22 de agosto de 2014

O simulacro


"O homem está ligado indissoluvelmente ao seu destino e á carga de sua própria vida, quando procura libertar-se desse peso, regressa novamente a ele com uma pressão maior e ainda mais terrível". 


O médico e o monstro, Robert L. Stevenson.


Hoje não haverá janta. Através do silêncio do quarto ouve o som de alforria da mãe na cozinha, que lava a louça antes das 19h, deixando a mensagem silenciosa "se vira"  ecoando pelos azulejos. Provavelmente mais tarde a fome aperte e ela se arrependa como sempre, e acabe comprando (gastando) alguma coisa para "eles" comerem. Eles não inclue "ele", e ele sabe disso afinal "já é homem feito", "tem dinheiro pra se virar", verdade e verdade. Viver com os pais depois dos 30 o obriga constantemente a encarar as verdades que finge ignorar a fim de permanecer como vítima para si mesmo, e ter alguma razão para reclamar consigo e em seguida se consolar. Sozinho. Acende um cigarro, todos os seus amigos estão parando, menos ele, talvez a dificuldade que encontra em manter objetivos positivos, como academia, dieta, gastar menos, não se compara a facilidade de se manter firme em seus objetivos altamente nocivos. Fuma com prazer, para valer também o dinheiro que gastou com o maço. Decide que não vai jantar, nunca mais. Vai emagrecer, o chá verde coado na pia desde as 14h (provavelmente já sem nenhum antioxidante) vai resolver. Todos os telefones de delivery da cidade passam automaticamente em sua mente. Sente fome. Pensa no ex, o ex passou como um dos telefones do delivery mas foi notado. Que bom, quer dizer que o dito cujo já está sendo quase digerido por seu hipotálamo. Sabe que em breve não haverá mais nenhuma referência ou nome para o ex se meter e passar ousadamente por trás de seus olhos. Breve não será mais nada, seu nome nem aparecerá mais como primeira opção de pesquisa nas redes sociais, igual aos outros. Que outros? Sorri. Sente fome novamente. Se detesta por um micro segundo por estar acima do peso e não poder desfrutar sem culpa do único prazer que lhe resta e pelo qual pode pagar. Acende outro cigarro. Conversa com alguns amigos distantes apenas fisicamente, alguns deles com o peso do "não era pra ser só amizade", ao menos pra ele. Mas a distância tem a alquimia de transformar o futuro ex amor num colega de trabalho, desses de bom dia e bom final de semana, sem que nenhum dos dois tenham queixas a respeito disso. Na televisão o policial encontra uma simulação de armamento, o "simulacro".


27 de fevereiro de 2014

William Foster




Chora de manso e no íntimo... procura 
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia: 
O mundo é sem piedade e até riria 
Da tua inconsolável amargura. 

Só a dor enobrece e é grande e é pura. 
Aprende a amá-la que a amarás um dia. 
Então ela será tua alegria, 
E será ela só tua ventura... 

A vida é vã como a sombra que passa 
Sofre sereno e de alma sombranceira 
Sem um grito sequer tua desgraça. 

Encerra em ti tua tristeza inteira 
E pede humildemente a Deus que a faça 
Tua doce e constante companheira...

Renúncia, Manuel Bandeira.






12 de fevereiro de 2014

Sheherazade e a navalha de Occam.

A única Sheherazade que jamais irá nos decepcionar!


“Sheherazade calou-se. “Continue!”, Shariar ordenou. 
“Mas o dia está amanhecendo, Majestade! Já ouço o carrasco afiar a espada!“. 
“Ele que espere”, declarou o rei. Shariar deitou-se e dormiu profundamente.”

Trecho de “As Mil e Uma Noites”.



Esta semana todos nós frequentadores (fanáticos e viciados como somos) das redes sociais, estamos assistindo nossa TL ser bombardeada com inúmeras matérias, reportagens, entrevistas, etc, com a senhora Raquel Sheherazade, apesar de não acompanhar o trabalho da moça desde seu abençoado (inclusive por mim) vídeo sobre o carnaval, em sua antiga emissora, e mesmo tendo vibrado de inocente alegria ao saber que ela seria ancora de um jornal no meu estado, desta vez com repercussão nacional, colocando sobre ela o peso platônico de jamais me decepcionar, fui como a maioria (ou minoria?) decepcionado gradativamente.
Admiro o poder que ela possui de escancarar de boca cheia, verdades tão obscuras em nosso cotidiano. Afinal, foi exatamente isso que ela fez em seu vídeo sobre o carnaval, como muitos disseram à época: "esta moça disse absolutamente tudo o que eu sempre quis dizer!", e o fez com grande proficiência. Mudou algo desde então? Mudou, além do Carnaval odiado por Raquel e uma pequena (SIMMM! PE-QUE-NA!) parcela dos brasileiros, teremos uma copa e uma olimpíada onde o dinheiro publico irá correr entre ralos e bolsos, mudando pouco ou quase nada de nossa nada mole vida cotidiana.
A verdade é que essas grandes verdades que 'todo mundo' pensa, não se aplicam a nossa realidade, e por isso não possuem o poder de mudá-la. INFELIZMENTE.  Afinal, já diria o poeta, que coisa mais bela uma 'verdade' pode fazer além de existir?
Sua ultima grande ‘verdade’ foi que cidadãos 'de bem' tem o direito de se defender da criminalidade, e até mesmo lutar contra ela com os próprios punhos, usando de exemplo o caso do jovem acorrentado ao poste no Rio de Janeiro. 
PORRA! Nessa verdade eu queria MUITO acreditar! Muito mesmo, ela praticamente descreveu o Batman, ou a filosofia do filme Kick Ass, seria incrível realmente se existisse algum tipo de homem aranha, ou seja la o que for, mesmo um grupo seleto de pessoas sedentas por justiça, um X-MEN, ou um V de Vingança além das máscaras bocós. 
Já pensou que utopia linda de viver? Um reino da Marvel ou DC chamado Brasil onde eu estivesse de mãos dadas com o meu namorado na rua, e um grupo de NN aparecesse para nos trucidar, e bem quando vamos ser capturados para logo em seguida sermos suicidados, um carro com desconhecidos os impedisse com uma boa dose de surra e de humilhação prendendo todos eles a postes pela cidade!
Eu iria gostar disso? SIM, eu iria adorar, por menos humano que isso pareça, essa ideia de vingança que existe por trás dos justiceiros é muito gostosa, mas como disse, uma verdade tão linda jamais se aplicaria a nossa realidade.
Caso a história fictícia de eu e meu namorado estarmos sendo agredidos por um determinado grupo, e então outro grupo aparecesse, no final de tudo quem estaria num poste? OBVIAMENTE, eu e meu namorado, talvez até suicidados. 
Alguns dirão que isso é vitimismo de minoria oportunista, etc (Meu cú!)
Hoje mesmo, tomei minha boa dose diária de realidade com o simples fato de atravessar uma rua. Lá estava eu voltando do trabalho a pé, costume adotado depois de um súbito animo com exercícios, quando atravessava um sinal vermelho na faixa de pedestres, e para a minha sorte o sinal voltou a ficar verde bem quando estava praticamente no meio do caminho.
Então percebi que se aproximava um desses carros rebaixados, com um funk tocando no ultimo, dentro o motorista de boné e óculos espelhados, era a pura encarnação de todo esse movimento rolezinho que surgiu 'do nada' na mídia nacional.
Imediatamente recuei de volta para a calçada, com o medo e a resignação de quem espera algum ataque, algum tipo de mal, que espera o motorista acelerar bem em cima de você, ou que ao me ver voltar para a calçada, ele passasse por mim e gritasse (como já aconteceu comigo e com tantos outros gays inúmeras vezes) "Bicha!", "Aiiii", "Lindaaa!", ou qualquer outro tipo de 'ofensa' que na teoria o deixaria mais homem e a mim menos homem, mas que na pratica só me faz lamentar o fato de ainda não poder explodir cérebros mentalmente.
Admiro as reações que vejo em outros gays expostos a esse tipo de coisa, eu mesmo já tentei várias delas, jogar algo no carro, gritar "sua mãe não reclamou", ou um simples "chupa meu cu!", mas com o lapidar dos anos e da maturidade vamos recuando e passamos a ignorar instintivamente todos esses tipos de atritos urbanos diários (fones de ouvido ajudam muito).
E lá estava eu na calçada esperando o tal carro 'algoz-de-tudo-o-que-eu-temo-e-por-isso-evito-ou-finjo-que-não-existe'passar por mim, quando percebo que ele parou, bem antes da faixa, e com o braço e a cabeça acenou educadamente para que eu terminasse a travessia, meu corpo respondeu instintivamente aquela gentileza obedecendo-a. No meio da faixa fiz um sinal de ‘jóia’ pra ele, o famoso 'obrigado' dos pedestres, ele me respondeu com uma pequena buzinada e seguiu seu caminho.
Passei o resto do caminho de volta pra casa agradecido por aquele motorista ter demonstrado comigo (pedestre) uma cordialidade TÃO rara no transito, e ao mesmo tempo me culpando por não ter esperado isso dele. Meus caros, isso tem um nome: PRECONCEITO, e preconceito é bem mais do que medo. Como todos nós aprendemos em "O Mágico de OZ", o medo é irmão da sabedoria, se eu tivesse voltado correndo pra calçada por 'medo' de ser atropelado e colocar minha vida em risco, isso seria sábio de minha parte, mas voltar para a calçada por esperar algum tipo de hostilidade do motorista apenas por ser 'o tipo de homem que seria hostil com um homossexual na rua se aproveitando da segurança e velocidade de seu carro', não é nada sábio, é imbecil.
Por que eu espero ser tratado assim por outro ser humano, por que eu aceito que ele possa se permitir me tratar assim, e por que eu me retiro de seu caminho ANTES de tudo acontecer? Perguntas profundamente pessoais e com um 'Q' psicológico para serem abordadas neste texto mais objetivo.
Vivemos na sociedade da navalha de Occam*, onde a solução mais simples é a verdadeira. Se ouvimos um relincho atrás de nós, obviamente será um cavalo, nunca uma zebra, muito menos um unicórnio.
Voltando ao mundo utópico de super heróis urbanos descrito por Raquel, se ele de fato existisse HOJE, em nossa realidade, a famosa pergunta "É um pássaro? Não, é um avião! Não! É o superman!"... Teria terminado lamentavelmente no "É um pássaro (PONTO FINAL)".
Uma das esfinges que precisamos encarar com mais regularidade, para fugir dessas 'grandes verdades' sem ‘aplicação prática na realidade’ que não mudam ABSOLUTAMENTE nada, e nos são vendidas como 'vingança social heroica', é nos despirmos de algumas mentiras, principalmente as muito mais inacreditáveis do que nossas verdades/realidades inadmissíveis.


*A navalha de Occam é uma linha de pensamento que diz que a resposta mais simples costuma ser a certa.



19 de setembro de 2013

Quando.

João Carlos Gallazzini e Lucky ♥


"Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar 
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta.
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta."

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do mar (1947)



Que mundo vivemos onde numa tarde ao ler o nome de uma pessoa querida no local mais impossível onde este nome deveria estar, nossa realidade toda se transforma. O passado por mais inquietante e dolorido que seja se torna nosso único abrigo, onde podemos revisitar lembranças em nossos momentos mais pessoais. Continuarei sempre revisitando meu querido João, o pai do Lucky, um homem lindo em todos os sentidos, revisitarei a vergonha que senti de conhecê-lo sabendo que minha amiga havia fanfarronamente contado para ele (seu pai) que eu o achava uma graça, revisitarei as ligações dele na rádio dedicando a ela (a filha) músicas dos beatles, em especial Penny Lane. Estarei revisitando continuamente este homem que eu tanto invejava, era o pai da moça que eu gostaria de ter como filha, era o marido da melhor doceira de toda a região e tinha um dos melhores gostos musicais do mundo. Que Perséfone te receba com sua doçura, que essa despedida seja alegre e que todos possamos nos reencontrar.








21 de julho de 2013

Frágil




Era a fragilidade do mundo que lhe atraia, a forma como as coisas deixavam de ser o que eram num piscar de olhos. Contemplava a fragilidade como quem espera o romper de uma bolha de sabão no denso ar, ‘ploc’ e fim. Desde pequeno perdia-se nas fragilidades alheias, era o que mais lhe atraía nas pessoas ao seu redor, a maneira como todas eram frágeis de alguma forma, e como todas escondiam isso. Acabou tornando-se perito em rastreá-las, decodificá-las e trazê-las a tona para seu prazer solitário. Apaixonava-se pelo que era frágil. 





14 de maio de 2013

Casamento Igualitário Aprovado no Brasil


25 DE ABRIL

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"


Sophia de Mello Breyner Andresen

Brasil, 14 de Maio de 2013. 




14 de abril de 2013

Well, well, well, Gabriel... ♪

Gabriel :3


"Era uma vez um menino que só comia frutas e salvava os animais e fim..."

"Era um bom dia na floresta, o dinossauro estava triste, aí um bichinho falou "porque esta tão triste?" e o dinossauro falou "eu sou muito grande, não posso jogar bola no campo, não vou ganhar", daí o bichinho falou "e daí? o importante é participar!" e fim..."

Esses dois excertos pertencem ao meu sobrinho de apenas sete aninhos de idade, com o lançamento do livro se aproximando, livros tem sido um assunto constante aqui em casa, e ele decidiu entrar na onde e além de apenas ler e ouvir as inúmeras historinhas que contamos, está começando a escrever as suas próprias, para meu orgulho, essa fofura será sempre meu "era uma vez".




9 de abril de 2013

Leak #01

Ilustração: Débora Gallazzini




Neste momento em que me encontro em tão rara e branda racionalidade, com um bom tanto de passividade, decidi tentar (me) entender.
É tombo de moto, Feliciano, ex, hipocrisia, excesso, tanta coisa misturada, minha visão quase sempre passional e exagerada da vida, cheia de extremos, pontos finais, decisões e reminiscências, é tanto um pouco de tudo que me perco facilmente na diária tarefa de existir.
Comecei o ano de 2013 cheio de pontos finais, o que na teoria me possibilitariam um (re)começo brilhante; óbvio que desde que o universo se estabeleceu novos começos existem e não dependem de pontos finais para isso, mas creio que o caos possui um elemento criador e recriador inigualável. Existam tantos aspectos em mim que devem ser trabalhados com mais cuidado, minha hipocrisia em relação a alguns acontecimentos da minha vida, o perdão interno que nunca chega, aquela sensação de dono do próprio nariz que demora a aparecer, o fato de gostar do próprio nariz também tarda, um acumulo de restos, de sobras, excessos, e no meio disso, enquanto me sinto o Cumbre Vieja prestes a entrar em erupção, aquela antiga questão surge, alta como sempre, incerta como o todo: aquilo que esta me sobrando falta em alguém, mas o que me falta será de quem?




10 de março de 2013

A Macaca Catarina




"A macaca Catarina" 
Décio Bittencourt

Trabalhou na enxada a vida inteira
Sem médico, sem padre, sem escola,
No final de uma existência de canseira
A recompensa foi pedir esmola.

De tanto ficar vazia pedindo, pedindo,
Pedindo, pedindo, pedindo, 
Surtou o surto da revolução 
E veio a lei, ora a lei, 
Ninguém chorou, eu chorei.

Morreu a macaca! Catarina* morreu
Todo mundo chorou... Menos eu!

O tuberculoso que escreve cuspindo
Um poema vermelho na página fria
Do cimento da calçada, 
Tem duas mãos fechadas la dentro do peito, 
Lei sem dinheiro não é lei.
No cubículo o tuberculoso aguarda a 
Hemofilia fatal. 

Não há vagas, não há vagas, não há vagas
Não há vagas, não há leito, não há leito,
E ele tem as duas mãos fechadas lá dentro do peito.
Lei sem dinheiro não é lei, 
Ninguém chorou, eu chorei. 

Morreu a macaca! Catarina morreu
Todo mundo chorou... Menos eu!

O operário, a máquina comeu inteirinho
O operário virou picadinho sepulto no ferro
O pistão da máquina parece um punho fechado, 
Que vai, que vem, que vai, que vem, que vai...
Cadê o operário que estava aqui? 
A máquina comeu.

E o patrão que eu não vi?
Saiu de Cadillac, 
Foi a boate e não deve ser amolado.
Alô, o que houve? A máquina comeu 
o operário que estava na liga.
O operário tem seguro de vida?
Eu sei, eu sei, eu sei...
Ninguém chorou, eu chorei.


Morreu a macaca! Catarina morreu
Todo mundo chorou... Menos eu!

Sabe quem morreu também?
A Amélia... açougueira...
Vendia a carne que Deus lhe deu!
Doença de rua!
Inveja a Amélia tinha da cachorrinha da D. Dedé,
Perfumada, comendo bolo, lambendo café!
A Fifi, quando morreu,
Cadelinha de estimação que era, teve até túmulo
no cemitério do Ibirapuera!
Amélia nada. Morreu ali na enxurrada!
A Fifi teve uma cruz quase Calvário.
Um anjo de asa!
A Amélia? Cova rasa!
Entendeu?
Ninguém chorou?
Chorei eu!

Morreu a macaca! Catarina morreu.
Todo mundo chorou... Menos eu!

O mendigo morreu de fome e de frio, 
O mendigo vivia a esmo, 
O único próximo de si mesmo, 
Seu cobertor de duas orelhas era uma cadela de rua
O mendigo morreu de fome e de frio, 
O cobertor estava no cio.
Quando o despertador de pardais 
tocou bem cedo para acordá-lo
Lá no Rio de Janeiro, o mendigo não acordou mais.

A Macaca Catarina cataplasma veterinária 
No braço e na perna, no rabo!
Burguesia vá pro Diabo!



*A macaca Catarina foi o animal mais querido do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro nos anos 40 e 50. Quando ela adoeceu, boletins informavam pelo rádio e jornais a evolução da doença, prognósticos e tratamento até a sua morte. A morte da macaca Catarina foi motivo de grande comoção nacional.







9 de março de 2013

Em branco.




"O toque do nada tudo esvazia..."
A História Sem Fim, Michael Ende.



Decifrar as pessoas era apenas uma habilidade vital que adquirira, advinda de sua quase insana vontade de viver um grande amor.
Via a todos como equações matemáticas simples, essas de primeiro grau, onde o positivo se torna negativo depois do sinal, onde as confusões são controladas com apenas uma rápida olhadela, com destreza ele as somava, subtraia e dividia, enquanto isso elas (as pessoas de sua vida) multiplicavam-se sozinhas em sua realidade.
Por essa vontade de ao menos entender algumas delas, precipitava-se na paixão e algumas vezes no amor, ambos breves demais sem muitos sinais a serem conjugados.
O homem grisalho foi breve também, breve demais.
Homem é uma palavra um tanto exagerada, era apenas um menino, um garoto grisalho, partilhavam da mesma idade, da mesma safra, a única diferença entre ambos eram os cabelos grisalhos do outro.
Um tipo de maturidade física prematura talvez, não sabia explicar ao certo mas o outro era completamente grisalho e isso o atraía, lhe dava uma espécie de segurança edípica nada doentia.
Sentia-se desde sempre estranhamente atraído pela humanidade das pessoas, esta humanidade era sempre representada por algum atributo físico que as distanciavam do padrão industrial de beleza, pintas, pelos, cicatrizes, altura demais ou de menos, peso demais ou de menos, covas, até mesmo a precária habilidade de enxergar enaltecida por um óculos de grau lhe despertavam o interesse em qualquer indivíduo, qualquer coisa que o tornasse mais acessível/aceitável a seu padrão de humanidade também.
O homem grisalho conseguia preencher a todas as suas expectativas com os espaços em branco percorrendo todo o seu corpo, pelos, barba, cabelos, o grisalho era um grande hiato onde ele sonhava em se estabelecer, pelo momento em que este hiato perdurasse.
Mas durou pouco como já mencionei, acontece que em apenas alguns dias depois do grisalho ter-se ido, olhando-se no espelho, percebeu um fio de barba branca em seu rosto, próximo a boca.
Não havia notado antes e nem esperava por isso na juventude que degustava ainda aos poucos, seu primeiro fio branco, seu atestado de envelhecimento, de envolvimento.
O grisalho partira e lhe deixara isso, um espaço em branco perto de seus lábios.
Talvez este fio já existisse bem antes do grisalho e pelo negrume dos outros fios acabou sendo confundido com um brilho, apenas um relance na luz.
Retirou-o com os dedos, uma leve beliscada, uma dor tão breve quanto tudo que já havia se encaminhado, "nascerão três no lugar deste" teria lhe dito sua mãe, segundo ela, em breve ele inteiro estaria coberto por estes espaços em branco também, num efeito acumulativo infinito, logo ficaria devendo espaços em branco ao universo que lhe cercava.
"Arrancarei todos" disse a si mesmo deixando o transparente fio cair sobre a enxurrada da pia.
Não mais de uma semana, la estava, não três mas o mesmo, no mesmo lugar, o fio branco perto dos lábios...
Defronte ao espelho naquele momento, decifrou a si mesmo. 
O vazio deixado pelo grisalho, que tão carinhosamente apelidara de espaço em branco, não poderia ser extinto, apenas preenchido.
Eis a questão: com o que?





19 de fevereiro de 2013

Os Príncipes do meu Reino: Olavo Bilac.

Olavo Bilac



Maldição

Se por vinte anos, nesta furna escura, 
Deixei dormir a minha maldição, 
- Hoje, velha e cansada da amargura, 
Minh'alma se abrirá como um vulcão. 

E, em torrentes de cólera e loucura, 
Sobre a tua cabeça ferverão 
Vinte anos de silêncio e de tortura, 
Vinte anos de agonia e solidão... 

Maldita sejas pelo Ideal perdido! 
Pelo mal que fizeste sem querer! 
Pelo amor que morreu sem ter nascido! 

Pelas horas vividas sem prazer! 
Pela tristeza do que eu tenho sido! 
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!... 

Olavo Bilac, in "Poesias"



Da série "Príncipes do meu Reino", homens encantadores e maravilhosos cujo talento literário eu admiro, hoje, Olavo Bilac, sagitariano, passional, jornalista e poeta, nasceu no Rio de Janeiro, membro fundador da Academia Brasileira de Letras, foi jornalista, poeta, frequentador de rodas de boêmias e literárias do Rio. Deixou de nos brindar com sua beleza física e transcendental em 1918. Não posso ainda definir em palavras o quanto este soneto me defende e me vinga, espero que gostem e procurem ler mais coisas dele.





9 de fevereiro de 2013

Adeus à carne.





"Não há último adeus, senão aquele que se não diz."
Alexandre Dumas



Adeus à carne, em especial a sua, que durante breves e estigmatizados momentos esteve entre meus dedos, lábios e que depois disso, talvez (ainda) esteja em minha memória cognitiva, o tato, o sabor, o não-vem-ao-caso, etc.
Adeus à nossa não-história, cujo final imponho a mim mesmo agora, cujo meio ainda não decifrei e o começo, rebento como todo começo é, não resistiu aos nossos tão raros (des)cuidados. 
Adeus a mim também, o ser que fui, algo construído de fantasias futuras e de um 'eu idealizado' e adiantado para você. 
Adeus às respostas que calaram e as perguntas que finalmente cessaram, dando lugar a uma conformidade pesada, abafada como a atmosfera que precede a tormenta, adeus ao meu tormento que deságua agora.  Adeus à seca, ao silêncio, a ausência proposital, a ausência esperançosa cheia de um 'querer fazer-se presente' por detrás de cada falso não falar contigo, cada vírgula e contexto, cada grito nas entrelinhas, cada silêncio escandaloso demais para ser verdadeiro. 
Adeus à minha infantilidade e ao meu eu-lírico, que ainda acreditava nisso, em nós, em você e principalmente em mim, acreditava que eu conseguiria lidar e organizar diariamente este caos do sabe-se-lá-deus-quando.
Atesto aqui a minha total incapacidade, inaptidão e incompetência em lidar com você.
Eu o desejei por tanto tempo, em desenhos rabiscados, em letras de músicas cantadas a longos tragos, e plenas de sentido naquela ocasião, e agora digo adeus à todas elas, aos sentidos, aos filmes, ao apelido, a metáfora que fomos um para o outro.
Uma parte de mim que cisma em remanescer, ainda se pergunta o quão intenso realmente foi nosso contato, que por mais breve que tenha sido nos encheu em uma única lufada de tanta esperança...
Permanece ainda aquele gostinho de missão não cumprida, mas eu sei que ele também no devido tempo desaparecerá, como nós dois, que o antecedemos na distância da jaculação amorosa. 
Adeus ao não-era-para-ter-sido, adeus ao não-foi-como-eu-esperava.
Adeus ao nosso não saber continuar.
Adeus a nossa parada brusca.
Adeus ao sonho, ao contato, ao tanger em algo aparentemente sólido, coisa tão rara num mundo fluídico de onde fugimos (um para dentro do outro) e para onde retornamos agora, o mundo etéreo que nos recebe de volta, acolhedor em toda sua inconstância.
Adeus ao que somos agora, incompletos, órfãos, errantes, rebentos, mas principalmente, adeus ao que nunca chegamos a ser.
Adeus a lição que nos ensinamos.
Adeus.






15 de janeiro de 2013

Só pra recordar...





"Para cada mal sob o sol 
existe um remédio 
ou não existe nenhum.
Se existir um para o seu 
procure até encontrá-lo.
Se acaso não existir 
isso não deve preocupá-lo."

Mamãe Gansa




6 de janeiro de 2013

O Buraco.




1.
Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio... É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5.
Ando por outra rua.


Texto extraído de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche (Ed. Talento/Palas Athena)



Apenas.




23 de dezembro de 2012

“O queijo e os vermes” ou “Ode ao meu egocentrismo, ao que não cabe na dispensa, a penteadeira, a este ano de merda, aos Guaranis Kaiowá, a este fim de mundo interno e ao caralho”.




Sonhos maus não me acordem, forças malignas não me abordem.
Hino para a noite.



Quatro noites atrás fui visitado pelo mais aterrador e realista pesadelo que já vivenciei. Nas brumas do sonho, Morfeu me revelou uma versão de mim mesmo, em terceira pessoa, esta versão que via estava viva e debatendo-se angustiada contra milhares de vermes que lhe cobriam o corpo nu, num esforço inútil de limpar-se daquilo que a consumia.
Acordei atordoado, tomei dois banhos demorados, seguidos por longas contemplações no espelho, vasculhando meu corpo, procurando qualquer sinal aterrador de que havia uma verdade oculta naquele sonho, meu corpo pelo contrário, não demonstrava o menor sinal de ter sido coberto por vermes no meio da noite e a racionalidade aos poucos me acalmou, sonhos são distúrbios químicos irrelevantes, afinal não há vermes, não há sujeira, nada esta me cobrindo e me enterrando vivo da maneira menos cristã possível. 
Mas a quietude que se seguiu do sonho foi apenas o prelúdio da tempestade, não a calmaria da bonança.
Os momentos de solidão que tenho me permitido tem se apresentado ambíguos, entre os benefícios e os malefícios que me trazem.  Analisando-me involuntariamente na terceira pessoa, como a perspectiva do sonho, me vejo cercado de uma realidade quase artificial.
Vejo um homem poluído, emparedado, sufocado por vermes metafóricos e invisíveis.
No ano que se passou, incontáveis mudanças se apresentaram a minha frente, se estabelecendo diante da minha vontade pré estabelecida. Nada demais realmente, isso acontece todos os anos na vida de todos os homens.  
Fui vitima de febres amorosas, infecciosas, que num dia chuvoso peguei sem querer, mas ao contrário dos outros tipos de febres essas febres com nome e sobrenome, se curaram de mim primeiro do que eu delas e partiram, prontas para infeccionar e elevar as temperaturas de outros corpos sem nome. Já eu fiquei com resquícios, efeitos colaterais, tentando me curar delas, uma depois das outras, e não estou ainda gozando da plena saúde física e mental depois delas.
O fato de ter sido atravessado por homens no decorrer deste ano como se fosse feito d’água me mostra apenas a minha fluvialidade, mostra que não estou solido o suficiente para impedir ou mesmo interromper um impacto. Eles sim estão sólidos e rijos em suas definições e crenças de como “não amar”, eles poderiam deter qualquer impacto ou tentativa de contato de um ser tão liquido quanto eu. O que me força a absorvê-los, para depois expeli-los tão intactos quanto antes, já eu, num milésimo de segundo do contato, jamais volto a ser o mesmo. Nunca mais.
Tornei-me com o passar dos anos, uma espécie de cão de guarda de mim mesmo, antecipo todas as ações e os perigos que possam vir a ocorrer e me protejo (de mim mesmo muitas vezes) de formas até violentas algumas vezes.  Se minha vida fosse um conto de fadas, eu seria a ponte, a floresta de espinhos, o dragão e a torre, o resto seria acaso e escolha do narrador. 
Afasto os perigos, mesmo os ilusórios, os que entram no meu reino atravessaram mais de cem esfinges que os questionaram o tempo todo... E quando eles decidem sair, algumas vezes escorraçados, as esfinges destronadas e decifradas erguem novamente suas cabeças como se jamais tivessem desejado em suas vidas questionar qualquer um deles, e o seu orgulho leonino os engana, e todos eles acreditam e sentem pena delas, já elas com suas cabeças erguidas miram o horizonte esperando em seu interior o próximo viajante para destroná-las/decifrá-las.
O amor acontece no meio dessa minha incerteza do que sou, nessa liquidez que me define onde todos enxergam uma solidez tão grande que me assusta. Dizem que tenho opiniões formadas, que busco algo mais sério e mais adulto do que pode qualquer ser humano me oferecer, dizem que não podem me iludir e  então atravessam-me... 
O mundo esta louco, minhas histórias de amor se resumem a uma pedra que vira para a água e diz que não pode lidar com sua solidez, e a atravessa, e a água começa a se sentir mais sólida do que a pedra, e pensa que jamais será atravessada de novo, nisso a água continua sendo atravessada constantemente julgando-se solida e a pedra continua atravessando tudo julgando-se liquida.  
A sempre um presságio de perigo e infortúnio no caminho, mesmo quando a felicidade se abate sobre mim tão forte quanto a desilusão, é sempre uma felicidade pouco creditada, como se fosse um engano do destino, como se fosse apenas um defeito.
Estou cada dia mais sendo obrigado a lidar comigo mesmo neste mergulho obrigatório na minha zona abissal, percebo-me agora no final do ano um ser descontrolado.
Me limpo excessivamente e me sinto sujo, fumo até a garganta pigarrear, então me banho, faço inalação e volto a fumar, os números da balança aumentam numa contagem progressiva que adiantam meu fim, “são as festividades!” digo pra mim mesmo, a saúde se esconde, sinto-me prestes a defrontar uma grande enfermidade que não sei qual é e esta palavra me leva novamente as febres e aos vermes.
Duas noites atrás fui visitado novamente por Morfeu, em outro sonho aterrador, estes vem se tornando cada vez mais freqüentes, ele me apresentava em terceira pessoa, no escuro completo, mas era apenas a casca que tinha a minha forma, o ser que me habitava era outro, estranho, maligno, demoníaco, espreitando nas sombras, rastejando como um animal, e eu assistia isso de fora e ao mesmo tempo de dentro pelas janelas dos olhos, preso em mim e possuído por uma força que não sabia e ainda não sei identificar.
Um dia antes do fim do décimo terceiro Baktun do Calendário Maia, consultei um oráculo para saber o que o final desta era me reservava e das setenta e oito cartas, “O Juizo Final” surgiu, informando o período difícil de grandes decisões que se aproximava nestas férias nada relaxantes, afinal, não se pode tirar férias de si.
Os sonhos, os espíritos, todos conspiram para uma grande mudança na minha vida e já nem sei se estou tão interessado nela, na mudança.
Os vermes, a força que me possuía, a carta do Juízo Final, as férias, as festividades, os homens que passaram, as esfinges dentro da minha cabeça consultando seus vernáculos, as esfinges dentro do meu coração colocando galhos de freixo sob o travesseiro na tentativa de trazer-me um sonho de amor no meio de tantos pesadelos. O armário abarrotado de presentes endereçados a pessoas estranhas, a casca agindo socialmente preocupando-se com a vida de outras pessoas numa tentativa falha de fugir da realidade interior, o mundo exterior que me desconhece completamente, o corpo inchando-se, negando-se... Uma guerra interior e pessoal com aquilo que me persegue trezentos e sessenta e cinco dias por ano e promete continuar me perseguindo neste novo ciclo que começa dia primeiro: eu, dizendo a mim mesmo "decifra-me ou devoro-te".





Realidade: talvez eu esteja constantemente me sentindo rejeitado e me protegendo de uma rejeição futura apenas para lembrar a mim mesmo da minha humana insignificância, tenho uma grande missão nesta vida: me diminuir em todos os sentidos.

Epílogo: Minha mãe com seus sentidos de feiticeira previu a tempestade que se formava dentro de mim e abriu um vinho, talvez demônios e vermes morram afogados, quem sabe, talvez eu esteja tentando me limpar de resquícios invisíveis com o líquido errado...


P.s. Os pontos em itálico são apenas verborragias, cacofonias e distorções, mas foi impossível calar a gritaria com que castiguei o papel.





14 de dezembro de 2012

Prece ao ano que finda.




"Para o acaso, 
de aqueles que pela vontade de acreditar no que querem, 
me procurem, que jamais me encontrem.
E que, no acaso da minha inocência ao contrário deles
querer acreditar, simplesmente assim,  por ainda querer, 
Que por aquilo/aquele que tão docemente num futuro me será apresentado,
que eu jamais seja encontrado."

Amem.





Tous les garçons.




E senti na garganta o nó górdio de todos os amores 
que puderam ter sido e que não foram.

Gabriel García Marquez


O que existe de tão fascinante no amor representado pelo simulacro? Sim, porque o amor, amor mesmo, dos amados, nos é ainda muito estranho. Não chegamos a arranhar sua etérea superfície com o ensaiar de um toque. O amor nos é cantado mas não esta la também, pois nas musicas existem sempre dois personagens pré definidos, o que ama e o que não, a vítima e o carrasco, o que fica e o que vai.
Compramos tal ideia sem correlacioná-la com a realidade que nos é apresentada todo dia.
O que ama apenas ama o amor e não o outro, o que fica o faz por falta de opção e não por escolha, até o inferno chega a ser convidativo para aquele que nada tem.
Já o que não ama nunca amou, o que se foi nunca esteve, portanto na realidade não existe um desamor, não existe partida, ele próprio jamais existirá, até que ame, até que fique e um outro se parta.
Não se pode explicar e também não se pode não entender. Eis o que nos resta.
Não somos o que somos, somos apenas o que nos restou.
O que decidiu não nos “não amar”, o que não partiu. 







25 de novembro de 2012

A última vela.





“Somente um amor incompleto pode ser romântico...”
Woody Allen


Contaram-me uma vez, que em certo lugar do mundo numa época talvez distante, talvez ontem, não me recordo, vivia sozinho um infante dentro de um castelo.
O castelo em questão não tinha portas nem janelas, o rapaz era tudo que nele remanescia, era a sobra de uma longa linhagem real que fora interrompida em si mesmo. 
Não sei do que se trata essa história, se foi algum tipo de malefício que o deixou naquela condição, ou se foi apenas culpa, mas ele estava emparedado naquele casarão a muitos anos... Bem, sei que era filho único e ao descobrir-se apaixonado por um outro jovem, decidiu não consumar seu casamento com a princesa sua noiva, esta era de outro reino, de sua mesma e indefinida época, e o real compromisso havia sido firmado antes mesmo dele nascer pelos monarcas seus pais. 
Foram dias negros para o reino e sua corte, esta desfez-se quase que imediatamente, logo não havia general, não haviam pajens, cavaleiros ou mesmo súditos naquela região.  O tal rapagão que roubara a afeição do príncipe foi enforcado, antes mesmo que pudesse esclarecer que não nutria o mesmo sentimento, sequer havia trocado duas palavras com vossa alteza e já era enamorado de uma donzela que vivia na floresta. Nem mesmo o príncipe o pode salvar, explicando que como em quase todos os casos de amor, havia se apaixonado sozinho e que o pobre condenado em nada havia contribuído com isso, exceto pelo fato de ter nascido. Acontecera. 
E então aquelas terras foram amaldiçoadas, ao menos é o que diziam os mascastes e viajantes, todos persignavam-se caso precisassem cruzar um único passo para dentro de sua fronteira maligna. Logo, só restara o rei, a rainha, o príncipe e a maldição ou culpa que aos poucos se apossava do lugar, preenchendo os cômodos vazios do palácio...
O rei e a rainha tentaram desesperadamente ter outro filho, até mesmo uma filha com um coração mais sensato seria bem vinda naquele momento para abrandar o mal olhado que o primogênito lançara na família inteira. 
Em uma de suas tortuosas tentativas, a rainha que já não era mais tão jovem, obteve sucesso, porém toda a luz da esperança extinguisse rapidamente, quando o filho ainda não nascido e a rainha pereceram na ultima noite do inverno mais rigoroso que eles viveram juntos, ainda como família.
E depois disso o rei desapareceu... Óbvio demais, eu sei, mas o que mais me intriga nessa história é que as portas, janelas, mobília, tudo decidiu acompanhá-lo. As paredes rapidamente fecharam as máculas deixadas pelas fendas das janelas e batentes que agora estavam ausentes, preenchendo-se de mais paredes, apenas o necessário para manter o teto sob suas cabeças. O castelo tornou-se praticamente maciço por fora e vazio por dentro, havia paredes, paredes, teto, príncipe e apenas uma vela. 
A vela foi tudo o que ficou, talvez em sua mente de vela, tenha decidido ficar pelo mesmo motivo que as portas e janelas decidiram partir, talvez não tivesse tido tempo de sair junto com as outras velas antes que as paredes tivessem se fechado para manter o castelo estruturado e em pé, de qualquer forma, em sua simplicidade de objeto despretensioso, já que ali ficara, decidiu então iluminar. Iluminar o vazio escuro do castelo, e sendo ela a única vela, decidiu sozinha jamais se extinguir. 
Assim ela iluminou o príncipe por muitos anos, tantos quantos se podem contar dentro de quatro paredes, ou talvez apenas por alguns breves minutos, não se sabe ao certo, o passar do tempo, o arrastar das horas ainda é um mistério dentro de uma casa sem janelas onde vive um único morador sem futuro...



(Continua)





16 de outubro de 2012

Sobre os fins, os meios e os começos.




"Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém."

Sete Sonetos e um Quarto – Manuel Alegre, 2005.



O mais estranho de escrever sobre o fim é começar a escrever sobre o fim, ainda mais depois de um certo tempo desde que o fim se estabeleceu. Escrever sobre o fim se torna quase um ato de recomeço, também não deixa de ser um novo começo, ou mesmo uma continuação do que ficou em branco, em silêncio, tudo depois do (inevitável?) fim.
Se os fins justificam os meios, os meios justificam o começo. Antes do meu fim o meio estava até que agradável, vindo de um começo brilhante, com doses cavalares de destino, maturidade, sinceridade, leões imaginários sendo mortos um de cada vez. Então o fim. Abrupto, até mesmo a frase que começou o meu fim é finita “Não existe maneira fácil de fazer isso.”, por mais brincadeiras e trejeitos que o finalizador evocou no momento, o fim é um fim e não mais um meio, muito menos um começo.
A expressão facial (literalmente) que mais se encaixa no meu fim seria o "Ecce Homo" do Elías García Martínez (que fica no santuário espanhol de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja, Zaragoza, Espanha) e que recentemente foi magistralmente ~n~ restaurado pela querida senhorinha Cecilia Giméne. 
O fim agora visto como um recomeço pode também ser encarado como uma restauração, ainda que mal feita e precária, muda a imagem original que no caso era a serenidade do meio, deixando em seu lugar o rosto pasmo e disforme da perplexidade de um fim .
O som do fim não é uma explosão por mais surpresa que ele cause, o fim é o silêncio, a ausência, o abismo.
Seres humanos que somos temos quase que uma vocação biológica para preencher o vazio todo o tempo, e como lidar com o final que nos impõe o vazio, se não o preenchendo?
E nós o preenchemos com o que temos a mão: dúvida, raiva, vingança, compreensão, perdão... Mas acima de tudo nos preenchemos com a análise. Sim, porque basta um fim para que todos os fins voltem a pauta e nos façam questionar onde foi que os meios tornaram-se fins. Vasculhamos com os olhos duvidosos da memória todos os fins, procuramos sintomas, presságios, sinais em plantações, posições estelares, qualquer Nostradamus que pudesse ter nos avisado antes e assim nos preparado. Mas nenhum meio consegue nos preparar para o fim, por mais evidente que este possa ser.
Depois da análise vem a anarquia. Não lidamos muito bem com o imutável que nos mudou completamente, deixamos de ser algo que jamais seremos novamente e passamos a ser outra coisa, ainda nova, indefinida e desconhecida. A fase da anarquia é quase toda preenchida de inconformidade. Odiamos, destruímos, jogamos fora fotos, presentes, futuros não existentes, não suportamos muito, quebramos os templos, destronamos os reis e queimamos os ídolos que antes eram adorados em nossa, agora antiga, realidade.
Culpamos o finalizador, culpamos os deuses, o destino, a nós mesmos. 
Nos enchemos de raiva, de músicas, de poemas, de traduções de uma dor tão intima que como a ferroada de uma abelha, persiste, pulsa. Tudo o que o finalizador fizer, qualquer movimento numa tentativa de se aproximar ou de se afastar, ou mesmo de se recomeçar sozinho em sua nova realidade, machucará, muito. Visto que não sabemos o que nos tornamos depois do fim, como imaginar ou lidar com o que quem nos finalizou é agora? Remédio? Distância: deixa o silêncio do fim ecoar livremente, sem tanta dor, sem reverberação.
Depois de nos preenchermos com tudo ao nosso alcance, escaparmos do ferrão do contato com o finalizador, deixarmos a distância ecoar o silêncio do fim, enfim, nos enchemos.
E começa então o processo inverso, o esvaziamento.
Nos esvaziamos da culpa, própria e alheia, nos esvaziamos dos poemas, das sensações, das montanhas russas, da indefinição, esse esvaziamento é o expirar da dor, toda a dor da inspiração da nova realidade é agora expurgada numa lufada só.
Então voltamos ao vazio, ao silêncio, mas é o vazio aveludado, o silêncio harmonioso, nada mais soa como um fim, tudo é um recomeço, tudo pede para ser reordenado, somos uma prateleira vazia pedindo por novos livros com novas histórias, novos enfeites adquiridos em novas viagens, novos porta retratos, recheados de novos contatos, tudo em nós pede o novo, e é isso que permite que recomecemos, que possamos falar sobre o fim como estou fazendo agora sem se deixar esbarrar em nenhum final, como um rio mágico que só desemboca em novos começos, um rio que contorna pedras e se levanta de quedas... E quanto ao finalizador, este é esvaziado também, já não é sequer o finalizador, foi esvaziado de todos os adjetivos, os bons e os maus, não o odiamos, nem tão pouco o amamos, não o agradecemos, não o perdoamos, não o culpamos e já não clamamos por uma vingança sobre este ser também agora, recomeçado. Não existe mais perdão, não existe mais vingança, o esquecimento é nosso único perdão, o esquecimento é a nossa única vingança. 


"E por fim se esqueceram sem dor…"
O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel Garcia Marquez.






Epílogo:
O coração volta a bater noventa vezes por segundo, 
a princípio por si, por outro só mais pra frente, quem sabe? 
Então o tempo torna-se nosso  sol, nosso marte e nos guia, 
e num belo dia transforma isso tudo em nada. 
O nada tudo esvazia.




26 de setembro de 2012

Demônio


"Quando se dança com o Diabo, é ele quem conduz."
Ditado Indiano



Diabo, Demo, Demônio, Que-Diga, Capiroto, Satanás, Satã, Satanazim, Cujo, Tinhoso, Maligno, Tal, Arrenegado, Cão, Cramunhão, O Indivíduo, O Galhardo, O pé-de-pato, O SUjo, O Homem, O Tisnado, O Temba, Leviatã, Belial, Baal, Belzebu, Asmodeus, Samael, Lúcifer, Incubus, O Coxo, O Azarape, O coisa-ruim, O Marrafo, O Pé-preto, O Canho, O Dubá-dubá, O Rapaz, O Tristonho, O Não-sei-que-diga, O Que-nunca-se-ri, Pai do Mal, Príncipe das Trevas, Carfano, Rabudo, Quem que não existe, O Solto-Ele, O Ele, que as vezes é ele, que as vezes é eu, ele em mim, eu nele, ele em relação a mim, eu em relação a ele, o mal, o bem, Deus sabe quem, somos dois seres precipitados, caídos, um para dentro do outro.