Mostrando postagens com marcador mulheres. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mulheres. Mostrar todas as postagens

30 de março de 2012

A ponte

Edward Burne Jones - O Espelho de Vênus



“Quando eu cresci, descobri que existiam outras versões para a criação do mundo.  Uma delas, fala não de um Deus, mas de uma Deusa sem nome que dançava sozinha no vazio do infinito. Lá, a Deusa encontrou um espelho criado por sua própria vontade, e nele, viu sua porção masculina. Como ela não tinha forma, apaixonou-se pelo seu reflexo e fez amor consigo mesma, criando assim o universo.”

Trecho extraído do curta-metragem 'Paz'.



Estática como pedra no meio da ponte ela vivia, ninguém mais sabia seu nome ou origem, os de sua era há muito tempo já haviam sido semeados no chão. Só restava ela, a pobrezinha, no meio de uma ponte que cruzava um ribeirão. 
Seu corpo era frio e maciço como o mármore, depois de tanto tempo ainda aparentava a mesma cor suave, quase como uma aparição, leve, seu vestido farfalhava sobre a madeira da ponte à menor brisa, dando a impressão de que lá flutuava.
As senhoras da região persignavam-se ao encará-la, jamais alguém havia chegado perto o suficiente para constatar se era uma moça que ali estava ou apenas uma antiga escultura, perfeita e esquecida, cujo artista já ninguém se lembrava.
Haviam várias pontes sobre aquele ribeirão, que também não era de grande importância para a região, o motivo de ela estar plantada ao meio daquela ponte em particular era um mistério que assombrava a todos que por ali passavam.
Os antigos diziam-na encantada, que um dia fora uma moça rica e abastada, vestida com as mais puras fazendas, ornada de pérolas virginais, despertou a paixão em todos os jovens imaturos de sua época, gajos sem posse a desejavam em segredo, os homens casados queriam tê-la conhecido primeiro, mas o seu virgem coração intocado a nenhum deles pertencia, pois de fato era tão jovem a donzela que nem mesmo sabia o que queria, e então, ao rejeitar seu ultimo pretendente, este lançou-lhe o terrível malefício que a deixou na situação em que ainda se encontra. Ficaria parada quando sentisse vontade de andar, tornaria o amor impossível quando ela se propusesse a amar, não chegaria a nenhuma conclusão quando se colocasse a pensar, não escutaria nada quando outros viessem lhe falar, e somente quando um rapagão dotado de tudo o que ela precisasse, seu caminho enfim cruzasse, estaria ela então liberta os grilhões da vil maldição. Imediatamente a moça pôs-se congelada, perdida dentro de si com a praga a lhe rondar, converteu-se numa estátua viva no meio da ponte onde hoje é o seu lugar.
Em sua época este fato foi contado em todo canto da terra, e muitos vieram tentar quebrar-lhe o feitiço. Homens belos tocavam-lhe os lábios com beijos, homens ricos ofereciam fortunas aos seus pés, os mais velhos despejavam em seus ouvidos a sua sabedoria, os românticos cantavam dia e noite para ela, mas nada lhe quebrava o encanto.  E depois de tantos anos, acabou esquecida, parada ali ainda, entre o começo e o final do caminho, no meio da ponte que cruzava o ribeirinho. 
De tanto observar o tempo passar ao seu redor, o inverso aconteceu, e por isso a donzela não envelheceu um só dia. Congelada pela antiga magia do rapaz que lançou-lhe o sortilégio, ele depois disso nunca se arrependeu, antes que o obrigassem a dizer o que disse ao contrário, enforcou-se solitário no alto de sua torre sem qualquer testemunha. 
E lá estava ela, esperando pelo rapaz da profecia, um moço encantado que possuindo um só corpo, estaria este bem aventurado, dotado de tudo o que ela precisasse.
Aconteceu então numa manhã de uns tempos atrás, que a moça não quis perceber mais nada, sabia que estava para sempre encantada e que todos os seus sonhos haviam ficado para trás. E a maldição que tudo invertia fez seu trabalho maléfico, e então ao não querer perceber mais nada, a moça começou a perceber tudo. 
Ouviu o barulho do riacho abaixo de seus pés, sentiu a firmeza do chão de madeira em que pisava, o vento farfalhando a seda de seu branco vestido, os pássaros cantavam, as flores ainda cheias de lágrimas orvalhadas e o sol nascia em mais uma manhã. Sozinha, no meio da ponte, sentiu-se emocionada, e ao querer chorar, não chorou.
Nunca quisera estar ali e por isso mesmo ali permanecia, não importava o quanto desejasse o contrário, o oposto ainda acontecia, pois a maldição não estava em sua mente mas sim, em seu coração, este órgão vital que enganar ela não podia.
O que realmente precisava, mesmo depois de tantos anos ainda não sabia, e quanto mais pensava menos entendia, como alguém poderia lhe oferecer tudo o que quisesse, se ela nem ao menos tinha idéia do que queria. 
E então quanto mais para dentro de si ela fugia, a maldição a jogava para fora dela, e lá enquanto percebia o que nunca quis perceber, e não chorava as lágrimas que queria chorar viu um jovem aparecer. 
Não era em nada especial, nem mais alto, nem mais baixo, nem mais belo do que qualquer um dos tantos homens que já havia visto por ali, tinha uma aparência calma, segura e em suas mãos segurava uma fruta que mordia com vontade. Ela quis sentir o gosto daquela fruta e por isso não o sentiu, nunca tinha visto aquele rapaz, com certeza não era da região, nem alguém que sempre passasse perto do ribeirão, provavelmente viera de longe para ver a moça que ficava parada na ponte como tantos outros antes dele. 
Não queria notá-lo, e por isso o notou, percebeu quando ele arregalou seus olhos claros ao vê-la ali, olhou para os lados e caminhou em sua direção, a moça advertiu a si mesma para não ter esperanças de que aquele era o rapaz perfeito, e por isso mesmo todas as esperanças de seu ser a invadiram, ele parou a sua frente encarando-a nos olhos, perguntou-lhe qualquer coisa que quis ouvir e por isso não ouviu, não sentiu o seu cheiro, nem o toque de suas mãos, nem mesmo quando ele precavido, observou se alguém estava passando, e logo em seguida colocou o rosto dela entre ambas as mãos e a beijou, provavelmente com o gosto daquela fruta que ela jamais sentiu. Se limitava a olhá-lo no fundo de seus olhos claros.
Presa dentro de si não podia corresponder qualquer contato dele, angustiada se acalmou, e inconformada se conformou, e mais uma vez foi obrigada a lidar com a situação quando tentava fugir dela, percebeu tudo que envolvia os dois naquele momento, o rapaz a sua frente, o sol, a água, o dia se iniciando.
Não precisava de mais nada, depois de tantos anos confinada dentro de seu corpo, a garota não tinha mais nenhum desejo, nenhum pensamento, tudo foi interrompido em seu ser. Não podia ser o rapaz, não era com certeza a manhã, depois de tantas manhãs iguais aquela e de tantos rapazes como aquele, era ela que havia mudado, algo estava diferente. 
Não queria chorar e por isso as lágrimas lhe brotaram, sabia que ele não era o rapaz que lhe quebraria o encanto e por isso mesmo era ele, e quando teve medo de se apaixonar, apaixonou-se, e quando quis se encantar, a moça que já estava encantada, desencantou-se. Com alguns passos, enfim atravessou a ponte sobre o ribeirão, não mais sozinha, mas de braços dados com o formoso rapagão.
Mas não meu caro cidadão, não foi o beijo do rapaz que despertou a paixão e pôs um fim ao encanto, acontece que quando o olhou nos olhos, a moça se viu refletida neles, a sua própria imagem estava nas pupilas claras do rapaz.
Pela primeira vez um homem colocou diante dela tudo o que ela sempre precisara para quebrar o encanto, cruzar a ponte, apaixonar-se e enfim saber o que tanto buscava no mundo e nunca havia até então encontrado. 
Ela mesma, dentro dos olhos de alguém.




MORALIDADE

Não entender o coração é um crime normal 
Não querer o que se quer é coisa muito ruim,
Desejar o que não se sabe pode lhe fazer mal
Se a jornada para encontrá-lo nunca tiver fim

E no meio deste caminho não se pode parar,
Entre o fim e o começo ninguém pode viver,
É preciso que o termine para poder recomeçar,
Tomando sempre cuidado para não retroceder.

Uma jovem donzela por tudo pode e deve esperar, 
Um cavalheiro galante e rico pode lhe aparecer, 
Mas se nada disso for o que seu coração precisar, 
O quê mudaria para ela se isso viesse a acontecer?

Ser completa, é de todas as missões a mais terrível,
Bem mais difícil do que estar apenas apaixonada, 
É poder aos olhos do ser amado sentir-se visível, 
Para desfazer o feitiço e ser de novo encantada...





Perla

Conto e moralidade escritos para uma das princesas 
que habitam meu reino, Perla
Beijos sinceros. 




21 de setembro de 2011

O moço de dentro do quadro.

Gustave Courbet 'Self-Portrait, The Despairing Man' 1843-1845



Existe na Lua branca algo de encantado
Aos jovens que lêem essa história, cuidado: 
O ouro e os diamantes apenas têm seu valor,
Para os assuntos que não se tratam de amor.

Aconteceu com um jovem senhor abastado, 
 Ornado de puro bronze, prata e ouro,
E possuindo o rapaz tamanho tesouro, 
Podia desposar qualquer jovem do povoado.

Foi ter imediatamente com a que era mais bela
Mas temeu quando percebeu que a donzela, 
Além de bela também era astuta e inteligente, 
Uma linda fada com o coração de serpente.

Decidiu procurar o pai de uma que fosse bondosa, 
Uma donzela ainda jovem, casta, tímida e formosa
Com um coração leve, sem nenhuma ambição
Candidata perfeita para realizar tal transação.

Acertou com o velho que ela seria a prometida, 
E sendo ele pobre e sem posses não teve saída,
A não ser dar embora a sua única filha amada, 
Nos braços do estranho que cruzou a sua entrada.

Receberá muito ouro por isso meu caro senhor
Que destino melhor há para a filha de um pastor?
Disse-lhe o belo jovem que já estava saindo,
A pensar em seu bom casamento sorrindo...

A bela donzela, porém, já estava apaixonada
E é a partir de agora que a trama fica emaranhada, 
Pois o jovem que lhe despertara tanto sentimento
Era só um moço pintado num quadro do convento.

O artista que o pintou nunca foi revelado
Há muito sua assinatura havia se apagado,
E o modelo da obra havia morrido há tanto tempo
Que lhe restava apenas uma imagem no convento.

E mesmo assim, sem saber por que, ela o amava,
Dia e noite, perdida em si, o quadro admirava, 
E quanto mais os homens diziam-lhe que era bela, 
Mais queria transformar suas cores em aquarela,

E para dentro do quadro ser transportada, 
Ao menos para tocá-lo por um só momento
E assim junto a ele congelar seu amor no tempo,
E no convento ser para sempre emparedada.

Quando soube da boa nova contada pelo pastor, 
A pobre jovem se desesperou em dores, 
Pois estava morto o seu sonho impossível de amor,
De viver ao lado do amado transformada em cores.

O desespero a levou até o topo da colina
Onde vivia uma senhorita traiçoeira
De medo regelou-se todo o corpo da menina
Ao deparar-se com a beleza da feiticeira.

Esta era a primeira moça que o senhor visitara, 
E com o coração inflamado de um ciúmes mortal,
Decidiu que enganaria a pobre jovem aflita,
Para que ela sofresse ainda mais até o instante final. 

Porem sua melancolia era tão verdadeira,
Que nem mesmo a mais poderosa feiticeira
Poderia odiar tamanha criatura inocente, 
E comovida, a bruxa ofereceu-lhe um presente:

"Tenho aqui um feitiço forte e adequado, 
Um veneno da lua, que no eclipse foi destilado, 
Vá durante a noite até o convento disfarçada, 
Com o elixir a tela deve ser toda encharcada, 

E do rapaz pintado se dissolverão as cores, 
E com isso desaparecerá todas as suas dores, 
E quando a tela jazer vazia, branca e acabada, 
Por ele não há de sentir mais nada...

E por mais que agora desprezes teu prometido, 
Ficarás com o coração livre para amar teu marido.
E a deusa da felicidade estará então convidada
A cuidar da tua futura vida de casada."

E a jovem apesar de triste, sentiu-se aliviada,
Sabia que seu amor nunca a levaria a nada, 
Seria mais fácil acabar com seu tormento
E aceitar de bom grado seu rico casamento.

Então durante a noite foi disfarçada, 
E no convento entrou na última badalada
Sem fazer um único barulho, como uma ladra, 
Trazendo em suas mãos a morte do amor engarrafada.

Mas nem tudo saiu como havia planejado, 
Assim que se viu diante do olhar do condenado, 
Um moço tão belo, tão alheio, tão desejado.
Apenas beijou os lábios de seu bem amado, 

Soube que o veneno não poderia derramar
Era muito belo para que o vazio o pudesse apagar, 
E estando ela sem nenhuma saída adequada, 
Tomou todo o veneno em uma só tragada.

Caiu no chão, vendo a luz da lua sobre a tela
Era a última visão que queria ter do mundo, 
E a morte lhe parecia cada vez mais bela
Conforme adormecia em um sono profundo...

O moço do quadro, que estava emparedado
Por tamanho amor acabou sendo despertado, 
No último suspiro da moça por quem era amado, 
E amando-a também, viu-se desesperado...

Sem poder mexer-se, apenas pelo luar observado, 
Para a esfera branca no céu começou a soluçar...
E mesmo sem nenhuma palavra conseguir pronunciar, 
O clamor de seu coração pela lua foi escutado:

"Esta jovem morreu por tanto me amar, 
E eu por ela morreria mil vezes sem pensar, 
Não tenho corpo, nem mãos para lhe tocar
Ou mesmo boca para o veneno mortal lhe sugar...

A dor que eu sinto agora, não existe igual, 
Amar tanto e não poder agir como o devido, 
Não fiz nada nesta vida para merecer tanto mal, 
Preferia mais que o veneno tivesse me diluído.

Tanto amor me foi oferecido por esta donzela, 
Pudera eu retribuir como um cavalheiro o amor dela, 
Viver com meu coração de tinta tão pesado eu não agüento, 
Coloque-me logo para fora, ou a ela para dentro."

E Diana que passeava nos céus, estava calada, 
Viu e ouviu tudo o que se passou emocionada, 
E sendo ela uma Deusa resolveu então interceder
E com sua infinita magia, o seu desejo atender.

Na madrugada silenciosa, ninguém ouvia nada, 
Enquanto isso, Diana já trabalhava apressada.
E tendo a donzela atravessado o Aqueronte, 
Nos braços do moço, amanheceu pintada. 

Essa história, triste, pode até parecer,
Mas com ela há algo a se aprender, 
Não há pranto de um coração partido
Que por um deus bondoso não seja ouvido.

E não se dissolvem as cores do amor
Pintadas pelas mãos de um talentoso pintor
Em um coração antes vazio como tela
Que assim foi preenchido por tinta de aquarela

Fim.


Gustave Courbet - Lovers in the Country Side 1847 - 1848



26 de julho de 2011

A árvore.

A Árvore Vermelha - Piet Mondrian

“Um lugar bravio, santo e encantado,
Como nenhum sob a pálida lua visitado
Por mulher em prantos ou pelo demônio amado.”

Rudyard Kipling


Fortuna saiu de casa cedo, suas malas já estavam prontas, o carro previamente abastecido e revisado, a antecedência lhe acompanhava. Não conhecia o caminho, mas soube que grande parte da estrada ficava emparelhada a uma velha ferrovia que não era mais usada, podendo assim se situar, o dia estava nublado com a temperatura amena, sentia que seria uma viagem tranquila, sem imprevistos.

Tinha certa noção de onde queria chegar, por isso não se preocupou com os meandros do caminho, estava indo em direção a um cliente, em uma cidade do interior, este promovia anualmente uma festa folclórica na cidadezinha e ela era a organizadora do evento, passaria dois dias hospedada em um hotel, acompanhando os festejos.

Tudo foi antecipadamente marcado, sua antecedência era uma qualidade adquirida com o tempo, o seu maior diferencial no mundo dos eventos, cheios de imprevistos, era que, com ela, isso jamais acontecia.

Manteve a velocidade limite facilmente, sem músicas para lhe distrair os sentidos da bela paisagem que, aos poucos, o horizonte lhe permitia ver, relaxada como estava, pensou em coisas do passado, no amor, na faculdade, quando ainda virgem se apaixonou por um moço em especial, um que lhe interessava, bonito, com um aspecto serio, sem sorrisos, seguro de si.

Entregou-lhe sua virgindade, e, como imaginava, ele cuidou bem dela. Despiu-lhe cuidadosamente, a fez tremer de prazer, mas não muito, e então foi embora, como ela já esperava. Sempre imaginava com antecedência quando uma relação começaria ou terminaria e nem sequer se dava ao trabalho de terminá-la, sabia quando o companheiro tomaria a atitude final.

E há dois anos ou mais, não havia companheiro, apenas o final, que desta vez, se prolongou mais do que ela esperava. Estava sozinha, ela e a sua antecedência, prevendo-lhe os próximos passos.

O dia começava a ficar mais abafado pela chuva que se formava, abriu as janelas do carro, deixou um braço apoiado na porta sentindo o vento empurrando sua manga, colocou os óculos escuros e dirigiu mais alguns metros, até que num cruzamento da antiga ferrovia, que vez ou outra aparecia serpenteando paralelamente a estrada, estava um estacionamento de concreto no meio do nada, com uma cerca de segurança para evitar que as pessoas despencassem no pequeno barranco adiante, ali havia o carro de uma família, decidiu parar para fumar um cigarro.

Desceu do carro, e educadamente cumprimentou o casal que tinha uma filha de aparentemente nove anos, sentia-se desconfortável fumando na presença de crianças, por isso depois de um rápido aceno com a cabeça, se afastou para sentar-se na pequena cerca. A mulher da família, uma moça jovem e animada veio falar com ela, lhe disse animadamente que entrando um pouco na mata que ficava alem da cerca, descendo o barranco, depois de cinquenta metros ficava uma árvore linda, que valia a paisagem inteira, inclusive a parada ali, disse que antigamente, aquela ferrovia era muito utilizada no interior do estado e as moças e rapazes das cidades da redondeza, amarravam fitas com o nome dos viajantes nos galhos da árvore, para que estes se apaixonassem e sempre retornassem.

Fortuna achou uma história bonita, mas com o passar dos anos, havia perdido grande parte de sua sensibilidade romântica, a história a tocava, mas apenas superficialmente.

 Muito tempo depois que o cigarro havia acabado e o casal havia partido, Fortuna ainda estava sentada lá, pensando coisas sobre seus dois dias na cidade desconhecida, e sobre o seu cliente, um homem que conhecia apenas pela voz, nos inúmeros telefonemas noturnos que lhe fazia, uma voz masculina qualquer, mas com um tom educado e polido, um vocabulário tão bem elaborado, que por vezes, se via imaginando como deveria ser o dono daquela laringe masculina que vibrava com tamanha destreza.

O lugar onde estava agora ficava a menos de meia hora da cidade em que ocorreria a festa e Fortuna estava antecipada, pensou que seria interessante ver a tal árvore e fotografar com seu celular para enviar as suas amigas, que ainda não haviam perdido completamente aquela delicada veia romântica.

 Ultrapassou o limite de segurança, e desceu o barranco que tinha menos de dois metros e uma inclinação agradável de grama verde, mesmo de salto não teve dificuldade em chegar ao vale que ficava abaixo, e, depois de alguns passos, pode ver a árvore.

Parecia um salgueiro muito antigo, o tronco grosso e alto, a copa completamente seca com galhos negros retorcidos, porém, mesmo com o tempo nublado, a árvore ainda parecia simpática, e de fato, era uma visão fenomenal, quase todos os seus galhos estavam atados com fitas coloridas.

O vento as balançavam e a árvore parecia viva, brilhante, como se estivesse no auge da florescência. Fortuna percebeu que algumas fitas eram visivelmente antigas, desbotadas completamente pelo sol, pela chuva, pelo tempo, nas fitas estava escrito de maneira vertical o nome de inúmeros desconhecidos, lembrou-se que eram os nomes dos viajantes que deixaram alguém apaixonado para trás, e esta paixão, era concentrada naquelas fitas que depois de atadas aos galhos do Salgueiro, funcionavam como um farol, mostrando sempre a direção em que o viajante deveria regressar, a direção em que o amor o esperava.

Não tirou fotos, apenas admirou a beleza daquela árvore atada com fitas coloridas no meio do nada, sentia-se feliz por estar ali, e por estar como sempre, adiantada.

Uma das fitas era visivelmente mais nova, de seda vermelha, brilhante, como se tivesse sido colocada lá recentemente, Fortuna pensou no tipo de pessoa que mesmo hoje em dia, se permitia um costume tão antigo e belo.

Aproximou-se, tocou as fitas lendo os nomes nelas, todos escritos de forma vertical e repetidos três vezes, nomes completos, deixou-se imaginar como seriam aqueles desconhecidos, como conseguiram cativar alguém, a ponto de merecerem ter seus nomes ali, imortalizados. Segurou nas mãos a fita vermelha, a mais nova, e leu o nome que estava escrito nela com uma letra firme e masculina, verticalmente, em preto e com a mesma repetição: Fortuna Alonso de Medeiros

O seu próprio.

A antecedência, a certeza do que viria a seguir, que esteve sempre presente, naquele momento, lhe abandonou.



23 de fevereiro de 2011

Trabalho interno...

Muro de Cemitério Parisiense, Fotógrafa Flo Fox ©2011


Escrever não muda a carne, não eleva o espírito, não altera a forma ou a dimensão das coisas. Escrever, por mais que seja uma atividade visível, é antes de tudo um trabalho interno. É pintar as paredes de dentro de preto, é torcer as nuvens que se formam no peito até a ultima gota, é desaguar do rio ao mar, sem perspectiva de oceanos. Escrever não me ajuda, e também não me atrapalha, escrever me leva do nada ao coisa nenhuma, e então do coisa nenhuma de volta ao nada. Escrever é um ato contínuo, não sei porque prossigo, e jamais sou interrompido, então escrevo. A escrita é a minha memória, não a que a realidade impactou em meu cérebro, mas que a minha luz desenhou no meu vazio, o que me aconteceu, o que eu anseio e o que eu temo se misturam na escrita interna. Escrevendo eu me ouço, eu coloco o querosene na lamparina sem jamais ascender sua luz, eu tateio meu escuro, eu me adapto ao vácuo, ao nada. Escrever é minha maneira de gritar em silêncio. Escrever é o que faço entre uma linha e outra, entre uma vida e outra. Escrever é natural, é não só manchar de signos o papel, é ser o próprio signo, mas sem significado, fonética ou tradução. Quem escreve é o hieróglifo perdido pelo tempo nas paredes da pirâmide. É o incompreendido. Escrever é ser lido.  



A fotografia escolhida é da fotógrafa americana Florence Fox,
conhecida como Flo Fox. Foi declarada cega e diagnosticada
com múltipla esclerose com 30 anos de idade. Porém isso não foi
o suficiente para impedi-la de continuar seu trabalho como fotógrafa,
e por sua coragem e talento ficou conhecida mundialmente.

"Eu tento lançar um exemplo pegando o negativo e tornando-o positivo, 
não só na fotografia mas também na minha vida!"

Flo Fox © Twitter: @flofoxfoto, Website: http://www.flofox.com







20 de fevereiro de 2011

O presente da estrela cadente...

Ingrid Betancourt, Ilha da Liberdade, Nova York, Janeiro de 2011


"Claro que, sem a liberdade, a consciência de nós mesmos se degradava ao ponto de não sabermos mais quem éramos. Mas ali, deitada, admirando a exibição grandiosa das constelações, eu experimentava uma lucidez que vem com a liberdade duramente conquistada.
A imagem que o cativeiro dava de mim mesma tinha trazido à luz todos os meus fracassos. As inseguranças que eu não tinha resolvido durante meus anos de adolescência e as que tinham surgido de minhas incapacidades de adulta tinham ressurgido como hidras, das quais eu não podia mais fugir.
Eu as tinha combatido no começo, mais por ociosidade que por disciplina, obrigada a viver num tempo sempre recomeçado, onde a irritação de me redescobrir em minhas pequenezas imutáveis me levava a tentar de novo uma transformação impossível.
Naquela noite, sob um céu estrelado que me levava para anos distantes de uma felicidade perdida, para um tempo em que eu contava as estrelas cadentes, acreditando que elas me anunciavam a plêiade de graças que preencheriam minha vida, compreendi que uma delas acabava de cair naquele instante e que ela permitira o meu reencontro com o melhor de mim mesma que jazia esquecido."





Trecho retirado da página 427, do capítulo 63, intitulado "A escolha".
Não há silêncio que não termine. - Meus anos de cativeiro na selva colombiana.
Ingrid Betancourt, Editora Companhia das Letras, 2010.



7 de fevereiro de 2011

Noite e Dia. (Perla)

Sua festa surpresa de 20 anos, foto tirada pelo meu primeiro ex-namorado.



"Noite e Dia, chamavam-nas as tias, e embora nenhuma delas risse dessa brincadeirinha, 
 nem a achasse um pouco engraçada elas reconheciam a verdade que ela continha e eram 
 capazes de compreender, mais cedo do que a maioria dos irmãos consegue, que a Lua 
 anseia o calor do Sol, assim como o Sol anseia pela escuridão da Lua."

Da Magia à Sedução, pag. 15.




Dentro de um planeta que gira em torno de sua própria órbita seria difícil imaginar que um de seus habitantes se importasse com  algo além de si mesmo, mas nós nos importamos. Somos livres, orbitamos ao redor do sol, e este ao redor da galáxia e esta perdida rodopiante no meio do universo misturando o tudo e o nada, e neste eterno e complicado movimento elíptico seria difícil para qualquer coisa permanecer como é, original desde sua criação, mas nós dois permanecemos, quase estáticos, no meio da mistura de cores que nos cerca, nós mantivemos nossos contornos firmes, e nossas mãos dadas, minha safena magna desaguando no seu coração, trocando o ar pela boca quando estávamos debaixo d'água, trocando tudo, cabeça, cabelo, corpo, até as cascas caírem, e então, novos, renascíamos, estavamos prontos para nos destruir aos poucos, novamente, mas não por auto flagelação, e sim pelo prazer que o renascimento sempre nos deu.


André, Paulinho, você e eu. Sempre.



E é renascendo sempre, transformando a distancia em liberdade, a ausência em saudade, o medo em aventura que nos separamos agora. Você vai, eu fico.


HAUSASHUAHUAASHUASHUSAUHASAHUASHUAS


Você vai levar tudo com você, tudo o que trocamos em tantos anos em que partilhamos o laço mais fino e delicado que já vi nascer entre dois seres humanos, tão diferentes, tão parecidos. Você me deixou mais calmo, mais maduro, mais homem, você a cada palavra, a cada gesto, a cada percepção de sentimento, ou  a falta dela, me amadurecia, me maturava como um vinho, me servia a realidade sem o amargor da decepção, me servia a realidade na taça dos sonhos que se realizam, lia meu futuro, conhecia meu passado e vivia meu presente. Você era a única presente.


HUUASHUSAUHASHASHSAHUAUASUAUHAUHASUH



Os anos passaram e nos tornamos adultos, gente grande, com poucas coisas que nos lembram nossa infância  tão distante agora, você manteve sua franja, eu mantive minhas tatuagens. Os piercings se foram, junto com amores, com passado, com amigos, com inimigos, com costumes e homens errados, mas nós não fomos, nós ficamos. 


CHANDON AUSUASAHUSASUHSASAHU



Ficar é o nosso hábito, nosso joguinho particular. Ficar é o que fazemos de melhor, não por que somos temerosos, mas porque sempre ficamos um pelo outro. E é por você que eu vou ficar, esperando, não mais sozinho pois nos construímos tão bem durante esses anos que percebi que é impossível que eu sinta sua ausência, ou sinta falta de você, pois você esta em tudo o que faço, em tudo o que vejo, em tudo o que sonho, em cada profundeza de pensamento, em cada licenciosidade que me permito, em tudo o que eu queria ter dito e não disse, em tudo que eu teria feito melhor, em tudo o que eu mudaria, e em tudo o que permaneceu. Nós.


SUHAUHSAUHSAUHASHUAASUHASHUASHUSASAH



Cabelos negros, olhos claros, me lembrou sempre Perséfone, e agora como ela, você comeu as três sementes de romã que vão me custar três meses sem você, três meses de inverno/inferno, três meses de um mundo novo a ser (re)descoberto, você lá, e eu aqui. 



AHUSSAASHUASHUASHUAHUAHSUASHUASHUAAH



E se eu estivesse lá, no momento em que você for jogar a moeda por mim na Fontana di Trevi, saiba que eu só teria um pedido a fazer aos deuses romanos:
Desejo que você seja feliz, sempre.

Eu te amo Gilly Bean!


- # -

"Sopre vento, até onde estiver quem eu ame,
acaricie seu corpo e regresse para acariciar-me.
Por meio de ti sentirei sua mão suave
e encontrarei sua beleza na Lua.
- # - 
Estas coisas são muito valiosas para quem ama.
Podemos viver com elas e nada mais:
pois nós dois respiramos o mesmo ar,
e o planeta que percorremos, é apenas um."

Ramayana