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27 de fevereiro de 2014

William Foster




Chora de manso e no íntimo... procura 
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia: 
O mundo é sem piedade e até riria 
Da tua inconsolável amargura. 

Só a dor enobrece e é grande e é pura. 
Aprende a amá-la que a amarás um dia. 
Então ela será tua alegria, 
E será ela só tua ventura... 

A vida é vã como a sombra que passa 
Sofre sereno e de alma sombranceira 
Sem um grito sequer tua desgraça. 

Encerra em ti tua tristeza inteira 
E pede humildemente a Deus que a faça 
Tua doce e constante companheira...

Renúncia, Manuel Bandeira.






10 de março de 2013

A Macaca Catarina




"A macaca Catarina" 
Décio Bittencourt

Trabalhou na enxada a vida inteira
Sem médico, sem padre, sem escola,
No final de uma existência de canseira
A recompensa foi pedir esmola.

De tanto ficar vazia pedindo, pedindo,
Pedindo, pedindo, pedindo, 
Surtou o surto da revolução 
E veio a lei, ora a lei, 
Ninguém chorou, eu chorei.

Morreu a macaca! Catarina* morreu
Todo mundo chorou... Menos eu!

O tuberculoso que escreve cuspindo
Um poema vermelho na página fria
Do cimento da calçada, 
Tem duas mãos fechadas la dentro do peito, 
Lei sem dinheiro não é lei.
No cubículo o tuberculoso aguarda a 
Hemofilia fatal. 

Não há vagas, não há vagas, não há vagas
Não há vagas, não há leito, não há leito,
E ele tem as duas mãos fechadas lá dentro do peito.
Lei sem dinheiro não é lei, 
Ninguém chorou, eu chorei. 

Morreu a macaca! Catarina morreu
Todo mundo chorou... Menos eu!

O operário, a máquina comeu inteirinho
O operário virou picadinho sepulto no ferro
O pistão da máquina parece um punho fechado, 
Que vai, que vem, que vai, que vem, que vai...
Cadê o operário que estava aqui? 
A máquina comeu.

E o patrão que eu não vi?
Saiu de Cadillac, 
Foi a boate e não deve ser amolado.
Alô, o que houve? A máquina comeu 
o operário que estava na liga.
O operário tem seguro de vida?
Eu sei, eu sei, eu sei...
Ninguém chorou, eu chorei.


Morreu a macaca! Catarina morreu
Todo mundo chorou... Menos eu!

Sabe quem morreu também?
A Amélia... açougueira...
Vendia a carne que Deus lhe deu!
Doença de rua!
Inveja a Amélia tinha da cachorrinha da D. Dedé,
Perfumada, comendo bolo, lambendo café!
A Fifi, quando morreu,
Cadelinha de estimação que era, teve até túmulo
no cemitério do Ibirapuera!
Amélia nada. Morreu ali na enxurrada!
A Fifi teve uma cruz quase Calvário.
Um anjo de asa!
A Amélia? Cova rasa!
Entendeu?
Ninguém chorou?
Chorei eu!

Morreu a macaca! Catarina morreu.
Todo mundo chorou... Menos eu!

O mendigo morreu de fome e de frio, 
O mendigo vivia a esmo, 
O único próximo de si mesmo, 
Seu cobertor de duas orelhas era uma cadela de rua
O mendigo morreu de fome e de frio, 
O cobertor estava no cio.
Quando o despertador de pardais 
tocou bem cedo para acordá-lo
Lá no Rio de Janeiro, o mendigo não acordou mais.

A Macaca Catarina cataplasma veterinária 
No braço e na perna, no rabo!
Burguesia vá pro Diabo!



*A macaca Catarina foi o animal mais querido do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro nos anos 40 e 50. Quando ela adoeceu, boletins informavam pelo rádio e jornais a evolução da doença, prognósticos e tratamento até a sua morte. A morte da macaca Catarina foi motivo de grande comoção nacional.







19 de fevereiro de 2013

Os Príncipes do meu Reino: Olavo Bilac.

Olavo Bilac



Maldição

Se por vinte anos, nesta furna escura, 
Deixei dormir a minha maldição, 
- Hoje, velha e cansada da amargura, 
Minh'alma se abrirá como um vulcão. 

E, em torrentes de cólera e loucura, 
Sobre a tua cabeça ferverão 
Vinte anos de silêncio e de tortura, 
Vinte anos de agonia e solidão... 

Maldita sejas pelo Ideal perdido! 
Pelo mal que fizeste sem querer! 
Pelo amor que morreu sem ter nascido! 

Pelas horas vividas sem prazer! 
Pela tristeza do que eu tenho sido! 
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!... 

Olavo Bilac, in "Poesias"



Da série "Príncipes do meu Reino", homens encantadores e maravilhosos cujo talento literário eu admiro, hoje, Olavo Bilac, sagitariano, passional, jornalista e poeta, nasceu no Rio de Janeiro, membro fundador da Academia Brasileira de Letras, foi jornalista, poeta, frequentador de rodas de boêmias e literárias do Rio. Deixou de nos brindar com sua beleza física e transcendental em 1918. Não posso ainda definir em palavras o quanto este soneto me defende e me vinga, espero que gostem e procurem ler mais coisas dele.





23 de setembro de 2012

Os Príncipes do meu Reino: Francisco Luis Bernárdez.

Francisco Luis Bernárdez.



SONETO

Si para recobrar lo recobrado 
debí perder lo perdido, 
si para conseguir lo conseguido 
tuve que soportar lo soportado,

si para estar ahora enamorado 
fue menester haber estado herido, 
tengo por bien sufrido lo sufrido, 
tengo por bien llorado lo llorado.

Porque después de todo he comprobado 
que no se goza bien de lo gozado 
sino después de haberlo padecido.

Porque después de todo he comprendido 
que lo que el árbol tiene de florido 
vive de lo que tiene sepultado


Francisco Luis Bernárdez




Da série "Príncipes do meu Reino", homens encantadores e maravilhosos cujo talento literário eu admiro, começando hoje com Francisco Luis Bernárdez, libriano, racional, jornalista e poeta, nasceu na Argentina, estudou na Espanha, participou de vários movimentos literários importantes em seu país e deixou de nos brindar com sua beleza física e transcendental em 1978. Não posso ainda definir em palavras o quanto este soneto me conforta e apazigua, espero que gostem e procurem ler mais coisas dele.





17 de setembro de 2012

Alucin(ações)





Antes deviam ter te dito que era um labirinto
e eu um minotauro louco e faminto.
Antes.

...

Talvez se eu fosse um pouco menos isso ou aquilo.
Talvez um pouco menos "bom partido", menos experiente.
Talvez.

...






5 de setembro de 2012

Canetas...




Quero atropelar todas as regras
comer os pontos errar as palavras
calar o ponto final antes do tempo.
Desejo prolongar a escrita, 
fazê-la duradoura, atemporal.
sendo o leve vislumbre de um sonho,
que em nada se assemelha a realidade.
Quero escrever como amo/amar o que escrevo,
ainda que os dois se confundam intimamente
e eu me perca entre canetas e lábios...



24 de agosto de 2012

XY




Eu amo um homem
e através dele amo a todos os homens.
Amo o homem que foi e o que virá,
o rebento, o moribundo,
e o que ainda aguarda seu futuro
no leite seminal de outro homem que amo,
é apenas um "Y" raivoso, que um dia
em disparada, rasgará o óvulo e juntos
formarão o homem que amarei...





1 de agosto de 2012

A aventura de ficar.





A casa esta em ordem.
Cômodos limpos, organizados.
Louça lavada e guardada.
O quarto do anfitrião voltou
novamente a ser dele...
Os hospedes se foram.
A paz deveria se instalar neste lar.
Mas as paredes concordam
silenciosamente entre si,
de que nada ficou diferente...
Dono e casa permanecem os mesmos.
Vazios.









9 de dezembro de 2011

In memoriam...

Mariana Franhan ★ 15/03/1990 - 09/12/2011 †


Já bem perto do acaso, 
eu te bendigo, ó Vida,
Porque nunca me deste 
esperança mentida,
Nem trabalhos injustos, 
nem pena imerecida.

Porque vejo, 
ao final de tão rude jornada,
Que a minha sorte 
foi por mim mesmo traçada;

Que, se extraí os doces méis 
ou o fel das coisas,
Foi porque as adocei 
ou as fiz amargosas;
Quando plantei roseiras, 
colhi sempre rosas. 

Decerto, aos meus ardores, 
vai suceder o inverno:
Mas tu não me disseste 
que maio seria eterno! 

Longas achei, confesso, 
minhas noites de penas;
Mas não me prometeste 
noites boas, apenas
E em troca tive algumas 
santamente serenas… 

Amei e fui amado, 
acariciou-me o Sol. 
Para que mais?
Vida, nada me deves. 
Vida, estamos em paz!

Em paz, Amado Nervo



Todas as luzes estarão no seu caminho até Perséfone!
Que a nossa despedida seja breve...



20 de novembro de 2011

Ambrosia.

"Zona Abissal", foto de Ligia Goi.

Escrevo para ser lido
muito além do contexto
dizer aquilo que não digo
usando a pena como pretexto

Te mostrar o que não vejo
em mim mesmo, na realidade
esconder o verdadeiro desejo
de queimar a insanidade.

Destruindo as quimeras
tomando a ambrosia
perdurando por eras
agonizante letargia.

Pelo tempo somos lidos
quando deixamos o útero materno, 
escrevemos para não sermos esquecidos, 
eu escrevo para ser eterno.




21 de setembro de 2011

O moço de dentro do quadro.

Gustave Courbet 'Self-Portrait, The Despairing Man' 1843-1845



Existe na Lua branca algo de encantado
Aos jovens que lêem essa história, cuidado: 
O ouro e os diamantes apenas têm seu valor,
Para os assuntos que não se tratam de amor.

Aconteceu com um jovem senhor abastado, 
 Ornado de puro bronze, prata e ouro,
E possuindo o rapaz tamanho tesouro, 
Podia desposar qualquer jovem do povoado.

Foi ter imediatamente com a que era mais bela
Mas temeu quando percebeu que a donzela, 
Além de bela também era astuta e inteligente, 
Uma linda fada com o coração de serpente.

Decidiu procurar o pai de uma que fosse bondosa, 
Uma donzela ainda jovem, casta, tímida e formosa
Com um coração leve, sem nenhuma ambição
Candidata perfeita para realizar tal transação.

Acertou com o velho que ela seria a prometida, 
E sendo ele pobre e sem posses não teve saída,
A não ser dar embora a sua única filha amada, 
Nos braços do estranho que cruzou a sua entrada.

Receberá muito ouro por isso meu caro senhor
Que destino melhor há para a filha de um pastor?
Disse-lhe o belo jovem que já estava saindo,
A pensar em seu bom casamento sorrindo...

A bela donzela, porém, já estava apaixonada
E é a partir de agora que a trama fica emaranhada, 
Pois o jovem que lhe despertara tanto sentimento
Era só um moço pintado num quadro do convento.

O artista que o pintou nunca foi revelado
Há muito sua assinatura havia se apagado,
E o modelo da obra havia morrido há tanto tempo
Que lhe restava apenas uma imagem no convento.

E mesmo assim, sem saber por que, ela o amava,
Dia e noite, perdida em si, o quadro admirava, 
E quanto mais os homens diziam-lhe que era bela, 
Mais queria transformar suas cores em aquarela,

E para dentro do quadro ser transportada, 
Ao menos para tocá-lo por um só momento
E assim junto a ele congelar seu amor no tempo,
E no convento ser para sempre emparedada.

Quando soube da boa nova contada pelo pastor, 
A pobre jovem se desesperou em dores, 
Pois estava morto o seu sonho impossível de amor,
De viver ao lado do amado transformada em cores.

O desespero a levou até o topo da colina
Onde vivia uma senhorita traiçoeira
De medo regelou-se todo o corpo da menina
Ao deparar-se com a beleza da feiticeira.

Esta era a primeira moça que o senhor visitara, 
E com o coração inflamado de um ciúmes mortal,
Decidiu que enganaria a pobre jovem aflita,
Para que ela sofresse ainda mais até o instante final. 

Porem sua melancolia era tão verdadeira,
Que nem mesmo a mais poderosa feiticeira
Poderia odiar tamanha criatura inocente, 
E comovida, a bruxa ofereceu-lhe um presente:

"Tenho aqui um feitiço forte e adequado, 
Um veneno da lua, que no eclipse foi destilado, 
Vá durante a noite até o convento disfarçada, 
Com o elixir a tela deve ser toda encharcada, 

E do rapaz pintado se dissolverão as cores, 
E com isso desaparecerá todas as suas dores, 
E quando a tela jazer vazia, branca e acabada, 
Por ele não há de sentir mais nada...

E por mais que agora desprezes teu prometido, 
Ficarás com o coração livre para amar teu marido.
E a deusa da felicidade estará então convidada
A cuidar da tua futura vida de casada."

E a jovem apesar de triste, sentiu-se aliviada,
Sabia que seu amor nunca a levaria a nada, 
Seria mais fácil acabar com seu tormento
E aceitar de bom grado seu rico casamento.

Então durante a noite foi disfarçada, 
E no convento entrou na última badalada
Sem fazer um único barulho, como uma ladra, 
Trazendo em suas mãos a morte do amor engarrafada.

Mas nem tudo saiu como havia planejado, 
Assim que se viu diante do olhar do condenado, 
Um moço tão belo, tão alheio, tão desejado.
Apenas beijou os lábios de seu bem amado, 

Soube que o veneno não poderia derramar
Era muito belo para que o vazio o pudesse apagar, 
E estando ela sem nenhuma saída adequada, 
Tomou todo o veneno em uma só tragada.

Caiu no chão, vendo a luz da lua sobre a tela
Era a última visão que queria ter do mundo, 
E a morte lhe parecia cada vez mais bela
Conforme adormecia em um sono profundo...

O moço do quadro, que estava emparedado
Por tamanho amor acabou sendo despertado, 
No último suspiro da moça por quem era amado, 
E amando-a também, viu-se desesperado...

Sem poder mexer-se, apenas pelo luar observado, 
Para a esfera branca no céu começou a soluçar...
E mesmo sem nenhuma palavra conseguir pronunciar, 
O clamor de seu coração pela lua foi escutado:

"Esta jovem morreu por tanto me amar, 
E eu por ela morreria mil vezes sem pensar, 
Não tenho corpo, nem mãos para lhe tocar
Ou mesmo boca para o veneno mortal lhe sugar...

A dor que eu sinto agora, não existe igual, 
Amar tanto e não poder agir como o devido, 
Não fiz nada nesta vida para merecer tanto mal, 
Preferia mais que o veneno tivesse me diluído.

Tanto amor me foi oferecido por esta donzela, 
Pudera eu retribuir como um cavalheiro o amor dela, 
Viver com meu coração de tinta tão pesado eu não agüento, 
Coloque-me logo para fora, ou a ela para dentro."

E Diana que passeava nos céus, estava calada, 
Viu e ouviu tudo o que se passou emocionada, 
E sendo ela uma Deusa resolveu então interceder
E com sua infinita magia, o seu desejo atender.

Na madrugada silenciosa, ninguém ouvia nada, 
Enquanto isso, Diana já trabalhava apressada.
E tendo a donzela atravessado o Aqueronte, 
Nos braços do moço, amanheceu pintada. 

Essa história, triste, pode até parecer,
Mas com ela há algo a se aprender, 
Não há pranto de um coração partido
Que por um deus bondoso não seja ouvido.

E não se dissolvem as cores do amor
Pintadas pelas mãos de um talentoso pintor
Em um coração antes vazio como tela
Que assim foi preenchido por tinta de aquarela

Fim.


Gustave Courbet - Lovers in the Country Side 1847 - 1848



14 de março de 2011

As Bodas de Sonho...




Eu queria um dia me casar.
Casar com terno negro,
não negro cor da ida,
mas negro como o retorno,
sem mais casulos ou metamorfoses
nem a gravata borboleta, 

Quero a gravata social,
como aquela de homem normal,
que me custou a alma para laçar,
para simbolizar no altar
não importa o Deus presente,
que lacei um amor nesta minha vida,
nas ruas por onde amores fogem insanamente.

Eu tiraria meu corpo das mãos da morte
para que um homem o cuide em vida,
e na corte de poetas além da existência,
teria um par de olhos
para testemunhar minha sorte.

Quero a alegria de me fazer presente,
e presente, me fazer notado.
Quero o amor, amor aceso no primeiro trago,
uma vez aceso continuar tragando-o eternamente...

Quero ser sacerdote do Deus sem nome.
E sacrificar minha virgindade sobre o seu altar...
O nome lhe falta pois não o encontrei em vida,
e a virgindade oferecida, seria a de amar.

Queria não me perceber amando,
sentir-me banal e indiferente
e estando com ele viver sonhando.


Queria que para mim fosse como uma surpresa,
que para ele fosse a certeza,
 e que o resto do mundo continuasse duvidando,
que em todas as manhãs no seu leito 
eu me descobrisse acordando...

Queria não me importar com o pensa toda gente
e não me deixar assustar por fantasmas nem correntes
de amigo a ficante,  de ficante a namorado,
que a transformação em casado, limpasse nosso passado,
que jazia sepultado eternamente.
Me agrada pensar nisso adiantado,
preso aqui no meu futuro passado,
estou sempre um passo a sua frente,
gosto de sonhar com ele quando estou acordado
melhor assim, sonhar acordado,
meu sonho exagerado...

Eu sonho que já sou casado,
e durmo com essa certeza no travesseiro ao lado,
pois talvez ele me visite dormindo,
meu sonho por dois compartilhado.
abraçados e entrelaçados no destino...

Nosso leito vazio de um amor presente.
E então ao despertar separados,
novamente em nada
nos transforme nossa mente.




Queria saber seu primeiro nome mesmo não entendendo seu significado,
queria descobri-lo de pouco em pouco,
e então pelas convenções sociais evolutivas do amor,
passear com você de braços dados, como amigo, ficante, 
companheiro, enamorado...
Queria também que me levasse um dia ao sepulcro da poetisa,
para que você se torne não a fonte, mas o provedor
tanto da minha alegria quanto da minha dor sem mais tristeza,
e dos Campos Elísios ela nos escutaria, a sua voz e o meu chamado,
e depois de uma pequena oração e vela acesa;
A ela diria:


"Florbela, teu corpo transformado em rosa,
de amor e tristeza brotando através da terra,
a semente guardada num coração delicado...
Que na montanha solitária se encerra.
Pisamos juntos onde tua agonia encontrou um fim,
caminho a ser trilhado por nós em sua direção,
mas antes que a morte o arranque a  força de mim,
queria lhe apresentar sem mais enredo
quem está diante de ti neste solo sagrado
mãos dadas as minhas em segredo,
é aquele aquele a quem pertenço, meu amado..."





17 de novembro de 2010

Abissal



Sou um homem banal,
que abraça as quimeras, que vive em outras esferas, 
se recorda de outras eras,
que foge do real, mata gigantes de pedra e teme o imaterial, 
Um puro equivocado, daqueles que nunca foram destilados, 
daqueles pra quem o acaso,
está longe de ser mero acaso, 

Sou covarde, um homem fatal,
fatal para si e para aqueles que se encantam com meu mal,
um fumante viciado em tragos, não em cigarros.
Um alcóolatra da fantasia, um exaltado, um exagerado, 
que sente tudo vezes dois ao quadrado.
Tento, tento e não consigo. Giro nas rodas do destino, 
dou 360º e volto do principio.
Os Deuses riem de mim, e nos meus melhores dias eu riu também.

Sou aquele que não é preferido, mas nunca é ignorado,
sou o mais ou menos, 

Não sou motivo de orgulho nem pra mim nem pra ninguém, 

Faltou algo no meu leite, pulei a fase de édipo e narciso, 
fiquei meio indeciso quanto ao que sou.

Não sou nada, é o que aprendi, quanto menos eu sinto, melhor fica existir.
Sou um quebra cabeça sem canto, uma cabeça quebrada sem juízo, 
sou o único causador e a única vítima do meu mal.
Sou o Príncipe do meu Reino Abissal.


p.s. um sapato, será sempre um sapato
mesmo feito de cristal encantado.
p.p.s. e os sonhadores devem sonhar apenas dormindo,
pois os sonhos não devem existir quando se está acordado.





29 de setembro de 2010

Dente de Leão (Dandelion)





Eu desejo você.
Mas não agora, não tão rápido. 
Talvez amanhã quem sabe, ou daqui a alguns anos, 
você chegará maturado, preparado e temperado.
Não, não quero que me conheça já. 
Nem quero já te-lo conhecido também em algum lugar, 
pois gosto de ter a fantasia que você não me deixaria escapar,
que seria o único capaz de lidar com isso, comigo.
Portanto o meu passado é o único lugar onde não irei te procurar.
Quero que venha de longe, que nunca tenha posto os olhos em você ainda, 
venha de outras esferas, respire um outro ar, 
beba uma água mais pura, me conheça até de outras eras, 
adore um Deus que eu desconheça.
Tenha sua própria maldição. Torne-me um amaldiçoado também, 
vamos chamar isso de compromisso.
Me veja, me leia, tenha lábia, me convença a vender minha alma, 
roube o meu corpo só para você, e não devolva-o sequer a morte.
Tenha lábios, e saiba usá-los. 
...
Agora, meu desejo mais lindo não dividirei com ninguém.
só desejo que em algum momento antes disso,
você tenha me desejado assim também...





Dente de Leão, Dandelion, Taraxacum officinale, Esperança, Taráxaco, Amor-de-homem, Amargosa, Alface-de-cão ou Salada-de-toupeira. É a famosa flor que sopravamos quando criança, tem uso medicinal para a artrite e reumatismo, mas é conhecida por seus poderes mágicos, dizem que se você soprá-la desejando um amor, assim que vir novamente uma de suas pétalas perto de você, é sinal de que seu desejo foi atendido.O amor está próximo. 



p.s. vi uma pétala esta manhã... 












25 de setembro de 2010

Joyeux Anniversaire...




P/ Leonardo...

Tantas vezes declaro
meus amores  minhas dores
de muitas mil maneiras.
Quantas... tantas...
suspeitando tristezas cavo
- a custo - um sorriso
no buraco da minha dor
dado então sem ser pedido.
Com migalhas dou formato
a sonhos antecipados,
em atenção redobrada
ao querer de um amigo.
E desejo, espero, procuro
quem veja sem perguntar,
leia de olhos fechados,
e dispense pedir.
Que fale sem palavras
e escute as lágrimas
sem secá-las ou fugir delas.
Que alcance aonde eu não chego,
e explique, num abraço,
o segredo que desconheço.



p.s. a distancia não permite que te abrace, 
mas nem por isso deixaria tal data passar em branco, 
ela vai passar em branco com fontes pretas e itálicas. 
um beijo meu amigo. 

24 de setembro de 2010

ex...




Destinados, imperdoáveis, magoados, 
esquecidos, relembrados, reconquistados,
eternamente perdidos.
Estes são os ex-namorados.
Ex. Uma sílaba, duas letrinhas miúdas
mas com tão profundo significado
elas nos lembram que o fulano já passou,
é página virada, foi superado.
O toque, o primeiro beijo, a primeira transa,
o primeiro presente, o primeiro 12 de Junho,
continua tudo no lugar, 
inesquecível, inquestionável, bem guardado.
só o coitado que tudo isso nos proporcionu
virou inimigo, ou pior, ex-namorado.
Estes moços nos tocaram e partiram,
e deixaram atrás de si seu rastro,
nos deixaram marcas, mal amados, mal comidos, mal acostumados,
com medos, traumas, regras, limites, e
mil e uma maneira de se amar errado.
Nossos demônios internos, são os filhos deles, 
os ex-namorados.
Serei usado, serei traído, serei humilhado, serei substituído,
nada disso havia antes de um deles ter nos atravessado.
verdade que onde não tinha isso, não tinha:
serei amado, serei reconhecido, serei admirado, estou apaixonado,
não foram livros nem romances que nos mostraram
o que de verdade é ou pode vir a ser o amor,
não foram sonhos coloridos e açucarados...
O amor, se ele de fato existir, o conheci na boca deles,
os ex-namorados...




p.s.  ao meu redor o mundo gira, 
e me empurra novamente nestes antigos 
e não menos difíceis caminhos...













1 de agosto de 2010

E no fim do verso a gente rima...



Felino
teu jeito dentro do corpo, 
magro, esguio, comprido
o olhar maduro,
o tom de voz galante
o sorriso elegante,
a tua alma de 
menino.

Planejado,
os teus movimentos,
teu jeito de chegar,
abraçar, falar, beijar
me levar a acreditar
me pegar, do avesso me virar
se passar por
namorado.

Amarrei
o teu nome no meu,
bati tambor, dancei pelado,
o incenso acabou
e a vela acendeu, 
Vendi a alma, fiz despacho,
me travesti, virei macho,
mas sou só mais um
gay.

Errado
foi tudo o que deu,
o feitiço virou
o oposto aconteceu,
de surpresa você me pegou
a ripa da minha estrutura
arrebentou, no final
faltou você, sobrou eu...
um mal amado.

Sina,
é o que a gente tem
esse nosso jeito certo
de se amar errado,
mas eu me viro,
escrevo, crio, te arrasto
de volta com a caneta,
e até me engano e acredito,
que lá no fim do verso, 
enquanto o mundo pensa inverso
a gente ainda se ama e
rima...






Notinha sobre mudanças: 

Passei todo o mês das férias da faculdade na casa dos meus pais, no interior, 
esqueci por um tempo o que era São Paulo, o que era a responsabilidade, 
e me enturmei novamente e me (mal) acostumei com a presença dos queridos, 
com o café da minha mãe e jogar mortal kombat com meu sobrinho. 
Agora as aulas vão voltar, e com elas aquele meu apartamento, a tal vida de 
universitário, espero que o tempo por aqui mais que me matado de mimos, 
tenha me (re)carregado. 
Saudades, ah... isso é meio que inevitável...


















p.s. voltar pra minha própria vida, me deixa mais romântico 
que o de costume, homens solteiros de sampa, cuidado haha

Beijos sinceros...

26 de julho de 2010

2 cálices, 1 Toddynho...




cigarro e uísque nas mãos
olhos distraídos
contrastam com ouvidos atentos
que ouvem o que diz a mente

é estranho se perder
viajar, imaginar
aquele que neste momento
talvez também esteja
tentado imaginar a gente

coloco nele um sorriso torto
uma voz marcante
sei que ainda está pra chegar
ele virá
e também irá partir...

suas pegadas ficarão na terra
e um dia ele vai (me) olhar
la atrás
vai voltar
 quem sabe....

já aprendeu antes de mim
a não chegar muito perto
evitar atalhos
cruzar caminhos

eu aprendi antes dele
a amarrar meus sapatos
a me virar sozinho

  juntos
serão dois cálices de vinho
dois pratos sobre a mesa
 degustamo-nos
amoras
champagne
toddynho
...


                                                                                                              

14 de julho de 2010

- O único ser possível...


"Nunca ainda aconteceu
De alguém poder me olhar.
E mesmo que não me vejam,
Ainda assim estarei lá.
- # -
Pois meu corpo é inspiração,
Por isso sou apenas legível,
E nestas letras tens a visão
Do meu único ser possível."

Roberto Rodríguez



Hoje, particularmente eu me descobri frágil, em um dia qualquer e sem nenhuma razão aparente, sempre minhas razões tem essa mania de serem irritantemente discretas. Acho que acordei triste, desapontado com alguém, com vários, comigo mesmo.
Me cansei de certas repetições.
Sinto que sou carne, sangue, ossos, amor e palavras, mas que apenas as palavras são legíveis, e o pior, visíveis. O resto, permanece embaçado, nublado e com propensão áreas de instabilidade.
Não ser visível. O sonho de muita gente. O pior pesadelo de tantos outros.
Já me senti invisível tantas vezes ao longo da minha vida. Não preciso nem voltar muito no tempo, pra me encontrar invisível em festas, baladas, bares, na Av. Paulista, na sala de aula, no trabalho.
Que sensação incomoda, estar ali, e ninguém levar em conta sua presença. Você fala e não é ouvido, você é visto mas não é percebido, e ao ir embora, ninguém dá por sua falta.
Que ironia esta. Em outros momentos da minha vida, eu daria tudo para estar invisível, mas não tive esta sorte. Desaparecer em momentos estratégicos deve ser muito bom. Não sei.
Aqui chove, estou deitado na minha cama, o edredom serve como  a capa filamentosa da minha metamorfose, a casca, e o casulo de um outro Roberto que cresce.
Um Roberto mais visível eu espero.
Até lá, cuidado com esse vazio despercebido que passa ao seu lado as vezes pela rua.
Pode ser gente. Pode ser até eu.



p.s. demorou um pouquinho pra mim voltar a escrever,
só posso dizer uma palavra em minha defesa: Férias!
p.p.s. senti falta de todos os meus queridos, são todos visíveis pra mim.



- Mamãe, não me perca na neblina! HahaHa
Beijos Sinceros...


27 de abril de 2010

Metamorfoses...

Acho que percebi finalmente,
que não serei diferente amanhã,
daquilo que já sou hoje.

Não mais do que tenho sido
após cada dia nesta cidade,
de vida esfregada em asfalto,
e após cada noite sozinho
de alma lavada em sonhos.

Não serei nem menos,
nem mais do que fiquei
depois de me descobrir
capaz de voar sem asas,
e de andar sobre as brasas
que eu mesmo ascendi.

De plantar as minhas rosas,
trocar o cabelo, a caneta,
o cheiro, e até o desejo...
no mercado negro da minh'alma.

De atacar a vida com meu carinho,
e de guardar no bolso a mão
e a vergonha.
E ter que engolir de vontade
três vezes o meu coração,
um pedaço de cada vez...

E nem sei se nasce alguma poesia,
desta imensa gritaria
com que castigo esse papel,
só sei que nele eu me gasto,
e me refaço do meu cansaço
de viver tentando dar sentido,
a tanta vida perdida.

É este "brincar com palavras"
que redime o meu dia.

Será isso poesia? Serei eu um poeta?
Pra mim, são apenas cicatrizes,
dores pouco, ou mal curadas
das minhas paixões sem diretrizes.

Por vezes eu vejo que rimam,
e as vezes elas riem de mim,
as palavras são as minhas borboletas,
sou delas apenas um jardim.

Roberto C. Rodríguez




p.s. Sonhei com você esta noite.
Queria que soubesse que mais que das coisas tidas,
doem dentro de mim saudades das desejadas,
e interrompidas.