26 de janeiro de 2012

Conto de Fadas

Claude Monet - Trouée de soleil dans le brouillard. Oil on canvas, 1904.  



Um homem maduro que tem afazeres sérios, 
não repete jamais o conto de fadas de sua ama.

Voltaire.



O fabuloso trecho iniciativo “Era uma vez...” poderia servir fielmente para iniciar esta história, pois foi uma vez de fato, mas ainda o é, e como de todos os mistérios incompreensíveis dessas fábulas, a única certeza que assola o autor é a de que o será novamente, então começarei diferente...
É, e enquanto ainda está sendo este conto deve ser passado a frente, pois a virtude por mais que não seja afortunada, no final pela boa fada é coroada. Disseram-me tolo por nisso acreditar, julgo-me um sonhador, já me acostumei com o narrador da minha história, que não me permite saber dela o desfecho, e me ensinou que a ansiedade é uma mania que apesar de atrativa em sua aparência, nos trás muitos desgostos com freqüência, e disso há mil exemplos todo dia. 
Os contos de outrora já não tem mais seu valor, entre olhos desvirginados pelo amor, entre bocas sibilando o adeus, somos ainda visitados por príncipes. Um homem maduro jamais o irá admitir, uma mulher segura abençoada pela grã natura com beleza e discernimento, dirá que seus dias de menina passaram, e que um sapato de cristal, será em seu armário apenas mais um sapato normal.
Ainda vale mais ser verdadeiramente bela do que estar bem penteada, é esta a moral que sempre quis lhe ensinar a boa fada, e os príncipes não nos aparecem sempre adornados, muitas vezes de seus cavalos estão desmontados, e na estrada perdidos, tudo bem que as roupas, a beleza, os tesouros mais brilhantes sobre as donzelas tem seu poder, porém se atentem as moças pois as palavras galantes tem ainda mais força e podem mais valer.
Os príncipes que aparecem em nosso caminho, vem belos, caprichados, com um exterior resplandecente, mas nenhum destes dons tem tanto valor para tornar um coração sensível, é necessário ainda aquele singular atrativo invisível, que o amor somente pode encontrar, e mesmo que um desses moços venha diferente, com defeitos, desprezado e escarnecido, já tem acontecido de a pobre criatura dar a nós que o amamos a mais alta ventura. 
 Não só de príncipes disfarçados nos alertaram as fadas, pois elas nos advertiram também que existem lobos na estrada, digo lobo, lobo em geral, porque tem lobo que é cordial, mansinho, familiar e até civilizado, que, gentil, bom, bem educado, persegue as almas mais puras, e pobre o infeliz que não sabe que estes lobos melosos, são dos lobos os mais perigosos, os apaixonados devem adquirir um olhar mais atento, os piores lobos são peludos por dentro. 
Esperar por um bom tempo um bom e rico esposo, é bastante vulgar, mas é prudente que espere ainda mais aqueles que verdadeiramente querem amar, porém os amantes sempre a arder aspiram tanto à alegria conjugal, que eu não tenho coragem e nem poder de lhes pregar esta moral, afinal um príncipe jovem e apaixonado é sempre valente, o difícil é enxergar a realidade, pois tudo é tão belo em quem amamos que o ser amado tem só qualidades.
O amor requer vigilância e cuidados e espera que o apaixonado seja diligente, mas, cedo ou tarde isso é recompensado, e quando menos nós esperamos, geralmente.
Tais ensinamentos não cansam de ser repetidos pelo tempo, e embora com rapidez o esqueçamos, e se torne cada vez mais difícil crer nesta história, enquanto houver neste universo uma vovó que o conte em prosa e verso, ele será guardado na memória. 


Pierre-Auguste Renoir - Claude Monet Reading,. Oil on canvas, 1872.



MORALIDADE

O autor deste conto nada quis ensinar a ninguém,
Pois cada um enxerga um conto de fadas como lhe convém,
Mas hoje sua Torre de Marfim ficou sem estrutura
E este autor é um covarde que temeu cair daquela altura
Agarrou-se então em um presente de rara beleza
Dado a ele por uma alma irmã da sua num gesto de delicadeza
Foi um livro de contos de fadas que o resgatou da dor
E poderia um rapaz sensível ter melhor salvador?
Não foi um príncipe que atendeu a seu chamado,
Foi na verdade um moço que há anos era procurado,
Uma versão dele mesmo, mais menino, que lhe trouxe esperança,
Sussurrando em seu ouvido os seus sonhos de criança...




9 de dezembro de 2011

In memoriam...

Mariana Franhan ★ 15/03/1990 - 09/12/2011 †


Já bem perto do acaso, 
eu te bendigo, ó Vida,
Porque nunca me deste 
esperança mentida,
Nem trabalhos injustos, 
nem pena imerecida.

Porque vejo, 
ao final de tão rude jornada,
Que a minha sorte 
foi por mim mesmo traçada;

Que, se extraí os doces méis 
ou o fel das coisas,
Foi porque as adocei 
ou as fiz amargosas;
Quando plantei roseiras, 
colhi sempre rosas. 

Decerto, aos meus ardores, 
vai suceder o inverno:
Mas tu não me disseste 
que maio seria eterno! 

Longas achei, confesso, 
minhas noites de penas;
Mas não me prometeste 
noites boas, apenas
E em troca tive algumas 
santamente serenas… 

Amei e fui amado, 
acariciou-me o Sol. 
Para que mais?
Vida, nada me deves. 
Vida, estamos em paz!

Em paz, Amado Nervo



Todas as luzes estarão no seu caminho até Perséfone!
Que a nossa despedida seja breve...



20 de novembro de 2011

Ambrosia.

"Zona Abissal", foto de Ligia Goi.

Escrevo para ser lido
muito além do contexto
dizer aquilo que não digo
usando a pena como pretexto

Te mostrar o que não vejo
em mim mesmo, na realidade
esconder o verdadeiro desejo
de queimar a insanidade.

Destruindo as quimeras
tomando a ambrosia
perdurando por eras
agonizante letargia.

Pelo tempo somos lidos
quando deixamos o útero materno, 
escrevemos para não sermos esquecidos, 
eu escrevo para ser eterno.