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9 de março de 2013

Em branco.




"O toque do nada tudo esvazia..."
A História Sem Fim, Michael Ende.



Decifrar as pessoas era apenas uma habilidade vital que adquirira, advinda de sua quase insana vontade de viver um grande amor.
Via a todos como equações matemáticas simples, essas de primeiro grau, onde o positivo se torna negativo depois do sinal, onde as confusões são controladas com apenas uma rápida olhadela, com destreza ele as somava, subtraia e dividia, enquanto isso elas (as pessoas de sua vida) multiplicavam-se sozinhas em sua realidade.
Por essa vontade de ao menos entender algumas delas, precipitava-se na paixão e algumas vezes no amor, ambos breves demais sem muitos sinais a serem conjugados.
O homem grisalho foi breve também, breve demais.
Homem é uma palavra um tanto exagerada, era apenas um menino, um garoto grisalho, partilhavam da mesma idade, da mesma safra, a única diferença entre ambos eram os cabelos grisalhos do outro.
Um tipo de maturidade física prematura talvez, não sabia explicar ao certo mas o outro era completamente grisalho e isso o atraía, lhe dava uma espécie de segurança edípica nada doentia.
Sentia-se desde sempre estranhamente atraído pela humanidade das pessoas, esta humanidade era sempre representada por algum atributo físico que as distanciavam do padrão industrial de beleza, pintas, pelos, cicatrizes, altura demais ou de menos, peso demais ou de menos, covas, até mesmo a precária habilidade de enxergar enaltecida por um óculos de grau lhe despertavam o interesse em qualquer indivíduo, qualquer coisa que o tornasse mais acessível/aceitável a seu padrão de humanidade também.
O homem grisalho conseguia preencher a todas as suas expectativas com os espaços em branco percorrendo todo o seu corpo, pelos, barba, cabelos, o grisalho era um grande hiato onde ele sonhava em se estabelecer, pelo momento em que este hiato perdurasse.
Mas durou pouco como já mencionei, acontece que em apenas alguns dias depois do grisalho ter-se ido, olhando-se no espelho, percebeu um fio de barba branca em seu rosto, próximo a boca.
Não havia notado antes e nem esperava por isso na juventude que degustava ainda aos poucos, seu primeiro fio branco, seu atestado de envelhecimento, de envolvimento.
O grisalho partira e lhe deixara isso, um espaço em branco perto de seus lábios.
Talvez este fio já existisse bem antes do grisalho e pelo negrume dos outros fios acabou sendo confundido com um brilho, apenas um relance na luz.
Retirou-o com os dedos, uma leve beliscada, uma dor tão breve quanto tudo que já havia se encaminhado, "nascerão três no lugar deste" teria lhe dito sua mãe, segundo ela, em breve ele inteiro estaria coberto por estes espaços em branco também, num efeito acumulativo infinito, logo ficaria devendo espaços em branco ao universo que lhe cercava.
"Arrancarei todos" disse a si mesmo deixando o transparente fio cair sobre a enxurrada da pia.
Não mais de uma semana, la estava, não três mas o mesmo, no mesmo lugar, o fio branco perto dos lábios...
Defronte ao espelho naquele momento, decifrou a si mesmo. 
O vazio deixado pelo grisalho, que tão carinhosamente apelidara de espaço em branco, não poderia ser extinto, apenas preenchido.
Eis a questão: com o que?





6 de janeiro de 2013

O Buraco.




1.
Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio... É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5.
Ando por outra rua.


Texto extraído de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche (Ed. Talento/Palas Athena)



Apenas.




14 de dezembro de 2012

Prece ao ano que finda.




"Para o acaso, 
de aqueles que pela vontade de acreditar no que querem, 
me procurem, que jamais me encontrem.
E que, no acaso da minha inocência ao contrário deles
querer acreditar, simplesmente assim,  por ainda querer, 
Que por aquilo/aquele que tão docemente num futuro me será apresentado,
que eu jamais seja encontrado."

Amem.





Tous les garçons.




E senti na garganta o nó górdio de todos os amores 
que puderam ter sido e que não foram.

Gabriel García Marquez


O que existe de tão fascinante no amor representado pelo simulacro? Sim, porque o amor, amor mesmo, dos amados, nos é ainda muito estranho. Não chegamos a arranhar sua etérea superfície com o ensaiar de um toque. O amor nos é cantado mas não esta la também, pois nas musicas existem sempre dois personagens pré definidos, o que ama e o que não, a vítima e o carrasco, o que fica e o que vai.
Compramos tal ideia sem correlacioná-la com a realidade que nos é apresentada todo dia.
O que ama apenas ama o amor e não o outro, o que fica o faz por falta de opção e não por escolha, até o inferno chega a ser convidativo para aquele que nada tem.
Já o que não ama nunca amou, o que se foi nunca esteve, portanto na realidade não existe um desamor, não existe partida, ele próprio jamais existirá, até que ame, até que fique e um outro se parta.
Não se pode explicar e também não se pode não entender. Eis o que nos resta.
Não somos o que somos, somos apenas o que nos restou.
O que decidiu não nos “não amar”, o que não partiu. 







26 de setembro de 2012

Demônio


"Quando se dança com o Diabo, é ele quem conduz."
Ditado Indiano



Diabo, Demo, Demônio, Que-Diga, Capiroto, Satanás, Satã, Satanazim, Cujo, Tinhoso, Maligno, Tal, Arrenegado, Cão, Cramunhão, O Indivíduo, O Galhardo, O pé-de-pato, O SUjo, O Homem, O Tisnado, O Temba, Leviatã, Belial, Baal, Belzebu, Asmodeus, Samael, Lúcifer, Incubus, O Coxo, O Azarape, O coisa-ruim, O Marrafo, O Pé-preto, O Canho, O Dubá-dubá, O Rapaz, O Tristonho, O Não-sei-que-diga, O Que-nunca-se-ri, Pai do Mal, Príncipe das Trevas, Carfano, Rabudo, Quem que não existe, O Solto-Ele, O Ele, que as vezes é ele, que as vezes é eu, ele em mim, eu nele, ele em relação a mim, eu em relação a ele, o mal, o bem, Deus sabe quem, somos dois seres precipitados, caídos, um para dentro do outro.






22 de setembro de 2012

Venti Cordia ou “Post It” do coração.




"Há cordas no coração que melhor seria não fazê-las vibrar."
Charles Dickens


Minha função mais intrínseca, primordial, quiçá fisiológica é fazê-lo viver, a ti e ao teu corpo, por isso venho pronunciar-me quanto a tua vida. O meu apelo é o mais despretensioso possível, não tenho tempo de discursar sobre minhas idéias e opiniões a respeito da vida que conheço e da que desconheço, dentro e fora de sua caixa torácica o mundo segue um grande mistério para mim, mas mesmo em minha cega e desconhecida ignorância gostaria de dizer uma ou duas palavras sobre os últimos acontecimentos.
Percebi-me acelerando naquela noite, não enxergo mas soube quase que instantaneamente que seus olhos percorriam as palavras dele novamente. As mesmas palavras de novo, ainda não faziam sentido em seu córtex central, mas assustavam ao serem vistas como um todo, um tipo de gestalt que ainda não conheço, acelerei, descompassei, me preocupei com você, com o que lia, com o término anunciado de algo que ainda não tinha certeza se de fato começara, ao menos havia começado para você aqui dentro e todos nós (eu e alguns poucos órgãos) estávamos cientes disso.
O que gerou o meu descompasso não foi de fato o que você sentiu ou pensou sentir naquela noite, foi a repetição, ninguém entende melhor de repetição do que eu, que desde antes de fazê-lo ser, sou.
A repetição me assustou, visto a importância que dava para isso há um ano e a que voltou a dar algumas noites atrás, a repetição da infinita equação amar e não amar, ter e não ter, estar e não estar mais. Essa corda bamba, essa prancha de navio pirata que sempre lhe atira ao vazio e que você chamava de pseudo-namorado, antes e agora. Não era e nem nunca foi, não possuo faculdades desconhecidas como o cérebro, não prevejo o futuro mas sei que nunca viria a ser.
E então veio a anunciada e inevitável separação, não apenas física, mas emocional, separar os seus sentimentos dos dele, os seus erros e precipitações dos dele, somar, subtrair e então dividir.
E lá estávamos nós dois, você dividido, eu quase enfartando, o cérebro sobrecarregado, o corpo sem ar, os pulmões sorvendo nicotina descontroladamente, tornando ainda mais difícil meu trabalho que já não é nem um pouco fácil.
Então, devido a gravidade exacerbada da situação, fizemos um motim, sua consciência talvez esteja estranhando algumas atitudes recentes suas, mas tudo foi meticulosamente planejado por nós, seus vitais. Tudo entrou no automático, no natural, pra facilitar sua vida (e a nossa), para abrandar a sua dor.
Os hormônios mais violentos, alguns deles até grandes culpados desta sua (des) ilusão, foram silenciados, quase todos por mim mesmo. O cérebro parece que já entrou em acordo com todos os nervos que a incompetência vem da parte dele, digo, do cérebro do outro e não do seu, e uma vez tendo encarado esta realidade já desconectou ou ao menos começou a desconectar pelo que soube, qualquer lembrança dele de você, em breve você não o chamara de mais nada, não teremos mais nomes para ele. Nem um unico sentimento que se encaixe nele. Seus músculos faciais concordam que a partir de agora não haverá mais sorrisos para ele. As lágrimas serão contidas antes do orbe ocular, não se incomodarão em subir até os canais, muito menos em descer por eles, o choro será reprimido pela garganta, e as cordas vocais decidiram entrar em greve em tudo que se relacionar a ele, a única coisa que ele ouvirá de você será o som do seu abismo, o som da sua imcapacidade de continuar.
Enfim, acredito realmente que tudo isso dará certo de alguma forma no final, o meu passo não marca o tempo, não o transmuta ou controla, mas podemos mudar (e mudaremos a partir de agora) a forma como você passa por ele, e o tempo que se vire, como nós aqui dentro estamos nos virando também.
Escolhi este momento de repouso em que sua consciência esta silenciada pelo sono, pela brisa noturna, para expor a você o que estamos fazendo e o por que de estarmos fazendo, precisamos de você bem vivo, lúcido, existem células nascendo aqui que querem sua chance de ver o mundo, mesmo que seja apenas esse seu mundo (tao vasto e pleno para nós)  interno.
Quanto a ele, não o conheço, sei que não deve ser de todo mal, sei que você sabe disso também, não o estamos tratando como uma chaga ou uma enfermidade que precisa ser curada, seu sistema imunológico nem entrou nessa jogada, mas acredito que dentro dele tudo tenha sido alinhado premeditadamente para o "até nunca mais", e como nós, desligados que somos, esquecemos de fazer isso por você antes o fazemos agora.
Em breve seu sono acabará e eu preciso voltar ao meu trabalho antes que você enfarte, mas não tenha medo de sonhar de novo, é bom para você e para todos nós quando o faz, apenas lembre-se, ja diria o poeta que você sonha quando olha para fora, mas só acorda quando olha para dentro, ou no meu (e no seu) caso, quando o lado de dentro acorda para o de fora.


Atenciosamente.

Seu coração (lat. cor, grc. Καρδία)





1 de julho de 2012

A crônica do amor malfadado.





“O burro o rei e eu estaremos mortos amanhã.
O burro de fome, o rei de tédio, 
eu de amor.”

Jacques Prévert


Um botão apertado, uma chamada transferida, um ramal acertado, o simples e corriqueiro ato de atender a uma ligação e soube que ele havia morrido ontem. Consegui ainda terminar a conversação necessária com a pessoa do outro lado da linha, que por algum tipo de dever moral, achou que deveria comunicar-me o ocorrido, este era um antigo amigo, de quando eu e ele, o agora falecido, ainda éramos um casal.  
Como o som pode ser perturbador, qualquer som, quando é necessário ascender a um estado de silencio absoluto e contemplativo, dizer um “obrigado por ter me avisado” é um trabalho de Hércules. Então finalmente, o silêncio... Não um silêncio qualquer, mas o silêncio predecessor, onde é possível ouvir o quase inaudível som das emoções mais profundas, escavando, subindo e brotando, dantes enterradas, agora rastejam contaminando veias, contidas na garganta, sobem aos canais lacrimais por onde deságuam no orbe ocular, e ao fechá-lo num esforço racional e consciente de negação, podemos apenas contemplar mais facilmente aquilo que é visível somente dentro de nós, o passado. 
Chorei pouco, evitei procurar motivos para chorar, se quisesse e quando quisesse, os encontraria, sabia onde estavam. Ele havia sofrido um acidente, seu corpo já estava sem vida quando foi resgatado e estaria ainda sobre a terra até o dia de amanhã, quando seria o funeral.  Não cheguei a pensar se deveria ir, simplesmente fui. 
De uma forma mecânica como na época em que estávamos juntos, olhei os horários de ônibus no guichê da rodoviária, porém ao comprar a passagem não podia mais esperar pelo inesperado, pela surpresa de faltar ao trabalho na segunda feira para passar mais tempo ao lado dele, ou então ajudá-lo a pegar o carro do pai escondido para trazer-me de volta, parando sempre nos acostamentos da rodovia onde rotacionávamos a energia fluida de nossos corpos jovens, em beijos, em sexo, em falta de pudores e preocupação.  
Pela primeira vez, comprei também a passagem de volta e ao receber ambos os bilhetes, senti uma dor estranha, incomum, como se estivesse prestes a ruir, minha estrutura, todo o meu interior estava danificado. 
O cheiro do ônibus, o desconforto reconfortante da viagem que nunca era tão longa, ao menos não tão longa quanto esta, as paisagens que se repetiam à janela, a vida que se repetia na pequena cidade do interior, lojas abertas, pessoas nas ruas, exceto ele, lá tudo remanescia.
Ele não havia se casado ou sido feliz, mas isso não era nada, nem eu que ainda respirava poderia estar cem por cento seguro de que era feliz, mas certamente um dia fora, talvez até ao lado dele. 
Eu já havia desejado cada centímetro quadrado dele, sorvi todas as noites o que ele me oferecia, as conversas, os licores, os líquidos, vivi intoxicado por ele muitos anos depois do término ainda. Mas ele provavelmente não, eu pensava, agora jamais teria a certeza se sim ou não. Ele não mais existia. 
Viveu fugindo de si mesmo, repetindo velhos erros, preso a vícios, ao medo de crescer, àquela maldita cidade, fugiu ao menor imprevisto do destino, ao primeiro obstáculo, ele apenas decidiu se livrar um dia de tudo aquilo que amava, e na ocasião, eu fui uma das “coisas” escolhidas. Eu sofri, ele, quem sabe.
Sorrio ainda ao lembrar das noites em que chorei por ele, pela ausência dele, pelo excesso de sua ausência, pela escassez de sua presença.  Mas com o tempo a dor foi diminuindo, um processo estranho e até então desconhecido para mim, o processo de enterrar, sim porque quem acha que corações partidos são soldados novamente no esquecimento, nunca sentiu o prazer de um coração fundido nas lembranças. Eu o guardei. Aos poucos e sem perceber, sem a intenção, deixei todas as lembranças, os toques, os hálitos, a presença e a ausência guardados em um relicário, e como um álbum de fotos antigo o resgatava de vez em nunca, principalmente quando queria chorar ou sorrir, sim, ainda doía, mas era uma dor mais conformada, não mais a perda do grande amor de uma vida que ainda estava começando, mas sim a perda de um homem que eu amava odiar, um homem capaz de extrair de mim toda sorte de emoções possíveis. Até então julgava tudo isso perdido, mas lá dentro do relicário, ainda estava guardado junto à ele a esperança de um possível futuro.
E naquele momento a esperança que restava de ver o rosto dele ao olhar para mim agora, tantos anos depois, um homem pleno, se rasgou. Senti então a mesma dor que sentira no guichê da estação rodoviária, uma fratura interna, tangível, quase pude ouvir o som de algo se quebrando dentro de minha caixa torácica, a realidade enfim havia me golpeado, se estabelecido. 
Não a realidade de que agora ele estava morto mas sim de que agora eu estava vivo.






26 de junho de 2012

To bear or not to bear?



“Normalmente, são tão poucas as diferenças de homem para homem 
que não há motivo nenhum para sermos vaidosos quanto a elas.”

Barão de Montesquieu.




A relação entre seres do mesmo sexo genético sempre existiu, eis um fato, esta relação esta evidente desde os primórdios da humanidade, no reino animal, e recentemente até mesmo no vegetal. 
Eu, particularmente, discordo que a minha homossexualidade possa ser explicada de uma forma biológica, física e/ou psicológica, todos nós os chamados “desviantes patológicos”, somos doentes mentais. 
No final do século XIX a medicina, a biologia e a então recente psicologia resolveram categorizar todas as doenças humanas, foi então em 1869 que foi criado o termo patológico homossexual. 
Antes dele, a sociedade ocidental dominada moralmente pelo cristianismo, utilizava o termo “sodomita” (“aquele que veio de Sodoma”, cidade da mitologia bíblica em que toda forma de “luxúria” era aceita, atraindo assim a ira de Deus) para identificar o homem que gostava de se relacionar eventualmente com outro, este ser era considerado um verdadeiro “safado”, um pecador, que após rezar algumas “aves Maria” era então perdoado. Isso já não acontecia com o recém descoberto homossexual, cria-se então um personagem com toda uma conduta pré estabelecida, com uma patologia definida, e até mesmo com uma pretensa cura. Este personagem só se libertará deste estigma em 1970, nos EUA, quando pela primeira vez na história, a “homossexualidade” deixa de ser uma patologia. Infelizmente outros personagens tão interessantes e complexos como os transexuais, transgêneros e travestis, não tiveram a mesma sorte e continuam até hoje sendo considerados como doentes mentais, exceto na França, que em 2010 se tornou o primeiro (e infelizmente único) país do mundo que além de considerar os desviantes sexuais como normais, considerou os desviantes de gênero como normais também. Por isso, desconsidero as descobertas psicológicas, fisiológicas, biológicas que tentam explicar a homossexualidade latente do ser humano, pois tentam explicá-la ainda como se fosse uma doença, que necessita de uma explicação e futuramente de uma erradicação. 
Aprecio a minha liberdade de ser o que sou, sem precisar me explicar o que sou, sem precisar me entender.
Mas esta é apenas a minha opinião, doentes mentais ou normais, esta patologia impediu por muitos anos que nós homossexuais exercêssemos nossos direitos civis, e ainda hoje, quarenta e dois anos após a nossa despatologização vivemos à sombra da sociedade, somos considerados um tabu e a homofobia social é implacável, desde o começo do ano no Brasil, se mata um homossexual ou transexual a cada 24hrs, levando o Brasil a ser considerado um dos países com o mais alto nível de homofobia do mundo. Triste.
Uma cultura tão massacrada quanto a cultura gay, que nasceu, se criou e se alimentou nas rebarbas sociais acabou se ramificando com o passar dos anos.
Cada subcultura gay reflete uma forma aprendida de lidar com a atração sexual, o desejo, a revolta, a proibição, a inclusão ou a exclusão social. 
No começo dos anos oitenta em São Francisco, uma dessas subculturas ganha nome, os “Bears”. 
Nascidos de uma fusão dos gays motociclistas, leathers e "girth and mirth" (Cintura e alegria, uma outra subcultura da comunidade gay de gordos e obesos), eram em sua maioria homens que lutavam contra a imposição de padrões de beleza física no mundo gay, principalmente o padrão “twink” (jovem, magro e sem pelos) que não correspondia a grande parte da população gay. Também havia no movimento Bear, uma batalha contra o comportamento gay estereotipado, mostrando que gays poderiam atuar como qualquer outro tipo de homem ou trabalhador na sociedade, não precisando tornar-se uma caricatura do que os outros pensavam a respeito de como um homossexual deveria ser/agir.


No Brasil, a subcultura Bear chegou nos anos noventa nas principais capitais do país, transformando milhares de homossexuais em “ursos”. Já menos idealizada, bem mais conhecida e reconhecida, a “comunidade ursina” se tornou um ponto de encontro e porque não refúgio para homens que não se encaixavam nos padrões de beleza masculina atuais, e para admiradores deste biótipo específico. 
Um urso é um homem com pêlos corporais mais protuberantes (ou não), e um corpo maior que o comum, gordo e/ou obeso que já esteja na faixa dos quarenta anos. Felizmente a comunidade ursina tem atraído cada vez mais adeptos aumentando a ramificação de tipos de ursos, os mais conhecidos são os ursos jovens, considerados “filhotes”, outros apenas com pelos corporais e musculosos são conhecidos como “muscle bears”, os que tem apenas pelos e são magros são os “lontras”, e os admiradores de todos estes biótipos (fazendo parte deles ou não) são considerados “caçadores”.
Com o distanciamento da ideologia inicial, a comunidade ursina cada vez mais se tornou um grupo aberto de indivíduos com interesses comuns. Infelizmente isso gerou uma certa padronização comportamental nos ursos. 
Os ursos são tidos como homens do tipo “macho”, que não possuem qualquer tipo de traços homossexuais, devem interagir entre si, deixando muitas vezes os caçadores um tanto isolados e à margem da comunidade.
 Muitos admiradores que procuram o mundo ursino, procuram justamente por esta lenda que é o perfil do urso atual, o machão peludo e musculoso com trejeitos heterossexuais, nos maiores sites de relacionamentos da comunidade ursina é comum encontrar desavisados, ou pessoas que procuram apenas o ideal de urso: “não curto bichas”, “miou acabou o tesão”, “só acima de 50”, “só abaixo de 50”,“não curto gordos”, “curto gordos, não obesos”, “só sarados e magrelos” entre outras coisas pipocam na maioria dos perfis, mas a grande parte dos integrantes de tais sites de relacionamentos buscam apenas o ideal do machão peludo, lenhador, caminhoneiro, musculoso, que não condiz com a realidade da maior parte dos ursos ali cadastrados. Hipocrisia a parte, é óbvio que cada ser humano tem o direito de gostar ou não de um biótipo, um grupo ou mesmo uma característica física que mais lhe aprouver, mas muitos já não sabem mais o que esperar deste grupo que cada dia mais se ramifica, ganha exposição e distancia-se mais de sua origem como comunidade underground da cultura gay. Mas como toda a luta contra a padronização da beleza e do comportamento homossexual que determinaram o surgimento da comunidade ursina, tornaram-se hoje, a sua mais conflitante característica? 
Eu mesmo tenho uma experiência pessoal com a minha breve passagem pela comunidade ursina para relatar. Durante toda a minha vida, fui um urso, mesmo sem o saber. Possuía pelos corporais, estava constantemente e as vezes muito acima do peso ideal, totalmente adepto de tatuagens, piercings, blusas xadrez e barba. E antes do mundo ursino, sempre mantive relações com outros homens que não sei bem o porquê, não me viam como um urso, muito menos eu os via como ursos, lontras, caçadores etc. 
Mas com o passar dos anos a minha capacidade em tolerar a imbecilidade alheia foi diminuindo amargamente, frases como “fulano te achou gordinho demais”, “você precisa perder umas arrobas”, “se você emagrecer você vai pegar todos, você tem um rosto lindo” estavam presentes na minha realidade, não que eu me importasse demais com elas, mas quando fui apresentado ao mundo ursino pela primeira vez, senti que finalmente havia encontrado o meu lugar. Afinal, estaria lidando com pessoas iguais a mim e com pessoas que mesmo não sendo iguais a mim admiravam ou achavam perfeitamente aceitável o que eu era. Ledo engano.
Não me culpem por esta inocente e utópica expectativa, afinal, ainda era um neófito. À medida que me aprofundava no mundo ursino, cada vez mais encontrava pessoas completamente diferentes de mim e a maior parte delas não achava nem um pouco aceitável o que eu era, para minha surpresa, estar dentro do mundo ursino era exatamente a mesma coisa que estar fora dele.
Ou seja, o número de homens interessantes (pra mim) no mundo ursino era tão escasso quanto o número de homens interessantes fora dele. Tive um grande choque ao perceber que minha vida afetiva e sexual não mudaram em absolutamente nada, incluindo minha auto-estima e minha melancolia não haviam sequer saído do lugar. 
O que eu levei muito tempo para perceber, é que o urso lindo e educado que conheci, seria o moço lindo e educado que eu adoraria conhecer, assim como aqueles caçadores super fofos, inteligentes e instigantes seriam os rapazes super fofos, inteligentes, instigantes que eu também adoraria conhecer caso não soubesse da existência do mundo ursino. Com o tempo ficou claro pra mim, que o mundo ursino servia basicamente para reunir pessoas extremamente diferentes com poucos interesses em comum. Resumindo, o mundo ursino é simplesmente o mundo real disfarçado, e isso é maravilhoso.
Hoje em dia não me considero mais um urso, porque percebi o quanto este título é parecido ao título que eu já tinha antes de sê-lo, ou seja: um cara qualquer. Mas sim, quando me chamam de urso, ursinho, filhote, etc, eu tenho um orgulho imenso de ao menos em nome, representar uma ideologia tão nobre, e um grupo de pessoas tão corajosas que são fiéis a seus corpos, aos seus desejos, não importando o que a padronização ou massificação lhes dita. 
E para concluir esta pequena resenha sobre minha visão do mundo ursino, posso dizer que eu, quanto indivíduo, cidadão, sodomita, homossexual, homem acima do peso com pelos corporais, urso, filhote, etc, irei lutar pela igualdade sempre que a diferença me discriminar e lutarei pela diferença sempre que a igualdade me descaracterizar. 





MANUAL SINCERO E PESSOAL DO URSO NEÓFITO


Entrei no mundo ursino sem a menor orientação, escrevi e-mails para as maiores revistas e sites do ramo pedindo dicas de como me comportar no mundo ursino, como utilizar o mundo ursino para me enturmar, e até hoje, não recebi sequer uma resposta. Por isso aqui vai um compêndio da bear-etiqueta pra você não fazer feio e conseguir desfrutar o mundo ursino da melhor maneira possível, seguindo algumas dicas básicas que consegui a duras penas reunir durante este ano. Nenhuma delas pode ser considerada uma regra pois sempre existe a exceção, mas são sinceras e geralmente estão corretas.

1- Se você é gordinho/gordo/obeso saiba que não será idolatrado como um deus no mundo ursino, por isso entre nele com a noção clara de que você não precisa dele para elevar a sua auto-estima e nem para se sentir aceito, você deve fazer isso sozinho e por si mesmo.

2- Se você é caçador e também não se encontra nos padrões do mundo ursino mas gosta de ursos, clássicos ou modernos e se sente de certa forma excluído, recomendo paciência, o seu ursinho vai chegar, seja especifico quanto ao tipo de urso que busca e boa sorte.

3- No mundo ursino os caçadores dizem que os ursos são galinhas, os ursos dizem que os caçadores são galinhas, e todo mundo no final faz suruba. Portanto sem hipocrisia, saiba aproveitar o mundo ursino em geral, e seja bastante enfático quanto aquilo que você realmente precisa, para não se sentir vazio ou decepcionado.

4- Se você é gordinho e tem baixa estima devido a não se encontrar no padrão de beleza atual e acha que no mundo ursino irá encontrar aquele boy magia sarado e lindo que não se importará com suas gordurinhas a mais, tire seu cavalo da chuva, a maior parte dos caçadores deste tipo são divididos em 3 características: procuram homens acima dos 60 ($$$), procuram o padrão urso de filmes pornôs como o Sagat, ou esta ali desavisado sem saber o que é um urso e procura semelhantes, por isso não tente utilizar o mundo ursino para melhorar a qualidade de homens que você pega, mesmo porque já esta na hora de você aprender que qualidade não se define por abdômen sarado ou qualquer outra característica física que esteja na moda.

5- Ursos são passivos, ursos são novos, ursos são velhos, ursos amam moda, ursos são afetados, e o principal ursos também são gordos, vamos parar com essa idiotice que o verdadeiro urso é aquele ator pornô careca tatuado sarado e peludo que come o cara de bota, ele também pode ser um urso, mas isso não faz dele a regra, esta mais para exceção.

6- Particularmente não conheço muitos revistas ou blogs que tratem do assunto de maneira clara para que eu possa recomendar (se alguém conhecer, deixe o link nos comentários), blogs que recomendo são o Woof Brasil (www.woofbrasil.com) e o Bear Nerd (www.bearnerd.com.br/), ambos exploram diversos temas bears e também temas gerais de maneira bem humorada, existe também o maior site brasileiro de relacionamentos ursinos que é bem legal pra você conhecer pessoas interessantes, mas é claro, respeitando as regras acima (www.ursos.com.br), quanto as festas, bares, etc, que acontecem sempre, nenhuma me pareceu diferente de qualquer outra festa, ou bar, etc, mas isso é questão de gosto, se informe e curta muito lembrando das regras acima. Quanto a aplicativos de celular, recomendo apenas o “Growlr” aparentemente é o único aplicativo em que as pessoas parecem saber o que realmente é o mundo ursino.

7- Por ultimo, não se esqueça que qualquer microcosmo é na verdade o macrocosmo em miniatura. Ou seja, os problemas que você enfrenta do lado de cá, enfrentará também do lado de lá. Não encare o mundo ursino como sua tabua de salvação ou sua única saída, encare ele como uma opção e aproveite-a da melhor maneira possível, lembre-se sempre que o mundo ursino é uma versão disfarçada do mundo real, entre nele e seja um urso, um filhote, um muscle-bear, um lontra ou um caçador, mas acima de tudo, esteja preparado para ser aquilo que você realmente é, seja você o que for...


É bem isso meus queridos.
Beijos sinceros. 



24 de maio de 2012

Par de luvas azuis.






Filho, lego-te a virtude, a pena que não mente. 
  Outros ensinar-te-ão a felicidade.
Virgílio


Tem sido observado em todas as eras que a mudança quando derradeira, se estabelece. Foi assim com meu filho mais velho. Desde seu nascimento, é uma criatura fadada a ser imposta sobre a existência de outras, foi imposto a mim e a sua mãe no delírio de nossa mocidade, sua presença ainda pequenina, completamente inocente, nos amadureceu quase que instantaneamente.
As esferas giraram, e meu  filho continuou com sua missão de impor-se sobre nossas vidas, era algo tão natural de sua alma esta imposição de si, que mal a percebíamos, até outra mudança se estabelecer. Lembro perfeitamente quando sua mãe me chamou, e me contou, com sua simplicidade de mulher sensível a todo o universo, que nosso menino gostava de outros garotos, inclusive naquele momento sofria por um.  
Me pouparei agora da hipocrisia do mundo e da palavra decepção, até mesmo da palavra surpresa, pois não havia nada disso, sempre soube que ele não era o rapaz convencional, mas sentia algo especial nele, algo que o levaria adiante do ponto em que todos nós chegamos.
Mas não conseguia lidar com a situação do meu filho apaixonado pelo filho de alguém, afinal devotei minha vida as mulheres, em especial a sua mãe. Não saberia como julgá-lo, não saberia como me portar com o outro. Sofri por um tempo do “complexo de José”, criando um filho singular que não poderia ser meu, não se parecia comigo, e enquanto me fazia José, sua mãe fazia-se Maria, intercedendo por ele em nossas conversas na cama, mas como progenitores, desde os primórdios da evolução lutamos para manter as coisas que são nossas, e como um neandertal lutei, não muito confesso, mas mantive-me pai.
Depois de passar uma temporada na capital fazendo faculdade, ele voltou a morar conosco, sentíamos ele um tanto distante da realidade, perdido, foi quando se envolveu com um outro rapaz, chegamos até a ficar aliviados naquela ocasião, mas pressentimos o desastre quando o até então perfeito pretendente se negou a acompanhá-lo no cinema para assistir os tais ‘X-Men’, banal demais, eu sei, mas só quem o criou sabe o valor que ele dá pra esses mutantes com quem tanto se identifica.  “O dia dos namorados esta chegando, vamos ver se eles sobrevivem!”, sua mãe quase como uma sacerdotisa pitonisa profetizou.  Meu filho estava passando por algumas dificuldades financeiras e pediu que ela comprasse o presente de “dia dos namorados”que ele entregaria ao rapaz, ela por sua vez me delegou essa missão, afinal era homem e saberia o que comprar. Decidi comprar para o rapaz que ainda não conhecia um isqueiro Zippo, um presente agradável de se receber. Ela me aconselhou a comprar um preto afinal o tal rapaz era ‘roqueiro’, mas talvez por uma intuição paterna, se é que isso existe, comprei um azul claro, que era a cor favorita do meu filho.
E então o dia dos namorados passou, meu filho não saiu de casa, segundo sua mãe, parece que o tal do rapaz havia “desaparecido”, mas naquela noite (dois dias depois), ele passaria em casa para que ambos conversassem e se acertassem em relação ao desencontro do dia dos namorados.
Da janela da sala observei meu filho no portão esperando pelo rapaz, ele acendeu um cigarro com o isqueiro Zippo azul claro. Obviamente sua decisão estava tomada.
Hoje ele está solteiro faz um bom tempo, acredito que a maturidade tenha diminuído extremamente sua vontade em tolerar as pessoas, não o culpo. Esses dias me pediu que comprasse um par de luvas azuis, mas um modelo sem dedos para que pudesse escrever. Estou ciente que o dia dos namorados se aproxima e que sua situação financeira também não anda muito boa, mas sua mãe me disse que ele ainda não esta devidamente envolvido com ninguém, ela apenas riu enquanto fazia seu café diário, desdobrando o aroma dos grãos por toda a casa, “você precisa estar ciente que como pai, você ainda é o único homem de quem ele sempre terá a certeza do amor absoluto, sincero e abnegado, com todas as convenções sociais de pai e filho, etc...” 
Não que isso não seja verdade, afinal amo-o, mas sempre esperei e creio que ele também esperava, um pouco mais de felicidade em sua existência do que ganhar do pai um par de luvas azuis do pai. Mas já diria o poeta, muito melhor viver sem felicidade do que sem amor.





Crônica inspirada em minhas inusitadas aventuras com meu pai.
Afinal, a coisa mais importante que um pai pode fazer pelo filho, 
é amar a mãe dele, basta isso, e todas as lições são aprendidas.




20 de junho de 2011

Alomorfia




Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.

Ó alma da charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize para onde eu vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!

Visões de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!

Dize que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra…
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!

Florbela Espanca - A mensageira das violetas



Para ele a parte mais difícil sempre estava por vir, ou já tinha ficado para trás. Estava sempre tão distante que não podia tocar a vida, sequer podia enxergá-la. Preso entre algum medo superado do passado e um medo vindouro do futuro, duas cadeias, uma em cada punho. Aprendeu a não ter certezas quanto a sua existência, no seu caso em particular certeza era uma palavra quase estranha ao seu vocabulário, raramente a empregava.
Sua realidade estava situada sobre uma base feita de quimeras fantásticas, fantásticas porém míticas e nada mais. Sobre o mar onde se encontrava, podia ver claramente o horizonte que o oprimia por todos os lados, podia ver os astros e orbes acima de si, mas tal era a profundidade do mar, que não podia sonhar com a visão de um chão.
Flutuava.
Não tinha grande densidade, era poroso, vazio, escorria-lhe o ser por todos os buracos. Seu todo sonhava em ser completo, já sua casca sonhava apenas em ser um casulo, e sozinha ao redor dele aguardava todas estações girarem ansiando pela alomorfia de seu conteúdo, de seu interior, mas esta nunca chegou. Nunca se transformou, a casca era na verdade o ultimo resquício abandonado daquele outro homem que fora um dia e partiu sabe-se lá pra onde, sabe-se lá quando.
Era uma chaga de si mesmo, vivia uma penitência por um pecado que ainda cometeria, encontrava-se sempre dentro do desconhecido, tão banal era a sua vida, que não tinha sequer idéia do que lhe aconteceria, e  mesmo assim, ainda esperava que acontecesse...


p.s. este é meu único ser possível, por hora...



8 de abril de 2011

O Diário de Roberto Rodríguez


Bridget Jones's Diary


"E foi assim, bem alí, aquele foi o momento. 
De repente,  percebi que se nada acontecesse logo 
eu viveria uma vida onde meu principal relacionamento 
seria com uma garrafa de bebida. 
E por fim, eu morreria gorda e sozinha, 
e seria encontrada três semanas depois parcialmente devorada por cães, 
ou me transformaria na Glenn Close do filme Atração Fatal."
O Diário de Bridget Jones





Roberto Rodríguez  8/4/11 
Estado civil: há espera de um milagre
Peso 95kg
cigarros 22
unidades alcóolicas 0 (m.b.)
kcal 2.432 (m.b.)
pensamentos de que serei um escritor rico e famoso, casado e feliz 0
pensamentos de que serei um frustrado, desempregado e gordo 1.345




Bem, faz muito tempo que não escrevo um post de maneira mais coloquial e pessoal, sem fru-frus ou linguagem poética, por isso peço agora aos meus caros leitores que me dêem uma colher de chá. 
Decidi escrever este post para contar a vocês (e principalmente a mim mesmo) toda a verdade sobre Roberto Rodríguez
Primeiro vou contar a vocês uma das maiores verdades que descobri nos últimos tempos, beber não engorda, ou pelos menos "não beber" também não emagrece, porque tenho estado limpo há quase duas semanas e não emagreci nadinha de nada, mas voltando ao assunto Roberto Rodríguez, inspirado pela musa de todos os solteiros/gordinhos/esquisitos/fora dos padrões/atrapalhados, a nossa querida, idolatrada, salve salve Bridget Jones, decidi tentar transcrever a minha atual realidade com o intuito de analisá-la e mudá-la. Primeiramente tenho 23 anos, e me sinto como a cigarra que cantou o verão inteiro, e agora que chegou no inverno de sua vida não tem porra nenhuma pra comer, e depende humilhantemente das migalhas das formigas. Não, eu não tenho vida amorosa, acadêmica, profissional, nada, N-A-D-A. Desde os meus 17 anos, quando me atirei ao mundo, tenho cometido uma série de pequenos erros, que me fazem pagar até hoje por suas consequências, nada assim de muito grave, mas é complicado. Sou um homem complicado por natureza, gay, gordinho, tatuado, etc e etc. Sou preguiçoso por natureza e extremamente acomodado, poderia hoje estar gozando de uma vida maravilhosa, mas infelizmente cometi o grave e imperdoável erro de colocar a minha vida nas mãos de outras pessoas, sempre. Sinto como se a minha felicidade nunca de fato, tivesse dependido de mim, e sim de outrem. Tipo, o que fulano vai pensar? Será que siclano vai me ajudar? E se beltrano disser não? E se fulano não gostar? E por aí vai. Mas e o que EU penso? Poxa, eu cobro tanto que o mundo me enxergue de uma vez, ou pelo menos que alguém me enxergue nesse emaranhado de pessoas, mas eu me olho todos os dias no espelho e ainda não tenho certeza do que vejo lá dentro. Não me refiro a termos meramente físicos, reclamo que na minha vida profissional ninguém nunca explorou meus inúmeros talentos, mas eu mesmo nunca me explorei nesse sentido, comecei a tentar coisas novas faz apenas um mês, e fazem exatos oitenta e quatro meses que estou no mercado de trabalho. Reclamo que os caras com quem saí nunca perceberam a pessoa original que eu era e nunca me trataram como eu achava que merecia, mas como tenho me tratado nesses anos todos? Me recriminando, me censurando, me punindo, me privando, me julgando sempre insuficiente? Fazem exatos 84 meses também, desde que dei meu primeiro beijo, e nunca tomei nenhuma atitude a respeito. Preocupante. Quanto a minha família e as minhas amizades também, perdi inúmeros amigos por ser cabeça dura demais, por levar a risca a regra do oito ou oitenta de uma maneira imatura, por descontar neles a insatisfação que tenho com a pessoa que eu sou, por não me sentir especial quando estou sozinho, e querer que eles estejam lá pra levantar minha moral, o que eu quero deles, um troféu de melhor-amigo do ano? Não Sr.Rodríguez, as coisas não são por aí, não acredito nessa psicologia de fundo de quintal dos livros de auto-ajuda, e nem acredito na auto-estima. Não que eu não me ame as vezes, mas a auto-estima se tornou uma espécie de Santo Graal do século vinte e um. Todos dizem "você precisa de mais auto-estima, se valorizar mais!" mas porra, a auto-estima não é um estado de elevação espiritual ou mental que você atinge como o Nirvana, é o resultado de uma equação momentânea, por exemplo: você acorda numa sexta-feira, descobre que milagrosamente a fada-do-abdomen levou sua barriga embora da noite pro dia, sua calça que não servia a dois anos volta a servir, seu rosto amanhece sem espinhas, você faz a barba e sua pele não fica irritada, seu café sai milagrosamente maravilhoso, você vai pra rua e pega seu ônibus na hora, seu trabalho é tranquilo, você volta pra casa toma um banho delicioso, sai pra noite se sentindo um Deus transbordando auto-estima, claro que não é todos os dias que isso acontece, portanto, menos papinho de auto-estima pro meu lado. Além do que, a auto-estima só ajudou até hoje quem não presta, o que vejo de gente por aí que não é porra nenhuma se sentindo um presente de Deus para o mundo só porque tem a auto-estima elevada, e o que vejo também de pessoas maravilhosas, incríveis, sofrendo sozinhas porque querem atingir um grau de perfeição máximo e então encontrar a tão sonhada auto-estima, por favor né? Não aceito mais isso de problemas com a auto-imagem, auto-estima, auto-ajuda etc, a única palavra com "auto" que define meu humor é automóvel, que por acaso eu não tenho, então já viu.
Não quero mais esperar coisas da vida, coisas que não vão aparecer do nada, nem esperar que um dia eu encontre embaixo da cama a minha auto-estima quando estiver procurando a bolinha do meu piercing, nada disso. Prometo sim, não depositar mais minhas frustrações sobre ombros que não sejam os meus, a não ser quando estiver extremamente ébrio, prometo não cobrar dos outros uma atitude que eu mesmo não tomo, prometo também perder meu medo de começar coisas novas, de me livrar de coisas antigas, prometo não achar que qualquer um que aparecer na minha frente vai ser o homem da minha vida, e prometo dar a qualquer um a chance de provar que não é um qualquer também, e prometo me dar a mesma chance.
Tenho a partir de hoje (se o mundo não acabar em 2012) 84 meses para reescrever toda essa história. E quem sabe até, um final feliz, ou um começo... Talvez, seja hora de um novo começo.




Sem mais meus queridos, 
foi só um desabafo de uma sexta-feira.
Beijos sinceros.



25 de fevereiro de 2011

Uma questão de perspectiva...




"Ser amigo é entender o silêncio,
a ternura e o mistério."

Ely M. Becker




Uma década é tempo demais para perder, um tempo que os jovens desperdiçam e que a morte sorve avidamente. Quando Rodrigo percebeu que a década chegava a termo, sentiu um arrepio percorrendo-lhe a espinha, já fazia uma década que conhecia Luis, dez anos de um relacionamento coadjuvante em sua vida, um relacionamento que nasceu e permaneceu eternamente na coxia.
Lembrava-se de quando haviam se conhecido, da primeira conversa, dos anos de conversa que culminaram em um primeiro encontro onde Luis lhe serviu a primeira dose de água-ardente e a primeira dose de carinho de sua vida, Rodrigo degustou cada trago, cada toque, tudo foi elevado a máxima potência em seu corpo e em sua garganta, ambos ainda tão desacostumados com o tanger do amor e da embriaguez, e então depois dessa noite cheia de venenos do corpo com a boca destilados, nunca mais se tocaram.
Luis havia se formado em direito fazia alguns anos e Rodrigo iria prestar seu primeiro vestibular dentro de alguns anos, e no hiato de todas estas mudanças, eles quase que sem querer, escorregando,  empurrados, acabaram entrando um na vida do outro, ocupando um vazio constante que teimava em permanecer. Ocupavam-se mutuamente. Nunca se envolveram mais do que isso, nunca se envolveram demais, mantinham-se longe o suficiente para se observarem de uma distancia segura. Essa distância proporcionou a ambos a maior intimidade que haviam conseguido construir com outro ser humano, se viam, por dentro e por fora, a sinceridade estava sempre presente em cada sorriso, em cada "Bom te rever!", de fato era ótimo revê-lo, pensava Rodrigo, era mesmo sempre bom e nunca mentiria a respeito disso, nem para si mesmo.
Ambos mudaram muito. Depois do primeiro vestibular, Rodrigo ainda prestaria outros sete, sempre passando em todos, não cursando nada e nunca satisfeito consigo mesmo. Luis depois daqueles primeiro s anos de trabalho, se estabeleceria como um advogado bem sucedido em sua cidade. Rodrigo ganhara peso com os anos. Luis emagreceu. Equilibravam-se assim, sua relação yn/yang denunciava-se até nas pequenezas do dia-a-dia. Dividiam um sentimento muito singular, sentiam-se responsáveis pela felicidade um do outro, Rodrigo se mudou, a mãe de Luis adoeceu, o amor de Luis o abandonou, o de Rodrigo acabou, mas eles continuavam lá para si.
Sempre.
Os amantes que tiveram, os amores que passaram nunca tiveram a oportunidade de conhecê-los como eles se conheciam. Eram como flores brotando do estrume, e essa analogia fez Rodrigo sorrir. Afinal para qualquer outro, Luis seria uma aposta errada, um homem bonito demais, ninfomaníaco demais, infiel e com fobia de qualquer tipo de comprometimento, mas para Rodrigo ele era o Luis palhaço, o Luis sincero, o Luis que tinha uma coleção de garrafas de pingas, que ajudava a todos a qualquer momento, que o havia consolodado quando a vida havia se revelado amarga, que o havia enxergado quando ele era invisível. E para qualquer outro, Rodrigo era um homem difícil, intenso demais, com a cabeça fervilhando de pensamentos o tempo inteiro, ligado na profundidade de cada momento, mimado e distante, mas para Luis ele era o Rodrigo fácil de lidar, que sorria por qualquer motivo depois da segunda dose e que ficava deliciosamente safado depois da terceira, era inteligente e uma companhia maravilhosa.
Mas não nasceram para amar um ao outro, eram apenas testemunhas de uma realidade que apenas eles conheciam. Estavam posicionados entre o passado e o tão imprevisível futuro, tinham uma perspectiva única um do outro e sentiam-se gratos por possuírem tamanha responsabilidade.
A responsabilidade de mostrar ao outro o que realmente eram, quando o mundo girando e os anos passando os faziam esquecer de si.
Mas quando a brisa estava morna e eles se encontravam sozinhos, cada um em seu mundo, em sua realidade, tragando seu próprio cigarro, eram vez ou outra assombrados pela dúvida: E se tivéssemos tentado, e se estivéssemos juntos? 
Então, mesmo ignorando a existência um do outro naquele momento único, sorriam e pensavam quase simultaneamente:
- Éramos jovens demais e se tivesse acontecido, teria sido para sempre.


Eles ainda não estavam preparados para o "para sempre"...
E quem está?




20 de fevereiro de 2011

O presente da estrela cadente...

Ingrid Betancourt, Ilha da Liberdade, Nova York, Janeiro de 2011


"Claro que, sem a liberdade, a consciência de nós mesmos se degradava ao ponto de não sabermos mais quem éramos. Mas ali, deitada, admirando a exibição grandiosa das constelações, eu experimentava uma lucidez que vem com a liberdade duramente conquistada.
A imagem que o cativeiro dava de mim mesma tinha trazido à luz todos os meus fracassos. As inseguranças que eu não tinha resolvido durante meus anos de adolescência e as que tinham surgido de minhas incapacidades de adulta tinham ressurgido como hidras, das quais eu não podia mais fugir.
Eu as tinha combatido no começo, mais por ociosidade que por disciplina, obrigada a viver num tempo sempre recomeçado, onde a irritação de me redescobrir em minhas pequenezas imutáveis me levava a tentar de novo uma transformação impossível.
Naquela noite, sob um céu estrelado que me levava para anos distantes de uma felicidade perdida, para um tempo em que eu contava as estrelas cadentes, acreditando que elas me anunciavam a plêiade de graças que preencheriam minha vida, compreendi que uma delas acabava de cair naquele instante e que ela permitira o meu reencontro com o melhor de mim mesma que jazia esquecido."





Trecho retirado da página 427, do capítulo 63, intitulado "A escolha".
Não há silêncio que não termine. - Meus anos de cativeiro na selva colombiana.
Ingrid Betancourt, Editora Companhia das Letras, 2010.



7 de fevereiro de 2011

Noite e Dia. (Perla)

Sua festa surpresa de 20 anos, foto tirada pelo meu primeiro ex-namorado.



"Noite e Dia, chamavam-nas as tias, e embora nenhuma delas risse dessa brincadeirinha, 
 nem a achasse um pouco engraçada elas reconheciam a verdade que ela continha e eram 
 capazes de compreender, mais cedo do que a maioria dos irmãos consegue, que a Lua 
 anseia o calor do Sol, assim como o Sol anseia pela escuridão da Lua."

Da Magia à Sedução, pag. 15.




Dentro de um planeta que gira em torno de sua própria órbita seria difícil imaginar que um de seus habitantes se importasse com  algo além de si mesmo, mas nós nos importamos. Somos livres, orbitamos ao redor do sol, e este ao redor da galáxia e esta perdida rodopiante no meio do universo misturando o tudo e o nada, e neste eterno e complicado movimento elíptico seria difícil para qualquer coisa permanecer como é, original desde sua criação, mas nós dois permanecemos, quase estáticos, no meio da mistura de cores que nos cerca, nós mantivemos nossos contornos firmes, e nossas mãos dadas, minha safena magna desaguando no seu coração, trocando o ar pela boca quando estávamos debaixo d'água, trocando tudo, cabeça, cabelo, corpo, até as cascas caírem, e então, novos, renascíamos, estavamos prontos para nos destruir aos poucos, novamente, mas não por auto flagelação, e sim pelo prazer que o renascimento sempre nos deu.


André, Paulinho, você e eu. Sempre.



E é renascendo sempre, transformando a distancia em liberdade, a ausência em saudade, o medo em aventura que nos separamos agora. Você vai, eu fico.


HAUSASHUAHUAASHUASHUSAUHASAHUASHUAS


Você vai levar tudo com você, tudo o que trocamos em tantos anos em que partilhamos o laço mais fino e delicado que já vi nascer entre dois seres humanos, tão diferentes, tão parecidos. Você me deixou mais calmo, mais maduro, mais homem, você a cada palavra, a cada gesto, a cada percepção de sentimento, ou  a falta dela, me amadurecia, me maturava como um vinho, me servia a realidade sem o amargor da decepção, me servia a realidade na taça dos sonhos que se realizam, lia meu futuro, conhecia meu passado e vivia meu presente. Você era a única presente.


HUUASHUSAUHASHASHSAHUAUASUAUHAUHASUH



Os anos passaram e nos tornamos adultos, gente grande, com poucas coisas que nos lembram nossa infância  tão distante agora, você manteve sua franja, eu mantive minhas tatuagens. Os piercings se foram, junto com amores, com passado, com amigos, com inimigos, com costumes e homens errados, mas nós não fomos, nós ficamos. 


CHANDON AUSUASAHUSASUHSASAHU



Ficar é o nosso hábito, nosso joguinho particular. Ficar é o que fazemos de melhor, não por que somos temerosos, mas porque sempre ficamos um pelo outro. E é por você que eu vou ficar, esperando, não mais sozinho pois nos construímos tão bem durante esses anos que percebi que é impossível que eu sinta sua ausência, ou sinta falta de você, pois você esta em tudo o que faço, em tudo o que vejo, em tudo o que sonho, em cada profundeza de pensamento, em cada licenciosidade que me permito, em tudo o que eu queria ter dito e não disse, em tudo que eu teria feito melhor, em tudo o que eu mudaria, e em tudo o que permaneceu. Nós.


SUHAUHSAUHSAUHASHUAASUHASHUASHUSASAH



Cabelos negros, olhos claros, me lembrou sempre Perséfone, e agora como ela, você comeu as três sementes de romã que vão me custar três meses sem você, três meses de inverno/inferno, três meses de um mundo novo a ser (re)descoberto, você lá, e eu aqui. 



AHUSSAASHUASHUASHUAHUAHSUASHUASHUAAH



E se eu estivesse lá, no momento em que você for jogar a moeda por mim na Fontana di Trevi, saiba que eu só teria um pedido a fazer aos deuses romanos:
Desejo que você seja feliz, sempre.

Eu te amo Gilly Bean!


- # -

"Sopre vento, até onde estiver quem eu ame,
acaricie seu corpo e regresse para acariciar-me.
Por meio de ti sentirei sua mão suave
e encontrarei sua beleza na Lua.
- # - 
Estas coisas são muito valiosas para quem ama.
Podemos viver com elas e nada mais:
pois nós dois respiramos o mesmo ar,
e o planeta que percorremos, é apenas um."

Ramayana