ele, o agora falecido, ainda éramos um casal.  
Como o som pode ser perturbador, qualquer som, quando é necessário ascender a um estado de silencio absoluto e contemplativo, dizer um “obrigado por ter me avisado” é um trabalho de Hércules. Então finalmente, o silêncio... Não um silêncio qualquer, mas o silêncio predecessor, onde é possível ouvir o quase inaudível som das emoções mais profundas, escavando, subindo e brotando, dantes enterradas, agora rastejam contaminando veias, contidas na garganta, sobem aos canais lacrimais por onde deságuam no orbe ocular, e ao fechá-lo num esforço racional e consciente de negação, podemos apenas contemplar mais facilmente aquilo que é visível somente dentro de nós, o passado. 
Chorei pouco, evitei procurar motivos para chorar, se quisesse e quando quisesse, os encontraria, sabia onde estavam. Ele havia sofrido um acidente, seu corpo já estava sem vida quando foi resgatado e estaria ainda sobre a terra até o dia de amanhã, quando seria o funeral.  Não cheguei a pensar se deveria ir, simplesmente fui. 
De uma forma mecânica como na época em que estávamos juntos, olhei os horários de ônibus no guichê da rodoviária, porém ao comprar a passagem não podia mais esperar pelo inesperado, pela surpresa de faltar ao trabalho na segunda feira para passar mais tempo ao lado dele, ou então ajudá-lo a pegar o carro do pai escondido para trazer-me de volta, parando sempre nos acostamentos da rodovia onde rotacionávamos a energia fluida de nossos corpos jovens, em beijos, em sexo, em falta de pudores e preocupação.  
Pela primeira vez, comprei também a passagem de volta e ao receber ambos os bilhetes, senti uma dor estranha, incomum, como se estivesse prestes a ruir, minha estrutura, todo o meu interior estava danificado. 
O cheiro do ônibus, o desconforto reconfortante da viagem que nunca era tão longa, ao menos não tão longa quanto esta, as paisagens que se repetiam à janela, a vida que se repetia na pequena cidade do interior, lojas abertas, pessoas nas ruas, exceto ele, lá tudo remanescia.
Ele não havia se casado ou sido feliz, mas isso não era nada, nem eu que ainda respirava poderia estar cem por cento seguro de que era feliz, mas certamente um dia fora, talvez até ao lado dele. 
Eu já havia desejado cada centímetro quadrado dele, sorvi todas as noites o que ele me oferecia, as conversas, os licores, os líquidos, vivi intoxicado por ele muitos anos depois do término ainda. Mas ele provavelmente não, eu pensava, agora jamais teria a certeza se sim ou não. Ele não mais existia. 
Viveu fugindo de si mesmo, repetindo velhos erros, preso a vícios, ao medo de crescer, àquela maldita cidade, fugiu ao menor imprevisto do destino, ao primeiro obstáculo, ele apenas decidiu se livrar um dia de tudo aquilo que amava, e na ocasião, eu fui uma das “coisas” escolhidas. Eu sofri, ele, quem sabe.
Sorrio ainda ao lembrar das noites em que chorei por ele, pela ausência dele, pelo excesso de sua ausência, pela escassez de sua presença.  Mas com o tempo a dor foi diminuindo, um processo estranho e até então desconhecido para mim, o processo de enterrar, sim porque quem acha que corações partidos são soldados novamente no esquecimento, nunca sentiu o prazer de um coração fundido nas lembranças. Eu o guardei. Aos poucos e sem perceber, sem a intenção, deixei todas as lembranças, os toques, os hálitos, a presença e a ausência guardados em um relicário, e como um álbum de fotos antigo o resgatava de vez em nunca, principalmente quando queria chorar ou sorrir, sim, ainda doía, mas era uma dor mais conformada, não mais a perda do grande amor de uma vida que ainda estava começando, mas sim a perda de um homem que eu amava odiar, um homem capaz de extrair de mim toda sorte de emoções possíveis. Até então julgava tudo isso perdido, mas lá dentro do relicário, ainda estava guardado junto à ele a esperança de um possível futuro.
E naquele momento a esperança que restava de ver o rosto dele ao olhar para mim agora, tantos anos depois, um homem pleno, se rasgou. Senti então a mesma dor que sentira no guichê da estação rodoviária, uma fratura interna, tangível, quase pude ouvir o som de algo se quebrando dentro de minha caixa torácica, a realidade enfim havia me golpeado, se estabelecido. 
Não a realidade de que agora ele estava morto mas sim de que agora eu estava vivo.






26 de junho de 2012

To bear or not to bear?



“Normalmente, são tão poucas as diferenças de homem para homem 
que não há motivo nenhum para sermos vaidosos quanto a elas.”

Barão de Montesquieu.




A relação entre seres do mesmo sexo genético sempre existiu, eis um fato, esta relação esta evidente desde os primórdios da humanidade, no reino animal, e recentemente até mesmo no vegetal. 
Eu, particularmente, discordo que a minha homossexualidade possa ser explicada de uma forma biológica, física e/ou psicológica, todos nós os chamados “desviantes patológicos”, somos doentes mentais. 
No final do século XIX a medicina, a biologia e a então recente psicologia resolveram categorizar todas as doenças humanas, foi então em 1869 que foi criado o termo patológico homossexual. 
Antes dele, a sociedade ocidental dominada moralmente pelo cristianismo, utilizava o termo “sodomita” (“aquele que veio de Sodoma”, cidade da mitologia bíblica em que toda forma de “luxúria” era aceita, atraindo assim a ira de Deus) para identificar o homem que gostava de se relacionar eventualmente com outro, este ser era considerado um verdadeiro “safado”, um pecador, que após rezar algumas “aves Maria” era então perdoado. Isso já não acontecia com o recém descoberto homossexual, cria-se então um personagem com toda uma conduta pré estabelecida, com uma patologia definida, e até mesmo com uma pretensa cura. Este personagem só se libertará deste estigma em 1970, nos EUA, quando pela primeira vez na história, a “homossexualidade” deixa de ser uma patologia. Infelizmente outros personagens tão interessantes e complexos como os transexuais, transgêneros e travestis, não tiveram a mesma sorte e continuam até hoje sendo considerados como doentes mentais, exceto na França, que em 2010 se tornou o primeiro (e infelizmente único) país do mundo que além de considerar os desviantes sexuais como normais, considerou os desviantes de gênero como normais também. Por isso, desconsidero as descobertas psicológicas, fisiológicas, biológicas que tentam explicar a homossexualidade latente do ser humano, pois tentam explicá-la ainda como se fosse uma doença, que necessita de uma explicação e futuramente de uma erradicação. 
Aprecio a minha liberdade de ser o que sou, sem precisar me explicar o que sou, sem precisar me entender.
Mas esta é apenas a minha opinião, doentes mentais ou normais, esta patologia impediu por muitos anos que nós homossexuais exercêssemos nossos direitos civis, e ainda hoje, quarenta e dois anos após a nossa despatologização vivemos à sombra da sociedade, somos considerados um tabu e a homofobia social é implacável, desde o começo do ano no Brasil, se mata um homossexual ou transexual a cada 24hrs, levando o Brasil a ser considerado um dos países com o mais alto nível de homofobia do mundo. Triste.
Uma cultura tão massacrada quanto a cultura gay, que nasceu, se criou e se alimentou nas rebarbas sociais acabou se ramificando com o passar dos anos.
Cada subcultura gay reflete uma forma aprendida de lidar com a atração sexual, o desejo, a revolta, a proibição, a inclusão ou a exclusão social. 
No começo dos anos oitenta em São Francisco, uma dessas subculturas ganha nome, os “Bears”. 
Nascidos de uma fusão dos gays motociclistas, leathers e "girth and mirth" (Cintura e alegria, uma outra subcultura da comunidade gay de gordos e obesos), eram em sua maioria homens que lutavam contra a imposição de padrões de beleza física no mundo gay, principalmente o padrão “twink” (jovem, magro e sem pelos) que não correspondia a grande parte da população gay. Também havia no movimento Bear, uma batalha contra o comportamento gay estereotipado, mostrando que gays poderiam atuar como qualquer outro tipo de homem ou trabalhador na sociedade, não precisando tornar-se uma caricatura do que os outros pensavam a respeito de como um homossexual deveria ser/agir.


No Brasil, a subcultura Bear chegou nos anos noventa nas principais capitais do país, transformando milhares de homossexuais em “ursos”. Já menos idealizada, bem mais conhecida e reconhecida, a “comunidade ursina” se tornou um ponto de encontro e porque não refúgio para homens que não se encaixavam nos padrões de beleza masculina atuais, e para admiradores deste biótipo específico. 
Um urso é um homem com pêlos corporais mais protuberantes (ou não), e um corpo maior que o comum, gordo e/ou obeso que já esteja na faixa dos quarenta anos. Felizmente a comunidade ursina tem atraído cada vez mais adeptos aumentando a ramificação de tipos de ursos, os mais conhecidos são os ursos jovens, considerados “filhotes”, outros apenas com pelos corporais e musculosos são conhecidos como “muscle bears”, os que tem apenas pelos e são magros são os “lontras”, e os admiradores de todos estes biótipos (fazendo parte deles ou não) são considerados “caçadores”.
Com o distanciamento da ideologia inicial, a comunidade ursina cada vez mais se tornou um grupo aberto de indivíduos com interesses comuns. Infelizmente isso gerou uma certa padronização comportamental nos ursos. 
Os ursos são tidos como homens do tipo “macho”, que não possuem qualquer tipo de traços homossexuais, devem interagir entre si, deixando muitas vezes os caçadores um tanto isolados e à margem da comunidade.
 Muitos admiradores que procuram o mundo ursino, procuram justamente por esta lenda que é o perfil do urso atual, o machão peludo e musculoso com trejeitos heterossexuais, nos maiores sites de relacionamentos da comunidade ursina é comum encontrar desavisados, ou pessoas que procuram apenas o ideal de urso: “não curto bichas”, “miou acabou o tesão”, “só acima de 50”, “só abaixo de 50”,“não curto gordos”, “curto gordos, não obesos”, “só sarados e magrelos” entre outras coisas pipocam na maioria dos perfis, mas a grande parte dos integrantes de tais sites de relacionamentos buscam apenas o ideal do machão peludo, lenhador, caminhoneiro, musculoso, que não condiz com a realidade da maior parte dos ursos ali cadastrados. Hipocrisia a parte, é óbvio que cada ser humano tem o direito de gostar ou não de um biótipo, um grupo ou mesmo uma característica física que mais lhe aprouver, mas muitos já não sabem mais o que esperar deste grupo que cada dia mais se ramifica, ganha exposição e distancia-se mais de sua origem como comunidade underground da cultura gay. Mas como toda a luta contra a padronização da beleza e do comportamento homossexual que determinaram o surgimento da comunidade ursina, tornaram-se hoje, a sua mais conflitante característica? 
Eu mesmo tenho uma experiência pessoal com a minha breve passagem pela comunidade ursina para relatar. Durante toda a minha vida, fui um urso, mesmo sem o saber. Possuía pelos corporais, estava constantemente e as vezes muito acima do peso ideal, totalmente adepto de tatuagens, piercings, blusas xadrez e barba. E antes do mundo ursino, sempre mantive relações com outros homens que não sei bem o porquê, não me viam como um urso, muito menos eu os via como ursos, lontras, caçadores etc. 
Mas com o passar dos anos a minha capacidade em tolerar a imbecilidade alheia foi diminuindo amargamente, frases como “fulano te achou gordinho demais”, “você precisa perder umas arrobas”, “se você emagrecer você vai pegar todos, você tem um rosto lindo” estavam presentes na minha realidade, não que eu me importasse demais com elas, mas quando fui apresentado ao mundo ursino pela primeira vez, senti que finalmente havia encontrado o meu lugar. Afinal, estaria lidando com pessoas iguais a mim e com pessoas que mesmo não sendo iguais a mim admiravam ou achavam perfeitamente aceitável o que eu era. Ledo engano.
Não me culpem por esta inocente e utópica expectativa, afinal, ainda era um neófito. À medida que me aprofundava no mundo ursino, cada vez mais encontrava pessoas completamente diferentes de mim e a maior parte delas não achava nem um pouco aceitável o que eu era, para minha surpresa, estar dentro do mundo ursino era exatamente a mesma coisa que estar fora dele.
Ou seja, o número de homens interessantes (pra mim) no mundo ursino era tão escasso quanto o número de homens interessantes fora dele. Tive um grande choque ao perceber que minha vida afetiva e sexual não mudaram em absolutamente nada, incluindo minha auto-estima e minha melancolia não haviam sequer saído do lugar. 
O que eu levei muito tempo para perceber, é que o urso lindo e educado que conheci, seria o moço lindo e educado que eu adoraria conhecer, assim como aqueles caçadores super fofos, inteligentes e instigantes seriam os rapazes super fofos, inteligentes, instigantes que eu também adoraria conhecer caso não soubesse da existência do mundo ursino. Com o tempo ficou claro pra mim, que o mundo ursino servia basicamente para reunir pessoas extremamente diferentes com poucos interesses em comum. Resumindo, o mundo ursino é simplesmente o mundo real disfarçado, e isso é maravilhoso.
Hoje em dia não me considero mais um urso, porque percebi o quanto este título é parecido ao título que eu já tinha antes de sê-lo, ou seja: um cara qualquer. Mas sim, quando me chamam de urso, ursinho, filhote, etc, eu tenho um orgulho imenso de ao menos em nome, representar uma ideologia tão nobre, e um grupo de pessoas tão corajosas que são fiéis a seus corpos, aos seus desejos, não importando o que a padronização ou massificação lhes dita. 
E para concluir esta pequena resenha sobre minha visão do mundo ursino, posso dizer que eu, quanto indivíduo, cidadão, sodomita, homossexual, homem acima do peso com pelos corporais, urso, filhote, etc, irei lutar pela igualdade sempre que a diferença me discriminar e lutarei pela diferença sempre que a igualdade me descaracterizar. 





MANUAL SINCERO E PESSOAL DO URSO NEÓFITO


Entrei no mundo ursino sem a menor orientação, escrevi e-mails para as maiores revistas e sites do ramo pedindo dicas de como me comportar no mundo ursino, como utilizar o mundo ursino para me enturmar, e até hoje, não recebi sequer uma resposta. Por isso aqui vai um compêndio da bear-etiqueta pra você não fazer feio e conseguir desfrutar o mundo ursino da melhor maneira possível, seguindo algumas dicas básicas que consegui a duras penas reunir durante este ano. Nenhuma delas pode ser considerada uma regra pois sempre existe a exceção, mas são sinceras e geralmente estão corretas.

1- Se você é gordinho/gordo/obeso saiba que não será idolatrado como um deus no mundo ursino, por isso entre nele com a noção clara de que você não precisa dele para elevar a sua auto-estima e nem para se sentir aceito, você deve fazer isso sozinho e por si mesmo.

2- Se você é caçador e também não se encontra nos padrões do mundo ursino mas gosta de ursos, clássicos ou modernos e se sente de certa forma excluído, recomendo paciência, o seu ursinho vai chegar, seja especifico quanto ao tipo de urso que busca e boa sorte.

3- No mundo ursino os caçadores dizem que os ursos são galinhas, os ursos dizem que os caçadores são galinhas, e todo mundo no final faz suruba. Portanto sem hipocrisia, saiba aproveitar o mundo ursino em geral, e seja bastante enfático quanto aquilo que você realmente precisa, para não se sentir vazio ou decepcionado.

4- Se você é gordinho e tem baixa estima devido a não se encontrar no padrão de beleza atual e acha que no mundo ursino irá encontrar aquele boy magia sarado e lindo que não se importará com suas gordurinhas a mais, tire seu cavalo da chuva, a maior parte dos caçadores deste tipo são divididos em 3 características: procuram homens acima dos 60 ($$$), procuram o padrão urso de filmes pornôs como o Sagat, ou esta ali desavisado sem saber o que é um urso e procura semelhantes, por isso não tente utilizar o mundo ursino para melhorar a qualidade de homens que você pega, mesmo porque já esta na hora de você aprender que qualidade não se define por abdômen sarado ou qualquer outra característica física que esteja na moda.

5- Ursos são passivos, ursos são novos, ursos são velhos, ursos amam moda, ursos são afetados, e o principal ursos também são gordos, vamos parar com essa idiotice que o verdadeiro urso é aquele ator pornô careca tatuado sarado e peludo que come o cara de bota, ele também pode ser um urso, mas isso não faz dele a regra, esta mais para exceção.

6- Particularmente não conheço muitos revistas ou blogs que tratem do assunto de maneira clara para que eu possa recomendar (se alguém conhecer, deixe o link nos comentários), blogs que recomendo são o Woof Brasil (www.woofbrasil.com) e o Bear Nerd (www.bearnerd.com.br/), ambos exploram diversos temas bears e também temas gerais de maneira bem humorada, existe também o maior site brasileiro de relacionamentos ursinos que é bem legal pra você conhecer pessoas interessantes, mas é claro, respeitando as regras acima (www.ursos.com.br), quanto as festas, bares, etc, que acontecem sempre, nenhuma me pareceu diferente de qualquer outra festa, ou bar, etc, mas isso é questão de gosto, se informe e curta muito lembrando das regras acima. Quanto a aplicativos de celular, recomendo apenas o “Growlr” aparentemente é o único aplicativo em que as pessoas parecem saber o que realmente é o mundo ursino.

7- Por ultimo, não se esqueça que qualquer microcosmo é na verdade o macrocosmo em miniatura. Ou seja, os problemas que você enfrenta do lado de cá, enfrentará também do lado de lá. Não encare o mundo ursino como sua tabua de salvação ou sua única saída, encare ele como uma opção e aproveite-a da melhor maneira possível, lembre-se sempre que o mundo ursino é uma versão disfarçada do mundo real, entre nele e seja um urso, um filhote, um muscle-bear, um lontra ou um caçador, mas acima de tudo, esteja preparado para ser aquilo que você realmente é, seja você o que for...


É bem isso meus queridos.
Beijos sinceros.