23 de dezembro de 2012

“O queijo e os vermes” ou “Ode ao meu egocentrismo, ao que não cabe na dispensa, a penteadeira, a este ano de merda, aos Guaranis Kaiowá, a este fim de mundo interno e ao caralho”.




Sonhos maus não me acordem, forças malignas não me abordem.
Hino para a noite.



Quatro noites atrás fui visitado pelo mais aterrador e realista pesadelo que já vivenciei. Nas brumas do sonho, Morfeu me revelou uma versão de mim mesmo, em terceira pessoa, esta versão que via estava viva e debatendo-se angustiada contra milhares de vermes que lhe cobriam o corpo nu, num esforço inútil de limpar-se daquilo que a consumia.
Acordei atordoado, tomei dois banhos demorados, seguidos por longas contemplações no espelho, vasculhando meu corpo, procurando qualquer sinal aterrador de que havia uma verdade oculta naquele sonho, meu corpo pelo contrário, não demonstrava o menor sinal de ter sido coberto por vermes no meio da noite e a racionalidade aos poucos me acalmou, sonhos são distúrbios químicos irrelevantes, afinal não há vermes, não há sujeira, nada esta me cobrindo e me enterrando vivo da maneira menos cristã possível. 
Mas a quietude que se seguiu do sonho foi apenas o prelúdio da tempestade, não a calmaria da bonança.
Os momentos de solidão que tenho me permitido tem se apresentado ambíguos, entre os benefícios e os malefícios que me trazem.  Analisando-me involuntariamente na terceira pessoa, como a perspectiva do sonho, me vejo cercado de uma realidade quase artificial.
Vejo um homem poluído, emparedado, sufocado por vermes metafóricos e invisíveis.
No ano que se passou, incontáveis mudanças se apresentaram a minha frente, se estabelecendo diante da minha vontade pré estabelecida. Nada demais realmente, isso acontece todos os anos na vida de todos os homens.  
Fui vitima de febres amorosas, infecciosas, que num dia chuvoso peguei sem querer, mas ao contrário dos outros tipos de febres essas febres com nome e sobrenome, se curaram de mim primeiro do que eu delas e partiram, prontas para infeccionar e elevar as temperaturas de outros corpos sem nome. Já eu fiquei com resquícios, efeitos colaterais, tentando me curar delas, uma depois das outras, e não estou ainda gozando da plena saúde física e mental depois delas.
O fato de ter sido atravessado por homens no decorrer deste ano como se fosse feito d’água me mostra apenas a minha fluvialidade, mostra que não estou solido o suficiente para impedir ou mesmo interromper um impacto. Eles sim estão sólidos e rijos em suas definições e crenças de como “não amar”, eles poderiam deter qualquer impacto ou tentativa de contato de um ser tão liquido quanto eu. O que me força a absorvê-los, para depois expeli-los tão intactos quanto antes, já eu, num milésimo de segundo do contato, jamais volto a ser o mesmo. Nunca mais.
Tornei-me com o passar dos anos, uma espécie de cão de guarda de mim mesmo, antecipo todas as ações e os perigos que possam vir a ocorrer e me protejo (de mim mesmo muitas vezes) de formas até violentas algumas vezes.  Se minha vida fosse um conto de fadas, eu seria a ponte, a floresta de espinhos, o dragão e a torre, o resto seria acaso e escolha do narrador. 
Afasto os perigos, mesmo os ilusórios, os que entram no meu reino atravessaram mais de cem esfinges que os questionaram o tempo todo... E quando eles decidem sair, algumas vezes escorraçados, as esfinges destronadas e decifradas erguem novamente suas cabeças como se jamais tivessem desejado em suas vidas questionar qualquer um deles, e o seu orgulho leonino os engana, e todos eles acreditam e sentem pena delas, já elas com suas cabeças erguidas miram o horizonte esperando em seu interior o próximo viajante para destroná-las/decifrá-las.
O amor acontece no meio dessa minha incerteza do que sou, nessa liquidez que me define onde todos enxergam uma solidez tão grande que me assusta. Dizem que tenho opiniões formadas, que busco algo mais sério e mais adulto do que pode qualquer ser humano me oferecer, dizem que não podem me iludir e  então atravessam-me... 
O mundo esta louco, minhas histórias de amor se resumem a uma pedra que vira para a água e diz que não pode lidar com sua solidez, e a atravessa, e a água começa a se sentir mais sólida do que a pedra, e pensa que jamais será atravessada de novo, nisso a água continua sendo atravessada constantemente julgando-se solida e a pedra continua atravessando tudo julgando-se liquida.  
A sempre um presságio de perigo e infortúnio no caminho, mesmo quando a felicidade se abate sobre mim tão forte quanto a desilusão, é sempre uma felicidade pouco creditada, como se fosse um engano do destino, como se fosse apenas um defeito.
Estou cada dia mais sendo obrigado a lidar comigo mesmo neste mergulho obrigatório na minha zona abissal, percebo-me agora no final do ano um ser descontrolado.
Me limpo excessivamente e me sinto sujo, fumo até a garganta pigarrear, então me banho, faço inalação e volto a fumar, os números da balança aumentam numa contagem progressiva que adiantam meu fim, “são as festividades!” digo pra mim mesmo, a saúde se esconde, sinto-me prestes a defrontar uma grande enfermidade que não sei qual é e esta palavra me leva novamente as febres e aos vermes.
Duas noites atrás fui visitado novamente por Morfeu, em outro sonho aterrador, estes vem se tornando cada vez mais freqüentes, ele me apresentava em terceira pessoa, no escuro completo, mas era apenas a casca que tinha a minha forma, o ser que me habitava era outro, estranho, maligno, demoníaco, espreitando nas sombras, rastejando como um animal, e eu assistia isso de fora e ao mesmo tempo de dentro pelas janelas dos olhos, preso em mim e possuído por uma força que não sabia e ainda não sei identificar.
Um dia antes do fim do décimo terceiro Baktun do Calendário Maia, consultei um oráculo para saber o que o final desta era me reservava e das setenta e oito cartas, “O Juizo Final” surgiu, informando o período difícil de grandes decisões que se aproximava nestas férias nada relaxantes, afinal, não se pode tirar férias de si.
Os sonhos, os espíritos, todos conspiram para uma grande mudança na minha vida e já nem sei se estou tão interessado nela, na mudança.
Os vermes, a força que me possuía, a carta do Juízo Final, as férias, as festividades, os homens que passaram, as esfinges dentro da minha cabeça consultando seus vernáculos, as esfinges dentro do meu coração colocando galhos de freixo sob o travesseiro na tentativa de trazer-me um sonho de amor no meio de tantos pesadelos. O armário abarrotado de presentes endereçados a pessoas estranhas, a casca agindo socialmente preocupando-se com a vida de outras pessoas numa tentativa falha de fugir da realidade interior, o mundo exterior que me desconhece completamente, o corpo inchando-se, negando-se... Uma guerra interior e pessoal com aquilo que me persegue trezentos e sessenta e cinco dias por ano e promete continuar me perseguindo neste novo ciclo que começa dia primeiro: eu, dizendo a mim mesmo "decifra-me ou devoro-te".





Realidade: talvez eu esteja constantemente me sentindo rejeitado e me protegendo de uma rejeição futura apenas para lembrar a mim mesmo da minha humana insignificância, tenho uma grande missão nesta vida: me diminuir em todos os sentidos.

Epílogo: Minha mãe com seus sentidos de feiticeira previu a tempestade que se formava dentro de mim e abriu um vinho, talvez demônios e vermes morram afogados, quem sabe, talvez eu esteja tentando me limpar de resquícios invisíveis com o líquido errado...


P.s. Os pontos em itálico são apenas verborragias, cacofonias e distorções, mas foi impossível calar a gritaria com que castiguei o papel.





14 de dezembro de 2012

Prece ao ano que finda.




"Para o acaso, 
de aqueles que pela vontade de acreditar no que querem, 
me procurem, que jamais me encontrem.
E que, no acaso da minha inocência ao contrário deles
querer acreditar, simplesmente assim,  por ainda querer, 
Que por aquilo/aquele que tão docemente num futuro me será apresentado,
que eu jamais seja encontrado."

Amem.





Tous les garçons.




E senti na garganta o nó górdio de todos os amores 
que puderam ter sido e que não foram.

Gabriel García Marquez


O que existe de tão fascinante no amor representado pelo simulacro? Sim, porque o amor, amor mesmo, dos amados, nos é ainda muito estranho. Não chegamos a arranhar sua etérea superfície com o ensaiar de um toque. O amor nos é cantado mas não esta la também, pois nas musicas existem sempre dois personagens pré definidos, o que ama e o que não, a vítima e o carrasco, o que fica e o que vai.
Compramos tal ideia sem correlacioná-la com a realidade que nos é apresentada todo dia.
O que ama apenas ama o amor e não o outro, o que fica o faz por falta de opção e não por escolha, até o inferno chega a ser convidativo para aquele que nada tem.
Já o que não ama nunca amou, o que se foi nunca esteve, portanto na realidade não existe um desamor, não existe partida, ele próprio jamais existirá, até que ame, até que fique e um outro se parta.
Não se pode explicar e também não se pode não entender. Eis o que nos resta.
Não somos o que somos, somos apenas o que nos restou.
O que decidiu não nos “não amar”, o que não partiu. 







25 de novembro de 2012

A última vela.





“Somente um amor incompleto pode ser romântico...”
Woody Allen


Contaram-me uma vez, que em certo lugar do mundo numa época talvez distante, talvez ontem, não me recordo, vivia sozinho um infante dentro de um castelo.
O castelo em questão não tinha portas nem janelas, o rapaz era tudo que nele remanescia, era a sobra de uma longa linhagem real que fora interrompida em si mesmo. 
Não sei do que se trata essa história, se foi algum tipo de malefício que o deixou naquela condição, ou se foi apenas culpa, mas ele estava emparedado naquele casarão a muitos anos... Bem, sei que era filho único e ao descobrir-se apaixonado por um outro jovem, decidiu não consumar seu casamento com a princesa sua noiva, esta era de outro reino, de sua mesma e indefinida época, e o real compromisso havia sido firmado antes mesmo dele nascer pelos monarcas seus pais. 
Foram dias negros para o reino e sua corte, esta desfez-se quase que imediatamente, logo não havia general, não haviam pajens, cavaleiros ou mesmo súditos naquela região.  O tal rapagão que roubara a afeição do príncipe foi enforcado, antes mesmo que pudesse esclarecer que não nutria o mesmo sentimento, sequer havia trocado duas palavras com vossa alteza e já era enamorado de uma donzela que vivia na floresta. Nem mesmo o príncipe o pode salvar, explicando que como em quase todos os casos de amor, havia se apaixonado sozinho e que o pobre condenado em nada havia contribuído com isso, exceto pelo fato de ter nascido. Acontecera. 
E então aquelas terras foram amaldiçoadas, ao menos é o que diziam os mascastes e viajantes, todos persignavam-se caso precisassem cruzar um único passo para dentro de sua fronteira maligna. Logo, só restara o rei, a rainha, o príncipe e a maldição ou culpa que aos poucos se apossava do lugar, preenchendo os cômodos vazios do palácio...
O rei e a rainha tentaram desesperadamente ter outro filho, até mesmo uma filha com um coração mais sensato seria bem vinda naquele momento para abrandar o mal olhado que o primogênito lançara na família inteira. 
Em uma de suas tortuosas tentativas, a rainha que já não era mais tão jovem, obteve sucesso, porém toda a luz da esperança extinguisse rapidamente, quando o filho ainda não nascido e a rainha pereceram na ultima noite do inverno mais rigoroso que eles viveram juntos, ainda como família.
E depois disso o rei desapareceu... Óbvio demais, eu sei, mas o que mais me intriga nessa história é que as portas, janelas, mobília, tudo decidiu acompanhá-lo. As paredes rapidamente fecharam as máculas deixadas pelas fendas das janelas e batentes que agora estavam ausentes, preenchendo-se de mais paredes, apenas o necessário para manter o teto sob suas cabeças. O castelo tornou-se praticamente maciço por fora e vazio por dentro, havia paredes, paredes, teto, príncipe e apenas uma vela. 
A vela foi tudo o que ficou, talvez em sua mente de vela, tenha decidido ficar pelo mesmo motivo que as portas e janelas decidiram partir, talvez não tivesse tido tempo de sair junto com as outras velas antes que as paredes tivessem se fechado para manter o castelo estruturado e em pé, de qualquer forma, em sua simplicidade de objeto despretensioso, já que ali ficara, decidiu então iluminar. Iluminar o vazio escuro do castelo, e sendo ela a única vela, decidiu sozinha jamais se extinguir. 
Assim ela iluminou o príncipe por muitos anos, tantos quantos se podem contar dentro de quatro paredes, ou talvez apenas por alguns breves minutos, não se sabe ao certo, o passar do tempo, o arrastar das horas ainda é um mistério dentro de uma casa sem janelas onde vive um único morador sem futuro...



(Continua)





16 de outubro de 2012

Sobre os fins, os meios e os começos.




"Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém."

Sete Sonetos e um Quarto – Manuel Alegre, 2005.



O mais estranho de escrever sobre o fim é começar a escrever sobre o fim, ainda mais depois de um certo tempo desde que o fim se estabeleceu. Escrever sobre o fim se torna quase um ato de recomeço, também não deixa de ser um novo começo, ou mesmo uma continuação do que ficou em branco, em silêncio, tudo depois do (inevitável?) fim.
Se os fins justificam os meios, os meios justificam o começo. Antes do meu fim o meio estava até que agradável, vindo de um começo brilhante, com doses cavalares de destino, maturidade, sinceridade, leões imaginários sendo mortos um de cada vez. Então o fim. Abrupto, até mesmo a frase que começou o meu fim é finita “Não existe maneira fácil de fazer isso.”, por mais brincadeiras e trejeitos que o finalizador evocou no momento, o fim é um fim e não mais um meio, muito menos um começo.
A expressão facial (literalmente) que mais se encaixa no meu fim seria o "Ecce Homo" do Elías García Martínez (que fica no santuário espanhol de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja, Zaragoza, Espanha) e que recentemente foi magistralmente ~n~ restaurado pela querida senhorinha Cecilia Giméne. 
O fim agora visto como um recomeço pode também ser encarado como uma restauração, ainda que mal feita e precária, muda a imagem original que no caso era a serenidade do meio, deixando em seu lugar o rosto pasmo e disforme da perplexidade de um fim .
O som do fim não é uma explosão por mais surpresa que ele cause, o fim é o silêncio, a ausência, o abismo.
Seres humanos que somos temos quase que uma vocação biológica para preencher o vazio todo o tempo, e como lidar com o final que nos impõe o vazio, se não o preenchendo?
E nós o preenchemos com o que temos a mão: dúvida, raiva, vingança, compreensão, perdão... Mas acima de tudo nos preenchemos com a análise. Sim, porque basta um fim para que todos os fins voltem a pauta e nos façam questionar onde foi que os meios tornaram-se fins. Vasculhamos com os olhos duvidosos da memória todos os fins, procuramos sintomas, presságios, sinais em plantações, posições estelares, qualquer Nostradamus que pudesse ter nos avisado antes e assim nos preparado. Mas nenhum meio consegue nos preparar para o fim, por mais evidente que este possa ser.
Depois da análise vem a anarquia. Não lidamos muito bem com o imutável que nos mudou completamente, deixamos de ser algo que jamais seremos novamente e passamos a ser outra coisa, ainda nova, indefinida e desconhecida. A fase da anarquia é quase toda preenchida de inconformidade. Odiamos, destruímos, jogamos fora fotos, presentes, futuros não existentes, não suportamos muito, quebramos os templos, destronamos os reis e queimamos os ídolos que antes eram adorados em nossa, agora antiga, realidade.
Culpamos o finalizador, culpamos os deuses, o destino, a nós mesmos. 
Nos enchemos de raiva, de músicas, de poemas, de traduções de uma dor tão intima que como a ferroada de uma abelha, persiste, pulsa. Tudo o que o finalizador fizer, qualquer movimento numa tentativa de se aproximar ou de se afastar, ou mesmo de se recomeçar sozinho em sua nova realidade, machucará, muito. Visto que não sabemos o que nos tornamos depois do fim, como imaginar ou lidar com o que quem nos finalizou é agora? Remédio? Distância: deixa o silêncio do fim ecoar livremente, sem tanta dor, sem reverberação.
Depois de nos preenchermos com tudo ao nosso alcance, escaparmos do ferrão do contato com o finalizador, deixarmos a distância ecoar o silêncio do fim, enfim, nos enchemos.
E começa então o processo inverso, o esvaziamento.
Nos esvaziamos da culpa, própria e alheia, nos esvaziamos dos poemas, das sensações, das montanhas russas, da indefinição, esse esvaziamento é o expirar da dor, toda a dor da inspiração da nova realidade é agora expurgada numa lufada só.
Então voltamos ao vazio, ao silêncio, mas é o vazio aveludado, o silêncio harmonioso, nada mais soa como um fim, tudo é um recomeço, tudo pede para ser reordenado, somos uma prateleira vazia pedindo por novos livros com novas histórias, novos enfeites adquiridos em novas viagens, novos porta retratos, recheados de novos contatos, tudo em nós pede o novo, e é isso que permite que recomecemos, que possamos falar sobre o fim como estou fazendo agora sem se deixar esbarrar em nenhum final, como um rio mágico que só desemboca em novos começos, um rio que contorna pedras e se levanta de quedas... E quanto ao finalizador, este é esvaziado também, já não é sequer o finalizador, foi esvaziado de todos os adjetivos, os bons e os maus, não o odiamos, nem tão pouco o amamos, não o agradecemos, não o perdoamos, não o culpamos e já não clamamos por uma vingança sobre este ser também agora, recomeçado. Não existe mais perdão, não existe mais vingança, o esquecimento é nosso único perdão, o esquecimento é a nossa única vingança. 


"E por fim se esqueceram sem dor…"
O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel Garcia Marquez.






Epílogo:
O coração volta a bater noventa vezes por segundo, 
a princípio por si, por outro só mais pra frente, quem sabe? 
Então o tempo torna-se nosso  sol, nosso marte e nos guia, 
e num belo dia transforma isso tudo em nada. 
O nada tudo esvazia.




26 de setembro de 2012

Demônio


"Quando se dança com o Diabo, é ele quem conduz."
Ditado Indiano



Diabo, Demo, Demônio, Que-Diga, Capiroto, Satanás, Satã, Satanazim, Cujo, Tinhoso, Maligno, Tal, Arrenegado, Cão, Cramunhão, O Indivíduo, O Galhardo, O pé-de-pato, O SUjo, O Homem, O Tisnado, O Temba, Leviatã, Belial, Baal, Belzebu, Asmodeus, Samael, Lúcifer, Incubus, O Coxo, O Azarape, O coisa-ruim, O Marrafo, O Pé-preto, O Canho, O Dubá-dubá, O Rapaz, O Tristonho, O Não-sei-que-diga, O Que-nunca-se-ri, Pai do Mal, Príncipe das Trevas, Carfano, Rabudo, Quem que não existe, O Solto-Ele, O Ele, que as vezes é ele, que as vezes é eu, ele em mim, eu nele, ele em relação a mim, eu em relação a ele, o mal, o bem, Deus sabe quem, somos dois seres precipitados, caídos, um para dentro do outro.






23 de setembro de 2012

Balada Triste de Trompeta...♪

Raphael - Balada de la Trompeta


Minha cena (e música) favorita do filme espanhol "Sin un Adiós" de 1971.
Onde o cantor Raphael interpreta um palhaço triste e apaixonado.


Raphael





Os Príncipes do meu Reino: Francisco Luis Bernárdez.

Francisco Luis Bernárdez.



SONETO

Si para recobrar lo recobrado 
debí perder lo perdido, 
si para conseguir lo conseguido 
tuve que soportar lo soportado,

si para estar ahora enamorado 
fue menester haber estado herido, 
tengo por bien sufrido lo sufrido, 
tengo por bien llorado lo llorado.

Porque después de todo he comprobado 
que no se goza bien de lo gozado 
sino después de haberlo padecido.

Porque después de todo he comprendido 
que lo que el árbol tiene de florido 
vive de lo que tiene sepultado


Francisco Luis Bernárdez




Da série "Príncipes do meu Reino", homens encantadores e maravilhosos cujo talento literário eu admiro, começando hoje com Francisco Luis Bernárdez, libriano, racional, jornalista e poeta, nasceu na Argentina, estudou na Espanha, participou de vários movimentos literários importantes em seu país e deixou de nos brindar com sua beleza física e transcendental em 1978. Não posso ainda definir em palavras o quanto este soneto me conforta e apazigua, espero que gostem e procurem ler mais coisas dele.





22 de setembro de 2012

Venti Cordia ou “Post It” do coração.




"Há cordas no coração que melhor seria não fazê-las vibrar."
Charles Dickens


Minha função mais intrínseca, primordial, quiçá fisiológica é fazê-lo viver, a ti e ao teu corpo, por isso venho pronunciar-me quanto a tua vida. O meu apelo é o mais despretensioso possível, não tenho tempo de discursar sobre minhas idéias e opiniões a respeito da vida que conheço e da que desconheço, dentro e fora de sua caixa torácica o mundo segue um grande mistério para mim, mas mesmo em minha cega e desconhecida ignorância gostaria de dizer uma ou duas palavras sobre os últimos acontecimentos.
Percebi-me acelerando naquela noite, não enxergo mas soube quase que instantaneamente que seus olhos percorriam as palavras dele novamente. As mesmas palavras de novo, ainda não faziam sentido em seu córtex central, mas assustavam ao serem vistas como um todo, um tipo de gestalt que ainda não conheço, acelerei, descompassei, me preocupei com você, com o que lia, com o término anunciado de algo que ainda não tinha certeza se de fato começara, ao menos havia começado para você aqui dentro e todos nós (eu e alguns poucos órgãos) estávamos cientes disso.
O que gerou o meu descompasso não foi de fato o que você sentiu ou pensou sentir naquela noite, foi a repetição, ninguém entende melhor de repetição do que eu, que desde antes de fazê-lo ser, sou.
A repetição me assustou, visto a importância que dava para isso há um ano e a que voltou a dar algumas noites atrás, a repetição da infinita equação amar e não amar, ter e não ter, estar e não estar mais. Essa corda bamba, essa prancha de navio pirata que sempre lhe atira ao vazio e que você chamava de pseudo-namorado, antes e agora. Não era e nem nunca foi, não possuo faculdades desconhecidas como o cérebro, não prevejo o futuro mas sei que nunca viria a ser.
E então veio a anunciada e inevitável separação, não apenas física, mas emocional, separar os seus sentimentos dos dele, os seus erros e precipitações dos dele, somar, subtrair e então dividir.
E lá estávamos nós dois, você dividido, eu quase enfartando, o cérebro sobrecarregado, o corpo sem ar, os pulmões sorvendo nicotina descontroladamente, tornando ainda mais difícil meu trabalho que já não é nem um pouco fácil.
Então, devido a gravidade exacerbada da situação, fizemos um motim, sua consciência talvez esteja estranhando algumas atitudes recentes suas, mas tudo foi meticulosamente planejado por nós, seus vitais. Tudo entrou no automático, no natural, pra facilitar sua vida (e a nossa), para abrandar a sua dor.
Os hormônios mais violentos, alguns deles até grandes culpados desta sua (des) ilusão, foram silenciados, quase todos por mim mesmo. O cérebro parece que já entrou em acordo com todos os nervos que a incompetência vem da parte dele, digo, do cérebro do outro e não do seu, e uma vez tendo encarado esta realidade já desconectou ou ao menos começou a desconectar pelo que soube, qualquer lembrança dele de você, em breve você não o chamara de mais nada, não teremos mais nomes para ele. Nem um unico sentimento que se encaixe nele. Seus músculos faciais concordam que a partir de agora não haverá mais sorrisos para ele. As lágrimas serão contidas antes do orbe ocular, não se incomodarão em subir até os canais, muito menos em descer por eles, o choro será reprimido pela garganta, e as cordas vocais decidiram entrar em greve em tudo que se relacionar a ele, a única coisa que ele ouvirá de você será o som do seu abismo, o som da sua imcapacidade de continuar.
Enfim, acredito realmente que tudo isso dará certo de alguma forma no final, o meu passo não marca o tempo, não o transmuta ou controla, mas podemos mudar (e mudaremos a partir de agora) a forma como você passa por ele, e o tempo que se vire, como nós aqui dentro estamos nos virando também.
Escolhi este momento de repouso em que sua consciência esta silenciada pelo sono, pela brisa noturna, para expor a você o que estamos fazendo e o por que de estarmos fazendo, precisamos de você bem vivo, lúcido, existem células nascendo aqui que querem sua chance de ver o mundo, mesmo que seja apenas esse seu mundo (tao vasto e pleno para nós)  interno.
Quanto a ele, não o conheço, sei que não deve ser de todo mal, sei que você sabe disso também, não o estamos tratando como uma chaga ou uma enfermidade que precisa ser curada, seu sistema imunológico nem entrou nessa jogada, mas acredito que dentro dele tudo tenha sido alinhado premeditadamente para o "até nunca mais", e como nós, desligados que somos, esquecemos de fazer isso por você antes o fazemos agora.
Em breve seu sono acabará e eu preciso voltar ao meu trabalho antes que você enfarte, mas não tenha medo de sonhar de novo, é bom para você e para todos nós quando o faz, apenas lembre-se, ja diria o poeta que você sonha quando olha para fora, mas só acorda quando olha para dentro, ou no meu (e no seu) caso, quando o lado de dentro acorda para o de fora.


Atenciosamente.

Seu coração (lat. cor, grc. Καρδία)





20 de setembro de 2012

Pudera.

2012

A confortante conformidade da ausência de esperança é assustadora.
O torpor da falta de opções, o ópio da inexistência de saídas.
Tudo o que se sabe da vida é que a própria não existe (ou acontece) mediante nossa vontade.
...
Um antigo e sábio ditado grego nos ensina que se quisermos matar um Deus de rir,
basta contar nossos planos a ele.







17 de setembro de 2012

Alucin(ações)





Antes deviam ter te dito que era um labirinto
e eu um minotauro louco e faminto.
Antes.

...

Talvez se eu fosse um pouco menos isso ou aquilo.
Talvez um pouco menos "bom partido", menos experiente.
Talvez.

...






5 de setembro de 2012

Canetas...




Quero atropelar todas as regras
comer os pontos errar as palavras
calar o ponto final antes do tempo.
Desejo prolongar a escrita, 
fazê-la duradoura, atemporal.
sendo o leve vislumbre de um sonho,
que em nada se assemelha a realidade.
Quero escrever como amo/amar o que escrevo,
ainda que os dois se confundam intimamente
e eu me perca entre canetas e lábios...



29 de agosto de 2012

Com-partilhar...



Embora ninguém tenha me machucado, ainda assim, estou machucado.
Embora eu não pertença a ninguém, não posso dizer que eu me sinta livre hoje.
Embora ninguém tenha abusado de mim, eu sinto que fui tão abusado.
Embora ninguém tenha me usado, me sinto usado, eu gastei a mim mesmo.
Eu estou cansado de buscar alternativas, estou cansado de puxar mãos,
Estou doente por ter sangrado escondido enquanto esperava por um grande amor...
E embora ninguém tenha expectativas, todos pecam em sua busca pelo momento ideal.
É como se de alguma forma eu tivesse traído a mim mesmo por dentro.
Existe uma parte em nós que sempre espera o melhor,
é melhor que esta parte fique sempre sozinha...


Já faz muito tempo que eu não me permito
escrever um texto com tamanha auto-piedade,
auto-crítica e auto-obsessão.

Acho que eu precisava...




24 de agosto de 2012

XY




Eu amo um homem
e através dele amo a todos os homens.
Amo o homem que foi e o que virá,
o rebento, o moribundo,
e o que ainda aguarda seu futuro
no leite seminal de outro homem que amo,
é apenas um "Y" raivoso, que um dia
em disparada, rasgará o óvulo e juntos
formarão o homem que amarei...





1 de agosto de 2012

A aventura de ficar.





A casa esta em ordem.
Cômodos limpos, organizados.
Louça lavada e guardada.
O quarto do anfitrião voltou
novamente a ser dele...
Os hospedes se foram.
A paz deveria se instalar neste lar.
Mas as paredes concordam
silenciosamente entre si,
de que nada ficou diferente...
Dono e casa permanecem os mesmos.
Vazios.









1 de julho de 2012

A crônica do amor malfadado.





“O burro o rei e eu estaremos mortos amanhã.
O burro de fome, o rei de tédio, 
eu de amor.”

Jacques Prévert


Um botão apertado, uma chamada transferida, um ramal acertado, o simples e corriqueiro ato de atender a uma ligação e soube que ele havia morrido ontem. Consegui ainda terminar a conversação necessária com a pessoa do outro lado da linha, que por algum tipo de dever moral, achou que deveria comunicar-me o ocorrido, este era um antigo amigo, de quando eu e ele, o agora falecido, ainda éramos um casal.  
Como o som pode ser perturbador, qualquer som, quando é necessário ascender a um estado de silencio absoluto e contemplativo, dizer um “obrigado por ter me avisado” é um trabalho de Hércules. Então finalmente, o silêncio... Não um silêncio qualquer, mas o silêncio predecessor, onde é possível ouvir o quase inaudível som das emoções mais profundas, escavando, subindo e brotando, dantes enterradas, agora rastejam contaminando veias, contidas na garganta, sobem aos canais lacrimais por onde deságuam no orbe ocular, e ao fechá-lo num esforço racional e consciente de negação, podemos apenas contemplar mais facilmente aquilo que é visível somente dentro de nós, o passado. 
Chorei pouco, evitei procurar motivos para chorar, se quisesse e quando quisesse, os encontraria, sabia onde estavam. Ele havia sofrido um acidente, seu corpo já estava sem vida quando foi resgatado e estaria ainda sobre a terra até o dia de amanhã, quando seria o funeral.  Não cheguei a pensar se deveria ir, simplesmente fui. 
De uma forma mecânica como na época em que estávamos juntos, olhei os horários de ônibus no guichê da rodoviária, porém ao comprar a passagem não podia mais esperar pelo inesperado, pela surpresa de faltar ao trabalho na segunda feira para passar mais tempo ao lado dele, ou então ajudá-lo a pegar o carro do pai escondido para trazer-me de volta, parando sempre nos acostamentos da rodovia onde rotacionávamos a energia fluida de nossos corpos jovens, em beijos, em sexo, em falta de pudores e preocupação.  
Pela primeira vez, comprei também a passagem de volta e ao receber ambos os bilhetes, senti uma dor estranha, incomum, como se estivesse prestes a ruir, minha estrutura, todo o meu interior estava danificado. 
O cheiro do ônibus, o desconforto reconfortante da viagem que nunca era tão longa, ao menos não tão longa quanto esta, as paisagens que se repetiam à janela, a vida que se repetia na pequena cidade do interior, lojas abertas, pessoas nas ruas, exceto ele, lá tudo remanescia.
Ele não havia se casado ou sido feliz, mas isso não era nada, nem eu que ainda respirava poderia estar cem por cento seguro de que era feliz, mas certamente um dia fora, talvez até ao lado dele. 
Eu já havia desejado cada centímetro quadrado dele, sorvi todas as noites o que ele me oferecia, as conversas, os licores, os líquidos, vivi intoxicado por ele muitos anos depois do término ainda. Mas ele provavelmente não, eu pensava, agora jamais teria a certeza se sim ou não. Ele não mais existia. 
Viveu fugindo de si mesmo, repetindo velhos erros, preso a vícios, ao medo de crescer, àquela maldita cidade, fugiu ao menor imprevisto do destino, ao primeiro obstáculo, ele apenas decidiu se livrar um dia de tudo aquilo que amava, e na ocasião, eu fui uma das “coisas” escolhidas. Eu sofri, ele, quem sabe.
Sorrio ainda ao lembrar das noites em que chorei por ele, pela ausência dele, pelo excesso de sua ausência, pela escassez de sua presença.  Mas com o tempo a dor foi diminuindo, um processo estranho e até então desconhecido para mim, o processo de enterrar, sim porque quem acha que corações partidos são soldados novamente no esquecimento, nunca sentiu o prazer de um coração fundido nas lembranças. Eu o guardei. Aos poucos e sem perceber, sem a intenção, deixei todas as lembranças, os toques, os hálitos, a presença e a ausência guardados em um relicário, e como um álbum de fotos antigo o resgatava de vez em nunca, principalmente quando queria chorar ou sorrir, sim, ainda doía, mas era uma dor mais conformada, não mais a perda do grande amor de uma vida que ainda estava começando, mas sim a perda de um homem que eu amava odiar, um homem capaz de extrair de mim toda sorte de emoções possíveis. Até então julgava tudo isso perdido, mas lá dentro do relicário, ainda estava guardado junto à ele a esperança de um possível futuro.
E naquele momento a esperança que restava de ver o rosto dele ao olhar para mim agora, tantos anos depois, um homem pleno, se rasgou. Senti então a mesma dor que sentira no guichê da estação rodoviária, uma fratura interna, tangível, quase pude ouvir o som de algo se quebrando dentro de minha caixa torácica, a realidade enfim havia me golpeado, se estabelecido. 
Não a realidade de que agora ele estava morto mas sim de que agora eu estava vivo.






26 de junho de 2012

To bear or not to bear?



“Normalmente, são tão poucas as diferenças de homem para homem 
que não há motivo nenhum para sermos vaidosos quanto a elas.”

Barão de Montesquieu.




A relação entre seres do mesmo sexo genético sempre existiu, eis um fato, esta relação esta evidente desde os primórdios da humanidade, no reino animal, e recentemente até mesmo no vegetal. 
Eu, particularmente, discordo que a minha homossexualidade possa ser explicada de uma forma biológica, física e/ou psicológica, todos nós os chamados “desviantes patológicos”, somos doentes mentais. 
No final do século XIX a medicina, a biologia e a então recente psicologia resolveram categorizar todas as doenças humanas, foi então em 1869 que foi criado o termo patológico homossexual. 
Antes dele, a sociedade ocidental dominada moralmente pelo cristianismo, utilizava o termo “sodomita” (“aquele que veio de Sodoma”, cidade da mitologia bíblica em que toda forma de “luxúria” era aceita, atraindo assim a ira de Deus) para identificar o homem que gostava de se relacionar eventualmente com outro, este ser era considerado um verdadeiro “safado”, um pecador, que após rezar algumas “aves Maria” era então perdoado. Isso já não acontecia com o recém descoberto homossexual, cria-se então um personagem com toda uma conduta pré estabelecida, com uma patologia definida, e até mesmo com uma pretensa cura. Este personagem só se libertará deste estigma em 1970, nos EUA, quando pela primeira vez na história, a “homossexualidade” deixa de ser uma patologia. Infelizmente outros personagens tão interessantes e complexos como os transexuais, transgêneros e travestis, não tiveram a mesma sorte e continuam até hoje sendo considerados como doentes mentais, exceto na França, que em 2010 se tornou o primeiro (e infelizmente único) país do mundo que além de considerar os desviantes sexuais como normais, considerou os desviantes de gênero como normais também. Por isso, desconsidero as descobertas psicológicas, fisiológicas, biológicas que tentam explicar a homossexualidade latente do ser humano, pois tentam explicá-la ainda como se fosse uma doença, que necessita de uma explicação e futuramente de uma erradicação. 
Aprecio a minha liberdade de ser o que sou, sem precisar me explicar o que sou, sem precisar me entender.
Mas esta é apenas a minha opinião, doentes mentais ou normais, esta patologia impediu por muitos anos que nós homossexuais exercêssemos nossos direitos civis, e ainda hoje, quarenta e dois anos após a nossa despatologização vivemos à sombra da sociedade, somos considerados um tabu e a homofobia social é implacável, desde o começo do ano no Brasil, se mata um homossexual ou transexual a cada 24hrs, levando o Brasil a ser considerado um dos países com o mais alto nível de homofobia do mundo. Triste.
Uma cultura tão massacrada quanto a cultura gay, que nasceu, se criou e se alimentou nas rebarbas sociais acabou se ramificando com o passar dos anos.
Cada subcultura gay reflete uma forma aprendida de lidar com a atração sexual, o desejo, a revolta, a proibição, a inclusão ou a exclusão social. 
No começo dos anos oitenta em São Francisco, uma dessas subculturas ganha nome, os “Bears”. 
Nascidos de uma fusão dos gays motociclistas, leathers e "girth and mirth" (Cintura e alegria, uma outra subcultura da comunidade gay de gordos e obesos), eram em sua maioria homens que lutavam contra a imposição de padrões de beleza física no mundo gay, principalmente o padrão “twink” (jovem, magro e sem pelos) que não correspondia a grande parte da população gay. Também havia no movimento Bear, uma batalha contra o comportamento gay estereotipado, mostrando que gays poderiam atuar como qualquer outro tipo de homem ou trabalhador na sociedade, não precisando tornar-se uma caricatura do que os outros pensavam a respeito de como um homossexual deveria ser/agir.


No Brasil, a subcultura Bear chegou nos anos noventa nas principais capitais do país, transformando milhares de homossexuais em “ursos”. Já menos idealizada, bem mais conhecida e reconhecida, a “comunidade ursina” se tornou um ponto de encontro e porque não refúgio para homens que não se encaixavam nos padrões de beleza masculina atuais, e para admiradores deste biótipo específico. 
Um urso é um homem com pêlos corporais mais protuberantes (ou não), e um corpo maior que o comum, gordo e/ou obeso que já esteja na faixa dos quarenta anos. Felizmente a comunidade ursina tem atraído cada vez mais adeptos aumentando a ramificação de tipos de ursos, os mais conhecidos são os ursos jovens, considerados “filhotes”, outros apenas com pelos corporais e musculosos são conhecidos como “muscle bears”, os que tem apenas pelos e são magros são os “lontras”, e os admiradores de todos estes biótipos (fazendo parte deles ou não) são considerados “caçadores”.
Com o distanciamento da ideologia inicial, a comunidade ursina cada vez mais se tornou um grupo aberto de indivíduos com interesses comuns. Infelizmente isso gerou uma certa padronização comportamental nos ursos. 
Os ursos são tidos como homens do tipo “macho”, que não possuem qualquer tipo de traços homossexuais, devem interagir entre si, deixando muitas vezes os caçadores um tanto isolados e à margem da comunidade.
 Muitos admiradores que procuram o mundo ursino, procuram justamente por esta lenda que é o perfil do urso atual, o machão peludo e musculoso com trejeitos heterossexuais, nos maiores sites de relacionamentos da comunidade ursina é comum encontrar desavisados, ou pessoas que procuram apenas o ideal de urso: “não curto bichas”, “miou acabou o tesão”, “só acima de 50”, “só abaixo de 50”,“não curto gordos”, “curto gordos, não obesos”, “só sarados e magrelos” entre outras coisas pipocam na maioria dos perfis, mas a grande parte dos integrantes de tais sites de relacionamentos buscam apenas o ideal do machão peludo, lenhador, caminhoneiro, musculoso, que não condiz com a realidade da maior parte dos ursos ali cadastrados. Hipocrisia a parte, é óbvio que cada ser humano tem o direito de gostar ou não de um biótipo, um grupo ou mesmo uma característica física que mais lhe aprouver, mas muitos já não sabem mais o que esperar deste grupo que cada dia mais se ramifica, ganha exposição e distancia-se mais de sua origem como comunidade underground da cultura gay. Mas como toda a luta contra a padronização da beleza e do comportamento homossexual que determinaram o surgimento da comunidade ursina, tornaram-se hoje, a sua mais conflitante característica? 
Eu mesmo tenho uma experiência pessoal com a minha breve passagem pela comunidade ursina para relatar. Durante toda a minha vida, fui um urso, mesmo sem o saber. Possuía pelos corporais, estava constantemente e as vezes muito acima do peso ideal, totalmente adepto de tatuagens, piercings, blusas xadrez e barba. E antes do mundo ursino, sempre mantive relações com outros homens que não sei bem o porquê, não me viam como um urso, muito menos eu os via como ursos, lontras, caçadores etc. 
Mas com o passar dos anos a minha capacidade em tolerar a imbecilidade alheia foi diminuindo amargamente, frases como “fulano te achou gordinho demais”, “você precisa perder umas arrobas”, “se você emagrecer você vai pegar todos, você tem um rosto lindo” estavam presentes na minha realidade, não que eu me importasse demais com elas, mas quando fui apresentado ao mundo ursino pela primeira vez, senti que finalmente havia encontrado o meu lugar. Afinal, estaria lidando com pessoas iguais a mim e com pessoas que mesmo não sendo iguais a mim admiravam ou achavam perfeitamente aceitável o que eu era. Ledo engano.
Não me culpem por esta inocente e utópica expectativa, afinal, ainda era um neófito. À medida que me aprofundava no mundo ursino, cada vez mais encontrava pessoas completamente diferentes de mim e a maior parte delas não achava nem um pouco aceitável o que eu era, para minha surpresa, estar dentro do mundo ursino era exatamente a mesma coisa que estar fora dele.
Ou seja, o número de homens interessantes (pra mim) no mundo ursino era tão escasso quanto o número de homens interessantes fora dele. Tive um grande choque ao perceber que minha vida afetiva e sexual não mudaram em absolutamente nada, incluindo minha auto-estima e minha melancolia não haviam sequer saído do lugar. 
O que eu levei muito tempo para perceber, é que o urso lindo e educado que conheci, seria o moço lindo e educado que eu adoraria conhecer, assim como aqueles caçadores super fofos, inteligentes e instigantes seriam os rapazes super fofos, inteligentes, instigantes que eu também adoraria conhecer caso não soubesse da existência do mundo ursino. Com o tempo ficou claro pra mim, que o mundo ursino servia basicamente para reunir pessoas extremamente diferentes com poucos interesses em comum. Resumindo, o mundo ursino é simplesmente o mundo real disfarçado, e isso é maravilhoso.
Hoje em dia não me considero mais um urso, porque percebi o quanto este título é parecido ao título que eu já tinha antes de sê-lo, ou seja: um cara qualquer. Mas sim, quando me chamam de urso, ursinho, filhote, etc, eu tenho um orgulho imenso de ao menos em nome, representar uma ideologia tão nobre, e um grupo de pessoas tão corajosas que são fiéis a seus corpos, aos seus desejos, não importando o que a padronização ou massificação lhes dita. 
E para concluir esta pequena resenha sobre minha visão do mundo ursino, posso dizer que eu, quanto indivíduo, cidadão, sodomita, homossexual, homem acima do peso com pelos corporais, urso, filhote, etc, irei lutar pela igualdade sempre que a diferença me discriminar e lutarei pela diferença sempre que a igualdade me descaracterizar. 





MANUAL SINCERO E PESSOAL DO URSO NEÓFITO


Entrei no mundo ursino sem a menor orientação, escrevi e-mails para as maiores revistas e sites do ramo pedindo dicas de como me comportar no mundo ursino, como utilizar o mundo ursino para me enturmar, e até hoje, não recebi sequer uma resposta. Por isso aqui vai um compêndio da bear-etiqueta pra você não fazer feio e conseguir desfrutar o mundo ursino da melhor maneira possível, seguindo algumas dicas básicas que consegui a duras penas reunir durante este ano. Nenhuma delas pode ser considerada uma regra pois sempre existe a exceção, mas são sinceras e geralmente estão corretas.

1- Se você é gordinho/gordo/obeso saiba que não será idolatrado como um deus no mundo ursino, por isso entre nele com a noção clara de que você não precisa dele para elevar a sua auto-estima e nem para se sentir aceito, você deve fazer isso sozinho e por si mesmo.

2- Se você é caçador e também não se encontra nos padrões do mundo ursino mas gosta de ursos, clássicos ou modernos e se sente de certa forma excluído, recomendo paciência, o seu ursinho vai chegar, seja especifico quanto ao tipo de urso que busca e boa sorte.

3- No mundo ursino os caçadores dizem que os ursos são galinhas, os ursos dizem que os caçadores são galinhas, e todo mundo no final faz suruba. Portanto sem hipocrisia, saiba aproveitar o mundo ursino em geral, e seja bastante enfático quanto aquilo que você realmente precisa, para não se sentir vazio ou decepcionado.

4- Se você é gordinho e tem baixa estima devido a não se encontrar no padrão de beleza atual e acha que no mundo ursino irá encontrar aquele boy magia sarado e lindo que não se importará com suas gordurinhas a mais, tire seu cavalo da chuva, a maior parte dos caçadores deste tipo são divididos em 3 características: procuram homens acima dos 60 ($$$), procuram o padrão urso de filmes pornôs como o Sagat, ou esta ali desavisado sem saber o que é um urso e procura semelhantes, por isso não tente utilizar o mundo ursino para melhorar a qualidade de homens que você pega, mesmo porque já esta na hora de você aprender que qualidade não se define por abdômen sarado ou qualquer outra característica física que esteja na moda.

5- Ursos são passivos, ursos são novos, ursos são velhos, ursos amam moda, ursos são afetados, e o principal ursos também são gordos, vamos parar com essa idiotice que o verdadeiro urso é aquele ator pornô careca tatuado sarado e peludo que come o cara de bota, ele também pode ser um urso, mas isso não faz dele a regra, esta mais para exceção.

6- Particularmente não conheço muitos revistas ou blogs que tratem do assunto de maneira clara para que eu possa recomendar (se alguém conhecer, deixe o link nos comentários), blogs que recomendo são o Woof Brasil (www.woofbrasil.com) e o Bear Nerd (www.bearnerd.com.br/), ambos exploram diversos temas bears e também temas gerais de maneira bem humorada, existe também o maior site brasileiro de relacionamentos ursinos que é bem legal pra você conhecer pessoas interessantes, mas é claro, respeitando as regras acima (www.ursos.com.br), quanto as festas, bares, etc, que acontecem sempre, nenhuma me pareceu diferente de qualquer outra festa, ou bar, etc, mas isso é questão de gosto, se informe e curta muito lembrando das regras acima. Quanto a aplicativos de celular, recomendo apenas o “Growlr” aparentemente é o único aplicativo em que as pessoas parecem saber o que realmente é o mundo ursino.

7- Por ultimo, não se esqueça que qualquer microcosmo é na verdade o macrocosmo em miniatura. Ou seja, os problemas que você enfrenta do lado de cá, enfrentará também do lado de lá. Não encare o mundo ursino como sua tabua de salvação ou sua única saída, encare ele como uma opção e aproveite-a da melhor maneira possível, lembre-se sempre que o mundo ursino é uma versão disfarçada do mundo real, entre nele e seja um urso, um filhote, um muscle-bear, um lontra ou um caçador, mas acima de tudo, esteja preparado para ser aquilo que você realmente é, seja você o que for...


É bem isso meus queridos.
Beijos sinceros. 



24 de maio de 2012

Par de luvas azuis.






Filho, lego-te a virtude, a pena que não mente. 
  Outros ensinar-te-ão a felicidade.
Virgílio


Tem sido observado em todas as eras que a mudança quando derradeira, se estabelece. Foi assim com meu filho mais velho. Desde seu nascimento, é uma criatura fadada a ser imposta sobre a existência de outras, foi imposto a mim e a sua mãe no delírio de nossa mocidade, sua presença ainda pequenina, completamente inocente, nos amadureceu quase que instantaneamente.
As esferas giraram, e meu  filho continuou com sua missão de impor-se sobre nossas vidas, era algo tão natural de sua alma esta imposição de si, que mal a percebíamos, até outra mudança se estabelecer. Lembro perfeitamente quando sua mãe me chamou, e me contou, com sua simplicidade de mulher sensível a todo o universo, que nosso menino gostava de outros garotos, inclusive naquele momento sofria por um.  
Me pouparei agora da hipocrisia do mundo e da palavra decepção, até mesmo da palavra surpresa, pois não havia nada disso, sempre soube que ele não era o rapaz convencional, mas sentia algo especial nele, algo que o levaria adiante do ponto em que todos nós chegamos.
Mas não conseguia lidar com a situação do meu filho apaixonado pelo filho de alguém, afinal devotei minha vida as mulheres, em especial a sua mãe. Não saberia como julgá-lo, não saberia como me portar com o outro. Sofri por um tempo do “complexo de José”, criando um filho singular que não poderia ser meu, não se parecia comigo, e enquanto me fazia José, sua mãe fazia-se Maria, intercedendo por ele em nossas conversas na cama, mas como progenitores, desde os primórdios da evolução lutamos para manter as coisas que são nossas, e como um neandertal lutei, não muito confesso, mas mantive-me pai.
Depois de passar uma temporada na capital fazendo faculdade, ele voltou a morar conosco, sentíamos ele um tanto distante da realidade, perdido, foi quando se envolveu com um outro rapaz, chegamos até a ficar aliviados naquela ocasião, mas pressentimos o desastre quando o até então perfeito pretendente se negou a acompanhá-lo no cinema para assistir os tais ‘X-Men’, banal demais, eu sei, mas só quem o criou sabe o valor que ele dá pra esses mutantes com quem tanto se identifica.  “O dia dos namorados esta chegando, vamos ver se eles sobrevivem!”, sua mãe quase como uma sacerdotisa pitonisa profetizou.  Meu filho estava passando por algumas dificuldades financeiras e pediu que ela comprasse o presente de “dia dos namorados”que ele entregaria ao rapaz, ela por sua vez me delegou essa missão, afinal era homem e saberia o que comprar. Decidi comprar para o rapaz que ainda não conhecia um isqueiro Zippo, um presente agradável de se receber. Ela me aconselhou a comprar um preto afinal o tal rapaz era ‘roqueiro’, mas talvez por uma intuição paterna, se é que isso existe, comprei um azul claro, que era a cor favorita do meu filho.
E então o dia dos namorados passou, meu filho não saiu de casa, segundo sua mãe, parece que o tal do rapaz havia “desaparecido”, mas naquela noite (dois dias depois), ele passaria em casa para que ambos conversassem e se acertassem em relação ao desencontro do dia dos namorados.
Da janela da sala observei meu filho no portão esperando pelo rapaz, ele acendeu um cigarro com o isqueiro Zippo azul claro. Obviamente sua decisão estava tomada.
Hoje ele está solteiro faz um bom tempo, acredito que a maturidade tenha diminuído extremamente sua vontade em tolerar as pessoas, não o culpo. Esses dias me pediu que comprasse um par de luvas azuis, mas um modelo sem dedos para que pudesse escrever. Estou ciente que o dia dos namorados se aproxima e que sua situação financeira também não anda muito boa, mas sua mãe me disse que ele ainda não esta devidamente envolvido com ninguém, ela apenas riu enquanto fazia seu café diário, desdobrando o aroma dos grãos por toda a casa, “você precisa estar ciente que como pai, você ainda é o único homem de quem ele sempre terá a certeza do amor absoluto, sincero e abnegado, com todas as convenções sociais de pai e filho, etc...” 
Não que isso não seja verdade, afinal amo-o, mas sempre esperei e creio que ele também esperava, um pouco mais de felicidade em sua existência do que ganhar do pai um par de luvas azuis do pai. Mas já diria o poeta, muito melhor viver sem felicidade do que sem amor.





Crônica inspirada em minhas inusitadas aventuras com meu pai.
Afinal, a coisa mais importante que um pai pode fazer pelo filho, 
é amar a mãe dele, basta isso, e todas as lições são aprendidas.




11 de abril de 2012

O cumprimento da solidão.

Solidão - Marina Harris



"No deserto estão secas as pedras que no mar se molhavam.
A semelhança confunde o eremita, que solitário demais passou 
o tempo entregando-se á solitária memória.
Aqui, a pedra seca, para o eremita não perdeu a qualidade úmida 
de poder ter estado aos pés do mar..."


Poética do Eremita, Fiama Hasse Pais-Brandão



Uma noite no verão deste milênio, lembro-me perfeitamente de ter me sentado na varanda da casa de alguma amiga e em sua companhia tentei, ao menos da melhor forma que podia devido à leve alteração dos sentidos causada pelo álcool consumido anteriormente, procurar em minha mente algum tipo, qualquer tipo de homem ou criatura que me interessasse e que por um feliz acaso do destino estivesse já de alguma forma inserida em minha realidade, seja fisicamente, profissionalmente, qualquer um dos cento e trinta mil habitantes de minha localidade.
E então a resposta veio assustadoramente clara, uma resposta tão real, tão tangível, bem ali ao meu alcance, aquele tipo de certeza tão óbvia que quando a procuramos simplesmente a encontramos, mesmo que esta não seja a maneira mais divertida de encontrar aquilo que queremos, gostamos da busca, da dúvida, da caçada animal, algo que sempre esta ali a distancia de um toque não nos agrada, e a resposta para a minha pergunta esteve sempre ali, talvez por isso tenha demorado tanto para que finalmente pudesse enxergá-la: não havia ninguém, não há ninguém.
Não há ninguém aqui por perto que eu queira de fato conhecer, sem que de alguma forma já não tenha conhecido. Minhas preocupações quanto a este alguém ultrapassaram as esferas epidérmicas do ‘encaixá-lo na minha vida social’, ‘ter bom gosto musical’, ‘não ligar para o fato de eu estar acima do peso’, ‘não se importar por eu ser fumante’, entre tantas outras preocupações nebulosas que a primeira vista parecem tão aterrorizantes, mas depois de uma pequena reflexão tornam-se fúteis demais...
Tudo ficou para trás de repente, todas as perguntas não respondidas, todas as suposições, simplesmente pelo fato deste alguém não existir, ao menos não aqui, que eu saiba.
Nada disso tem haver com as expectativas quanto ao parceiro perfeito, à relação perfeita etc, como disse, todas as esferas fúteis já foram transpostas há muito tempo.
Bem, a verdade é que ser homossexual já dificulta muito conhecer alguém através das maneiras convencionais, afinal nós vivemos em um microcosmo mais fechado, onde geralmente todos se conhecem de alguma forma, então é muito raro, salvo raras exceções, conhecer alguém completamente novo, alguém cuja existência você desconhecia completamente até aquele momento em que trocaram olhares, e esta é infelizmente uma das coisas que mais valorizo. 
A internet neste ponto é uma tabua de salvação, só que não. Ao mesmo tempo em que ela possibilita encontros determinantes em nossas vidas, com almas profundíssimas, com indivíduos que gostaríamos de reproduzir em larga escala, ela nos limita ao contato virtual. 
Sim, todos praticamente já tiveram em algum ponto uma paixão/relação virtual, alguns de nós, como eu, já enfrentaram pelo tempo que puderam os limites que essa virtualidade impõe sobre um casal. E como sempre, cedo ou tarde o laço se desfaz, desistimos, afinal é um trabalho de Hércules organizar em nosso dia-a-dia a equação ter/não ter alguém/ninguém. 
 A sensação de estar isolado em uma área cujo cumprimento é incalculável, onde o único ser vivo da sua espécie é você é terrível. Creio que esta sensação apenas eu e o Mico-Leão-Dourado conhecemos de perto. Não que eu seja um ser em extinção, pelo contrário, como eu existem tantos e tantas, todos do mesmo planeta, o planeta ausência-de-qualquer-coisa-que-não-seja-nós-mesmos, vinte e quatro horas por dia. 
Uma vez me disseram que ter um relacionamento é adquirir uma testemunha voluntária para sua existência, e enquanto não se adquire tal testemunha, vivemos sós, para nós. Já diria o Mefisto de Goethe que até mesmo o paraíso se transformaria no inferno se estivéssemos nele sozinhos, obviamente não penso que os solteiros do mundo inteiro vivem num inferno, afinal ser solteiro não é sinônimo de ser sozinho, e ser sozinho também não é sinônimo de solidão.
Eu mesmo não sou um ser sozinho, tenho inúmeras almas irmãs da minha que me cercam, me cuidam, me enxergam, mas o que de fato me preocupa é o diâmetro desta solidão em que me encontro, a solidão da perspectiva de encontrar alguém, para resolver esta equação só me resta uma coisa, o raio.
O raio eu irei obter apenas quando o ponto ‘B’ se apresentar na minha vida. Sim, porque se sou o ponto ‘A’, ao me ligar finalmente ao ponto ‘B’ estabelecerei a distancia do raio e poderei calcular finalmente o cumprimento deste meu mundo onde só eu habito, onde só eu estou dentro do espelho todas as manhãs. 
Não encarem este texto como uma reclamação, é apenas a constatação de que por mais independente que seja uma alma, por mais livre que tenhamos nascido e que nos tenhamos mantido durante toda a vida, até mesmo o diâmetro de nossa existência só poderá ser identificado através do raio, o raio que liga você até a outra pessoa que por enquanto está do lado de fora, mas que um dia estará dentro de você, e então ambos fecharão as portas.





A + B = R
C = 2 x π x R




30 de março de 2012

A ponte

Edward Burne Jones - O Espelho de Vênus



“Quando eu cresci, descobri que existiam outras versões para a criação do mundo.  Uma delas, fala não de um Deus, mas de uma Deusa sem nome que dançava sozinha no vazio do infinito. Lá, a Deusa encontrou um espelho criado por sua própria vontade, e nele, viu sua porção masculina. Como ela não tinha forma, apaixonou-se pelo seu reflexo e fez amor consigo mesma, criando assim o universo.”

Trecho extraído do curta-metragem 'Paz'.



Estática como pedra no meio da ponte ela vivia, ninguém mais sabia seu nome ou origem, os de sua era há muito tempo já haviam sido semeados no chão. Só restava ela, a pobrezinha, no meio de uma ponte que cruzava um ribeirão. 
Seu corpo era frio e maciço como o mármore, depois de tanto tempo ainda aparentava a mesma cor suave, quase como uma aparição, leve, seu vestido farfalhava sobre a madeira da ponte à menor brisa, dando a impressão de que lá flutuava.
As senhoras da região persignavam-se ao encará-la, jamais alguém havia chegado perto o suficiente para constatar se era uma moça que ali estava ou apenas uma antiga escultura, perfeita e esquecida, cujo artista já ninguém se lembrava.
Haviam várias pontes sobre aquele ribeirão, que também não era de grande importância para a região, o motivo de ela estar plantada ao meio daquela ponte em particular era um mistério que assombrava a todos que por ali passavam.
Os antigos diziam-na encantada, que um dia fora uma moça rica e abastada, vestida com as mais puras fazendas, ornada de pérolas virginais, despertou a paixão em todos os jovens imaturos de sua época, gajos sem posse a desejavam em segredo, os homens casados queriam tê-la conhecido primeiro, mas o seu virgem coração intocado a nenhum deles pertencia, pois de fato era tão jovem a donzela que nem mesmo sabia o que queria, e então, ao rejeitar seu ultimo pretendente, este lançou-lhe o terrível malefício que a deixou na situação em que ainda se encontra. Ficaria parada quando sentisse vontade de andar, tornaria o amor impossível quando ela se propusesse a amar, não chegaria a nenhuma conclusão quando se colocasse a pensar, não escutaria nada quando outros viessem lhe falar, e somente quando um rapagão dotado de tudo o que ela precisasse, seu caminho enfim cruzasse, estaria ela então liberta os grilhões da vil maldição. Imediatamente a moça pôs-se congelada, perdida dentro de si com a praga a lhe rondar, converteu-se numa estátua viva no meio da ponte onde hoje é o seu lugar.
Em sua época este fato foi contado em todo canto da terra, e muitos vieram tentar quebrar-lhe o feitiço. Homens belos tocavam-lhe os lábios com beijos, homens ricos ofereciam fortunas aos seus pés, os mais velhos despejavam em seus ouvidos a sua sabedoria, os românticos cantavam dia e noite para ela, mas nada lhe quebrava o encanto.  E depois de tantos anos, acabou esquecida, parada ali ainda, entre o começo e o final do caminho, no meio da ponte que cruzava o ribeirinho. 
De tanto observar o tempo passar ao seu redor, o inverso aconteceu, e por isso a donzela não envelheceu um só dia. Congelada pela antiga magia do rapaz que lançou-lhe o sortilégio, ele depois disso nunca se arrependeu, antes que o obrigassem a dizer o que disse ao contrário, enforcou-se solitário no alto de sua torre sem qualquer testemunha. 
E lá estava ela, esperando pelo rapaz da profecia, um moço encantado que possuindo um só corpo, estaria este bem aventurado, dotado de tudo o que ela precisasse.
Aconteceu então numa manhã de uns tempos atrás, que a moça não quis perceber mais nada, sabia que estava para sempre encantada e que todos os seus sonhos haviam ficado para trás. E a maldição que tudo invertia fez seu trabalho maléfico, e então ao não querer perceber mais nada, a moça começou a perceber tudo. 
Ouviu o barulho do riacho abaixo de seus pés, sentiu a firmeza do chão de madeira em que pisava, o vento farfalhando a seda de seu branco vestido, os pássaros cantavam, as flores ainda cheias de lágrimas orvalhadas e o sol nascia em mais uma manhã. Sozinha, no meio da ponte, sentiu-se emocionada, e ao querer chorar, não chorou.
Nunca quisera estar ali e por isso mesmo ali permanecia, não importava o quanto desejasse o contrário, o oposto ainda acontecia, pois a maldição não estava em sua mente mas sim, em seu coração, este órgão vital que enganar ela não podia.
O que realmente precisava, mesmo depois de tantos anos ainda não sabia, e quanto mais pensava menos entendia, como alguém poderia lhe oferecer tudo o que quisesse, se ela nem ao menos tinha idéia do que queria. 
E então quanto mais para dentro de si ela fugia, a maldição a jogava para fora dela, e lá enquanto percebia o que nunca quis perceber, e não chorava as lágrimas que queria chorar viu um jovem aparecer. 
Não era em nada especial, nem mais alto, nem mais baixo, nem mais belo do que qualquer um dos tantos homens que já havia visto por ali, tinha uma aparência calma, segura e em suas mãos segurava uma fruta que mordia com vontade. Ela quis sentir o gosto daquela fruta e por isso não o sentiu, nunca tinha visto aquele rapaz, com certeza não era da região, nem alguém que sempre passasse perto do ribeirão, provavelmente viera de longe para ver a moça que ficava parada na ponte como tantos outros antes dele. 
Não queria notá-lo, e por isso o notou, percebeu quando ele arregalou seus olhos claros ao vê-la ali, olhou para os lados e caminhou em sua direção, a moça advertiu a si mesma para não ter esperanças de que aquele era o rapaz perfeito, e por isso mesmo todas as esperanças de seu ser a invadiram, ele parou a sua frente encarando-a nos olhos, perguntou-lhe qualquer coisa que quis ouvir e por isso não ouviu, não sentiu o seu cheiro, nem o toque de suas mãos, nem mesmo quando ele precavido, observou se alguém estava passando, e logo em seguida colocou o rosto dela entre ambas as mãos e a beijou, provavelmente com o gosto daquela fruta que ela jamais sentiu. Se limitava a olhá-lo no fundo de seus olhos claros.
Presa dentro de si não podia corresponder qualquer contato dele, angustiada se acalmou, e inconformada se conformou, e mais uma vez foi obrigada a lidar com a situação quando tentava fugir dela, percebeu tudo que envolvia os dois naquele momento, o rapaz a sua frente, o sol, a água, o dia se iniciando.
Não precisava de mais nada, depois de tantos anos confinada dentro de seu corpo, a garota não tinha mais nenhum desejo, nenhum pensamento, tudo foi interrompido em seu ser. Não podia ser o rapaz, não era com certeza a manhã, depois de tantas manhãs iguais aquela e de tantos rapazes como aquele, era ela que havia mudado, algo estava diferente. 
Não queria chorar e por isso as lágrimas lhe brotaram, sabia que ele não era o rapaz que lhe quebraria o encanto e por isso mesmo era ele, e quando teve medo de se apaixonar, apaixonou-se, e quando quis se encantar, a moça que já estava encantada, desencantou-se. Com alguns passos, enfim atravessou a ponte sobre o ribeirão, não mais sozinha, mas de braços dados com o formoso rapagão.
Mas não meu caro cidadão, não foi o beijo do rapaz que despertou a paixão e pôs um fim ao encanto, acontece que quando o olhou nos olhos, a moça se viu refletida neles, a sua própria imagem estava nas pupilas claras do rapaz.
Pela primeira vez um homem colocou diante dela tudo o que ela sempre precisara para quebrar o encanto, cruzar a ponte, apaixonar-se e enfim saber o que tanto buscava no mundo e nunca havia até então encontrado. 
Ela mesma, dentro dos olhos de alguém.




MORALIDADE

Não entender o coração é um crime normal 
Não querer o que se quer é coisa muito ruim,
Desejar o que não se sabe pode lhe fazer mal
Se a jornada para encontrá-lo nunca tiver fim

E no meio deste caminho não se pode parar,
Entre o fim e o começo ninguém pode viver,
É preciso que o termine para poder recomeçar,
Tomando sempre cuidado para não retroceder.

Uma jovem donzela por tudo pode e deve esperar, 
Um cavalheiro galante e rico pode lhe aparecer, 
Mas se nada disso for o que seu coração precisar, 
O quê mudaria para ela se isso viesse a acontecer?

Ser completa, é de todas as missões a mais terrível,
Bem mais difícil do que estar apenas apaixonada, 
É poder aos olhos do ser amado sentir-se visível, 
Para desfazer o feitiço e ser de novo encantada...





Perla

Conto e moralidade escritos para uma das princesas 
que habitam meu reino, Perla
Beijos sinceros.