23 de fevereiro de 2011

Trabalho interno...

Muro de Cemitério Parisiense, Fotógrafa Flo Fox ©2011


Escrever não muda a carne, não eleva o espírito, não altera a forma ou a dimensão das coisas. Escrever, por mais que seja uma atividade visível, é antes de tudo um trabalho interno. É pintar as paredes de dentro de preto, é torcer as nuvens que se formam no peito até a ultima gota, é desaguar do rio ao mar, sem perspectiva de oceanos. Escrever não me ajuda, e também não me atrapalha, escrever me leva do nada ao coisa nenhuma, e então do coisa nenhuma de volta ao nada. Escrever é um ato contínuo, não sei porque prossigo, e jamais sou interrompido, então escrevo. A escrita é a minha memória, não a que a realidade impactou em meu cérebro, mas que a minha luz desenhou no meu vazio, o que me aconteceu, o que eu anseio e o que eu temo se misturam na escrita interna. Escrevendo eu me ouço, eu coloco o querosene na lamparina sem jamais ascender sua luz, eu tateio meu escuro, eu me adapto ao vácuo, ao nada. Escrever é minha maneira de gritar em silêncio. Escrever é o que faço entre uma linha e outra, entre uma vida e outra. Escrever é natural, é não só manchar de signos o papel, é ser o próprio signo, mas sem significado, fonética ou tradução. Quem escreve é o hieróglifo perdido pelo tempo nas paredes da pirâmide. É o incompreendido. Escrever é ser lido.  



A fotografia escolhida é da fotógrafa americana Florence Fox,
conhecida como Flo Fox. Foi declarada cega e diagnosticada
com múltipla esclerose com 30 anos de idade. Porém isso não foi
o suficiente para impedi-la de continuar seu trabalho como fotógrafa,
e por sua coragem e talento ficou conhecida mundialmente.

"Eu tento lançar um exemplo pegando o negativo e tornando-o positivo, 
não só na fotografia mas também na minha vida!"

Flo Fox © Twitter: @flofoxfoto, Website: http://www.flofox.com







20 de fevereiro de 2011

O presente da estrela cadente...

Ingrid Betancourt, Ilha da Liberdade, Nova York, Janeiro de 2011


"Claro que, sem a liberdade, a consciência de nós mesmos se degradava ao ponto de não sabermos mais quem éramos. Mas ali, deitada, admirando a exibição grandiosa das constelações, eu experimentava uma lucidez que vem com a liberdade duramente conquistada.
A imagem que o cativeiro dava de mim mesma tinha trazido à luz todos os meus fracassos. As inseguranças que eu não tinha resolvido durante meus anos de adolescência e as que tinham surgido de minhas incapacidades de adulta tinham ressurgido como hidras, das quais eu não podia mais fugir.
Eu as tinha combatido no começo, mais por ociosidade que por disciplina, obrigada a viver num tempo sempre recomeçado, onde a irritação de me redescobrir em minhas pequenezas imutáveis me levava a tentar de novo uma transformação impossível.
Naquela noite, sob um céu estrelado que me levava para anos distantes de uma felicidade perdida, para um tempo em que eu contava as estrelas cadentes, acreditando que elas me anunciavam a plêiade de graças que preencheriam minha vida, compreendi que uma delas acabava de cair naquele instante e que ela permitira o meu reencontro com o melhor de mim mesma que jazia esquecido."





Trecho retirado da página 427, do capítulo 63, intitulado "A escolha".
Não há silêncio que não termine. - Meus anos de cativeiro na selva colombiana.
Ingrid Betancourt, Editora Companhia das Letras, 2010.



17 de fevereiro de 2011

Por um triz...

Sandra Bullock, Practical Magic 1998


"Porque depois de tudo compreendi
 que aquilo que a árvore tem de florido
 vive daquilo que guarda sepultado".


 Francisco Luis Bernárdez




Sou uma sucessão ininterrupta de quases.
(qua-se) - adv. aproximadamente, perto de, por pouco, por um triz, na iminência de, a ponto de. Quase me escondi, quase me tranquei, quase cambiei o que havia de diferente pelo comum, e o extraordinário pelo útil, mas na época da juventude com a licenciosidade da descoberta, o quase não passava de uma mera fase. Mesmo assim não foi tão bom quanto podia, foi quase.
Podia ter fugido, roubado das outras o marido, me vendido, tudo aquilo que eu sentia ter escondido, os riscos que corri não ter corrido. Mas sempre fui o tipo de homem que tinha muito a perder, e mesmo sem jogar com a vida perdia e jogando com ela perdia mais ainda, e perdeu quase tudo. O quase levou tudo, mas o quase deixou sua base.
Podia não ter me tatuado, podia não ter juntado os sobrenomes, ter esquecido o seu nome, podia ter me travestido, brincado de ser seu marido, podia não tê-lo beijado, na Barbie da minha irmã jamais tocado, não ter preferido a Maga-Patalógica ao Pateta ou não ter torcido pela bruxa ao invés da moça adormecida. Ter tido mais cautela, e levado tudo menos de vencida. Mas o anormal me é muito natural, o quase aqui vira êxtase.
Podia ter terminado, podia ter começado, podia ter abandonado. Podia de tudo, podia ter ido cedo para a cama, ter comido mais coisas saudáveis, não ter bebido nem colocado o primeiro cigarro na boca, podia ter fechado a boca e emagrecido, podia ter engordado, ter deixado o corpo sarado, ter sido menos exagerado, ter gostado mais daquilo que eu era, ter me apaixonado pelo que eu fui, aceitar mais aquilo que hoje sou, ter me entregado nas mãos certas, ter me dado uma colher de chá, ter amado ele mais, e ter amado aquele menos. 
Todos os meus quases fazem parte de mim, o que conquistei segue comigo guardado, o que perdi é de vez em quando relembrado, o que quase foi meu, ou quase se perdeu segue na minha vida meio pendurado. O quase nunca é suprido, o quase pode ser resumido agora em uma frase:
Pudera nunca tivesse brilhado tanto se fosse brilhar tão pouco...




p.s. tudo nesta vida me escapou por muito pouco,
principalmente o que poderia ter sido e não foi, o quase.