2 de março de 2012

Roberto C. Rodríguez, tem um pássaro no seu cabelo...

Sleeping Prince - Dianne L. Gardner



Jaú, 29 de Fevereiro de 2012

“Relacionamentos íntimos não podem substituir o seu plano de vida, mas para ter significado e validade, um plano de vida deve incluir relacionamentos íntimos.” 


Sabem quem disse isso? Não, não foi Jesus, foi Harriet Lerner, psicóloga, socióloga, palestrante e autora do Best-Seller “Franny B. Kranny, tem um pássaro no seu cabelo”. Não sei se devo culpar (ou agradecer?) os movimentos elípticos lunares, as constantes e ininterruptas mudanças drásticas da minha vida, a uma força maior e racional que controla o universo, mas, a verdade é que ultimamente eu não tenho pensado em relacionamentos amorosos. De verdade, não tenho pensado mesmo, em nada. Em beijos, em sexo, em amor, em casamento, em nada disso, e já faz um bom tempo desde que este tipo de pensamento, antes constante na minha realidade, me deixou completamente.  
Estou solteiro há três anos, e tenho encontrado grande dificuldade em me aproximar ou mesmo me relacionar com as pessoas, até mesmo com amigos e familiares, não sei se estou passando por um período de alomorfia ou algo assim, só sei que este tipo de ambição amorosa me deixou e buscando nos meus recôncavos mais convexos, encontrei o último “texto” em que me vi pensando neste tipo de coisa, faz um certo tempo desde que postei um texto mais pessoal aqui no blog, ultimamente tenho postado mais crônicas, contos e poemas aleatórios, mas sinto que será no mínimo divertido dividir com vocês agora, sem frescuras, em caráter pessoal, o meu último devaneio sobre um futuro pretendente. Quando fazia faculdade de História da Arte em São Paulo, não tinha acesso a internet o tempo inteiro como hoje, então era um costume usar um gravador portátil para registrar longas conversas comigo mesmo e possíveis postagens futuras do blog nele, então vou transcrever (palavra por palavra) o último registro que consegui obter de mim mesmo, quando eu ainda sonhava em dobrar, em ter um namorado  e como eu esperava (gostaria) que este fosse. 

p.s. os pontos de interrogação, demonstram a minha indignação ou minha falta de compreensão com o que eu disse naquela época, afinal nem eu consigo me entender.


Apreciem.


17/05/2010

“(...)Acho que ultimamente me tornei um homem bem mais razoável, quer dizer, busco apenas um cara que seja gay (?), preferencialmente os que estão do lado de fora do armário, lógico, e que não tenham carro (?) , porque não há nesse mundo coisa mais romântica do que dar as mãos as escondidas em um ônibus, beijar sorrateiramente no metrô, fugir dos skin-heads na Augusta como se não houvesse amanhã(?), porque provavelmente não haverá amanhã mesmo para você se eles te pegarem, e finalmente ficar na sala de espera da UTI esperando seu namorado (que não corre tanto quanto os skin-heads) sair do coma depois da surra que levou (?). 
Sabe, ter um companheiro pra discutir questões relevantes como, “quem veio primeiro, o ovo ou a Madonna?” (?), ou qual é o KY mais legal, aquele que esfria (e da a sensação de que você esta fornicando com o cabo do remo de um caçador de baleias esquimó no Alaska)(?), ou aquele que esquenta (e da a sensação radical de que colocaram dentro de você o cabo quente da metralhadora de um guerrilheiro xiita depois dele ter assassinado vinte infiéis)(?), não que eu já tenha experimentado ambos, lógico. 
Encontrar um rapaz que não se importe também, caso eu não tenha o corpo do David de Michelangelo com o pênis do deus pagão Príapo, afinal, desde Adão e Eva, nós, gordinhos tensos, temos sido perseguidos! (?) Essa é a mais pura verdade, aposto que quando Eva ia devorar uma “bistecona” bem gordurosa e suculenta, e se acabar no churrasco feito de gado alimentado com produtos orgânicos e naturais que Adão estava preparando, surgiu a maldita serpente vigilante do peso revendedora da Herbalife(?), e a aconselhou a comer uma coisa mais leve para não engordar, como uma frutinha por exemplo, rica em fibra e o caralho a quatro, bem, o resto da história vocês já conhecem. 
Ainda assim, acho que Eva foi mais feliz que qualquer ser humano que vive no século XXI, afinal Adão não tinha uma ex (Descobri que segundo a cultura hebraica ele tinha sim, e ela não só ouviu o conselho da serpente, como também decidiu abandoná-lo pra ficar com a serpente, mas essa é uma outra história), as expressões “acima do peso ideal”, “padrão de beleza atual”, “celulite”, “estria”, ainda não tinham sido inventadas, e se Eva por acaso se sentisse insegura quanto a fidelidade do seu parceiro, bastava ela contar suas costelas para verificar se tinha alguma vagabunda nova na área(?).
Acho que vou morrer sozinho.”


Eu hein!? Sem comentários...
Beijos sinceros.  




26 de janeiro de 2012

Conto de Fadas

Claude Monet - Trouée de soleil dans le brouillard. Oil on canvas, 1904.  



Um homem maduro que tem afazeres sérios, 
não repete jamais o conto de fadas de sua ama.

Voltaire.



O fabuloso trecho iniciativo “Era uma vez...” poderia servir fielmente para iniciar esta história, pois foi uma vez de fato, mas ainda o é, e como de todos os mistérios incompreensíveis dessas fábulas, a única certeza que assola o autor é a de que o será novamente, então começarei diferente...
É, e enquanto ainda está sendo este conto deve ser passado a frente, pois a virtude por mais que não seja afortunada, no final pela boa fada é coroada. Disseram-me tolo por nisso acreditar, julgo-me um sonhador, já me acostumei com o narrador da minha história, que não me permite saber dela o desfecho, e me ensinou que a ansiedade é uma mania que apesar de atrativa em sua aparência, nos tráz muitos desgostos com freqüência, e disso há mil exemplos todo dia. 
Os contos de outrora já não tem mais seu valor, entre olhos desvirginados pelo amor, entre bocas sibilando o adeus, somos ainda visitados por príncipes. Um homem maduro jamais o irá admitir, uma mulher segura abençoada pela grã natura com beleza e discernimento, dirá que seus dias de menina passaram, e que um sapato de cristal, será em seu armário apenas mais um sapato normal.
Ainda vale mais ser verdadeiramente bela do que estar bem penteada, é esta a moral que sempre quis lhe ensinar a boa fada, e os príncipes não nos aparecem sempre adornados, muitas vezes de seus cavalos estão desmontados, e na estrada perdidos, tudo bem que as roupas, a beleza, os tesouros mais brilhantes sobre as donzelas tem seu poder, porém se atentem as moças pois as palavras galantes tem ainda mais força e podem mais valer.
Os príncipes que aparecem em nosso caminho, vem belos, caprichados, com um exterior resplandecente, mas nenhum destes dons tem tanto valor para tornar um coração sensível, é necessário ainda aquele singular atrativo invisível, que o amor somente pode encontrar, e mesmo que um desses moços venha diferente, com defeitos, desprezado e escarnecido, já tem acontecido de a pobre criatura dar a nós que o amamos a mais alta ventura. 
 Não só de príncipes disfarçados nos alertaram as fadas, pois elas nos advertiram também que existem lobos na estrada, digo lobo, lobo em geral, porque tem lobo que é cordial, mansinho, familiar e até civilizado, que, gentil, bom, bem educado, persegue as almas mais puras, e pobre o infeliz que não sabe que estes lobos melosos, são dos lobos os mais perigosos, os apaixonados devem adquirir um olhar mais atento, os piores lobos são peludos por dentro. 
Esperar por um bom tempo um bom e rico esposo, é bastante vulgar, mas é prudente que espere ainda mais aqueles que verdadeiramente querem amar, porém os amantes sempre a arder aspiram tanto à alegria conjugal, que eu não tenho coragem e nem poder de lhes pregar esta moral, afinal um príncipe jovem e apaixonado é sempre valente, o difícil é enxergar a realidade, pois tudo é tão belo em quem amamos que o ser amado tem só qualidades.
O amor requer vigilância e cuidados e espera que o apaixonado seja diligente, mas, cedo ou tarde isso é recompensado, e quando menos nós esperamos, geralmente.
Tais ensinamentos não cansam de ser repetidos pelo tempo, e embora com rapidez o esqueçamos, e se torne cada vez mais difícil crer nesta história, enquanto houver neste universo uma vovó que o conte em prosa e verso, ele será guardado na memória. 


Pierre-Auguste Renoir - Claude Monet Reading,. Oil on canvas, 1872.



MORALIDADE

O autor deste conto nada quis ensinar a ninguém,
Pois cada um enxerga um conto de fadas como lhe convém,
Mas hoje sua Torre de Marfim ficou sem estrutura
E este autor é um covarde que temeu cair daquela altura
Agarrou-se então em um presente de rara beleza
Dado a ele por uma alma irmã da sua num gesto de delicadeza
Foi um livro de contos de fadas que o resgatou da dor
E poderia um rapaz sensível ter melhor salvador?
Não foi um príncipe que atendeu a seu chamado,
Foi na verdade um moço que há anos era procurado,
Uma versão dele mesmo, mais menino, que lhe trouxe esperança,
Sussurrando em seu ouvido os seus sonhos de criança...




9 de dezembro de 2011

In memoriam...

Mariana Franhan ★ 15/03/1990 - 09/12/2011 †


Já bem perto do acaso, 
eu te bendigo, ó Vida,
Porque nunca me deste 
esperança mentida,
Nem trabalhos injustos, 
nem pena imerecida.

Porque vejo, 
ao final de tão rude jornada,
Que a minha sorte 
foi por mim mesmo traçada;

Que, se extraí os doces méis 
ou o fel das coisas,
Foi porque as adocei 
ou as fiz amargosas;
Quando plantei roseiras, 
colhi sempre rosas. 

Decerto, aos meus ardores, 
vai suceder o inverno:
Mas tu não me disseste 
que maio seria eterno! 

Longas achei, confesso, 
minhas noites de penas;
Mas não me prometeste 
noites boas, apenas
E em troca tive algumas 
santamente serenas… 

Amei e fui amado, 
acariciou-me o Sol. 
Para que mais?
Vida, nada me deves. 
Vida, estamos em paz!

Em paz, Amado Nervo



Todas as luzes estarão no seu caminho até Perséfone!
Que a nossa despedida seja breve...