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19 de setembro de 2013

Quando.

João Carlos Gallazzini e Lucky ♥


"Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar 
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta.
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta."

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do mar (1947)



Que mundo vivemos onde numa tarde ao ler o nome de uma pessoa querida no local mais impossível onde este nome deveria estar, nossa realidade toda se transforma. O passado por mais inquietante e dolorido que seja se torna nosso único abrigo, onde podemos revisitar lembranças em nossos momentos mais pessoais. Continuarei sempre revisitando meu querido João, o pai do Lucky, um homem lindo em todos os sentidos, revisitarei a vergonha que senti de conhecê-lo sabendo que minha amiga havia fanfarronamente contado para ele (seu pai) que eu o achava uma graça, revisitarei as ligações dele na rádio dedicando a ela (a filha) músicas dos beatles, em especial Penny Lane. Estarei revisitando continuamente este homem que eu tanto invejava, era o pai da moça que eu gostaria de ter como filha, era o marido da melhor doceira de toda a região e tinha um dos melhores gostos musicais do mundo. Que Perséfone te receba com sua doçura, que essa despedida seja alegre e que todos possamos nos reencontrar.








23 de dezembro de 2012

“O queijo e os vermes” ou “Ode ao meu egocentrismo, ao que não cabe na dispensa, a penteadeira, a este ano de merda, aos Guaranis Kaiowá, a este fim de mundo interno e ao caralho”.




Sonhos maus não me acordem, forças malignas não me abordem.
Hino para a noite.



Quatro noites atrás fui visitado pelo mais aterrador e realista pesadelo que já vivenciei. Nas brumas do sonho, Morfeu me revelou uma versão de mim mesmo, em terceira pessoa, esta versão que via estava viva e debatendo-se angustiada contra milhares de vermes que lhe cobriam o corpo nu, num esforço inútil de limpar-se daquilo que a consumia.
Acordei atordoado, tomei dois banhos demorados, seguidos por longas contemplações no espelho, vasculhando meu corpo, procurando qualquer sinal aterrador de que havia uma verdade oculta naquele sonho, meu corpo pelo contrário, não demonstrava o menor sinal de ter sido coberto por vermes no meio da noite e a racionalidade aos poucos me acalmou, sonhos são distúrbios químicos irrelevantes, afinal não há vermes, não há sujeira, nada esta me cobrindo e me enterrando vivo da maneira menos cristã possível. 
Mas a quietude que se seguiu do sonho foi apenas o prelúdio da tempestade, não a calmaria da bonança.
Os momentos de solidão que tenho me permitido tem se apresentado ambíguos, entre os benefícios e os malefícios que me trazem.  Analisando-me involuntariamente na terceira pessoa, como a perspectiva do sonho, me vejo cercado de uma realidade quase artificial.
Vejo um homem poluído, emparedado, sufocado por vermes metafóricos e invisíveis.
No ano que se passou, incontáveis mudanças se apresentaram a minha frente, se estabelecendo diante da minha vontade pré estabelecida. Nada demais realmente, isso acontece todos os anos na vida de todos os homens.  
Fui vitima de febres amorosas, infecciosas, que num dia chuvoso peguei sem querer, mas ao contrário dos outros tipos de febres essas febres com nome e sobrenome, se curaram de mim primeiro do que eu delas e partiram, prontas para infeccionar e elevar as temperaturas de outros corpos sem nome. Já eu fiquei com resquícios, efeitos colaterais, tentando me curar delas, uma depois das outras, e não estou ainda gozando da plena saúde física e mental depois delas.
O fato de ter sido atravessado por homens no decorrer deste ano como se fosse feito d’água me mostra apenas a minha fluvialidade, mostra que não estou solido o suficiente para impedir ou mesmo interromper um impacto. Eles sim estão sólidos e rijos em suas definições e crenças de como “não amar”, eles poderiam deter qualquer impacto ou tentativa de contato de um ser tão liquido quanto eu. O que me força a absorvê-los, para depois expeli-los tão intactos quanto antes, já eu, num milésimo de segundo do contato, jamais volto a ser o mesmo. Nunca mais.
Tornei-me com o passar dos anos, uma espécie de cão de guarda de mim mesmo, antecipo todas as ações e os perigos que possam vir a ocorrer e me protejo (de mim mesmo muitas vezes) de formas até violentas algumas vezes.  Se minha vida fosse um conto de fadas, eu seria a ponte, a floresta de espinhos, o dragão e a torre, o resto seria acaso e escolha do narrador. 
Afasto os perigos, mesmo os ilusórios, os que entram no meu reino atravessaram mais de cem esfinges que os questionaram o tempo todo... E quando eles decidem sair, algumas vezes escorraçados, as esfinges destronadas e decifradas erguem novamente suas cabeças como se jamais tivessem desejado em suas vidas questionar qualquer um deles, e o seu orgulho leonino os engana, e todos eles acreditam e sentem pena delas, já elas com suas cabeças erguidas miram o horizonte esperando em seu interior o próximo viajante para destroná-las/decifrá-las.
O amor acontece no meio dessa minha incerteza do que sou, nessa liquidez que me define onde todos enxergam uma solidez tão grande que me assusta. Dizem que tenho opiniões formadas, que busco algo mais sério e mais adulto do que pode qualquer ser humano me oferecer, dizem que não podem me iludir e  então atravessam-me... 
O mundo esta louco, minhas histórias de amor se resumem a uma pedra que vira para a água e diz que não pode lidar com sua solidez, e a atravessa, e a água começa a se sentir mais sólida do que a pedra, e pensa que jamais será atravessada de novo, nisso a água continua sendo atravessada constantemente julgando-se solida e a pedra continua atravessando tudo julgando-se liquida.  
A sempre um presságio de perigo e infortúnio no caminho, mesmo quando a felicidade se abate sobre mim tão forte quanto a desilusão, é sempre uma felicidade pouco creditada, como se fosse um engano do destino, como se fosse apenas um defeito.
Estou cada dia mais sendo obrigado a lidar comigo mesmo neste mergulho obrigatório na minha zona abissal, percebo-me agora no final do ano um ser descontrolado.
Me limpo excessivamente e me sinto sujo, fumo até a garganta pigarrear, então me banho, faço inalação e volto a fumar, os números da balança aumentam numa contagem progressiva que adiantam meu fim, “são as festividades!” digo pra mim mesmo, a saúde se esconde, sinto-me prestes a defrontar uma grande enfermidade que não sei qual é e esta palavra me leva novamente as febres e aos vermes.
Duas noites atrás fui visitado novamente por Morfeu, em outro sonho aterrador, estes vem se tornando cada vez mais freqüentes, ele me apresentava em terceira pessoa, no escuro completo, mas era apenas a casca que tinha a minha forma, o ser que me habitava era outro, estranho, maligno, demoníaco, espreitando nas sombras, rastejando como um animal, e eu assistia isso de fora e ao mesmo tempo de dentro pelas janelas dos olhos, preso em mim e possuído por uma força que não sabia e ainda não sei identificar.
Um dia antes do fim do décimo terceiro Baktun do Calendário Maia, consultei um oráculo para saber o que o final desta era me reservava e das setenta e oito cartas, “O Juizo Final” surgiu, informando o período difícil de grandes decisões que se aproximava nestas férias nada relaxantes, afinal, não se pode tirar férias de si.
Os sonhos, os espíritos, todos conspiram para uma grande mudança na minha vida e já nem sei se estou tão interessado nela, na mudança.
Os vermes, a força que me possuía, a carta do Juízo Final, as férias, as festividades, os homens que passaram, as esfinges dentro da minha cabeça consultando seus vernáculos, as esfinges dentro do meu coração colocando galhos de freixo sob o travesseiro na tentativa de trazer-me um sonho de amor no meio de tantos pesadelos. O armário abarrotado de presentes endereçados a pessoas estranhas, a casca agindo socialmente preocupando-se com a vida de outras pessoas numa tentativa falha de fugir da realidade interior, o mundo exterior que me desconhece completamente, o corpo inchando-se, negando-se... Uma guerra interior e pessoal com aquilo que me persegue trezentos e sessenta e cinco dias por ano e promete continuar me perseguindo neste novo ciclo que começa dia primeiro: eu, dizendo a mim mesmo "decifra-me ou devoro-te".





Realidade: talvez eu esteja constantemente me sentindo rejeitado e me protegendo de uma rejeição futura apenas para lembrar a mim mesmo da minha humana insignificância, tenho uma grande missão nesta vida: me diminuir em todos os sentidos.

Epílogo: Minha mãe com seus sentidos de feiticeira previu a tempestade que se formava dentro de mim e abriu um vinho, talvez demônios e vermes morram afogados, quem sabe, talvez eu esteja tentando me limpar de resquícios invisíveis com o líquido errado...


P.s. Os pontos em itálico são apenas verborragias, cacofonias e distorções, mas foi impossível calar a gritaria com que castiguei o papel.





14 de dezembro de 2012

Prece ao ano que finda.




"Para o acaso, 
de aqueles que pela vontade de acreditar no que querem, 
me procurem, que jamais me encontrem.
E que, no acaso da minha inocência ao contrário deles
querer acreditar, simplesmente assim,  por ainda querer, 
Que por aquilo/aquele que tão docemente num futuro me será apresentado,
que eu jamais seja encontrado."

Amem.





25 de novembro de 2012

A última vela.





“Somente um amor incompleto pode ser romântico...”
Woody Allen


Contaram-me uma vez, que em certo lugar do mundo numa época talvez distante, talvez ontem, não me recordo, vivia sozinho um infante dentro de um castelo.
O castelo em questão não tinha portas nem janelas, o rapaz era tudo que nele remanescia, era a sobra de uma longa linhagem real que fora interrompida em si mesmo. 
Não sei do que se trata essa história, se foi algum tipo de malefício que o deixou naquela condição, ou se foi apenas culpa, mas ele estava emparedado naquele casarão a muitos anos... Bem, sei que era filho único e ao descobrir-se apaixonado por um outro jovem, decidiu não consumar seu casamento com a princesa sua noiva, esta era de outro reino, de sua mesma e indefinida época, e o real compromisso havia sido firmado antes mesmo dele nascer pelos monarcas seus pais. 
Foram dias negros para o reino e sua corte, esta desfez-se quase que imediatamente, logo não havia general, não haviam pajens, cavaleiros ou mesmo súditos naquela região.  O tal rapagão que roubara a afeição do príncipe foi enforcado, antes mesmo que pudesse esclarecer que não nutria o mesmo sentimento, sequer havia trocado duas palavras com vossa alteza e já era enamorado de uma donzela que vivia na floresta. Nem mesmo o príncipe o pode salvar, explicando que como em quase todos os casos de amor, havia se apaixonado sozinho e que o pobre condenado em nada havia contribuído com isso, exceto pelo fato de ter nascido. Acontecera. 
E então aquelas terras foram amaldiçoadas, ao menos é o que diziam os mascastes e viajantes, todos persignavam-se caso precisassem cruzar um único passo para dentro de sua fronteira maligna. Logo, só restara o rei, a rainha, o príncipe e a maldição ou culpa que aos poucos se apossava do lugar, preenchendo os cômodos vazios do palácio...
O rei e a rainha tentaram desesperadamente ter outro filho, até mesmo uma filha com um coração mais sensato seria bem vinda naquele momento para abrandar o mal olhado que o primogênito lançara na família inteira. 
Em uma de suas tortuosas tentativas, a rainha que já não era mais tão jovem, obteve sucesso, porém toda a luz da esperança extinguisse rapidamente, quando o filho ainda não nascido e a rainha pereceram na ultima noite do inverno mais rigoroso que eles viveram juntos, ainda como família.
E depois disso o rei desapareceu... Óbvio demais, eu sei, mas o que mais me intriga nessa história é que as portas, janelas, mobília, tudo decidiu acompanhá-lo. As paredes rapidamente fecharam as máculas deixadas pelas fendas das janelas e batentes que agora estavam ausentes, preenchendo-se de mais paredes, apenas o necessário para manter o teto sob suas cabeças. O castelo tornou-se praticamente maciço por fora e vazio por dentro, havia paredes, paredes, teto, príncipe e apenas uma vela. 
A vela foi tudo o que ficou, talvez em sua mente de vela, tenha decidido ficar pelo mesmo motivo que as portas e janelas decidiram partir, talvez não tivesse tido tempo de sair junto com as outras velas antes que as paredes tivessem se fechado para manter o castelo estruturado e em pé, de qualquer forma, em sua simplicidade de objeto despretensioso, já que ali ficara, decidiu então iluminar. Iluminar o vazio escuro do castelo, e sendo ela a única vela, decidiu sozinha jamais se extinguir. 
Assim ela iluminou o príncipe por muitos anos, tantos quantos se podem contar dentro de quatro paredes, ou talvez apenas por alguns breves minutos, não se sabe ao certo, o passar do tempo, o arrastar das horas ainda é um mistério dentro de uma casa sem janelas onde vive um único morador sem futuro...



(Continua)





16 de outubro de 2012

Sobre os fins, os meios e os começos.




"Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém."

Sete Sonetos e um Quarto – Manuel Alegre, 2005.



O mais estranho de escrever sobre o fim é começar a escrever sobre o fim, ainda mais depois de um certo tempo desde que o fim se estabeleceu. Escrever sobre o fim se torna quase um ato de recomeço, também não deixa de ser um novo começo, ou mesmo uma continuação do que ficou em branco, em silêncio, tudo depois do (inevitável?) fim.
Se os fins justificam os meios, os meios justificam o começo. Antes do meu fim o meio estava até que agradável, vindo de um começo brilhante, com doses cavalares de destino, maturidade, sinceridade, leões imaginários sendo mortos um de cada vez. Então o fim. Abrupto, até mesmo a frase que começou o meu fim é finita “Não existe maneira fácil de fazer isso.”, por mais brincadeiras e trejeitos que o finalizador evocou no momento, o fim é um fim e não mais um meio, muito menos um começo.
A expressão facial (literalmente) que mais se encaixa no meu fim seria o "Ecce Homo" do Elías García Martínez (que fica no santuário espanhol de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja, Zaragoza, Espanha) e que recentemente foi magistralmente ~n~ restaurado pela querida senhorinha Cecilia Giméne. 
O fim agora visto como um recomeço pode também ser encarado como uma restauração, ainda que mal feita e precária, muda a imagem original que no caso era a serenidade do meio, deixando em seu lugar o rosto pasmo e disforme da perplexidade de um fim .
O som do fim não é uma explosão por mais surpresa que ele cause, o fim é o silêncio, a ausência, o abismo.
Seres humanos que somos temos quase que uma vocação biológica para preencher o vazio todo o tempo, e como lidar com o final que nos impõe o vazio, se não o preenchendo?
E nós o preenchemos com o que temos a mão: dúvida, raiva, vingança, compreensão, perdão... Mas acima de tudo nos preenchemos com a análise. Sim, porque basta um fim para que todos os fins voltem a pauta e nos façam questionar onde foi que os meios tornaram-se fins. Vasculhamos com os olhos duvidosos da memória todos os fins, procuramos sintomas, presságios, sinais em plantações, posições estelares, qualquer Nostradamus que pudesse ter nos avisado antes e assim nos preparado. Mas nenhum meio consegue nos preparar para o fim, por mais evidente que este possa ser.
Depois da análise vem a anarquia. Não lidamos muito bem com o imutável que nos mudou completamente, deixamos de ser algo que jamais seremos novamente e passamos a ser outra coisa, ainda nova, indefinida e desconhecida. A fase da anarquia é quase toda preenchida de inconformidade. Odiamos, destruímos, jogamos fora fotos, presentes, futuros não existentes, não suportamos muito, quebramos os templos, destronamos os reis e queimamos os ídolos que antes eram adorados em nossa, agora antiga, realidade.
Culpamos o finalizador, culpamos os deuses, o destino, a nós mesmos. 
Nos enchemos de raiva, de músicas, de poemas, de traduções de uma dor tão intima que como a ferroada de uma abelha, persiste, pulsa. Tudo o que o finalizador fizer, qualquer movimento numa tentativa de se aproximar ou de se afastar, ou mesmo de se recomeçar sozinho em sua nova realidade, machucará, muito. Visto que não sabemos o que nos tornamos depois do fim, como imaginar ou lidar com o que quem nos finalizou é agora? Remédio? Distância: deixa o silêncio do fim ecoar livremente, sem tanta dor, sem reverberação.
Depois de nos preenchermos com tudo ao nosso alcance, escaparmos do ferrão do contato com o finalizador, deixarmos a distância ecoar o silêncio do fim, enfim, nos enchemos.
E começa então o processo inverso, o esvaziamento.
Nos esvaziamos da culpa, própria e alheia, nos esvaziamos dos poemas, das sensações, das montanhas russas, da indefinição, esse esvaziamento é o expirar da dor, toda a dor da inspiração da nova realidade é agora expurgada numa lufada só.
Então voltamos ao vazio, ao silêncio, mas é o vazio aveludado, o silêncio harmonioso, nada mais soa como um fim, tudo é um recomeço, tudo pede para ser reordenado, somos uma prateleira vazia pedindo por novos livros com novas histórias, novos enfeites adquiridos em novas viagens, novos porta retratos, recheados de novos contatos, tudo em nós pede o novo, e é isso que permite que recomecemos, que possamos falar sobre o fim como estou fazendo agora sem se deixar esbarrar em nenhum final, como um rio mágico que só desemboca em novos começos, um rio que contorna pedras e se levanta de quedas... E quanto ao finalizador, este é esvaziado também, já não é sequer o finalizador, foi esvaziado de todos os adjetivos, os bons e os maus, não o odiamos, nem tão pouco o amamos, não o agradecemos, não o perdoamos, não o culpamos e já não clamamos por uma vingança sobre este ser também agora, recomeçado. Não existe mais perdão, não existe mais vingança, o esquecimento é nosso único perdão, o esquecimento é a nossa única vingança. 


"E por fim se esqueceram sem dor…"
O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel Garcia Marquez.






Epílogo:
O coração volta a bater noventa vezes por segundo, 
a princípio por si, por outro só mais pra frente, quem sabe? 
Então o tempo torna-se nosso  sol, nosso marte e nos guia, 
e num belo dia transforma isso tudo em nada. 
O nada tudo esvazia.




1 de julho de 2012

A crônica do amor malfadado.





“O burro o rei e eu estaremos mortos amanhã.
O burro de fome, o rei de tédio, 
eu de amor.”

Jacques Prévert


Um botão apertado, uma chamada transferida, um ramal acertado, o simples e corriqueiro ato de atender a uma ligação e soube que ele havia morrido ontem. Consegui ainda terminar a conversação necessária com a pessoa do outro lado da linha, que por algum tipo de dever moral, achou que deveria comunicar-me o ocorrido, este era um antigo amigo, de quando eu e ele, o agora falecido, ainda éramos um casal.  
Como o som pode ser perturbador, qualquer som, quando é necessário ascender a um estado de silencio absoluto e contemplativo, dizer um “obrigado por ter me avisado” é um trabalho de Hércules. Então finalmente, o silêncio... Não um silêncio qualquer, mas o silêncio predecessor, onde é possível ouvir o quase inaudível som das emoções mais profundas, escavando, subindo e brotando, dantes enterradas, agora rastejam contaminando veias, contidas na garganta, sobem aos canais lacrimais por onde deságuam no orbe ocular, e ao fechá-lo num esforço racional e consciente de negação, podemos apenas contemplar mais facilmente aquilo que é visível somente dentro de nós, o passado. 
Chorei pouco, evitei procurar motivos para chorar, se quisesse e quando quisesse, os encontraria, sabia onde estavam. Ele havia sofrido um acidente, seu corpo já estava sem vida quando foi resgatado e estaria ainda sobre a terra até o dia de amanhã, quando seria o funeral.  Não cheguei a pensar se deveria ir, simplesmente fui. 
De uma forma mecânica como na época em que estávamos juntos, olhei os horários de ônibus no guichê da rodoviária, porém ao comprar a passagem não podia mais esperar pelo inesperado, pela surpresa de faltar ao trabalho na segunda feira para passar mais tempo ao lado dele, ou então ajudá-lo a pegar o carro do pai escondido para trazer-me de volta, parando sempre nos acostamentos da rodovia onde rotacionávamos a energia fluida de nossos corpos jovens, em beijos, em sexo, em falta de pudores e preocupação.  
Pela primeira vez, comprei também a passagem de volta e ao receber ambos os bilhetes, senti uma dor estranha, incomum, como se estivesse prestes a ruir, minha estrutura, todo o meu interior estava danificado. 
O cheiro do ônibus, o desconforto reconfortante da viagem que nunca era tão longa, ao menos não tão longa quanto esta, as paisagens que se repetiam à janela, a vida que se repetia na pequena cidade do interior, lojas abertas, pessoas nas ruas, exceto ele, lá tudo remanescia.
Ele não havia se casado ou sido feliz, mas isso não era nada, nem eu que ainda respirava poderia estar cem por cento seguro de que era feliz, mas certamente um dia fora, talvez até ao lado dele. 
Eu já havia desejado cada centímetro quadrado dele, sorvi todas as noites o que ele me oferecia, as conversas, os licores, os líquidos, vivi intoxicado por ele muitos anos depois do término ainda. Mas ele provavelmente não, eu pensava, agora jamais teria a certeza se sim ou não. Ele não mais existia. 
Viveu fugindo de si mesmo, repetindo velhos erros, preso a vícios, ao medo de crescer, àquela maldita cidade, fugiu ao menor imprevisto do destino, ao primeiro obstáculo, ele apenas decidiu se livrar um dia de tudo aquilo que amava, e na ocasião, eu fui uma das “coisas” escolhidas. Eu sofri, ele, quem sabe.
Sorrio ainda ao lembrar das noites em que chorei por ele, pela ausência dele, pelo excesso de sua ausência, pela escassez de sua presença.  Mas com o tempo a dor foi diminuindo, um processo estranho e até então desconhecido para mim, o processo de enterrar, sim porque quem acha que corações partidos são soldados novamente no esquecimento, nunca sentiu o prazer de um coração fundido nas lembranças. Eu o guardei. Aos poucos e sem perceber, sem a intenção, deixei todas as lembranças, os toques, os hálitos, a presença e a ausência guardados em um relicário, e como um álbum de fotos antigo o resgatava de vez em nunca, principalmente quando queria chorar ou sorrir, sim, ainda doía, mas era uma dor mais conformada, não mais a perda do grande amor de uma vida que ainda estava começando, mas sim a perda de um homem que eu amava odiar, um homem capaz de extrair de mim toda sorte de emoções possíveis. Até então julgava tudo isso perdido, mas lá dentro do relicário, ainda estava guardado junto à ele a esperança de um possível futuro.
E naquele momento a esperança que restava de ver o rosto dele ao olhar para mim agora, tantos anos depois, um homem pleno, se rasgou. Senti então a mesma dor que sentira no guichê da estação rodoviária, uma fratura interna, tangível, quase pude ouvir o som de algo se quebrando dentro de minha caixa torácica, a realidade enfim havia me golpeado, se estabelecido. 
Não a realidade de que agora ele estava morto mas sim de que agora eu estava vivo.






21 de setembro de 2011

O moço de dentro do quadro.

Gustave Courbet 'Self-Portrait, The Despairing Man' 1843-1845



Existe na Lua branca algo de encantado
Aos jovens que lêem essa história, cuidado: 
O ouro e os diamantes apenas têm seu valor,
Para os assuntos que não se tratam de amor.

Aconteceu com um jovem senhor abastado, 
 Ornado de puro bronze, prata e ouro,
E possuindo o rapaz tamanho tesouro, 
Podia desposar qualquer jovem do povoado.

Foi ter imediatamente com a que era mais bela
Mas temeu quando percebeu que a donzela, 
Além de bela também era astuta e inteligente, 
Uma linda fada com o coração de serpente.

Decidiu procurar o pai de uma que fosse bondosa, 
Uma donzela ainda jovem, casta, tímida e formosa
Com um coração leve, sem nenhuma ambição
Candidata perfeita para realizar tal transação.

Acertou com o velho que ela seria a prometida, 
E sendo ele pobre e sem posses não teve saída,
A não ser dar embora a sua única filha amada, 
Nos braços do estranho que cruzou a sua entrada.

Receberá muito ouro por isso meu caro senhor
Que destino melhor há para a filha de um pastor?
Disse-lhe o belo jovem que já estava saindo,
A pensar em seu bom casamento sorrindo...

A bela donzela, porém, já estava apaixonada
E é a partir de agora que a trama fica emaranhada, 
Pois o jovem que lhe despertara tanto sentimento
Era só um moço pintado num quadro do convento.

O artista que o pintou nunca foi revelado
Há muito sua assinatura havia se apagado,
E o modelo da obra havia morrido há tanto tempo
Que lhe restava apenas uma imagem no convento.

E mesmo assim, sem saber por que, ela o amava,
Dia e noite, perdida em si, o quadro admirava, 
E quanto mais os homens diziam-lhe que era bela, 
Mais queria transformar suas cores em aquarela,

E para dentro do quadro ser transportada, 
Ao menos para tocá-lo por um só momento
E assim junto a ele congelar seu amor no tempo,
E no convento ser para sempre emparedada.

Quando soube da boa nova contada pelo pastor, 
A pobre jovem se desesperou em dores, 
Pois estava morto o seu sonho impossível de amor,
De viver ao lado do amado transformada em cores.

O desespero a levou até o topo da colina
Onde vivia uma senhorita traiçoeira
De medo regelou-se todo o corpo da menina
Ao deparar-se com a beleza da feiticeira.

Esta era a primeira moça que o senhor visitara, 
E com o coração inflamado de um ciúmes mortal,
Decidiu que enganaria a pobre jovem aflita,
Para que ela sofresse ainda mais até o instante final. 

Porem sua melancolia era tão verdadeira,
Que nem mesmo a mais poderosa feiticeira
Poderia odiar tamanha criatura inocente, 
E comovida, a bruxa ofereceu-lhe um presente:

"Tenho aqui um feitiço forte e adequado, 
Um veneno da lua, que no eclipse foi destilado, 
Vá durante a noite até o convento disfarçada, 
Com o elixir a tela deve ser toda encharcada, 

E do rapaz pintado se dissolverão as cores, 
E com isso desaparecerá todas as suas dores, 
E quando a tela jazer vazia, branca e acabada, 
Por ele não há de sentir mais nada...

E por mais que agora desprezes teu prometido, 
Ficarás com o coração livre para amar teu marido.
E a deusa da felicidade estará então convidada
A cuidar da tua futura vida de casada."

E a jovem apesar de triste, sentiu-se aliviada,
Sabia que seu amor nunca a levaria a nada, 
Seria mais fácil acabar com seu tormento
E aceitar de bom grado seu rico casamento.

Então durante a noite foi disfarçada, 
E no convento entrou na última badalada
Sem fazer um único barulho, como uma ladra, 
Trazendo em suas mãos a morte do amor engarrafada.

Mas nem tudo saiu como havia planejado, 
Assim que se viu diante do olhar do condenado, 
Um moço tão belo, tão alheio, tão desejado.
Apenas beijou os lábios de seu bem amado, 

Soube que o veneno não poderia derramar
Era muito belo para que o vazio o pudesse apagar, 
E estando ela sem nenhuma saída adequada, 
Tomou todo o veneno em uma só tragada.

Caiu no chão, vendo a luz da lua sobre a tela
Era a última visão que queria ter do mundo, 
E a morte lhe parecia cada vez mais bela
Conforme adormecia em um sono profundo...

O moço do quadro, que estava emparedado
Por tamanho amor acabou sendo despertado, 
No último suspiro da moça por quem era amado, 
E amando-a também, viu-se desesperado...

Sem poder mexer-se, apenas pelo luar observado, 
Para a esfera branca no céu começou a soluçar...
E mesmo sem nenhuma palavra conseguir pronunciar, 
O clamor de seu coração pela lua foi escutado:

"Esta jovem morreu por tanto me amar, 
E eu por ela morreria mil vezes sem pensar, 
Não tenho corpo, nem mãos para lhe tocar
Ou mesmo boca para o veneno mortal lhe sugar...

A dor que eu sinto agora, não existe igual, 
Amar tanto e não poder agir como o devido, 
Não fiz nada nesta vida para merecer tanto mal, 
Preferia mais que o veneno tivesse me diluído.

Tanto amor me foi oferecido por esta donzela, 
Pudera eu retribuir como um cavalheiro o amor dela, 
Viver com meu coração de tinta tão pesado eu não agüento, 
Coloque-me logo para fora, ou a ela para dentro."

E Diana que passeava nos céus, estava calada, 
Viu e ouviu tudo o que se passou emocionada, 
E sendo ela uma Deusa resolveu então interceder
E com sua infinita magia, o seu desejo atender.

Na madrugada silenciosa, ninguém ouvia nada, 
Enquanto isso, Diana já trabalhava apressada.
E tendo a donzela atravessado o Aqueronte, 
Nos braços do moço, amanheceu pintada. 

Essa história, triste, pode até parecer,
Mas com ela há algo a se aprender, 
Não há pranto de um coração partido
Que por um deus bondoso não seja ouvido.

E não se dissolvem as cores do amor
Pintadas pelas mãos de um talentoso pintor
Em um coração antes vazio como tela
Que assim foi preenchido por tinta de aquarela

Fim.


Gustave Courbet - Lovers in the Country Side 1847 - 1848



8 de setembro de 2011

O Jardim Secreto

"O Jardim Secreto" - 1993


Ontem ao assistir pela milésima vez o delicado filme de 1993 da diretora polonesa Agnieszka Holland, “O Jardim Secreto”, me deparei com um diálogo extremamente sensível que me passou por muitas vezes despercebido, o diálogo acontece entre Mary Lennox (Kate Maberly) e seu primo Colin Craven (Heydon Prowse), reproduzirei o diálogo como é apresentado no filme:




“- Quando eu morava na Índia, minhas aias costumavam me contar histórias para dormir, você me lembra uma dessas histórias...
- É mesmo? Qual?
- É a história de um Deus, que foi criado afastado de todos, escondido, ninguém podia vê-lo. 
- Por quê?
- Porque quando ele nasceu, seu tio invejoso viu que ele um dia dominaria todo o céu, e desde então tentou matá-lo de qualquer jeito.
- E como ele escapou?
- Ele foi criado por vacas, e vivia entre os homens e mulheres. (risos)
- Mas ele era igual todo mundo?
- Sim, a não ser quando ele abria a boca, se você olhasse dentro da garganta dele, podia ver o universo inteiro lá dentro.
- Mas isso é impossível, para se ver o universo inteiro dentro da garganta de alguém, esse alguém tinha que ser maior que todo o universo, e você acabou de me dizer que ele era igual todo mundo por fora.
- Exatamente, por dentro que ele era maior...”

E para concluir este post, deixo vocês ao som de Linda Ronstadt que fez a trilha sonora do filme e interpreta a música tema, “Winter Light”.



p.s. se olharmos da maneira correta, veremos que o mundo inteiro é um jardim. 


30 de agosto de 2011

Malefício.


"O maior poder dos feiticeiros
 é passar seus problemas
 para outras pessoas..."

Provérbio Indiano

“La Lune est diabolique“, Jacinto me disse isso com seu francês ensaiado e pobre em sotaque enquanto acendia um incenso e o queimava na varanda, disse isso com aquele sorriso redondo e grave de pessoa segura que sabe o que esta fazendo.
Estávamos nus, na varanda de seu pequeno apartamento num conjunto habitacional miserável, mas com um charme peculiar de onde colhíamos a vista de lugar nenhum.
Toquei seus ombros e desfrutei aquele momento enquanto ele olhava admirado algo que julgava estar diferente na mesma lua de todas as noites, não lhe dei atenção e continuei a fumar.
Havia nele tanta coisa que não me interessava, como a sua tatuagem no braço com um símbolo que ele próprio desconhecia mas sempre que alguém lhe perguntava sobre, dizia sorrindo que era para sua proteção. Na verdade sempre odiei esse tipo de gente iludida que acredita em coisas que não se pode ver ou tocar, mas Jacinto era diferente, era o tipo de pessoa suave e encantadora, que se nota mesmo sem querer, que atrai para si tudo o que está ao seu redor como se fosse o ponto de referência de todo o lugar, como se o universo existisse apenas sob seus pés e acima de sua cabeça.
Eu o adorava e naquele momento onde já sabia que teria que matá-lo, me penitenciava sozinho. Eu consegui uma boa quantia de dinheiro quando permiti que um velho estrangeiro usasse meu corpo para suas sujeiras, golpe de sorte eu sei, e Jacinto sabia, nunca me disse nada mas sabia. Nunca me perguntou, nunca questionou minha vida noturna. De qualquer forma, sabia o quanto ele me amava, sabia que iria atrás de mim até no inferno se precisasse, então para que eu fosse completamente livre agora que minha vida finalmente começava a andar, ele precisava morrer.
Ninguém de fato daria falta dele, um homem sem família, pobre e sozinho que ocupava seu tempo trabalhando de garçom, conquistando o pouco que lhe era extremamente necessário, sem ambições e se divertindo lendo coisas sobre o anormal, dizia que uma tia lhe contava histórias das bruxas de verdade que escaparam da inquisição vindo nos navios portugueses para o Brasil, vinha de uma família problemática, quase todos os seus parentes eram fanáticos religiosos de alguma seita e ele perdera contato com eles há anos quando se mudou para a capital.
Com uma vida tão exótica, Jacinto merecia uma morte de cinema, passional, cuidadosamente escolhida. Foi assim que reservei a corda que usaria naquela noite e a ocultei previamente embaixo do meu travesseiro.
De volta ao leito, nos encostamos como sempre fazemos quando eu durmo com ele, passei uma perna no meio de suas coxas, e pedi que se deitasse de costas para mim sobre meu braço esquerdo, ele obedeceu naturalmente. Esperei sentir seu corpo adormecer, então puxando a corda com a mão direita que estava livre, enrolei-a nos punhos, um de cada vez, deixando entre eles um hiato suficientemente longo para o tamanho de seu pescoço e então, num puxão, o lacei de uma vez e o puxei de costas contra meu peito, ele ainda estava entorpecido do sono quando percebeu o que estava acontecendo, se debatia, mas de costas não podia fazer muita coisa, eu havia escolhido a posição exata, pensei. Ele me agarrava, como quem se agarra a um tenro fio de vida, e então, o peso. Senti seu corpo endurecido, sem vida, um arrepio, ele estava morto e eu o havia matado pelas costas, covardemente. Desfiz o laço e ele caiu na cama, olhos arregalados fixados no nada. O quarto estava escuro e o luar que vinha da janela descortinada, deixava tudo pálido, como num filme antigo, preto e branco, seco, sem sangue.
Tomei um banho e arrumei minhas coisas, limpei cada vestígio meu daquele lugar morto, cobri seu corpo com um lençol e fui à varanda uma última vez fumar um ultimo cigarro, iria parar com aquilo, não queria morrer, não podia morrer agora. O ar estava gelado e o luar realmente parecia diferente. Senti uma leve tontura, talvez devido ao choque dos acontecimentos. O frio aumentou e eu entrei no apartamento, minha visão ficou estranha, escurecida, turva, os sons da cidade agora pareciam vozes na minha cabeça, me chamavam de assassino. me apoiei na cômoda porque minhas pernas falhavam, olhei no espelho tentando resgatar qualquer vestígio de força, me agarrava à lucidez mas meus olhos se fechavam contra minha vontade, quando olhei novamente no espelho vi que não havia mais corpo sobre a cama, só o lençol, liso, sem conteúdo, sem o recheio.
Então caí.
Os sons da cidade agora realmente eram vozes, não as entendia mas gritavam com ódio, meus olhos fecharam ou foram fechados, não sei por quanto tempo.
A primeira coisa que senti foi um odor estranho, não conseguia distinguir o que era, se o olfato é o sentido da memória nunca havia entrado em contato com aquele odor antes, aos poucos consegui abrir meus olhos, o quarto estava levemente iluminado e quente, velas acesas por todos os lugares, a cama havia sido arrastada para a parede, e no lugar dela havia um circulo desenhado no chão com símbolos estranhos, cercado por velas e sobre o circulo eu me encontrava nu, deitado, com as pernas e os braços amarrados, sentia um estranho peso sobre todo meu corpo, só conseguia mover levemente a cabeça, tentei falar mas as palavras morriam dentro de mim. A porta da varanda se abriu e para minha surpresa, vi Jacinto, nu, andando pelo apartamento. Estava pálido, com a mancha rocha da corda em volta de seu pescoço, cabelos despenteados, andava de forma trôpega e desritmado, ele não podia estar vivo, senti quando seu coração parou. O que estava acontecendo? Ele estava morto.
Nesse momento ele se aproximou com seu andar estranho e se agachou ao meu lado, alisou meu abdômen e começou a falar, só que desta vez, lhe dei atenção:
- Sim amor, você me matou, não há dúvidas quanto a isso. Mas imaginei que você cometeria o erro de não queimar meu corpo e jogar minhas cinzas no terreno de uma igreja como é o modo certo de se fazer isso, matar alguém da minha gente. Digamos que a minha velha tia que me contava histórias de bruxas, me contou muito mais do que apenas suas histórias de bruxas. Sei que você não entende e nem espero que entenda, não mais. Você sabe que eles estão sentados sobre você agora? Estão segurando sua língua, seus membros, dificultando o seu raciocínio, você nunca os viu, não é do tipo de homem sensível para essas coisas, mas eles sempre estiveram por aí ao meu lado e eles me trouxeram de volta como sempre fazem. Mas de qualquer forma, você convidou a morte para entrar neste quarto hoje, e como não se pode enganar a morte, nem mesmo eles conseguem tal proeza, um de nós dois precisa partir com ela agora.
Senti o ar ficar mais gelado novamente e minha respiração foi dificultada pelo que quer que seja que não podia enxergar, mas que estava sentado sobre minhas costelas. "Eles" eram o peso que sentia sobre meu corpo inteiro e dentro da minha cabeça, segurando a minha língua dentro da minha boca.
Vi Jacinto se levantando e pegando a faca que estava sobre a cômoda, me olhou um tanto transtornado, não sei se de loucura ou amor, talvez ambos, disse:
-  Quando foi a última vez que você sentiu medo? Medo de verdade?
Novamente ele deu aquele seu sorriso redondo e grave de pessoa segura de si, que sabe o que esta fazendo...



26 de julho de 2011

A árvore.

A Árvore Vermelha - Piet Mondrian

“Um lugar bravio, santo e encantado,
Como nenhum sob a pálida lua visitado
Por mulher em prantos ou pelo demônio amado.”

Rudyard Kipling


Fortuna saiu de casa cedo, suas malas já estavam prontas, o carro previamente abastecido e revisado, a antecedência lhe acompanhava. Não conhecia o caminho, mas soube que grande parte da estrada ficava emparelhada a uma velha ferrovia que não era mais usada, podendo assim se situar, o dia estava nublado com a temperatura amena, sentia que seria uma viagem tranquila, sem imprevistos.

Tinha certa noção de onde queria chegar, por isso não se preocupou com os meandros do caminho, estava indo em direção a um cliente, em uma cidade do interior, este promovia anualmente uma festa folclórica na cidadezinha e ela era a organizadora do evento, passaria dois dias hospedada em um hotel, acompanhando os festejos.

Tudo foi antecipadamente marcado, sua antecedência era uma qualidade adquirida com o tempo, o seu maior diferencial no mundo dos eventos, cheios de imprevistos, era que, com ela, isso jamais acontecia.

Manteve a velocidade limite facilmente, sem músicas para lhe distrair os sentidos da bela paisagem que, aos poucos, o horizonte lhe permitia ver, relaxada como estava, pensou em coisas do passado, no amor, na faculdade, quando ainda virgem se apaixonou por um moço em especial, um que lhe interessava, bonito, com um aspecto serio, sem sorrisos, seguro de si.

Entregou-lhe sua virgindade, e, como imaginava, ele cuidou bem dela. Despiu-lhe cuidadosamente, a fez tremer de prazer, mas não muito, e então foi embora, como ela já esperava. Sempre imaginava com antecedência quando uma relação começaria ou terminaria e nem sequer se dava ao trabalho de terminá-la, sabia quando o companheiro tomaria a atitude final.

E há dois anos ou mais, não havia companheiro, apenas o final, que desta vez, se prolongou mais do que ela esperava. Estava sozinha, ela e a sua antecedência, prevendo-lhe os próximos passos.

O dia começava a ficar mais abafado pela chuva que se formava, abriu as janelas do carro, deixou um braço apoiado na porta sentindo o vento empurrando sua manga, colocou os óculos escuros e dirigiu mais alguns metros, até que num cruzamento da antiga ferrovia, que vez ou outra aparecia serpenteando paralelamente a estrada, estava um estacionamento de concreto no meio do nada, com uma cerca de segurança para evitar que as pessoas despencassem no pequeno barranco adiante, ali havia o carro de uma família, decidiu parar para fumar um cigarro.

Desceu do carro, e educadamente cumprimentou o casal que tinha uma filha de aparentemente nove anos, sentia-se desconfortável fumando na presença de crianças, por isso depois de um rápido aceno com a cabeça, se afastou para sentar-se na pequena cerca. A mulher da família, uma moça jovem e animada veio falar com ela, lhe disse animadamente que entrando um pouco na mata que ficava alem da cerca, descendo o barranco, depois de cinquenta metros ficava uma árvore linda, que valia a paisagem inteira, inclusive a parada ali, disse que antigamente, aquela ferrovia era muito utilizada no interior do estado e as moças e rapazes das cidades da redondeza, amarravam fitas com o nome dos viajantes nos galhos da árvore, para que estes se apaixonassem e sempre retornassem.

Fortuna achou uma história bonita, mas com o passar dos anos, havia perdido grande parte de sua sensibilidade romântica, a história a tocava, mas apenas superficialmente.

 Muito tempo depois que o cigarro havia acabado e o casal havia partido, Fortuna ainda estava sentada lá, pensando coisas sobre seus dois dias na cidade desconhecida, e sobre o seu cliente, um homem que conhecia apenas pela voz, nos inúmeros telefonemas noturnos que lhe fazia, uma voz masculina qualquer, mas com um tom educado e polido, um vocabulário tão bem elaborado, que por vezes, se via imaginando como deveria ser o dono daquela laringe masculina que vibrava com tamanha destreza.

O lugar onde estava agora ficava a menos de meia hora da cidade em que ocorreria a festa e Fortuna estava antecipada, pensou que seria interessante ver a tal árvore e fotografar com seu celular para enviar as suas amigas, que ainda não haviam perdido completamente aquela delicada veia romântica.

 Ultrapassou o limite de segurança, e desceu o barranco que tinha menos de dois metros e uma inclinação agradável de grama verde, mesmo de salto não teve dificuldade em chegar ao vale que ficava abaixo, e, depois de alguns passos, pode ver a árvore.

Parecia um salgueiro muito antigo, o tronco grosso e alto, a copa completamente seca com galhos negros retorcidos, porém, mesmo com o tempo nublado, a árvore ainda parecia simpática, e de fato, era uma visão fenomenal, quase todos os seus galhos estavam atados com fitas coloridas.

O vento as balançavam e a árvore parecia viva, brilhante, como se estivesse no auge da florescência. Fortuna percebeu que algumas fitas eram visivelmente antigas, desbotadas completamente pelo sol, pela chuva, pelo tempo, nas fitas estava escrito de maneira vertical o nome de inúmeros desconhecidos, lembrou-se que eram os nomes dos viajantes que deixaram alguém apaixonado para trás, e esta paixão, era concentrada naquelas fitas que depois de atadas aos galhos do Salgueiro, funcionavam como um farol, mostrando sempre a direção em que o viajante deveria regressar, a direção em que o amor o esperava.

Não tirou fotos, apenas admirou a beleza daquela árvore atada com fitas coloridas no meio do nada, sentia-se feliz por estar ali, e por estar como sempre, adiantada.

Uma das fitas era visivelmente mais nova, de seda vermelha, brilhante, como se tivesse sido colocada lá recentemente, Fortuna pensou no tipo de pessoa que mesmo hoje em dia, se permitia um costume tão antigo e belo.

Aproximou-se, tocou as fitas lendo os nomes nelas, todos escritos de forma vertical e repetidos três vezes, nomes completos, deixou-se imaginar como seriam aqueles desconhecidos, como conseguiram cativar alguém, a ponto de merecerem ter seus nomes ali, imortalizados. Segurou nas mãos a fita vermelha, a mais nova, e leu o nome que estava escrito nela com uma letra firme e masculina, verticalmente, em preto e com a mesma repetição: Fortuna Alonso de Medeiros

O seu próprio.

A antecedência, a certeza do que viria a seguir, que esteve sempre presente, naquele momento, lhe abandonou.



Eu, sozinho.


"Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha."


Cecília Meireles


Todos sentem a solidão, a ausência de algo diferente de si ao redor, a minha é apenas um pouco mais acentuada, uma solidão preenchida, um excesso de mim mesmo.
Sobrevivi a minha companhia e me tolero com grande habilidade, em dias bons, pontuados de delírios de satisfação, chego a amar-me, é um amor arranhão, bem de leve, para então novamente, o constante desconforto. Olho-me, sorrio sem jeito, como se eu mesmo pedisse "com licença" e sentasse eu meu próprio lado no ônibus, para logo em seguida, me ignorar.
O que me deixa mais sozinho, é a estranha sensação de estar o tempo todo na companhia da única pessoa capaz de mudar a sorte da minha felicidade ou infelicidade, eu.
Gosto de me ocupar na minha solidão, como quem arruma uma prateleira, nestas ocasiões raras onde o impulso inicial é ordenar as coisas, nossa atenção acaba sempre se desviando para lembranças, livros, objetos ali esquecidos há tanto tempo... Já eu, costumo me desviar para uma vida que não seja a minha, e me ocupo dela, gosto disso, de colocá-la em ordem ou de desorganizá-la de vez, e então volto sozinho, sempre.
 
Se não acho caminhos, me perco sozinho,  se refaço o caminho, caminho sozinho.


27 de junho de 2011

Laços



[...]
Amei-te muito, muito!Tão risonho
Aquele dia foi, aquela tarde!…
E morreu como morre todo o sonho
Deixando atrás de si só a saudade! …

E na taça do amor, a ambrosia
Da quimera bebi aquele dia
A tragos bons, profundos, a cantar…

O meu sonho morreu… Que desgraçada!
………………………………
E como o rei de Thule da balada
Deitei também a minha taça ao mar …

Florbela Espanca, "Balada" 08/08/1916


Na prateleira estava o presente, amorrotado com a pressa que o dia em que o embrulhou exigia, o laço de fita cruzando o cubo por todos os lados, jazia empoeirado, não entregado e jamais esquecido. Era uma mácula, uma chaga aberta que o afrontava todos os dias, muito antes dos raios solares, lá estava ele, o presente. 
Prometia diariamente que o abriria, desfaria todos os laços, o daria a outra pessoa, ou se lhe servisse o tomaria para si, porém perdera a habilidade de se enganar com tais promessas, sabia que não o entregaria a ninguém, sabia que não se desfaria dele, nada dentro daquela caixa lhe pertencia, pertencia a outro.
O presente a princípio era apenas uma surpresa, adquirida em segredo e com todo o cuidado, dentro dele havia pequenos pedaços do outro, seus gostos alí dentro estavam misturados, era uma prova de afeição, de abertura, o presente era sua maneira desarticulada de dizer que o outro havia sido percebido, visto em cada mínimo detalhe, explorado e apreciado, lhe tiraria sorrisos e agrados, surgiria inesperado, no meio da festa, escrito numa mensagem invisível, com palavras mudas, inaudíveis aos ouvidos mundanos, gritando silenciosamente a mensagem de que o dia em que o outro veio ao mundo deveria ser comemorado, porque ele o conhecera.
Mas o presente nunca chegou as mãos do outro.
Desviou-se no caminho.
O destino havia lhe prometido tudo, mas no final, não lhe entregara nada.
Perdera-se do outro, não sabia exatamente quando, nem que caminho havia trilhado que o outro não lhe seguiu, ou se seguiu não se fez notar. Eram completamente diferentes, e isso nunca o assustou, o presente era uma conexão, uma caixinha cheia de similaridades para lembrar ao outro que no fundo eram um pouco iguais. Houvera um tempo em que eram ligados, não uma ligação simples e direta, mas um embaraço, eram embaraçados um no outro, tropeçando a cada passo, mas não se importavam, um jeito certo de se amarem errado. 
O presente então, nessa época se tornou um laço, unindo-os. Era um símbolo de expectativa, de ansiedade e esperança, era a promessa que se veriam, ele para entregá-lo, o outro para recebe-lo e nada mais.
E então agora o presente não era nada, era um órfão.
Olhou o presente e sorriu, triste, percebendo que dividiam a mesma sorte. O outro jamais abriria o presente, jamais desfaria o laço e libertaria a caixa de seu embrulho, colhendo as similaridades delicadas que nela haviam, jamais perceberia a mensagem oculta de que fora visto. O outro jamais lhe veria como um presente também, recheado com algumas similaridades doces e diferenças abismais, coberto com tatuagens e espaços em branco, com seu jeito tímido e desajeitado de encarar as coisas, de encarar o outro, com seu medo de se perder e não saber voltar, não.
O presente agora tinha um gosto de passado, amargo e nostalgico.
O presente estava na prateleira esquecido, mas ambos ainda estavam envolvidos pelo laço.



p.s. crônica de um presente ainda não entregue.


20 de junho de 2011

Alomorfia




Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.

Ó alma da charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize para onde eu vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!

Visões de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!

Dize que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra…
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!

Florbela Espanca - A mensageira das violetas



Para ele a parte mais difícil sempre estava por vir, ou já tinha ficado para trás. Estava sempre tão distante que não podia tocar a vida, sequer podia enxergá-la. Preso entre algum medo superado do passado e um medo vindouro do futuro, duas cadeias, uma em cada punho. Aprendeu a não ter certezas quanto a sua existência, no seu caso em particular certeza era uma palavra quase estranha ao seu vocabulário, raramente a empregava.
Sua realidade estava situada sobre uma base feita de quimeras fantásticas, fantásticas porém míticas e nada mais. Sobre o mar onde se encontrava, podia ver claramente o horizonte que o oprimia por todos os lados, podia ver os astros e orbes acima de si, mas tal era a profundidade do mar, que não podia sonhar com a visão de um chão.
Flutuava.
Não tinha grande densidade, era poroso, vazio, escorria-lhe o ser por todos os buracos. Seu todo sonhava em ser completo, já sua casca sonhava apenas em ser um casulo, e sozinha ao redor dele aguardava todas estações girarem ansiando pela alomorfia de seu conteúdo, de seu interior, mas esta nunca chegou. Nunca se transformou, a casca era na verdade o ultimo resquício abandonado daquele outro homem que fora um dia e partiu sabe-se lá pra onde, sabe-se lá quando.
Era uma chaga de si mesmo, vivia uma penitência por um pecado que ainda cometeria, encontrava-se sempre dentro do desconhecido, tão banal era a sua vida, que não tinha sequer idéia do que lhe aconteceria, e  mesmo assim, ainda esperava que acontecesse...


p.s. este é meu único ser possível, por hora...



30 de abril de 2011

Chá das 17h00



"Tomou seu lugar na melancólica procissão que devia passar por uma série de emoções improfícuas. Os religiosos, naturalmente, recomendavam esperança e profetizavam notícias de uma mudança em sua sorte para breve. Vários amigos também contavam a ele histórias verdadeiras mas sempre de outras pessoas a quem, depois de meses e meses de silêncio, haviam sido restituídas do maior sentido - sem o menor sentido ou motivo aparente - e receberam o derradeiro chamado da inspiração. Outros aconselhavam-no a entrar em contato com infalíveis benevolentes que podiam auxiliá-lo de maneira fidedigna em sua ascensão na vida. Roberto ia fazendo, redigindo, assinando tudo que lhe era sugerido, ou posto diante dele...
No devido tempo, quando todas as forças do destino, do fado e, inclusive, suas próprias forças de homem já tinham lamentado profundamente ou sinceramente a incapacidade de haver concluído tantas e tantas tarefas inacabadas etc. etc., alguma coisa cedeu dentro dele, e todos os sentimentos - exceto o alívio - se dissolveram em bem-aventurada passividade. O mundo de Roberto parou e ele sentiu em cheio o sacolejo dessa parada. Agora ele estava parado e o mundo girava mas ele nada tinha a ver com ele - o movimento do mundo não o afetava em nenhum sentido. Ele tinha consciência disso pela naturalidade com que não esperava mais e com que inclinava a cabeça no ângulo certo ao ouvir qualquer murmúrio de simpatia.
Com a satisfação desse alívio ele nem sentiu o tanger do tempo. No fim de mais um ano ele já havia superado a aversão física pelos bem sucedidos e felizardos, e pôde mais de uma vez, tomá-los pelas mãos e desejar-lhes uma plêiade de graças quase que sinceramente. O resultado de triunfos ou derrotas alheios, não o interessava em nada. Mantendo-se a imensa distância, ele defendia opiniões próprias - ouvia-se expondo-as, como agora, para o nada que sempre lhe escutou..."    


p.s. apenas um pensamento transcrito com o gosto amargo do chá-verde sem açúcar ainda na boca. 




7 de fevereiro de 2011

Noite e Dia. (Perla)

Sua festa surpresa de 20 anos, foto tirada pelo meu primeiro ex-namorado.



"Noite e Dia, chamavam-nas as tias, e embora nenhuma delas risse dessa brincadeirinha, 
 nem a achasse um pouco engraçada elas reconheciam a verdade que ela continha e eram 
 capazes de compreender, mais cedo do que a maioria dos irmãos consegue, que a Lua 
 anseia o calor do Sol, assim como o Sol anseia pela escuridão da Lua."

Da Magia à Sedução, pag. 15.




Dentro de um planeta que gira em torno de sua própria órbita seria difícil imaginar que um de seus habitantes se importasse com  algo além de si mesmo, mas nós nos importamos. Somos livres, orbitamos ao redor do sol, e este ao redor da galáxia e esta perdida rodopiante no meio do universo misturando o tudo e o nada, e neste eterno e complicado movimento elíptico seria difícil para qualquer coisa permanecer como é, original desde sua criação, mas nós dois permanecemos, quase estáticos, no meio da mistura de cores que nos cerca, nós mantivemos nossos contornos firmes, e nossas mãos dadas, minha safena magna desaguando no seu coração, trocando o ar pela boca quando estávamos debaixo d'água, trocando tudo, cabeça, cabelo, corpo, até as cascas caírem, e então, novos, renascíamos, estavamos prontos para nos destruir aos poucos, novamente, mas não por auto flagelação, e sim pelo prazer que o renascimento sempre nos deu.


André, Paulinho, você e eu. Sempre.



E é renascendo sempre, transformando a distancia em liberdade, a ausência em saudade, o medo em aventura que nos separamos agora. Você vai, eu fico.


HAUSASHUAHUAASHUASHUSAUHASAHUASHUAS


Você vai levar tudo com você, tudo o que trocamos em tantos anos em que partilhamos o laço mais fino e delicado que já vi nascer entre dois seres humanos, tão diferentes, tão parecidos. Você me deixou mais calmo, mais maduro, mais homem, você a cada palavra, a cada gesto, a cada percepção de sentimento, ou  a falta dela, me amadurecia, me maturava como um vinho, me servia a realidade sem o amargor da decepção, me servia a realidade na taça dos sonhos que se realizam, lia meu futuro, conhecia meu passado e vivia meu presente. Você era a única presente.


HUUASHUSAUHASHASHSAHUAUASUAUHAUHASUH



Os anos passaram e nos tornamos adultos, gente grande, com poucas coisas que nos lembram nossa infância  tão distante agora, você manteve sua franja, eu mantive minhas tatuagens. Os piercings se foram, junto com amores, com passado, com amigos, com inimigos, com costumes e homens errados, mas nós não fomos, nós ficamos. 


CHANDON AUSUASAHUSASUHSASAHU



Ficar é o nosso hábito, nosso joguinho particular. Ficar é o que fazemos de melhor, não por que somos temerosos, mas porque sempre ficamos um pelo outro. E é por você que eu vou ficar, esperando, não mais sozinho pois nos construímos tão bem durante esses anos que percebi que é impossível que eu sinta sua ausência, ou sinta falta de você, pois você esta em tudo o que faço, em tudo o que vejo, em tudo o que sonho, em cada profundeza de pensamento, em cada licenciosidade que me permito, em tudo o que eu queria ter dito e não disse, em tudo que eu teria feito melhor, em tudo o que eu mudaria, e em tudo o que permaneceu. Nós.


SUHAUHSAUHSAUHASHUAASUHASHUASHUSASAH



Cabelos negros, olhos claros, me lembrou sempre Perséfone, e agora como ela, você comeu as três sementes de romã que vão me custar três meses sem você, três meses de inverno/inferno, três meses de um mundo novo a ser (re)descoberto, você lá, e eu aqui. 



AHUSSAASHUASHUASHUAHUAHSUASHUASHUAAH



E se eu estivesse lá, no momento em que você for jogar a moeda por mim na Fontana di Trevi, saiba que eu só teria um pedido a fazer aos deuses romanos:
Desejo que você seja feliz, sempre.

Eu te amo Gilly Bean!


- # -

"Sopre vento, até onde estiver quem eu ame,
acaricie seu corpo e regresse para acariciar-me.
Por meio de ti sentirei sua mão suave
e encontrarei sua beleza na Lua.
- # - 
Estas coisas são muito valiosas para quem ama.
Podemos viver com elas e nada mais:
pois nós dois respiramos o mesmo ar,
e o planeta que percorremos, é apenas um."

Ramayana