Soneto Adiposo
Excesso, palavra que me acompanha na vida,
ambos seguimos aumentando em peso;
Define em significado a dor de uma ferida
Que jaz aberta num corpo obeso!
É causa do meu desencaixe no mundo fino
A razão de ter nascido livre e me sentir preso
Mergulhando em mim, num submarino
Para fugir da balança, em desprezo.
O erro é guardar tudo para dentro, o desejo,
De me fitar no espelho e gostar do que vejo.
E não tentar ser como o homem de fora
Tão magrelo, pela mesmice sufocado,
quando de frente parece de lado,
quando de lado parece que foi embora.
Apenas a reflexão de um homem gordo, um homem que sabe que é gordo e que também sabe que pesa 100kg e tem 1.80m. Um homem que tem espelhos, que tem fome e as vezes não come, e as vezes corre da balança, ou corre na esteira para fugir de um problema sem sair de fato do lugar. Um homem que ja foi admirado, e descartado por ter mais de dois algarismos numéricos representando o todo do seu ser, e que as vezes é lembrado que é gordo por uma pessoa que o olha como se ele desconhecesse tal fato, aqueles que lhe sugerem o Vigilantes do Peso, poderiam muito bem fazer parte do Vigilantes da Própria Vida, pois agem como se este homem tivesse entrado na festa dos magros sem convite e sem roupa de gala. Mesmo gordo, este homem foi amado, odiado, tocado, convidado e desconvidado nessa vida, nessa festa. Queria apenas que todos soubessem, que quem é tão grande como este homem, como eu, é grande demais para ser definido ou indefinido por uma pequena palavra, de cinco letrinhas miudas com tão rechonchudo significado: Gordo. Além do que, três digitos no que o corpo pesa, deveriam ao menos valer três palavras para a tal definição complexa: homem é uma delas, homo é a outra, e a terceira é único, ou ainda outra de sua escolha!
p.s. ja assumi para mim e para outros coisas
mais profundas e difíceis que meu peso.
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