
Por favor, não me analise
Não fique procurando
cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise
profunda, quanto mais eu!
Ciumenta, exigente, insegura, carente
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência
um grito de carência,
um pedido de amor!
Amor, amor é síntese,
uma integração de dados:
não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
(ninguém abraça um pedaço),
me envolva toda em seus braços
E eu serei perfeita, amor!
Mirthes Mathias
Eu sempre ficava puto da vida
cada vez que topava com o ex-namorado do meu ex-namorado
(quando ele ainda era vigente).
Ele era o dono de todos as pragas que eu era capaz de proferir,
não importando o fato de que eu nem sequer o conhecia.
Era fulano o seu nome (imagino que ainda seja, se ele ja não tiver transgenerado,
ou passado dessa pra melhor)
Piorava quando ele vinha todo melindroso dar um beijinho de pretensa civilidade
na carinha do meu ex numa festa ou congênere.
Daí era Fatality* imaginário, e 'Carrie a Estranha' para tudo quanto era lado.
Sim, confesso:
não havia nenhuma nesga de elevação de espírito neste que vos fala
quando o assunto era ciúme.
Porque era só eu olhar para o diabo que me vinha a horripilante imagem
do meu (então) namorado enfiando sua chave naquela fechadura.
Era um exercício compulsivo o de imaginá-lo girando a chave na porta principal,
abrindo com a boca o cadeado da entrada de serviço,
passando um oleosinho nas dobradiças do desavergonhado
ou mesmo botando a maçaneta pra ranger.
Olhava para o garoto e me perguntava se ele era melhor que eu, se tinha pintinhas,
piercings, tatoos mais bonitinhas que as minhas,
se sua acolhida era mais calorosa e se gemia obscenamente seus desejos mais escondidos.
Tããããão agradável pensar isso...
Como eu tinha uma idade muito tenra (tonto)
e experiência amorosa quase inexistente,
vivia sucumbindo ao apelo tosco de querer ser sempre mais que ele,
e que qualquer outro.
Veja bem, ele era "o ex", e "ex" é para sempre.
Eu era apenas o namorado, status bem inferior ao de "ex-namorado".
Então fazia das tripas coração para não ficar pra trás.
Era todo agrados e encantos e não poupava esforços para beirar o espetacular
no que tange a fechadura e afins.
Minha cabecinha de quase homem, não conseguia parar de matutar
sobre o estado civil do meu amado:
ex-namorado do outro, e atual namorado meu.
Mas ser ex-namorado é coisa muito séria, pensava,
e martelava na cachola as implicações desse carimbo.
Foi quando eu quis namorar mais sério.
Imaginava se um dia ele me amaria a ponto de dividir o banheiro comigo
( na minha idéia, só compartilhava o vaso sanitário quem ficava louco de amor),
que eu quis ser muito mais legal para despertar o amor maior.
Quis ser mais erótico do que ele, e quem dera que todos os homens.
pois tinha cá pra mim, que ele ficaria tão inebriado
que nunca mais pensaria nele, ou em qualquer outro vagabundo.
Quis ser tão divertido e atirado, que ele não desejaria outra coisa a não ser ficar comigo.
Eu quis superar toda a gama de furinhos obscuros e viscosos
para que ele abandonasse sua chave no meu cofre e nunca mais
se preocupasse com explorações espeleológicas.
Mas foi tudo um fracasso de bilheteria, como você ja deve ter imaginado.
Nessa empolgação toda em ser o tal, eu perdi boa parte do que ele poderia ter me dado.
Ele não precisava fazer o menor esforço para me seduzir pois eu vivia seduzido.
E não precisava me fazer rir porque eu vivia rindo,
E nem precisava checar o próprio ibope porque eu sempre o anunciava como campeão de audiência (mesmo quando era 2°lugar)
Até que a ficha caiu e no fim eu me perguntava se tudo o que eu fazia era por que o amava tanto ou porque, como homenzinho da pior espécie que sou,
queria superar meus antecessores?
Não sei.
Ele sem dúvida foi o minha paixão mais profunda
(sem exageros, afinal ainda tenho só 21).
Mas, se eu não tivesse sido acometido pela praga do orgulho,
certamente eu teria investido muitooooooooo² menos nele.
E quem sabe, assim, tivesse dado certo.
Pra terminar, como diria o poeta:
'nos ciúmes existe mais amor-próprio do que verdadeiro amor.'
François La Rochefoucauld
