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14 de dezembro de 2012

Tous les garçons.




E senti na garganta o nó górdio de todos os amores 
que puderam ter sido e que não foram.

Gabriel García Marquez


O que existe de tão fascinante no amor representado pelo simulacro? Sim, porque o amor, amor mesmo, dos amados, nos é ainda muito estranho. Não chegamos a arranhar sua etérea superfície com o ensaiar de um toque. O amor nos é cantado mas não esta la também, pois nas musicas existem sempre dois personagens pré definidos, o que ama e o que não, a vítima e o carrasco, o que fica e o que vai.
Compramos tal ideia sem correlacioná-la com a realidade que nos é apresentada todo dia.
O que ama apenas ama o amor e não o outro, o que fica o faz por falta de opção e não por escolha, até o inferno chega a ser convidativo para aquele que nada tem.
Já o que não ama nunca amou, o que se foi nunca esteve, portanto na realidade não existe um desamor, não existe partida, ele próprio jamais existirá, até que ame, até que fique e um outro se parta.
Não se pode explicar e também não se pode não entender. Eis o que nos resta.
Não somos o que somos, somos apenas o que nos restou.
O que decidiu não nos “não amar”, o que não partiu. 







16 de outubro de 2012

Sobre os fins, os meios e os começos.




"Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém."

Sete Sonetos e um Quarto – Manuel Alegre, 2005.



O mais estranho de escrever sobre o fim é começar a escrever sobre o fim, ainda mais depois de um certo tempo desde que o fim se estabeleceu. Escrever sobre o fim se torna quase um ato de recomeço, também não deixa de ser um novo começo, ou mesmo uma continuação do que ficou em branco, em silêncio, tudo depois do (inevitável?) fim.
Se os fins justificam os meios, os meios justificam o começo. Antes do meu fim o meio estava até que agradável, vindo de um começo brilhante, com doses cavalares de destino, maturidade, sinceridade, leões imaginários sendo mortos um de cada vez. Então o fim. Abrupto, até mesmo a frase que começou o meu fim é finita “Não existe maneira fácil de fazer isso.”, por mais brincadeiras e trejeitos que o finalizador evocou no momento, o fim é um fim e não mais um meio, muito menos um começo.
A expressão facial (literalmente) que mais se encaixa no meu fim seria o "Ecce Homo" do Elías García Martínez (que fica no santuário espanhol de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja, Zaragoza, Espanha) e que recentemente foi magistralmente ~n~ restaurado pela querida senhorinha Cecilia Giméne. 
O fim agora visto como um recomeço pode também ser encarado como uma restauração, ainda que mal feita e precária, muda a imagem original que no caso era a serenidade do meio, deixando em seu lugar o rosto pasmo e disforme da perplexidade de um fim .
O som do fim não é uma explosão por mais surpresa que ele cause, o fim é o silêncio, a ausência, o abismo.
Seres humanos que somos temos quase que uma vocação biológica para preencher o vazio todo o tempo, e como lidar com o final que nos impõe o vazio, se não o preenchendo?
E nós o preenchemos com o que temos a mão: dúvida, raiva, vingança, compreensão, perdão... Mas acima de tudo nos preenchemos com a análise. Sim, porque basta um fim para que todos os fins voltem a pauta e nos façam questionar onde foi que os meios tornaram-se fins. Vasculhamos com os olhos duvidosos da memória todos os fins, procuramos sintomas, presságios, sinais em plantações, posições estelares, qualquer Nostradamus que pudesse ter nos avisado antes e assim nos preparado. Mas nenhum meio consegue nos preparar para o fim, por mais evidente que este possa ser.
Depois da análise vem a anarquia. Não lidamos muito bem com o imutável que nos mudou completamente, deixamos de ser algo que jamais seremos novamente e passamos a ser outra coisa, ainda nova, indefinida e desconhecida. A fase da anarquia é quase toda preenchida de inconformidade. Odiamos, destruímos, jogamos fora fotos, presentes, futuros não existentes, não suportamos muito, quebramos os templos, destronamos os reis e queimamos os ídolos que antes eram adorados em nossa, agora antiga, realidade.
Culpamos o finalizador, culpamos os deuses, o destino, a nós mesmos. 
Nos enchemos de raiva, de músicas, de poemas, de traduções de uma dor tão intima que como a ferroada de uma abelha, persiste, pulsa. Tudo o que o finalizador fizer, qualquer movimento numa tentativa de se aproximar ou de se afastar, ou mesmo de se recomeçar sozinho em sua nova realidade, machucará, muito. Visto que não sabemos o que nos tornamos depois do fim, como imaginar ou lidar com o que quem nos finalizou é agora? Remédio? Distância: deixa o silêncio do fim ecoar livremente, sem tanta dor, sem reverberação.
Depois de nos preenchermos com tudo ao nosso alcance, escaparmos do ferrão do contato com o finalizador, deixarmos a distância ecoar o silêncio do fim, enfim, nos enchemos.
E começa então o processo inverso, o esvaziamento.
Nos esvaziamos da culpa, própria e alheia, nos esvaziamos dos poemas, das sensações, das montanhas russas, da indefinição, esse esvaziamento é o expirar da dor, toda a dor da inspiração da nova realidade é agora expurgada numa lufada só.
Então voltamos ao vazio, ao silêncio, mas é o vazio aveludado, o silêncio harmonioso, nada mais soa como um fim, tudo é um recomeço, tudo pede para ser reordenado, somos uma prateleira vazia pedindo por novos livros com novas histórias, novos enfeites adquiridos em novas viagens, novos porta retratos, recheados de novos contatos, tudo em nós pede o novo, e é isso que permite que recomecemos, que possamos falar sobre o fim como estou fazendo agora sem se deixar esbarrar em nenhum final, como um rio mágico que só desemboca em novos começos, um rio que contorna pedras e se levanta de quedas... E quanto ao finalizador, este é esvaziado também, já não é sequer o finalizador, foi esvaziado de todos os adjetivos, os bons e os maus, não o odiamos, nem tão pouco o amamos, não o agradecemos, não o perdoamos, não o culpamos e já não clamamos por uma vingança sobre este ser também agora, recomeçado. Não existe mais perdão, não existe mais vingança, o esquecimento é nosso único perdão, o esquecimento é a nossa única vingança. 


"E por fim se esqueceram sem dor…"
O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel Garcia Marquez.






Epílogo:
O coração volta a bater noventa vezes por segundo, 
a princípio por si, por outro só mais pra frente, quem sabe? 
Então o tempo torna-se nosso  sol, nosso marte e nos guia, 
e num belo dia transforma isso tudo em nada. 
O nada tudo esvazia.




2 de março de 2012

Roberto C. Rodríguez, tem um pássaro no seu cabelo...

Sleeping Prince - Dianne L. Gardner



Jaú, 29 de Fevereiro de 2012

“Relacionamentos íntimos não podem substituir o seu plano de vida, mas para ter significado e validade, um plano de vida deve incluir relacionamentos íntimos.” 


Sabem quem disse isso? Não, não foi Jesus, foi Harriet Lerner, psicóloga, socióloga, palestrante e autora do Best-Seller “Franny B. Kranny, tem um pássaro no seu cabelo”. Não sei se devo culpar (ou agradecer?) os movimentos elípticos lunares, as constantes e ininterruptas mudanças drásticas da minha vida, a uma força maior e racional que controla o universo, mas, a verdade é que ultimamente eu não tenho pensado em relacionamentos amorosos. De verdade, não tenho pensado mesmo, em nada. Em beijos, em sexo, em amor, em casamento, em nada disso, e já faz um bom tempo desde que este tipo de pensamento, antes constante na minha realidade, me deixou completamente.  
Estou solteiro há três anos, e tenho encontrado grande dificuldade em me aproximar ou mesmo me relacionar com as pessoas, até mesmo com amigos e familiares, não sei se estou passando por um período de alomorfia ou algo assim, só sei que este tipo de ambição amorosa me deixou e buscando nos meus recôncavos mais convexos, encontrei o último “texto” em que me vi pensando neste tipo de coisa, faz um certo tempo desde que postei um texto mais pessoal aqui no blog, ultimamente tenho postado mais crônicas, contos e poemas aleatórios, mas sinto que será no mínimo divertido dividir com vocês agora, sem frescuras, em caráter pessoal, o meu último devaneio sobre um futuro pretendente. Quando fazia faculdade de História da Arte em São Paulo, não tinha acesso a internet o tempo inteiro como hoje, então era um costume usar um gravador portátil para registrar longas conversas comigo mesmo e possíveis postagens futuras do blog nele, então vou transcrever (palavra por palavra) o último registro que consegui obter de mim mesmo, quando eu ainda sonhava em dobrar, em ter um namorado  e como eu esperava (gostaria) que este fosse. 

p.s. os pontos de interrogação, demonstram a minha indignação ou minha falta de compreensão com o que eu disse naquela época, afinal nem eu consigo me entender.


Apreciem.


17/05/2010

“(...)Acho que ultimamente me tornei um homem bem mais razoável, quer dizer, busco apenas um cara que seja gay (?), preferencialmente os que estão do lado de fora do armário, lógico, e que não tenham carro (?) , porque não há nesse mundo coisa mais romântica do que dar as mãos as escondidas em um ônibus, beijar sorrateiramente no metrô, fugir dos skin-heads na Augusta como se não houvesse amanhã(?), porque provavelmente não haverá amanhã mesmo para você se eles te pegarem, e finalmente ficar na sala de espera da UTI esperando seu namorado (que não corre tanto quanto os skin-heads) sair do coma depois da surra que levou (?). 
Sabe, ter um companheiro pra discutir questões relevantes como, “quem veio primeiro, o ovo ou a Madonna?” (?), ou qual é o KY mais legal, aquele que esfria (e da a sensação de que você esta fornicando com o cabo do remo de um caçador de baleias esquimó no Alaska)(?), ou aquele que esquenta (e da a sensação radical de que colocaram dentro de você o cabo quente da metralhadora de um guerrilheiro xiita depois dele ter assassinado vinte infiéis)(?), não que eu já tenha experimentado ambos, lógico. 
Encontrar um rapaz que não se importe também, caso eu não tenha o corpo do David de Michelangelo com o pênis do deus pagão Príapo, afinal, desde Adão e Eva, nós, gordinhos tensos, temos sido perseguidos! (?) Essa é a mais pura verdade, aposto que quando Eva ia devorar uma “bistecona” bem gordurosa e suculenta, e se acabar no churrasco feito de gado alimentado com produtos orgânicos e naturais que Adão estava preparando, surgiu a maldita serpente vigilante do peso revendedora da Herbalife(?), e a aconselhou a comer uma coisa mais leve para não engordar, como uma frutinha por exemplo, rica em fibra e o caralho a quatro, bem, o resto da história vocês já conhecem. 
Ainda assim, acho que Eva foi mais feliz que qualquer ser humano que vive no século XXI, afinal Adão não tinha uma ex (Descobri que segundo a cultura hebraica ele tinha sim, e ela não só ouviu o conselho da serpente, como também decidiu abandoná-lo pra ficar com a serpente, mas essa é uma outra história), as expressões “acima do peso ideal”, “padrão de beleza atual”, “celulite”, “estria”, ainda não tinham sido inventadas, e se Eva por acaso se sentisse insegura quanto a fidelidade do seu parceiro, bastava ela contar suas costelas para verificar se tinha alguma vagabunda nova na área(?).
Acho que vou morrer sozinho.”


Eu hein!? Sem comentários...
Beijos sinceros.  




26 de setembro de 2011

Coala na sala.




Não houve nenhum medo no grito. Ele tinha apenas um som de choque, uma nota de embriaguez, uma sugestão de pura idiotia da minha parte. Foi um som estranho até para mim mesmo que no momento não gozava de todos os sentidos. Havia terminado uma discussão seis horas antes daquilo acontecer, e com ela havia terminado um relacionamento de um ano agonizante, dividindo um quarto com uma janela irritantemente emperrada e uma cama sufocantemente pequena para nós dois, foi inevitável. Fim era a palavra que tanto buscávamos, e enfim encontramos.
Ricardo levou embora suas poucas coisas do apartamento horas antes, e decidi que não ficaria lá olhando-o retirar-se aos poucos de minha vida, se num futuro próximo ou distante, que seja, eu me arrependesse daquilo sozinho, iria me culpar por não tê-lo agarrado na porta e implorado que ficasse, então me poupei deste futuro arrependimento e quis gozar ao máximo o momento em que de fato, não queria que ele ficasse, saí pra beber.
E bebi o que não havia bebido em anos, me descobrindo desacostumado ao álcool.
Horas depois estava sendo carregado por amigos até a porta do edifício, com dificuldade e um andar trôpego cheguei ao elevador e me encostei, ele fez seu trabalho e me deixou no quinto andar, quase em frente a porta que estava trancada, me colocando numa luta feroz entre minha embriaguez e a minúscula fechadura, tendo como pivô a chave se escondendo em um dos doze bolsos da minha mochila, entrei, e então, o inevitável grito.
Ele estava sentado no sofá, segurando algo que eu ainda não havia identificado, escutou meu grito mas não se assustou, continuou segurando o que agora eu sabia ser uma lata de Pringles, avistei batatas espalhadas pelo chão e farelos sobre todo o sofá vermelho que Ricardo havia escolhido meses antes, e que eu ainda pagaria por meses adiante. Ele não era Ricardo, era um bicho.
Me aproximei devagar buscando resgatar a sobriedade lá do fundo da minha alma, não temia um ataque vindo daquilo pois me parecia estranhamente fofo e desajeitado para atacar qualquer coisa, estava calmo e manso, e sequer me acompanhava com o olhar, olhava para a lata de Pringles em sua mão (pata?), me aproximei, estava muito ébrio para permanecer em pé, então sentei em frente a ele no outro sofá também vermelho.
Junto com a pouca sobriedade recém adquirida me veio a notícia de que sabia o que era aquele bicho, não lembro onde havia absorvido tal informação, que se não fossem os acontecimentos daquela estranha madrugada, julgaria ser completamente inútil. Ele era peludo, gordo e meio pequeno, era um coala, e estava sentado no meu sofá.
Sabia que não se tratava de um bicho nacional, além de sua cara estranha não estar estampada em nenhuma cédula, eu sabia que era australiano, e então me perguntava o que estaria fazendo aquele bicho australiano no meu sofá. Ele sem dúvida não parecia muito preocupado com sua estadia no meu apartamento, estava quase confortável, se posso assim dizer, sentado como se fosse gente e comendo pringles lá. Olhou para o aparelho de som desligado, e ficou parado , então olhou para mim, eu olhei pra ele, um olhar assustado, nós humanos temos o costume de temer as coisas adoráveis, e aquilo era uma das coisas mais adoráveis que já havia visto.
Esfreguei com as costas das mãos os meus olhos e mentalmente tentei recontar as bebidas que havia tomado, nada que em outros tempos não houvesse ingerido antes, será que havia sido drogado? Já havia experimentado algumas drogas também, que me deixavam elétrico, faminto ou até mais lento, mas jamais havia tido alucinações antes, ainda mais uma tão real quanto aquele bichinho comendo meu pringles  e sentado no meu sofá. Percebendo minha total falta de tato para lidar com aquela situação, ele enfiou seu braço dentro da lata de pringles e vasculhou o tubo, até que seu cotovelo desapareceu la dentro, ou algo parecido com um cotovelo, não sei se os bracinhos destas criaturas possuem as mesmas articulações que as nossas, ele retirou uma rodela de batata intacta, e a apontou em minha direção, se fosse humano poderia dizer que estava me oferecendo a tal batata, mas não era humano, e mesmo assim, estava de fato me oferecendo aquela batata que eu mesmo havia comprado semanas antes, para uma possível fome, ou uma ocasião de ociosidade onde coisas como panelas, fogões e louça acumulada sobre a pia fossem o último caminho que me levaria até a minha comida. Bastava abrir a lata com seu barulho de champanhe e "flop" o jantar estava servido. Eu havia comprado aquela batata, e devido a embriaguez me senti momentaneamente ofendido com o bicho me oferecendo o que era meu por direito. Então num gesto brusco, quase animalesco, tomei a batata da mão dele e enfiei-a inteira na boca de uma vez. Mastiguei fazendo barulho, um som que me irritava mas sentia que demarcaria meu território, mas o bichinho, tímido que era, nem deu atenção, voltou a comer a sua própria batata em silêncio olhando o nada a sua volta.




Decidi que minha vida não podia ficar mais estranha daquele momento em diante, em que um coala australiano apareceu comendo pringles sentado no meu sofá. Então fiquei estranhamente mais relaxado, e percebi que o bicho fitava curioso o aparelho de som, colocado em seu espaço destinado no raque da sala, dei um sorriso involuntário e decidi ligá-lo só pra ver a reação do ser fofo. Me senti um cientista no meio de um experimento, abaixei cautelosamente o som para não assustá-lo mais que o necessário, afinal não sabia nada sobre essas criaturas, nem sabia que dava isso no Brasil, vai que ele ficasse violento ou tivesse uma doença contagiosa, me preveni ficando a uma distância segura e liguei o som. O bichinho parou de comer e ficou atento olhando as lusinhas do aparelho descerem e subirem conforme os graves da música, fui mudando os cds que ali estavam colocados, inutilmente cabiam doze na disqueteira, uma gulodice comum na época que precedeu o pendrive e a tecnologia USB, cheguei no cd de Elis Regina, ela cantava alegre uma de suas músicas que na hora não pude identificar, e o bichinho ao que me parece, ficou mais relaxado, e voltou a comer sua batata. O coala na minha sala tinha um gosto musical mais refinado que o próprio Ricardo, e isso me fez rir novamente.
Enquanto ele estava entretido com a batata e a música, decidi pesquisar sobre a criatura, liguei o notebook que estava em stand by na mesa da sala, digitei "coala" no google, e imediatamente a wikipédia me avisou que "ao perder a sua casa e alimento, o coala se muda e pode chegar a povoamentos ou cidades, onde via de regra morre por atropelamento ou é caçado por cães, a caça ao coala é um costume na Austrália e sua carne é muito apreciada pelos povos aborígenes.".Fiquei estranhamente triste ao ler o destino daquele bichinho que não fazia nada a não ser ocupar seu tempo sendo fofo, apesar de que toda a sua fofura de fato dava a impressão que sua carne devia ser saborosa, ainda mais a deste em particular que já estava recheado de pringles, que mundo cruel, pensei.




O que eu deveria fazer? Estava lutando para manter o mínimo de racionalidade que a situação e a bebida me permitiam, mas quando um coala aparece na nossa sala (e acho que essa sensação bem específica de ter um coala na sua sala, é uma das poucas coisas que posso afirmar que só eu senti), fica mais difícil manter-se racional. Tinha medo de chamar a polícia ou os bombeiros, afinal se o C.S.I. achasse o pringles no coala, eu poderia ser indiciado por contrabando de animais exóticos, silvestres, gordos ou qualquer coisa do tipo. Já que sóbrio não ficaria mesmo, fui até a geladeira contornando o sofá do coala, ou melhor, o meu sofá, onde de lugar nenhum surgiu um coala e se sentou naquela noite. Abri a porta superior do freezer e enfiei minha cabeça la dentro numa tentativa literal de refrescar as idéias e pensar mais claramente. Então preenchi o copo com vodka, uma, duas, três, quatro vezes. Num momento absurdo de epifânia na cozinha, quase chorei ao pensar que o coala poderia estar com sede, todos me dizem que fico mais sensível e até sociável quando bebo, mas jamais havia me importado com a hidratação corporal de criatura alguma, nem mesmo Ricardo, e o pobre coala ainda havia devorado quase sozinho uma lata de Pringles apimentada, o bichinho poderia estar morrendo naquele momento e eu lá me embriagando, isto é o que eu poderia chamar de "fugir da realidade", a minha realidade no momento, é que tinha um coala na minha sala sedento, e eu ali bebendo, pensando no preço exorbitante que haviam me cobrado por aquela garrafa de vodka. Abri o armário e procurei algo para servir a água fresca ao coala, uma tigela? Um copo? Como daria água aquilo? Peguei um recipiente plástico e o enchi de água. Voltei a sala.
O Coala estava parado sentado em seu lugar no sofá e ouvindo Elis, me aproximei cautelosamente dele, e empurrei a tigela de água em sua direção, ele se apoiou desajeitadamente nas patas da frente e começou a cheirar, instintivamente colocou a boca na água e sorveu o liquido, mas de uma maneira diferente de um cachorro ou gato, não sei dizer como, mas foi bem diferente e mais engraçado de se ver.
Notei que em cima do aparelho de som, jazia um pendrive que não era meu, e certamente não era do coala, era do Ricardo com certeza, aí então a ficha caiu, ele havia estado no meu apartamento antes do coala... Ele era o responsável por aquilo tudo, com certeza instalou alguma câmera em algum lugar do ambiente e me mandaria via msn o link do vídeo já postado no youtube intitulado: O Bêbado e o coala.
Não permitiria isso, nem comigo, nem com o pobre animal inocente, peguei o celular do bolso e disquei seu numero quase de modo mecânico, ele atendeu, sua voz demonstrava claramente que tinha acabado de acordar:
- Alô?
- Ricardo, o que é este animal no meu sofá?
- Hã?
- Ricardo, eu te fiz uma pergunta, é bom ter uma resposta... O que este animal está fazendo comendo pringles no meu sofá?
- Já cansei dessa merda Felipe, se você ficou bêbado, desceu a Augusta, pegou um gay qualquer e levou pro apartamento, eu não sou obrigado a saber, quando você vai começar a agir como um adulto?
- Não seja cínico Ricardo, você levou suas coisas do meu apartamento hoje, mas obviamente esqueceu uma coisa extremamente importante aqui, só não sei se foi propositalmente.
- O quê? O meu pen-drive?
- Não Ricardo, um COALA!
- Olha aqui Felipe, cansei desse seu sarcasmo imbecil, desse teu mau-humor crônico, é apenas a porra de um pen-drive, amanhã eu mando alguém pegar, fica tranqüilo.
- O Pen-drive ou o coala?
- O que?
- Ricardo, este animal já até bebeu água naquela que um dia foi nossa casa, você não entende isso? Ele está olhando pra mim enquanto falo com você agora, me explica isso.
- Felipe, você é fraco pra bebida, não percebe o papel de palhaço que está fazendo? Ligando a essas horas pro seu ex, enquanto o menino que você levou pro nosso ex lar fica aí te olhando, e comendo pringles, e bebendo água, e sei lá mais o que ele esta fazendo, não me interessa! Eu já estou saindo com outra pessoa também!
- Você está saindo com o veterinário do Zoológico Municipal?
- O que você está insinuando? Que eu também sou um animal? Esta na moda chamar os outros de animal como está fazendo?
- Mas realmente apareceu um animal no nosso apartamento Ricardo, não estou brincando, aquele animal famoso da floresta austra...
- O da nota de vinte? Pois Chame o IBAMA, dê banana a ele...
- Vou dar uma banana você vai ver aon...
- Ah, cansei...
Desligou na minha cara.
Coloquei o aparelho na base, e me sentei novamente no sofá em frente ao coala. Ele me olhava com reprovação, mas não era um mérito dele, todos me olhavam com reprovação desde sempre, acendi um cigarro e traguei profundamente. Ele novamente observava o nada ao seu redor, meu deus, eu estava ficando louco. Apaguei o cigarro e me deitei no sofá, abaixei o som do aparelho e o coala pareceu não se importar, ele se virou de costas para mim e apoiou a cabeça no encosto do sofá, começou a respirar mais lento, e adormeceu fazendo um barulho estranho.  
O esgotamento físico e mental de um dia de trabalho, separação, bebedeira e animais exóticos se abateu de uma vez sobre mim, e não lembro como, mas adormeci irresponsavelmente, largado mesmo.
Acordei com o sol invadindo a sala, junto com a dor de cabeça invadindo meu crânio, e minha colega de trabalho invadindo o meu apartamento e recolhendo os pedaços de pringles do chão e do sofá, eu ainda tinha sinais de álcool no meu sangue e não conseguia compreender a realidade direito:
- Janaína?
- É, sou eu Felipe, você tá bem? Vim te dar carona pro trabalho, eu cheguei aqui encontrei o Ricardo descendo, ele me deu a chave dele e disse que você estava de ressaca da noitada de ontem, daí eu entrei.
- Ué cadê ele? - disse eu me levantando e desajeitadamente revistando cada cômodo da casa.
- É Felipe, ele foi embora, eu sei que deve ser estranho, mas você vai ficar bem meu amigo.
- Mas eu não entendo Janaína, como ele apareceu aqui? Eu dividi minha pringles com ele, eu dei água pra ele beber numa tigela!
- Numa tigela? Não me admira que você esta solteiro, apesar que dividir a pringles é uma idéia bem romântica, acho válido...
- Hã? Mas você chegou a ver ele indo embora? Por onde ele foi? Pela árvore encostada na janela? Aquele animal ingrato!
- Nossa Felipe, coitado, ele foi de elevador mesmo, foi onde encontrei ele, ele...
- Mas como!? Como ele conseguiu...
- Não tem segredo né Felipe, você aperta um botão, a porta abre, aperta outro a porta fecha, agora vai se arrumar, que a Santos ja está um inferno, a gente vai se atrasar horrores.
- Não entendo mesmo Janaína, o Ricardo levou ele embora?
- Ele quem? O Pen-drive?
- Não, o COALA!
- Haha, Felipe seu sarcástico, vai se arrumar, vai...
Naquela manhã tomei um banho demorado, e passei dois dias ainda meio distraído, pensativo, pior do que ver um fantasma, uma assombração, é ver um coala comendo pringles. Como Jung viria isso? O coala seria o arquétipo do quê? Pensei em procurar ajuda profissional, mas sabia que não estava louco, duas vezes eu fiz tudo de novo, bebi as mesmas bebidas no mesmo bar, voltei do mesmo jeito, e abri a porta, esperando que a repetição daquele ritual trouxesse o coala de volta, queria revê-lo por duas razões: a primeira é que preciso provar a mim mesmo que não estou ainda tão louco, e a segunda é porque me apeguei ao bichinho, tínhamos gostos parecidos, Pringles, Elis,etc... Eu sei o que vai acontecer, um dia eu vou contar essa história como "O dia em que bebi tanto que vi um coala na minha sala!", mas por enquanto está tudo bem... Acho que preciso de um lexotan.






p.s. inspirado em meu amigo Felipe. 




30 de agosto de 2011

Malefício.


"O maior poder dos feiticeiros
 é passar seus problemas
 para outras pessoas..."

Provérbio Indiano

“La Lune est diabolique“, Jacinto me disse isso com seu francês ensaiado e pobre em sotaque enquanto acendia um incenso e o queimava na varanda, disse isso com aquele sorriso redondo e grave de pessoa segura que sabe o que esta fazendo.
Estávamos nus, na varanda de seu pequeno apartamento num conjunto habitacional miserável, mas com um charme peculiar de onde colhíamos a vista de lugar nenhum.
Toquei seus ombros e desfrutei aquele momento enquanto ele olhava admirado algo que julgava estar diferente na mesma lua de todas as noites, não lhe dei atenção e continuei a fumar.
Havia nele tanta coisa que não me interessava, como a sua tatuagem no braço com um símbolo que ele próprio desconhecia mas sempre que alguém lhe perguntava sobre, dizia sorrindo que era para sua proteção. Na verdade sempre odiei esse tipo de gente iludida que acredita em coisas que não se pode ver ou tocar, mas Jacinto era diferente, era o tipo de pessoa suave e encantadora, que se nota mesmo sem querer, que atrai para si tudo o que está ao seu redor como se fosse o ponto de referência de todo o lugar, como se o universo existisse apenas sob seus pés e acima de sua cabeça.
Eu o adorava e naquele momento onde já sabia que teria que matá-lo, me penitenciava sozinho. Eu consegui uma boa quantia de dinheiro quando permiti que um velho estrangeiro usasse meu corpo para suas sujeiras, golpe de sorte eu sei, e Jacinto sabia, nunca me disse nada mas sabia. Nunca me perguntou, nunca questionou minha vida noturna. De qualquer forma, sabia o quanto ele me amava, sabia que iria atrás de mim até no inferno se precisasse, então para que eu fosse completamente livre agora que minha vida finalmente começava a andar, ele precisava morrer.
Ninguém de fato daria falta dele, um homem sem família, pobre e sozinho que ocupava seu tempo trabalhando de garçom, conquistando o pouco que lhe era extremamente necessário, sem ambições e se divertindo lendo coisas sobre o anormal, dizia que uma tia lhe contava histórias das bruxas de verdade que escaparam da inquisição vindo nos navios portugueses para o Brasil, vinha de uma família problemática, quase todos os seus parentes eram fanáticos religiosos de alguma seita e ele perdera contato com eles há anos quando se mudou para a capital.
Com uma vida tão exótica, Jacinto merecia uma morte de cinema, passional, cuidadosamente escolhida. Foi assim que reservei a corda que usaria naquela noite e a ocultei previamente embaixo do meu travesseiro.
De volta ao leito, nos encostamos como sempre fazemos quando eu durmo com ele, passei uma perna no meio de suas coxas, e pedi que se deitasse de costas para mim sobre meu braço esquerdo, ele obedeceu naturalmente. Esperei sentir seu corpo adormecer, então puxando a corda com a mão direita que estava livre, enrolei-a nos punhos, um de cada vez, deixando entre eles um hiato suficientemente longo para o tamanho de seu pescoço e então, num puxão, o lacei de uma vez e o puxei de costas contra meu peito, ele ainda estava entorpecido do sono quando percebeu o que estava acontecendo, se debatia, mas de costas não podia fazer muita coisa, eu havia escolhido a posição exata, pensei. Ele me agarrava, como quem se agarra a um tenro fio de vida, e então, o peso. Senti seu corpo endurecido, sem vida, um arrepio, ele estava morto e eu o havia matado pelas costas, covardemente. Desfiz o laço e ele caiu na cama, olhos arregalados fixados no nada. O quarto estava escuro e o luar que vinha da janela descortinada, deixava tudo pálido, como num filme antigo, preto e branco, seco, sem sangue.
Tomei um banho e arrumei minhas coisas, limpei cada vestígio meu daquele lugar morto, cobri seu corpo com um lençol e fui à varanda uma última vez fumar um ultimo cigarro, iria parar com aquilo, não queria morrer, não podia morrer agora. O ar estava gelado e o luar realmente parecia diferente. Senti uma leve tontura, talvez devido ao choque dos acontecimentos. O frio aumentou e eu entrei no apartamento, minha visão ficou estranha, escurecida, turva, os sons da cidade agora pareciam vozes na minha cabeça, me chamavam de assassino. me apoiei na cômoda porque minhas pernas falhavam, olhei no espelho tentando resgatar qualquer vestígio de força, me agarrava à lucidez mas meus olhos se fechavam contra minha vontade, quando olhei novamente no espelho vi que não havia mais corpo sobre a cama, só o lençol, liso, sem conteúdo, sem o recheio.
Então caí.
Os sons da cidade agora realmente eram vozes, não as entendia mas gritavam com ódio, meus olhos fecharam ou foram fechados, não sei por quanto tempo.
A primeira coisa que senti foi um odor estranho, não conseguia distinguir o que era, se o olfato é o sentido da memória nunca havia entrado em contato com aquele odor antes, aos poucos consegui abrir meus olhos, o quarto estava levemente iluminado e quente, velas acesas por todos os lugares, a cama havia sido arrastada para a parede, e no lugar dela havia um circulo desenhado no chão com símbolos estranhos, cercado por velas e sobre o circulo eu me encontrava nu, deitado, com as pernas e os braços amarrados, sentia um estranho peso sobre todo meu corpo, só conseguia mover levemente a cabeça, tentei falar mas as palavras morriam dentro de mim. A porta da varanda se abriu e para minha surpresa, vi Jacinto, nu, andando pelo apartamento. Estava pálido, com a mancha rocha da corda em volta de seu pescoço, cabelos despenteados, andava de forma trôpega e desritmado, ele não podia estar vivo, senti quando seu coração parou. O que estava acontecendo? Ele estava morto.
Nesse momento ele se aproximou com seu andar estranho e se agachou ao meu lado, alisou meu abdômen e começou a falar, só que desta vez, lhe dei atenção:
- Sim amor, você me matou, não há dúvidas quanto a isso. Mas imaginei que você cometeria o erro de não queimar meu corpo e jogar minhas cinzas no terreno de uma igreja como é o modo certo de se fazer isso, matar alguém da minha gente. Digamos que a minha velha tia que me contava histórias de bruxas, me contou muito mais do que apenas suas histórias de bruxas. Sei que você não entende e nem espero que entenda, não mais. Você sabe que eles estão sentados sobre você agora? Estão segurando sua língua, seus membros, dificultando o seu raciocínio, você nunca os viu, não é do tipo de homem sensível para essas coisas, mas eles sempre estiveram por aí ao meu lado e eles me trouxeram de volta como sempre fazem. Mas de qualquer forma, você convidou a morte para entrar neste quarto hoje, e como não se pode enganar a morte, nem mesmo eles conseguem tal proeza, um de nós dois precisa partir com ela agora.
Senti o ar ficar mais gelado novamente e minha respiração foi dificultada pelo que quer que seja que não podia enxergar, mas que estava sentado sobre minhas costelas. "Eles" eram o peso que sentia sobre meu corpo inteiro e dentro da minha cabeça, segurando a minha língua dentro da minha boca.
Vi Jacinto se levantando e pegando a faca que estava sobre a cômoda, me olhou um tanto transtornado, não sei se de loucura ou amor, talvez ambos, disse:
-  Quando foi a última vez que você sentiu medo? Medo de verdade?
Novamente ele deu aquele seu sorriso redondo e grave de pessoa segura de si, que sabe o que esta fazendo...



5 de maio de 2011

E agora Santo Antônio?

"Santo Antônio tenha pena, Santo Antônio tenha dó! Estou ficando velho, estou ficando só!"

Agora que a união estável homoafetiva está a poucos passos de se tornar uma realidade na vida de mais de 60 mil casais homoafetivos que existem no Brasil segundo o último senso do IBGE, e sendo o Brasil o país mais católico do mundo, como fica Santo Antônio nessa história?
Sim, porque se existem 60 mil casais gays, devem existir ao menos milhões de gays solteiros a procura de um amor (o/) e muitos deles, desesperados (o/)², agora que o casamento Gay já está quase aprovado, será que rola essas simpatias pra Santo Antonio arrumar um bom casamento para os rapazes e moças que gostam do mesmo sexo? Bem, existem com certeza muitas moças heterossexuais solteiras importunando Santo Antônio neste exato momento, pode apostar que devem haver milhares de imagens do Santo de ponta-cabeça, embaixo d'água, dentro do freezer, enroladas com uma faixa, fora que nem o C.S.I. poderia encontrar o lugar onde as moças esconderam o menino Jesus que o coitado do Santo segura.
Enfim, com a aprovação da união estável homoafetiva, os gays vão entrar na tal lista de espera de Santo Antônio, e se ela for igual ao S.U.S., nós gays que estamos chegando agora vamos pegar a senha 213786322364436234329423187782130.
Triste. Para dar uma folga para o querido Santo Antônio, bem que poderia existir um Santo Casamenteiro Gay! E não é que existe!?! E por falta de um, são dois!

Reprodução: São Sérgio (à esq.) e São Baco são os padroeiros do casamento gay.

Bem, é realmente estranho pensar que existam santos gays, isso soa até como uma blasfêmia, uma vez que a religião católica e praticamente todas as religiões cristãs condenam a homossexualidade. Mas há teses de que a igreja teve, sim, santos que, no seu passado, tiveram relações com pessoas do mesmo sexo.
O caso mais famoso é de São Sérgio e São Baco, que foram mártires no início do século IV.
No começo do século IV d.C., Sergio de Resapha e Baco de Barbalissus - considerados "erastai" (casal de amantes) - viviam em Coele na Síria. Eram dois importantes nobres romanos que desempenhavam altos cargos no exército do imperador Cesar Maximiano. Sergio como primicerius, uma espécie de comandante, e Bacco como secundarius, seu auxiliar direto. O grupo que comandavam, composto de bárbaros, era chamado de Schola Gentilium (Escola dos Pagãos). A homossexualidade de Sergio e Baco não representava nenhum problema. A comunidade cristã daquela época, não só recebia bem os gays, como também os unia em matrimônio. - Este acolhimento foi descrito pelo historiador da Universidade de Yale, John Boswell (1947-1994), autor de inúmeros títulos sobre o assunto, que publicou suas pesquisas sobre os Santos da igreja no livro "Cristianismo, Tolerância Social e Homosexualidade" (Ed. Munchnik) - Convertidos ao cristianismo, Sergio e Baco foram denunciados pela recusa de participar de ritos pagãos, e quando Sergio e Baco assumiram oficialmente sua fé cristã (saíram do armário), a punição foi terrível. Ambos foram açoitados, até que Baco morreu, e Sérgio que havia sobrevivido aos açoites, teve que fazer uma peregrinação usando sandálias com pregos, até não conseguir mais se mover, quando foi então, decapitado.



O fato é que São Sérgio e São Baco viraram ícones do movimento gay, suas imagens servem à defesa da união civil entre pessoas do mesmo sexo, cujas cerimônias são seladas em muitos lugares do mundo, com a leitura da oração aos dois santos. Eles têm até um dia consagrado oficialmente no calendário Católico: 7 de outubro.

Oração pronunciada durante a cerimônia do matrimônio religioso cristão entre pessoas do mesmo sexo.  Pantaleimon 780 del Monte Athos, século XVI – traduzido do grego.

"Ó Senhor, nosso Deus e Governante, que fizeste a humanidade à tua imagem e semelhança, e lhe deste o poder da vida eterna, que aprovaste quando teus santos apóstolos Felipe e Bartolomeu se uniram, juntos não pela lei da natureza e sim pela comunhão do Espírito Santo, e que também aprovaste a união de teus santos mártires Sérgio e Baco, abençoe também a estes servidores _____ e _____, unidos não pela natureza mas pela fidelidade e pela alma. Permite-lhes, Senhor, amarem-se um ao outro sem ódios e poderem continuar juntos todos os dias de suas vidas, com a ajuda da Santa Mãe de Deus e de todos os teus Santos, porque teu é o poder e o reino e a glória, Pai, Filho e Espírito Santo."


 

14 de março de 2011

As Bodas de Sonho...




Eu queria um dia me casar.
Casar com terno negro,
não negro cor da ida,
mas negro como o retorno,
sem mais casulos ou metamorfoses
nem a gravata borboleta, 

Quero a gravata social,
como aquela de homem normal,
que me custou a alma para laçar,
para simbolizar no altar
não importa o Deus presente,
que lacei um amor nesta minha vida,
nas ruas por onde amores fogem insanamente.

Eu tiraria meu corpo das mãos da morte
para que um homem o cuide em vida,
e na corte de poetas além da existência,
teria um par de olhos
para testemunhar minha sorte.

Quero a alegria de me fazer presente,
e presente, me fazer notado.
Quero o amor, amor aceso no primeiro trago,
uma vez aceso continuar tragando-o eternamente...

Quero ser sacerdote do Deus sem nome.
E sacrificar minha virgindade sobre o seu altar...
O nome lhe falta pois não o encontrei em vida,
e a virgindade oferecida, seria a de amar.

Queria não me perceber amando,
sentir-me banal e indiferente
e estando com ele viver sonhando.


Queria que para mim fosse como uma surpresa,
que para ele fosse a certeza,
 e que o resto do mundo continuasse duvidando,
que em todas as manhãs no seu leito 
eu me descobrisse acordando...

Queria não me importar com o pensa toda gente
e não me deixar assustar por fantasmas nem correntes
de amigo a ficante,  de ficante a namorado,
que a transformação em casado, limpasse nosso passado,
que jazia sepultado eternamente.
Me agrada pensar nisso adiantado,
preso aqui no meu futuro passado,
estou sempre um passo a sua frente,
gosto de sonhar com ele quando estou acordado
melhor assim, sonhar acordado,
meu sonho exagerado...

Eu sonho que já sou casado,
e durmo com essa certeza no travesseiro ao lado,
pois talvez ele me visite dormindo,
meu sonho por dois compartilhado.
abraçados e entrelaçados no destino...

Nosso leito vazio de um amor presente.
E então ao despertar separados,
novamente em nada
nos transforme nossa mente.




Queria saber seu primeiro nome mesmo não entendendo seu significado,
queria descobri-lo de pouco em pouco,
e então pelas convenções sociais evolutivas do amor,
passear com você de braços dados, como amigo, ficante, 
companheiro, enamorado...
Queria também que me levasse um dia ao sepulcro da poetisa,
para que você se torne não a fonte, mas o provedor
tanto da minha alegria quanto da minha dor sem mais tristeza,
e dos Campos Elísios ela nos escutaria, a sua voz e o meu chamado,
e depois de uma pequena oração e vela acesa;
A ela diria:


"Florbela, teu corpo transformado em rosa,
de amor e tristeza brotando através da terra,
a semente guardada num coração delicado...
Que na montanha solitária se encerra.
Pisamos juntos onde tua agonia encontrou um fim,
caminho a ser trilhado por nós em sua direção,
mas antes que a morte o arranque a  força de mim,
queria lhe apresentar sem mais enredo
quem está diante de ti neste solo sagrado
mãos dadas as minhas em segredo,
é aquele aquele a quem pertenço, meu amado..."





25 de fevereiro de 2011

Uma questão de perspectiva...




"Ser amigo é entender o silêncio,
a ternura e o mistério."

Ely M. Becker




Uma década é tempo demais para perder, um tempo que os jovens desperdiçam e que a morte sorve avidamente. Quando Rodrigo percebeu que a década chegava a termo, sentiu um arrepio percorrendo-lhe a espinha, já fazia uma década que conhecia Luis, dez anos de um relacionamento coadjuvante em sua vida, um relacionamento que nasceu e permaneceu eternamente na coxia.
Lembrava-se de quando haviam se conhecido, da primeira conversa, dos anos de conversa que culminaram em um primeiro encontro onde Luis lhe serviu a primeira dose de água-ardente e a primeira dose de carinho de sua vida, Rodrigo degustou cada trago, cada toque, tudo foi elevado a máxima potência em seu corpo e em sua garganta, ambos ainda tão desacostumados com o tanger do amor e da embriaguez, e então depois dessa noite cheia de venenos do corpo com a boca destilados, nunca mais se tocaram.
Luis havia se formado em direito fazia alguns anos e Rodrigo iria prestar seu primeiro vestibular dentro de alguns anos, e no hiato de todas estas mudanças, eles quase que sem querer, escorregando,  empurrados, acabaram entrando um na vida do outro, ocupando um vazio constante que teimava em permanecer. Ocupavam-se mutuamente. Nunca se envolveram mais do que isso, nunca se envolveram demais, mantinham-se longe o suficiente para se observarem de uma distancia segura. Essa distância proporcionou a ambos a maior intimidade que haviam conseguido construir com outro ser humano, se viam, por dentro e por fora, a sinceridade estava sempre presente em cada sorriso, em cada "Bom te rever!", de fato era ótimo revê-lo, pensava Rodrigo, era mesmo sempre bom e nunca mentiria a respeito disso, nem para si mesmo.
Ambos mudaram muito. Depois do primeiro vestibular, Rodrigo ainda prestaria outros sete, sempre passando em todos, não cursando nada e nunca satisfeito consigo mesmo. Luis depois daqueles primeiro s anos de trabalho, se estabeleceria como um advogado bem sucedido em sua cidade. Rodrigo ganhara peso com os anos. Luis emagreceu. Equilibravam-se assim, sua relação yn/yang denunciava-se até nas pequenezas do dia-a-dia. Dividiam um sentimento muito singular, sentiam-se responsáveis pela felicidade um do outro, Rodrigo se mudou, a mãe de Luis adoeceu, o amor de Luis o abandonou, o de Rodrigo acabou, mas eles continuavam lá para si.
Sempre.
Os amantes que tiveram, os amores que passaram nunca tiveram a oportunidade de conhecê-los como eles se conheciam. Eram como flores brotando do estrume, e essa analogia fez Rodrigo sorrir. Afinal para qualquer outro, Luis seria uma aposta errada, um homem bonito demais, ninfomaníaco demais, infiel e com fobia de qualquer tipo de comprometimento, mas para Rodrigo ele era o Luis palhaço, o Luis sincero, o Luis que tinha uma coleção de garrafas de pingas, que ajudava a todos a qualquer momento, que o havia consolodado quando a vida havia se revelado amarga, que o havia enxergado quando ele era invisível. E para qualquer outro, Rodrigo era um homem difícil, intenso demais, com a cabeça fervilhando de pensamentos o tempo inteiro, ligado na profundidade de cada momento, mimado e distante, mas para Luis ele era o Rodrigo fácil de lidar, que sorria por qualquer motivo depois da segunda dose e que ficava deliciosamente safado depois da terceira, era inteligente e uma companhia maravilhosa.
Mas não nasceram para amar um ao outro, eram apenas testemunhas de uma realidade que apenas eles conheciam. Estavam posicionados entre o passado e o tão imprevisível futuro, tinham uma perspectiva única um do outro e sentiam-se gratos por possuírem tamanha responsabilidade.
A responsabilidade de mostrar ao outro o que realmente eram, quando o mundo girando e os anos passando os faziam esquecer de si.
Mas quando a brisa estava morna e eles se encontravam sozinhos, cada um em seu mundo, em sua realidade, tragando seu próprio cigarro, eram vez ou outra assombrados pela dúvida: E se tivéssemos tentado, e se estivéssemos juntos? 
Então, mesmo ignorando a existência um do outro naquele momento único, sorriam e pensavam quase simultaneamente:
- Éramos jovens demais e se tivesse acontecido, teria sido para sempre.


Eles ainda não estavam preparados para o "para sempre"...
E quem está?




26 de dezembro de 2010

A contemplação do relógio...

The Complain of the Watch - Jean-baptiste Greuze



"O amor vem, e vai, depois vem novamente,
 Se você tentar segurá-lo ele fugirá de você,
 Mas se você fugir dele, ele te segurará..."
 
 La Habanera - Carmen de Bizet




Dizia o poeta que o sentimento da tristeza, é como um muro alto erguido entre dois jardins florescentes. Este tipo específico de tristeza a que o poeta se refere, impede a felicidade não só de uma parte, mas da outra também. Um muro, dois jardins.
Enquanto fumava um cigarro agora, escutava "La habanera" uma das áreas da ópera "Carmen" de Bizet, uma música de beleza e sinceridade inigualável, a área começa justamente com a protagonista (Carmen) se perguntando quando conseguirá amar realmente? Nunca? Amanhã? "Hoje com certeza não!" ela declara.
Depois deste início onde Carmen expõe sua atual situação de querer amar, e não ser capaz disso, ela segue filosofando à respeito do amor, com a célebre frase que inicia a canção "L'amour est un oiseau rebelle que nul ne peut apprivoiser..." (O amor é um pássaro rebelde que ninguém nunca conseguirá aprisionar).
Não pude deixar de me comover com sua opinião sobre o amor, e de me perceber na mesma situação dela. Quando eu amarei? Nunca? Amanhã?
Hoje, particularmente, tive a oportunidade de observar de perto, diversos tipos de casais: casais que estão longe e se encontram finalmente com o amor transbordando visivelmente, casais que estão longe e acabam brigando por problemas inexistentes que são filhos da insegurança e da distancia, casais que se amam mais quando estão longe do que perto, e casais que se separaram, mas que a ausência um do outro, serviu para deixar mais evidente a melhor parte de ambos.
Lembro-me perfeitamente, na época em que cursava História da Arte na UNIFESP, uma docente de "Arte do Século XVIII-XIX" mostrou-nos um quadro maravilhoso de um dos maiores nomes do rococó francês, Jean-Baptiste Greuze, o quadro era "A contemplação do relógio", e ilustrava uma camponesa em seu quarto, esperando o retorno de seu amante, esperando o retorno de seu amor, tudo está bagunçado, tudo esta fora de seu lugar na pintura, exceto ela e seu relógio, ambos esperando.
Eu, Carmen e a camponesa de Jean-Baptiste Greuze esperamos o amor, mesmo sem saber o que esperar do amor. O que ele é ou como ele chegará? Como saberemos que é ele, ou se nos perdermos no caminho, como reencontrá-lo? O poeta tenta explicar o amor como uma flor com a capacidade de desabrochar em todas as estações. 
Concordo.
O amor não segue as mesmas leis da natureza, no inverno ele não hiberna, na primavera ele não floresce, e talvez, nem mesmo se esquente no verão. Ele não possui leis ou métodos, não podemos quantificá-lo, ou retribuí-lo. O amor pode sim, desabrochar em qualquer estação, mesmo que o frio e as tempestades possam matar suas belas flores, eles nada podem fazer contra suas sementes, o amor perdura. As próprias flores só desabrocham para continuar a viver, pois reter é o mesmo que morrer.
A consciência de uma flor no meio do inverno não está voltada para o verão que passou, mas para a primavera que irá chegar. A flor não pensa nos dias que já foram, mas nos que virão. Se as flores estão certas de que a primavera virá, por que nós sofremos antecipadamente, custando a acreditar que um dia o amor nos alcançará?
Por isso, no final deste post, antes que este ano termine, juro pela deusa Hera/Juno Lucina, que não buscarei o amor apenas para evitar os momentos a sós com a minha solidão, para provar que ele existe ou para passar meu tempo. Vou buscá-lo para minhas horas vivas, para que ele preencha todas as minhas necessidades, não o meu vazio.


"O amor é filho de um homem boêmio,
 por isso não conhece leis..."
La Habanera - Carmen de Bizet


p.s. crônica escrita em homenagem a minha grande amiga e leitora Deborah Torrezan.
p.s.s. o poeta a quem me referi várias vezes é Khalil Gibran.

 
Um beijo sincero.