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9 de março de 2013

Em branco.




"O toque do nada tudo esvazia..."
A História Sem Fim, Michael Ende.



Decifrar as pessoas era apenas uma habilidade vital que adquirira, advinda de sua quase insana vontade de viver um grande amor.
Via a todos como equações matemáticas simples, essas de primeiro grau, onde o positivo se torna negativo depois do sinal, onde as confusões são controladas com apenas uma rápida olhadela, com destreza ele as somava, subtraia e dividia, enquanto isso elas (as pessoas de sua vida) multiplicavam-se sozinhas em sua realidade.
Por essa vontade de ao menos entender algumas delas, precipitava-se na paixão e algumas vezes no amor, ambos breves demais sem muitos sinais a serem conjugados.
O homem grisalho foi breve também, breve demais.
Homem é uma palavra um tanto exagerada, era apenas um menino, um garoto grisalho, partilhavam da mesma idade, da mesma safra, a única diferença entre ambos eram os cabelos grisalhos do outro.
Um tipo de maturidade física prematura talvez, não sabia explicar ao certo mas o outro era completamente grisalho e isso o atraía, lhe dava uma espécie de segurança edípica nada doentia.
Sentia-se desde sempre estranhamente atraído pela humanidade das pessoas, esta humanidade era sempre representada por algum atributo físico que as distanciavam do padrão industrial de beleza, pintas, pelos, cicatrizes, altura demais ou de menos, peso demais ou de menos, covas, até mesmo a precária habilidade de enxergar enaltecida por um óculos de grau lhe despertavam o interesse em qualquer indivíduo, qualquer coisa que o tornasse mais acessível/aceitável a seu padrão de humanidade também.
O homem grisalho conseguia preencher a todas as suas expectativas com os espaços em branco percorrendo todo o seu corpo, pelos, barba, cabelos, o grisalho era um grande hiato onde ele sonhava em se estabelecer, pelo momento em que este hiato perdurasse.
Mas durou pouco como já mencionei, acontece que em apenas alguns dias depois do grisalho ter-se ido, olhando-se no espelho, percebeu um fio de barba branca em seu rosto, próximo a boca.
Não havia notado antes e nem esperava por isso na juventude que degustava ainda aos poucos, seu primeiro fio branco, seu atestado de envelhecimento, de envolvimento.
O grisalho partira e lhe deixara isso, um espaço em branco perto de seus lábios.
Talvez este fio já existisse bem antes do grisalho e pelo negrume dos outros fios acabou sendo confundido com um brilho, apenas um relance na luz.
Retirou-o com os dedos, uma leve beliscada, uma dor tão breve quanto tudo que já havia se encaminhado, "nascerão três no lugar deste" teria lhe dito sua mãe, segundo ela, em breve ele inteiro estaria coberto por estes espaços em branco também, num efeito acumulativo infinito, logo ficaria devendo espaços em branco ao universo que lhe cercava.
"Arrancarei todos" disse a si mesmo deixando o transparente fio cair sobre a enxurrada da pia.
Não mais de uma semana, la estava, não três mas o mesmo, no mesmo lugar, o fio branco perto dos lábios...
Defronte ao espelho naquele momento, decifrou a si mesmo. 
O vazio deixado pelo grisalho, que tão carinhosamente apelidara de espaço em branco, não poderia ser extinto, apenas preenchido.
Eis a questão: com o que?





9 de fevereiro de 2013

Adeus à carne.





"Não há último adeus, senão aquele que se não diz."
Alexandre Dumas



Adeus à carne, em especial a sua, que durante breves e estigmatizados momentos esteve entre meus dedos, lábios e que depois disso, talvez (ainda) esteja em minha memória cognitiva, o tato, o sabor, o não-vem-ao-caso, etc.
Adeus à nossa não-história, cujo final imponho a mim mesmo agora, cujo meio ainda não decifrei e o começo, rebento como todo começo é, não resistiu aos nossos tão raros (des)cuidados. 
Adeus a mim também, o ser que fui, algo construído de fantasias futuras e de um 'eu idealizado' e adiantado para você. 
Adeus às respostas que calaram e as perguntas que finalmente cessaram, dando lugar a uma conformidade pesada, abafada como a atmosfera que precede a tormenta, adeus ao meu tormento que deságua agora.  Adeus à seca, ao silêncio, a ausência proposital, a ausência esperançosa cheia de um 'querer fazer-se presente' por detrás de cada falso não falar contigo, cada vírgula e contexto, cada grito nas entrelinhas, cada silêncio escandaloso demais para ser verdadeiro. 
Adeus à minha infantilidade e ao meu eu-lírico, que ainda acreditava nisso, em nós, em você e principalmente em mim, acreditava que eu conseguiria lidar e organizar diariamente este caos do sabe-se-lá-deus-quando.
Atesto aqui a minha total incapacidade, inaptidão e incompetência em lidar com você.
Eu o desejei por tanto tempo, em desenhos rabiscados, em letras de músicas cantadas a longos tragos, e plenas de sentido naquela ocasião, e agora digo adeus à todas elas, aos sentidos, aos filmes, ao apelido, a metáfora que fomos um para o outro.
Uma parte de mim que cisma em remanescer, ainda se pergunta o quão intenso realmente foi nosso contato, que por mais breve que tenha sido nos encheu em uma única lufada de tanta esperança...
Permanece ainda aquele gostinho de missão não cumprida, mas eu sei que ele também no devido tempo desaparecerá, como nós dois, que o antecedemos na distância da jaculação amorosa. 
Adeus ao não-era-para-ter-sido, adeus ao não-foi-como-eu-esperava.
Adeus ao nosso não saber continuar.
Adeus a nossa parada brusca.
Adeus ao sonho, ao contato, ao tanger em algo aparentemente sólido, coisa tão rara num mundo fluídico de onde fugimos (um para dentro do outro) e para onde retornamos agora, o mundo etéreo que nos recebe de volta, acolhedor em toda sua inconstância.
Adeus ao que somos agora, incompletos, órfãos, errantes, rebentos, mas principalmente, adeus ao que nunca chegamos a ser.
Adeus a lição que nos ensinamos.
Adeus.






6 de janeiro de 2013

O Buraco.




1.
Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio... É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5.
Ando por outra rua.


Texto extraído de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche (Ed. Talento/Palas Athena)



Apenas.




14 de dezembro de 2012

Tous les garçons.




E senti na garganta o nó górdio de todos os amores 
que puderam ter sido e que não foram.

Gabriel García Marquez


O que existe de tão fascinante no amor representado pelo simulacro? Sim, porque o amor, amor mesmo, dos amados, nos é ainda muito estranho. Não chegamos a arranhar sua etérea superfície com o ensaiar de um toque. O amor nos é cantado mas não esta la também, pois nas musicas existem sempre dois personagens pré definidos, o que ama e o que não, a vítima e o carrasco, o que fica e o que vai.
Compramos tal ideia sem correlacioná-la com a realidade que nos é apresentada todo dia.
O que ama apenas ama o amor e não o outro, o que fica o faz por falta de opção e não por escolha, até o inferno chega a ser convidativo para aquele que nada tem.
Já o que não ama nunca amou, o que se foi nunca esteve, portanto na realidade não existe um desamor, não existe partida, ele próprio jamais existirá, até que ame, até que fique e um outro se parta.
Não se pode explicar e também não se pode não entender. Eis o que nos resta.
Não somos o que somos, somos apenas o que nos restou.
O que decidiu não nos “não amar”, o que não partiu. 







16 de outubro de 2012

Sobre os fins, os meios e os começos.




"Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém."

Sete Sonetos e um Quarto – Manuel Alegre, 2005.



O mais estranho de escrever sobre o fim é começar a escrever sobre o fim, ainda mais depois de um certo tempo desde que o fim se estabeleceu. Escrever sobre o fim se torna quase um ato de recomeço, também não deixa de ser um novo começo, ou mesmo uma continuação do que ficou em branco, em silêncio, tudo depois do (inevitável?) fim.
Se os fins justificam os meios, os meios justificam o começo. Antes do meu fim o meio estava até que agradável, vindo de um começo brilhante, com doses cavalares de destino, maturidade, sinceridade, leões imaginários sendo mortos um de cada vez. Então o fim. Abrupto, até mesmo a frase que começou o meu fim é finita “Não existe maneira fácil de fazer isso.”, por mais brincadeiras e trejeitos que o finalizador evocou no momento, o fim é um fim e não mais um meio, muito menos um começo.
A expressão facial (literalmente) que mais se encaixa no meu fim seria o "Ecce Homo" do Elías García Martínez (que fica no santuário espanhol de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja, Zaragoza, Espanha) e que recentemente foi magistralmente ~n~ restaurado pela querida senhorinha Cecilia Giméne. 
O fim agora visto como um recomeço pode também ser encarado como uma restauração, ainda que mal feita e precária, muda a imagem original que no caso era a serenidade do meio, deixando em seu lugar o rosto pasmo e disforme da perplexidade de um fim .
O som do fim não é uma explosão por mais surpresa que ele cause, o fim é o silêncio, a ausência, o abismo.
Seres humanos que somos temos quase que uma vocação biológica para preencher o vazio todo o tempo, e como lidar com o final que nos impõe o vazio, se não o preenchendo?
E nós o preenchemos com o que temos a mão: dúvida, raiva, vingança, compreensão, perdão... Mas acima de tudo nos preenchemos com a análise. Sim, porque basta um fim para que todos os fins voltem a pauta e nos façam questionar onde foi que os meios tornaram-se fins. Vasculhamos com os olhos duvidosos da memória todos os fins, procuramos sintomas, presságios, sinais em plantações, posições estelares, qualquer Nostradamus que pudesse ter nos avisado antes e assim nos preparado. Mas nenhum meio consegue nos preparar para o fim, por mais evidente que este possa ser.
Depois da análise vem a anarquia. Não lidamos muito bem com o imutável que nos mudou completamente, deixamos de ser algo que jamais seremos novamente e passamos a ser outra coisa, ainda nova, indefinida e desconhecida. A fase da anarquia é quase toda preenchida de inconformidade. Odiamos, destruímos, jogamos fora fotos, presentes, futuros não existentes, não suportamos muito, quebramos os templos, destronamos os reis e queimamos os ídolos que antes eram adorados em nossa, agora antiga, realidade.
Culpamos o finalizador, culpamos os deuses, o destino, a nós mesmos. 
Nos enchemos de raiva, de músicas, de poemas, de traduções de uma dor tão intima que como a ferroada de uma abelha, persiste, pulsa. Tudo o que o finalizador fizer, qualquer movimento numa tentativa de se aproximar ou de se afastar, ou mesmo de se recomeçar sozinho em sua nova realidade, machucará, muito. Visto que não sabemos o que nos tornamos depois do fim, como imaginar ou lidar com o que quem nos finalizou é agora? Remédio? Distância: deixa o silêncio do fim ecoar livremente, sem tanta dor, sem reverberação.
Depois de nos preenchermos com tudo ao nosso alcance, escaparmos do ferrão do contato com o finalizador, deixarmos a distância ecoar o silêncio do fim, enfim, nos enchemos.
E começa então o processo inverso, o esvaziamento.
Nos esvaziamos da culpa, própria e alheia, nos esvaziamos dos poemas, das sensações, das montanhas russas, da indefinição, esse esvaziamento é o expirar da dor, toda a dor da inspiração da nova realidade é agora expurgada numa lufada só.
Então voltamos ao vazio, ao silêncio, mas é o vazio aveludado, o silêncio harmonioso, nada mais soa como um fim, tudo é um recomeço, tudo pede para ser reordenado, somos uma prateleira vazia pedindo por novos livros com novas histórias, novos enfeites adquiridos em novas viagens, novos porta retratos, recheados de novos contatos, tudo em nós pede o novo, e é isso que permite que recomecemos, que possamos falar sobre o fim como estou fazendo agora sem se deixar esbarrar em nenhum final, como um rio mágico que só desemboca em novos começos, um rio que contorna pedras e se levanta de quedas... E quanto ao finalizador, este é esvaziado também, já não é sequer o finalizador, foi esvaziado de todos os adjetivos, os bons e os maus, não o odiamos, nem tão pouco o amamos, não o agradecemos, não o perdoamos, não o culpamos e já não clamamos por uma vingança sobre este ser também agora, recomeçado. Não existe mais perdão, não existe mais vingança, o esquecimento é nosso único perdão, o esquecimento é a nossa única vingança. 


"E por fim se esqueceram sem dor…"
O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel Garcia Marquez.






Epílogo:
O coração volta a bater noventa vezes por segundo, 
a princípio por si, por outro só mais pra frente, quem sabe? 
Então o tempo torna-se nosso  sol, nosso marte e nos guia, 
e num belo dia transforma isso tudo em nada. 
O nada tudo esvazia.




26 de setembro de 2012

Demônio


"Quando se dança com o Diabo, é ele quem conduz."
Ditado Indiano



Diabo, Demo, Demônio, Que-Diga, Capiroto, Satanás, Satã, Satanazim, Cujo, Tinhoso, Maligno, Tal, Arrenegado, Cão, Cramunhão, O Indivíduo, O Galhardo, O pé-de-pato, O SUjo, O Homem, O Tisnado, O Temba, Leviatã, Belial, Baal, Belzebu, Asmodeus, Samael, Lúcifer, Incubus, O Coxo, O Azarape, O coisa-ruim, O Marrafo, O Pé-preto, O Canho, O Dubá-dubá, O Rapaz, O Tristonho, O Não-sei-que-diga, O Que-nunca-se-ri, Pai do Mal, Príncipe das Trevas, Carfano, Rabudo, Quem que não existe, O Solto-Ele, O Ele, que as vezes é ele, que as vezes é eu, ele em mim, eu nele, ele em relação a mim, eu em relação a ele, o mal, o bem, Deus sabe quem, somos dois seres precipitados, caídos, um para dentro do outro.






22 de setembro de 2012

Venti Cordia ou “Post It” do coração.




"Há cordas no coração que melhor seria não fazê-las vibrar."
Charles Dickens


Minha função mais intrínseca, primordial, quiçá fisiológica é fazê-lo viver, a ti e ao teu corpo, por isso venho pronunciar-me quanto a tua vida. O meu apelo é o mais despretensioso possível, não tenho tempo de discursar sobre minhas idéias e opiniões a respeito da vida que conheço e da que desconheço, dentro e fora de sua caixa torácica o mundo segue um grande mistério para mim, mas mesmo em minha cega e desconhecida ignorância gostaria de dizer uma ou duas palavras sobre os últimos acontecimentos.
Percebi-me acelerando naquela noite, não enxergo mas soube quase que instantaneamente que seus olhos percorriam as palavras dele novamente. As mesmas palavras de novo, ainda não faziam sentido em seu córtex central, mas assustavam ao serem vistas como um todo, um tipo de gestalt que ainda não conheço, acelerei, descompassei, me preocupei com você, com o que lia, com o término anunciado de algo que ainda não tinha certeza se de fato começara, ao menos havia começado para você aqui dentro e todos nós (eu e alguns poucos órgãos) estávamos cientes disso.
O que gerou o meu descompasso não foi de fato o que você sentiu ou pensou sentir naquela noite, foi a repetição, ninguém entende melhor de repetição do que eu, que desde antes de fazê-lo ser, sou.
A repetição me assustou, visto a importância que dava para isso há um ano e a que voltou a dar algumas noites atrás, a repetição da infinita equação amar e não amar, ter e não ter, estar e não estar mais. Essa corda bamba, essa prancha de navio pirata que sempre lhe atira ao vazio e que você chamava de pseudo-namorado, antes e agora. Não era e nem nunca foi, não possuo faculdades desconhecidas como o cérebro, não prevejo o futuro mas sei que nunca viria a ser.
E então veio a anunciada e inevitável separação, não apenas física, mas emocional, separar os seus sentimentos dos dele, os seus erros e precipitações dos dele, somar, subtrair e então dividir.
E lá estávamos nós dois, você dividido, eu quase enfartando, o cérebro sobrecarregado, o corpo sem ar, os pulmões sorvendo nicotina descontroladamente, tornando ainda mais difícil meu trabalho que já não é nem um pouco fácil.
Então, devido a gravidade exacerbada da situação, fizemos um motim, sua consciência talvez esteja estranhando algumas atitudes recentes suas, mas tudo foi meticulosamente planejado por nós, seus vitais. Tudo entrou no automático, no natural, pra facilitar sua vida (e a nossa), para abrandar a sua dor.
Os hormônios mais violentos, alguns deles até grandes culpados desta sua (des) ilusão, foram silenciados, quase todos por mim mesmo. O cérebro parece que já entrou em acordo com todos os nervos que a incompetência vem da parte dele, digo, do cérebro do outro e não do seu, e uma vez tendo encarado esta realidade já desconectou ou ao menos começou a desconectar pelo que soube, qualquer lembrança dele de você, em breve você não o chamara de mais nada, não teremos mais nomes para ele. Nem um unico sentimento que se encaixe nele. Seus músculos faciais concordam que a partir de agora não haverá mais sorrisos para ele. As lágrimas serão contidas antes do orbe ocular, não se incomodarão em subir até os canais, muito menos em descer por eles, o choro será reprimido pela garganta, e as cordas vocais decidiram entrar em greve em tudo que se relacionar a ele, a única coisa que ele ouvirá de você será o som do seu abismo, o som da sua imcapacidade de continuar.
Enfim, acredito realmente que tudo isso dará certo de alguma forma no final, o meu passo não marca o tempo, não o transmuta ou controla, mas podemos mudar (e mudaremos a partir de agora) a forma como você passa por ele, e o tempo que se vire, como nós aqui dentro estamos nos virando também.
Escolhi este momento de repouso em que sua consciência esta silenciada pelo sono, pela brisa noturna, para expor a você o que estamos fazendo e o por que de estarmos fazendo, precisamos de você bem vivo, lúcido, existem células nascendo aqui que querem sua chance de ver o mundo, mesmo que seja apenas esse seu mundo (tao vasto e pleno para nós)  interno.
Quanto a ele, não o conheço, sei que não deve ser de todo mal, sei que você sabe disso também, não o estamos tratando como uma chaga ou uma enfermidade que precisa ser curada, seu sistema imunológico nem entrou nessa jogada, mas acredito que dentro dele tudo tenha sido alinhado premeditadamente para o "até nunca mais", e como nós, desligados que somos, esquecemos de fazer isso por você antes o fazemos agora.
Em breve seu sono acabará e eu preciso voltar ao meu trabalho antes que você enfarte, mas não tenha medo de sonhar de novo, é bom para você e para todos nós quando o faz, apenas lembre-se, ja diria o poeta que você sonha quando olha para fora, mas só acorda quando olha para dentro, ou no meu (e no seu) caso, quando o lado de dentro acorda para o de fora.


Atenciosamente.

Seu coração (lat. cor, grc. Καρδία)





1 de julho de 2012

A crônica do amor malfadado.





“O burro o rei e eu estaremos mortos amanhã.
O burro de fome, o rei de tédio, 
eu de amor.”

Jacques Prévert


Um botão apertado, uma chamada transferida, um ramal acertado, o simples e corriqueiro ato de atender a uma ligação e soube que ele havia morrido ontem. Consegui ainda terminar a conversação necessária com a pessoa do outro lado da linha, que por algum tipo de dever moral, achou que deveria comunicar-me o ocorrido, este era um antigo amigo, de quando eu e ele, o agora falecido, ainda éramos um casal.  
Como o som pode ser perturbador, qualquer som, quando é necessário ascender a um estado de silencio absoluto e contemplativo, dizer um “obrigado por ter me avisado” é um trabalho de Hércules. Então finalmente, o silêncio... Não um silêncio qualquer, mas o silêncio predecessor, onde é possível ouvir o quase inaudível som das emoções mais profundas, escavando, subindo e brotando, dantes enterradas, agora rastejam contaminando veias, contidas na garganta, sobem aos canais lacrimais por onde deságuam no orbe ocular, e ao fechá-lo num esforço racional e consciente de negação, podemos apenas contemplar mais facilmente aquilo que é visível somente dentro de nós, o passado. 
Chorei pouco, evitei procurar motivos para chorar, se quisesse e quando quisesse, os encontraria, sabia onde estavam. Ele havia sofrido um acidente, seu corpo já estava sem vida quando foi resgatado e estaria ainda sobre a terra até o dia de amanhã, quando seria o funeral.  Não cheguei a pensar se deveria ir, simplesmente fui. 
De uma forma mecânica como na época em que estávamos juntos, olhei os horários de ônibus no guichê da rodoviária, porém ao comprar a passagem não podia mais esperar pelo inesperado, pela surpresa de faltar ao trabalho na segunda feira para passar mais tempo ao lado dele, ou então ajudá-lo a pegar o carro do pai escondido para trazer-me de volta, parando sempre nos acostamentos da rodovia onde rotacionávamos a energia fluida de nossos corpos jovens, em beijos, em sexo, em falta de pudores e preocupação.  
Pela primeira vez, comprei também a passagem de volta e ao receber ambos os bilhetes, senti uma dor estranha, incomum, como se estivesse prestes a ruir, minha estrutura, todo o meu interior estava danificado. 
O cheiro do ônibus, o desconforto reconfortante da viagem que nunca era tão longa, ao menos não tão longa quanto esta, as paisagens que se repetiam à janela, a vida que se repetia na pequena cidade do interior, lojas abertas, pessoas nas ruas, exceto ele, lá tudo remanescia.
Ele não havia se casado ou sido feliz, mas isso não era nada, nem eu que ainda respirava poderia estar cem por cento seguro de que era feliz, mas certamente um dia fora, talvez até ao lado dele. 
Eu já havia desejado cada centímetro quadrado dele, sorvi todas as noites o que ele me oferecia, as conversas, os licores, os líquidos, vivi intoxicado por ele muitos anos depois do término ainda. Mas ele provavelmente não, eu pensava, agora jamais teria a certeza se sim ou não. Ele não mais existia. 
Viveu fugindo de si mesmo, repetindo velhos erros, preso a vícios, ao medo de crescer, àquela maldita cidade, fugiu ao menor imprevisto do destino, ao primeiro obstáculo, ele apenas decidiu se livrar um dia de tudo aquilo que amava, e na ocasião, eu fui uma das “coisas” escolhidas. Eu sofri, ele, quem sabe.
Sorrio ainda ao lembrar das noites em que chorei por ele, pela ausência dele, pelo excesso de sua ausência, pela escassez de sua presença.  Mas com o tempo a dor foi diminuindo, um processo estranho e até então desconhecido para mim, o processo de enterrar, sim porque quem acha que corações partidos são soldados novamente no esquecimento, nunca sentiu o prazer de um coração fundido nas lembranças. Eu o guardei. Aos poucos e sem perceber, sem a intenção, deixei todas as lembranças, os toques, os hálitos, a presença e a ausência guardados em um relicário, e como um álbum de fotos antigo o resgatava de vez em nunca, principalmente quando queria chorar ou sorrir, sim, ainda doía, mas era uma dor mais conformada, não mais a perda do grande amor de uma vida que ainda estava começando, mas sim a perda de um homem que eu amava odiar, um homem capaz de extrair de mim toda sorte de emoções possíveis. Até então julgava tudo isso perdido, mas lá dentro do relicário, ainda estava guardado junto à ele a esperança de um possível futuro.
E naquele momento a esperança que restava de ver o rosto dele ao olhar para mim agora, tantos anos depois, um homem pleno, se rasgou. Senti então a mesma dor que sentira no guichê da estação rodoviária, uma fratura interna, tangível, quase pude ouvir o som de algo se quebrando dentro de minha caixa torácica, a realidade enfim havia me golpeado, se estabelecido. 
Não a realidade de que agora ele estava morto mas sim de que agora eu estava vivo.






26 de setembro de 2011

Coala na sala.




Não houve nenhum medo no grito. Ele tinha apenas um som de choque, uma nota de embriaguez, uma sugestão de pura idiotia da minha parte. Foi um som estranho até para mim mesmo que no momento não gozava de todos os sentidos. Havia terminado uma discussão seis horas antes daquilo acontecer, e com ela havia terminado um relacionamento de um ano agonizante, dividindo um quarto com uma janela irritantemente emperrada e uma cama sufocantemente pequena para nós dois, foi inevitável. Fim era a palavra que tanto buscávamos, e enfim encontramos.
Ricardo levou embora suas poucas coisas do apartamento horas antes, e decidi que não ficaria lá olhando-o retirar-se aos poucos de minha vida, se num futuro próximo ou distante, que seja, eu me arrependesse daquilo sozinho, iria me culpar por não tê-lo agarrado na porta e implorado que ficasse, então me poupei deste futuro arrependimento e quis gozar ao máximo o momento em que de fato, não queria que ele ficasse, saí pra beber.
E bebi o que não havia bebido em anos, me descobrindo desacostumado ao álcool.
Horas depois estava sendo carregado por amigos até a porta do edifício, com dificuldade e um andar trôpego cheguei ao elevador e me encostei, ele fez seu trabalho e me deixou no quinto andar, quase em frente a porta que estava trancada, me colocando numa luta feroz entre minha embriaguez e a minúscula fechadura, tendo como pivô a chave se escondendo em um dos doze bolsos da minha mochila, entrei, e então, o inevitável grito.
Ele estava sentado no sofá, segurando algo que eu ainda não havia identificado, escutou meu grito mas não se assustou, continuou segurando o que agora eu sabia ser uma lata de Pringles, avistei batatas espalhadas pelo chão e farelos sobre todo o sofá vermelho que Ricardo havia escolhido meses antes, e que eu ainda pagaria por meses adiante. Ele não era Ricardo, era um bicho.
Me aproximei devagar buscando resgatar a sobriedade lá do fundo da minha alma, não temia um ataque vindo daquilo pois me parecia estranhamente fofo e desajeitado para atacar qualquer coisa, estava calmo e manso, e sequer me acompanhava com o olhar, olhava para a lata de Pringles em sua mão (pata?), me aproximei, estava muito ébrio para permanecer em pé, então sentei em frente a ele no outro sofá também vermelho.
Junto com a pouca sobriedade recém adquirida me veio a notícia de que sabia o que era aquele bicho, não lembro onde havia absorvido tal informação, que se não fossem os acontecimentos daquela estranha madrugada, julgaria ser completamente inútil. Ele era peludo, gordo e meio pequeno, era um coala, e estava sentado no meu sofá.
Sabia que não se tratava de um bicho nacional, além de sua cara estranha não estar estampada em nenhuma cédula, eu sabia que era australiano, e então me perguntava o que estaria fazendo aquele bicho australiano no meu sofá. Ele sem dúvida não parecia muito preocupado com sua estadia no meu apartamento, estava quase confortável, se posso assim dizer, sentado como se fosse gente e comendo pringles lá. Olhou para o aparelho de som desligado, e ficou parado , então olhou para mim, eu olhei pra ele, um olhar assustado, nós humanos temos o costume de temer as coisas adoráveis, e aquilo era uma das coisas mais adoráveis que já havia visto.
Esfreguei com as costas das mãos os meus olhos e mentalmente tentei recontar as bebidas que havia tomado, nada que em outros tempos não houvesse ingerido antes, será que havia sido drogado? Já havia experimentado algumas drogas também, que me deixavam elétrico, faminto ou até mais lento, mas jamais havia tido alucinações antes, ainda mais uma tão real quanto aquele bichinho comendo meu pringles  e sentado no meu sofá. Percebendo minha total falta de tato para lidar com aquela situação, ele enfiou seu braço dentro da lata de pringles e vasculhou o tubo, até que seu cotovelo desapareceu la dentro, ou algo parecido com um cotovelo, não sei se os bracinhos destas criaturas possuem as mesmas articulações que as nossas, ele retirou uma rodela de batata intacta, e a apontou em minha direção, se fosse humano poderia dizer que estava me oferecendo a tal batata, mas não era humano, e mesmo assim, estava de fato me oferecendo aquela batata que eu mesmo havia comprado semanas antes, para uma possível fome, ou uma ocasião de ociosidade onde coisas como panelas, fogões e louça acumulada sobre a pia fossem o último caminho que me levaria até a minha comida. Bastava abrir a lata com seu barulho de champanhe e "flop" o jantar estava servido. Eu havia comprado aquela batata, e devido a embriaguez me senti momentaneamente ofendido com o bicho me oferecendo o que era meu por direito. Então num gesto brusco, quase animalesco, tomei a batata da mão dele e enfiei-a inteira na boca de uma vez. Mastiguei fazendo barulho, um som que me irritava mas sentia que demarcaria meu território, mas o bichinho, tímido que era, nem deu atenção, voltou a comer a sua própria batata em silêncio olhando o nada a sua volta.




Decidi que minha vida não podia ficar mais estranha daquele momento em diante, em que um coala australiano apareceu comendo pringles sentado no meu sofá. Então fiquei estranhamente mais relaxado, e percebi que o bicho fitava curioso o aparelho de som, colocado em seu espaço destinado no raque da sala, dei um sorriso involuntário e decidi ligá-lo só pra ver a reação do ser fofo. Me senti um cientista no meio de um experimento, abaixei cautelosamente o som para não assustá-lo mais que o necessário, afinal não sabia nada sobre essas criaturas, nem sabia que dava isso no Brasil, vai que ele ficasse violento ou tivesse uma doença contagiosa, me preveni ficando a uma distância segura e liguei o som. O bichinho parou de comer e ficou atento olhando as lusinhas do aparelho descerem e subirem conforme os graves da música, fui mudando os cds que ali estavam colocados, inutilmente cabiam doze na disqueteira, uma gulodice comum na época que precedeu o pendrive e a tecnologia USB, cheguei no cd de Elis Regina, ela cantava alegre uma de suas músicas que na hora não pude identificar, e o bichinho ao que me parece, ficou mais relaxado, e voltou a comer sua batata. O coala na minha sala tinha um gosto musical mais refinado que o próprio Ricardo, e isso me fez rir novamente.
Enquanto ele estava entretido com a batata e a música, decidi pesquisar sobre a criatura, liguei o notebook que estava em stand by na mesa da sala, digitei "coala" no google, e imediatamente a wikipédia me avisou que "ao perder a sua casa e alimento, o coala se muda e pode chegar a povoamentos ou cidades, onde via de regra morre por atropelamento ou é caçado por cães, a caça ao coala é um costume na Austrália e sua carne é muito apreciada pelos povos aborígenes.".Fiquei estranhamente triste ao ler o destino daquele bichinho que não fazia nada a não ser ocupar seu tempo sendo fofo, apesar de que toda a sua fofura de fato dava a impressão que sua carne devia ser saborosa, ainda mais a deste em particular que já estava recheado de pringles, que mundo cruel, pensei.




O que eu deveria fazer? Estava lutando para manter o mínimo de racionalidade que a situação e a bebida me permitiam, mas quando um coala aparece na nossa sala (e acho que essa sensação bem específica de ter um coala na sua sala, é uma das poucas coisas que posso afirmar que só eu senti), fica mais difícil manter-se racional. Tinha medo de chamar a polícia ou os bombeiros, afinal se o C.S.I. achasse o pringles no coala, eu poderia ser indiciado por contrabando de animais exóticos, silvestres, gordos ou qualquer coisa do tipo. Já que sóbrio não ficaria mesmo, fui até a geladeira contornando o sofá do coala, ou melhor, o meu sofá, onde de lugar nenhum surgiu um coala e se sentou naquela noite. Abri a porta superior do freezer e enfiei minha cabeça la dentro numa tentativa literal de refrescar as idéias e pensar mais claramente. Então preenchi o copo com vodka, uma, duas, três, quatro vezes. Num momento absurdo de epifânia na cozinha, quase chorei ao pensar que o coala poderia estar com sede, todos me dizem que fico mais sensível e até sociável quando bebo, mas jamais havia me importado com a hidratação corporal de criatura alguma, nem mesmo Ricardo, e o pobre coala ainda havia devorado quase sozinho uma lata de Pringles apimentada, o bichinho poderia estar morrendo naquele momento e eu lá me embriagando, isto é o que eu poderia chamar de "fugir da realidade", a minha realidade no momento, é que tinha um coala na minha sala sedento, e eu ali bebendo, pensando no preço exorbitante que haviam me cobrado por aquela garrafa de vodka. Abri o armário e procurei algo para servir a água fresca ao coala, uma tigela? Um copo? Como daria água aquilo? Peguei um recipiente plástico e o enchi de água. Voltei a sala.
O Coala estava parado sentado em seu lugar no sofá e ouvindo Elis, me aproximei cautelosamente dele, e empurrei a tigela de água em sua direção, ele se apoiou desajeitadamente nas patas da frente e começou a cheirar, instintivamente colocou a boca na água e sorveu o liquido, mas de uma maneira diferente de um cachorro ou gato, não sei dizer como, mas foi bem diferente e mais engraçado de se ver.
Notei que em cima do aparelho de som, jazia um pendrive que não era meu, e certamente não era do coala, era do Ricardo com certeza, aí então a ficha caiu, ele havia estado no meu apartamento antes do coala... Ele era o responsável por aquilo tudo, com certeza instalou alguma câmera em algum lugar do ambiente e me mandaria via msn o link do vídeo já postado no youtube intitulado: O Bêbado e o coala.
Não permitiria isso, nem comigo, nem com o pobre animal inocente, peguei o celular do bolso e disquei seu numero quase de modo mecânico, ele atendeu, sua voz demonstrava claramente que tinha acabado de acordar:
- Alô?
- Ricardo, o que é este animal no meu sofá?
- Hã?
- Ricardo, eu te fiz uma pergunta, é bom ter uma resposta... O que este animal está fazendo comendo pringles no meu sofá?
- Já cansei dessa merda Felipe, se você ficou bêbado, desceu a Augusta, pegou um gay qualquer e levou pro apartamento, eu não sou obrigado a saber, quando você vai começar a agir como um adulto?
- Não seja cínico Ricardo, você levou suas coisas do meu apartamento hoje, mas obviamente esqueceu uma coisa extremamente importante aqui, só não sei se foi propositalmente.
- O quê? O meu pen-drive?
- Não Ricardo, um COALA!
- Olha aqui Felipe, cansei desse seu sarcasmo imbecil, desse teu mau-humor crônico, é apenas a porra de um pen-drive, amanhã eu mando alguém pegar, fica tranqüilo.
- O Pen-drive ou o coala?
- O que?
- Ricardo, este animal já até bebeu água naquela que um dia foi nossa casa, você não entende isso? Ele está olhando pra mim enquanto falo com você agora, me explica isso.
- Felipe, você é fraco pra bebida, não percebe o papel de palhaço que está fazendo? Ligando a essas horas pro seu ex, enquanto o menino que você levou pro nosso ex lar fica aí te olhando, e comendo pringles, e bebendo água, e sei lá mais o que ele esta fazendo, não me interessa! Eu já estou saindo com outra pessoa também!
- Você está saindo com o veterinário do Zoológico Municipal?
- O que você está insinuando? Que eu também sou um animal? Esta na moda chamar os outros de animal como está fazendo?
- Mas realmente apareceu um animal no nosso apartamento Ricardo, não estou brincando, aquele animal famoso da floresta austra...
- O da nota de vinte? Pois Chame o IBAMA, dê banana a ele...
- Vou dar uma banana você vai ver aon...
- Ah, cansei...
Desligou na minha cara.
Coloquei o aparelho na base, e me sentei novamente no sofá em frente ao coala. Ele me olhava com reprovação, mas não era um mérito dele, todos me olhavam com reprovação desde sempre, acendi um cigarro e traguei profundamente. Ele novamente observava o nada ao seu redor, meu deus, eu estava ficando louco. Apaguei o cigarro e me deitei no sofá, abaixei o som do aparelho e o coala pareceu não se importar, ele se virou de costas para mim e apoiou a cabeça no encosto do sofá, começou a respirar mais lento, e adormeceu fazendo um barulho estranho.  
O esgotamento físico e mental de um dia de trabalho, separação, bebedeira e animais exóticos se abateu de uma vez sobre mim, e não lembro como, mas adormeci irresponsavelmente, largado mesmo.
Acordei com o sol invadindo a sala, junto com a dor de cabeça invadindo meu crânio, e minha colega de trabalho invadindo o meu apartamento e recolhendo os pedaços de pringles do chão e do sofá, eu ainda tinha sinais de álcool no meu sangue e não conseguia compreender a realidade direito:
- Janaína?
- É, sou eu Felipe, você tá bem? Vim te dar carona pro trabalho, eu cheguei aqui encontrei o Ricardo descendo, ele me deu a chave dele e disse que você estava de ressaca da noitada de ontem, daí eu entrei.
- Ué cadê ele? - disse eu me levantando e desajeitadamente revistando cada cômodo da casa.
- É Felipe, ele foi embora, eu sei que deve ser estranho, mas você vai ficar bem meu amigo.
- Mas eu não entendo Janaína, como ele apareceu aqui? Eu dividi minha pringles com ele, eu dei água pra ele beber numa tigela!
- Numa tigela? Não me admira que você esta solteiro, apesar que dividir a pringles é uma idéia bem romântica, acho válido...
- Hã? Mas você chegou a ver ele indo embora? Por onde ele foi? Pela árvore encostada na janela? Aquele animal ingrato!
- Nossa Felipe, coitado, ele foi de elevador mesmo, foi onde encontrei ele, ele...
- Mas como!? Como ele conseguiu...
- Não tem segredo né Felipe, você aperta um botão, a porta abre, aperta outro a porta fecha, agora vai se arrumar, que a Santos ja está um inferno, a gente vai se atrasar horrores.
- Não entendo mesmo Janaína, o Ricardo levou ele embora?
- Ele quem? O Pen-drive?
- Não, o COALA!
- Haha, Felipe seu sarcástico, vai se arrumar, vai...
Naquela manhã tomei um banho demorado, e passei dois dias ainda meio distraído, pensativo, pior do que ver um fantasma, uma assombração, é ver um coala comendo pringles. Como Jung viria isso? O coala seria o arquétipo do quê? Pensei em procurar ajuda profissional, mas sabia que não estava louco, duas vezes eu fiz tudo de novo, bebi as mesmas bebidas no mesmo bar, voltei do mesmo jeito, e abri a porta, esperando que a repetição daquele ritual trouxesse o coala de volta, queria revê-lo por duas razões: a primeira é que preciso provar a mim mesmo que não estou ainda tão louco, e a segunda é porque me apeguei ao bichinho, tínhamos gostos parecidos, Pringles, Elis,etc... Eu sei o que vai acontecer, um dia eu vou contar essa história como "O dia em que bebi tanto que vi um coala na minha sala!", mas por enquanto está tudo bem... Acho que preciso de um lexotan.






p.s. inspirado em meu amigo Felipe. 




25 de fevereiro de 2011

Uma questão de perspectiva...




"Ser amigo é entender o silêncio,
a ternura e o mistério."

Ely M. Becker




Uma década é tempo demais para perder, um tempo que os jovens desperdiçam e que a morte sorve avidamente. Quando Rodrigo percebeu que a década chegava a termo, sentiu um arrepio percorrendo-lhe a espinha, já fazia uma década que conhecia Luis, dez anos de um relacionamento coadjuvante em sua vida, um relacionamento que nasceu e permaneceu eternamente na coxia.
Lembrava-se de quando haviam se conhecido, da primeira conversa, dos anos de conversa que culminaram em um primeiro encontro onde Luis lhe serviu a primeira dose de água-ardente e a primeira dose de carinho de sua vida, Rodrigo degustou cada trago, cada toque, tudo foi elevado a máxima potência em seu corpo e em sua garganta, ambos ainda tão desacostumados com o tanger do amor e da embriaguez, e então depois dessa noite cheia de venenos do corpo com a boca destilados, nunca mais se tocaram.
Luis havia se formado em direito fazia alguns anos e Rodrigo iria prestar seu primeiro vestibular dentro de alguns anos, e no hiato de todas estas mudanças, eles quase que sem querer, escorregando,  empurrados, acabaram entrando um na vida do outro, ocupando um vazio constante que teimava em permanecer. Ocupavam-se mutuamente. Nunca se envolveram mais do que isso, nunca se envolveram demais, mantinham-se longe o suficiente para se observarem de uma distancia segura. Essa distância proporcionou a ambos a maior intimidade que haviam conseguido construir com outro ser humano, se viam, por dentro e por fora, a sinceridade estava sempre presente em cada sorriso, em cada "Bom te rever!", de fato era ótimo revê-lo, pensava Rodrigo, era mesmo sempre bom e nunca mentiria a respeito disso, nem para si mesmo.
Ambos mudaram muito. Depois do primeiro vestibular, Rodrigo ainda prestaria outros sete, sempre passando em todos, não cursando nada e nunca satisfeito consigo mesmo. Luis depois daqueles primeiro s anos de trabalho, se estabeleceria como um advogado bem sucedido em sua cidade. Rodrigo ganhara peso com os anos. Luis emagreceu. Equilibravam-se assim, sua relação yn/yang denunciava-se até nas pequenezas do dia-a-dia. Dividiam um sentimento muito singular, sentiam-se responsáveis pela felicidade um do outro, Rodrigo se mudou, a mãe de Luis adoeceu, o amor de Luis o abandonou, o de Rodrigo acabou, mas eles continuavam lá para si.
Sempre.
Os amantes que tiveram, os amores que passaram nunca tiveram a oportunidade de conhecê-los como eles se conheciam. Eram como flores brotando do estrume, e essa analogia fez Rodrigo sorrir. Afinal para qualquer outro, Luis seria uma aposta errada, um homem bonito demais, ninfomaníaco demais, infiel e com fobia de qualquer tipo de comprometimento, mas para Rodrigo ele era o Luis palhaço, o Luis sincero, o Luis que tinha uma coleção de garrafas de pingas, que ajudava a todos a qualquer momento, que o havia consolodado quando a vida havia se revelado amarga, que o havia enxergado quando ele era invisível. E para qualquer outro, Rodrigo era um homem difícil, intenso demais, com a cabeça fervilhando de pensamentos o tempo inteiro, ligado na profundidade de cada momento, mimado e distante, mas para Luis ele era o Rodrigo fácil de lidar, que sorria por qualquer motivo depois da segunda dose e que ficava deliciosamente safado depois da terceira, era inteligente e uma companhia maravilhosa.
Mas não nasceram para amar um ao outro, eram apenas testemunhas de uma realidade que apenas eles conheciam. Estavam posicionados entre o passado e o tão imprevisível futuro, tinham uma perspectiva única um do outro e sentiam-se gratos por possuírem tamanha responsabilidade.
A responsabilidade de mostrar ao outro o que realmente eram, quando o mundo girando e os anos passando os faziam esquecer de si.
Mas quando a brisa estava morna e eles se encontravam sozinhos, cada um em seu mundo, em sua realidade, tragando seu próprio cigarro, eram vez ou outra assombrados pela dúvida: E se tivéssemos tentado, e se estivéssemos juntos? 
Então, mesmo ignorando a existência um do outro naquele momento único, sorriam e pensavam quase simultaneamente:
- Éramos jovens demais e se tivesse acontecido, teria sido para sempre.


Eles ainda não estavam preparados para o "para sempre"...
E quem está?




24 de setembro de 2010

ex...




Destinados, imperdoáveis, magoados, 
esquecidos, relembrados, reconquistados,
eternamente perdidos.
Estes são os ex-namorados.
Ex. Uma sílaba, duas letrinhas miúdas
mas com tão profundo significado
elas nos lembram que o fulano já passou,
é página virada, foi superado.
O toque, o primeiro beijo, a primeira transa,
o primeiro presente, o primeiro 12 de Junho,
continua tudo no lugar, 
inesquecível, inquestionável, bem guardado.
só o coitado que tudo isso nos proporcionu
virou inimigo, ou pior, ex-namorado.
Estes moços nos tocaram e partiram,
e deixaram atrás de si seu rastro,
nos deixaram marcas, mal amados, mal comidos, mal acostumados,
com medos, traumas, regras, limites, e
mil e uma maneira de se amar errado.
Nossos demônios internos, são os filhos deles, 
os ex-namorados.
Serei usado, serei traído, serei humilhado, serei substituído,
nada disso havia antes de um deles ter nos atravessado.
verdade que onde não tinha isso, não tinha:
serei amado, serei reconhecido, serei admirado, estou apaixonado,
não foram livros nem romances que nos mostraram
o que de verdade é ou pode vir a ser o amor,
não foram sonhos coloridos e açucarados...
O amor, se ele de fato existir, o conheci na boca deles,
os ex-namorados...




p.s.  ao meu redor o mundo gira, 
e me empurra novamente nestes antigos 
e não menos difíceis caminhos...













16 de setembro de 2010

Pintando o céu com estrelas...




"Eu sei, você já parou de contar as estrelas do céu
E eu não, eu não posso mais te ajudar a dizer onde estão
Seu olhar pesado me prende ao solo
E eu sei, eu não posso mais flutuar
entre estrelas do céu que você apagou.
...
Falta um pouco de luz nos seus olhos
e me dá saudade o seu rosto brilhando ao sol
Falta um pouco de amor no seu corpo
e eu não posso te dar pois em mim faltará também
...
Talvez, se a gente encontrasse um lugar pra recarregar nosso amor
então, quem sabe eu pudesse enxergar vida no que nos restou
e essa estrela morta brilharia um sol
Meu bem, o pouco que eu posso te dar
É tudo o que eu já te dei e que não te bastou"

Estrelas - Ludov (*




"Amanhã preciso acordar cedo, e tentar voltar a fazer alguns exercícios antes do trabalho". Pensou.
Estava confortavelmente deitado em sua cama, os travesseiros afofados, os livros estritamente alinhados no criado mudo, tinha tomado banho, 2 cálices de vinho tinto, colocou sua cueca de cetim, passou seu perfume, esfregou o rosto e escovou os dentes.
E então, agora deitado, olhava o teto, sua visão aos poucos se adaptava a escuridão ambiente. 
O teto, recentemente pintado de branco. Noite e tinta, ambas frescas.
E antes da noite e da tinta?
Estrelas, é que havia ali antes. 
O teto era repleto delas, essas baratas e vagabundas que brilham no escuro sabe. 
Quer dizer, hoje elas eram baratas e vagabundas para ele, mas um dia não foram. Não quando ele (o outro), as comprou, e estratégicamente as colocou no lugar certo, simulando cada constelação que havia no firmamento.
"Estou tendo astronomia na facul esse semestre, e tive essa ideia meio maluca de fazer um observatório particular pra gente aqui, mas o cartão estourou e não sobrou verba nenhuma pra um telescópio, essas coisas são caras sabia? Então eu fui no R$1,99 hoje comprar umas tralhas e vi essas estrelinhas, tive a ideia e voilá! Elas brilham ainda por cima, olha..."
Na época ele até sorriu, achou a coisa mais romântica do mundo. O outro encheu o quarto de estrelas, que fofo pensou.
A noite, como agora, eles costumavam se deitar, e quando não se amavam, ficavam olhando para o teto,  estáticos, as vezes o outro fingia que o último cigarro da noite era um cometa, levantando o braço e passando 
a bituca pelo "céu" do quarto, e ele falava qualquer coisa naquela hora, o amigo que brigou com o chefe, a mãe que pediu dinheiro emprestado, o preconceito, sobre um dia casar em Praga, capital da astronomia.
"Lá eles tem um relógio lindo, a gente tem que casar lá! Está decidido!"




Ele já não pensava nisso há muito tempo, a verdade encobriu suas fantasias... 
A verdade é que o outro se foi. 
Um dia decidiu não estar mais preparado para aquilo, para o quarto, para as estrelas, para Praga.
Uma simples ligação, serviu de ponto e virgula para os anos juntos.
Digo ponto e virgula, pois ele deixou para trás as estrelas.
Elas o assombraram por muito tempo.
Estavam todas lá, a constelação de gêmeos, a constelação de leão, uma do lado da outra, correspondendo aos respectivos lados da cama de cada um.
As vezes ele próprio usava o último cigarro de cometa, mas este não vinha mais da constelação de gêmeos como antes, vinha do nada, e ia em direção a um buraco negro.
Uma noite retirou todas elas. 
Pintou o quarto de branco, queimou o antigo colchão, aprendeu a preparar o próprio café.
Mas mesmo quando não se vê uma coisa, será que realmente ela não está lá?
Naquela noite, sozinho, deitado, podia ver claramente cada uma das estrelas, das histórias que as acompanhavam, dos sonhos que elas embalavam, do amor que elas foram testemunhas, e de onde elas nasceram.
O outro, pintou o teto com o céu, pintou o céu com estrelas, mas antes, havia pintado estrelas dentro dele próprio. E essas, ele não descolou ainda, nem passou uma mão de tinta por cima.
Elas estão lá, na escuridão daquela noite, na escuridão do seu ser, brilhando. 
É triste isso, o orgulho pode vencer mil batalhas sem vacilar em nenhuma delas.
Mas ao se sentir estrelado por dentro, sozinho, naquela noite.
ele chorou...





"Eu sei que você vê tudo o que eu faço.
Eu sei que você lê tudo o que escrevo. 
Escrevo pra você..."

Estrelas - Ludov (*









20 de abril de 2010

Laços de papel-higiênico ♥


"Nós, e nós
Ainda tentando desatar os nós
Fico devendo cinquenta centavos
que não sei se vou pagar
Essa cidade já foi minha
Nunca fui dela.
...
Nós, e nós
Ainda tentando desatar os nós..."

#Ludov




Os belos laços de cetim que eram antes usados para unir dois seres, hoje, são nós num papel-higiênico.

Inútil.
Descartável.
Prático.

Vem até com aqueles furinhos, pra você se desprender rapidamente, sem que o outro note que o laço se desfez.
Pois é meu caro, as pessoas entram e saem de nossas vidas o tempo todo, pense em seu coração como se ele fosse a estação da Sé, onde qualquer um pode fazer a baldiação de graça, e quando digo qualquer um,
quero dizer qualquer um mesmo.
Você até cruza com o príncipe encantado, só que ele segue pra linha azul calmamente, enquanto você fica chupando o dedo na linha vermelha.
Tire do seu vocabulário amoroso palavras como: Especial, único, conhecer, reconhecer, permanecer.
E substitua-as por: Qualquer merda, qualquer bosta, foda-se, dane-se, escafedeu-se.
Isso é bem mais século XXI!

















Afinal, o que o amor deve ser?
Isto é, se ele realmente existir...


16 de dezembro de 2009

Olhar para trás...


Coisas importantes foram deixadas no caminho,
Pedaços meus perdidos ao longo da jornada,
Sigo em frente, tropeçando, sozinho...
Um andarilho com os dois pés fora da estrada.

O anjo alto me feriu de cegueira,
Desde então, eu vejo tudo, e não enxergo nada.
Temo o futuro, e os homens que por brincadeira,
Torçam no meu peito, a faca que lá está cravada.

E atrás de mim, os escombros do passado,
Imploram aos Deuses um misericordioso final,
Escuto-os me chamando, estou condenado:
- Sei que ao olhar para trás, me tornarei sal.

Lot, Roberto Cavalcante Rodríguez



"E a esposa de Lot olhou para trás,
e ficou convertida para sempre
em uma estátua de sal..."

Gênesis, capt 19, versc 26.



O passado é sempre perigoso, talvez até mais que o futuro. Ja que o futuro ao menos, pode ser modificado.
O que deixamos lá atrás? O que perdemos? Onde erramos? Onde nos deixamos pisar? Onde pisamos em alguém?
Seguem ao nosso redor os fantasmas, que nos acompanham ás vezes durante anos, durante vidas.
O passado deve ser esquecido, deve ser superado, deve ser trabalhado, deve ser relembrado, inúmeras opções nos dão, para lidar com algo que ja aconteceu.
Escolha a que melhor se aplicar ao seu caso, e seja feliz. Simples não? Nem tanto.
O passado as vezes volta, e bate a sua porta.
Talvez por um milésimo de segundo, você o tenha desejado novamente, tenha o chamado baixinho enrolado em seu edredom, tenha lembrado e tenha sorrido, ou chorado, ou apenas lembrado, sem mais, e no Olympo, um capricho dos Deuses, fez com que vocês se cruzassem novamente, você e seu passado.
Sim, porque encontrar uma pessoa do passado, um amor do passado, um qualquer coisa do passado, não é apenas um encontro a dois e sim a três, ou a quatro. Explico:
Ao lado da pessoa, está o homem que ele era, e o homem que você era no passado, a pessoa que você foi, e com certeza não é mais, a pessoa que destratou ou foi destratada, a pessoa que magoou, ou foi magoada, a pessoa que esqueceu ou foi esquecida.
Sim, você enxerga seu amor novamente na rua, e vê seu passado andando ao lado dele, com uma expressão triste, ou feliz, depende do que tenham vivido juntos, lá está ele, acorrentado eternamente ao sujeito, afinal, mesmo que você não tenha significado nada para o cara, ele significou o suficiente, para que um pedaço de sua história ficasse eternamente ligado a ele.
Os anos passam, e a alquimia da vida da as caras. E tudo muda, se transforma, o chumbo vira ouro.
E então vocês se reencontram.
Dois seres diferentes, ligados por algo em comum, o passado.
E o que fazer em relação a isso? Olhar para trás é tentador, voltar, reviver, retornar, modificar, palavras sempre ligadas ao passado também.
Mas o passado é sádico, ele ensina, ele deixa marcas, e uma pessoa machucada, guarda eternamente o rosto do agressor, como se deixar tocar, pela mão que o apunhalou, mesmo sem querer?
"A mão que afaga, é a mesma que apedreja; escarra nesta boca que te beija..." ja dizia o poeta, a dor é passageira, mas a cicatriz não, ela sempre ficará visivel, e irá ser como um quadro pendurado na sua memória, lembrando a dor que lá esteve.
Será um trabalho árduo lidar com isso, pisar em ovos, luvas de veludo, jornais em volta do vidro, o passado deve ser retomado (quando o for) com todo o cuidado possivel.
A relação se torna um castelo de cartas, um sopro apenas para tudo ter um fim, novamente.
O meu passado, bateu na minha porta um dia desses, era o "Altão".

Mini-Flash-Back a respeito do "Altão"
(Ele era bem alto, muito mais alto que eu, quando se aproximava para me dar um abraço, sentia como se uma onda estivesse me encobrindo, sua sombra se espalhava no chão ao meu redor, e subtamente me sentia protegido, preenchido, quase transbordando.
Tinha olhos verdes escuros, escondidos atrás de um óculos antigo, e me olhava de uma maneira quase inocente. E quando seus olhos faziam conjunto com sua boca, se contraindo em um sorriso sem graça, e sua pele branca ganhava tons avermelhados, sentia a certeza de que aquilo, devia ser o amor.
Tinha as pernas compridas, e numa bermuda ganhava um ar desajeitado muito gostoso de se ver, acho que ele inteiro era gostoso de se ver, como uma obra surrealista contemplativa, ficava horas apenas o observando em silêncio, ele havia me encontrado, e acabamos nos encontrando.
É estranho conhecer alguem desconhecido, mas ao mesmo tempo tão intimo.
Vivemos um encontro, e um desencontro.
Eramos de planetas distintos, nossas personalidades entravam em choque constantemente, eu querendo ser mais velho do que era, mais certo do que era, mais bobo do que era.
E ele querendo que eu o aceitasse como era, sem nenhuma adição de contos-de-fada, sem nenhuma fantasia, ou expectativa, apenas queria me servir a realidade, numa taça de ouro, ele era real.
Era de carne e osso, tinha um passado, um presente e um futuro, não era um dos meus personagens perfeitos, e dizia isso constantemente, ele não me lia, ele não me entendia, e acho que ele não o queria.
Ele e eu eramos muito parecidos, inseguros, orgulhosos, e egoístas acima de tudo.
Viviamos também em cidades diferentes, em planetas diferentes.
Ele tinha a prerrogativa da idade e da experiência, e eu não tinha armas secretas, mistérios, era nú.
Falava o que sentia, mas não sabia o que sentia, muito menos o que falava.)

Retomando...
Eu jurava que desmaiaria só de vê-lo de novo, que me tornaria sal, se por um instante o encarasse nos olhos novamente.
Mas não, acho que me tornei sal assim que terminamos, mas não uma estátua de sal, e sim um homem de sal, salgado, dificil, complicado, e ao mesmo tempo, bem temperado.
Mudei, é o que acontece depois que o passado finalmente passa, depois que as rodas giram, e as lições são aprendidas.
A gente muda, e não compreende mais o passado, se arrepende, se culpa, se bate, se xinga por ter se deixado passar por tudo aquilo, que vontade de desaparecer que dá.
Meu passado queria entrar aos poucos no meu presente, e eu o cortei, o interrompi prematuramente.
Não tinha tempo, não podia lidar mais com os problemas que passaram, não podia mesmo lhe dar outra chance, sei que ele tem uma intenção escondida sempre.
Não poderia passar por tudo de novo, ou melhor, com certeza poderia, e desta vez mais preparado, sem mais nenhuma cicatriz, mas simplesmente não queria.
E agora, ele está aqui do meu lado, o maldito passado.
Estou arrependido por eu não te-lo vivido em sua plenitude quando ele aconteceu, e estou confuso por ter desejado em meu intimo que ele retornasse, e agora que finalmente ele retornou, eu o interrompi.
Que homem sou eu?
Sinto a sombra dele debruçada aqui sobre mim, enquanto escrevo, vejo a claridade de seus olhos meio claros, meio escuros seguindo os movimentos que a minha caneta azul traça no papel branco, com o seu jeito, o seu sorriso um pouco doloroso, um pouco distraído, um pouco infantil, ele inspirou cada emoção e idéia, cada profundeza de pensamento...
Droga! Altão, é verdade, você segue aqui do meu lado, e eu o amo a minha maneira.
Você é o homem que eu inventei, cada detalhe teu, cada qualidade, cada defeito fui eu quem lhe atribuiu, não bebi da realidade que me serviu antes, mas hoje a aceitaria com gosto, e daria largos tragos nela junto com você.
E se quer estar no meu presente de verdade, se realmente me quiser, deixa eu conhecer o homem por trás da metáfora, deixa eu tocar e beijar aquele moço de verdade, que eu encobri com a minha desmedida imaginação.
Eis aqui a minha ultima confissão: Posso ser novamente a sua propriedade? Eu ainda preciso do seu toque macio, do seu amor, do seus beijos e tal... E a ferida? Cuida dela, pois ela se encontra no meu peito, e ele (ainda) é teu.


p.s. Este post pertence a um moço muito alto do meu passado,
que aqueles que vivem no meu presente o passem adiante...



Beijos sinceros...